no Caderno

quando pequena

eu colocava a mão no meu bumbum, não pra limpar, eu colocava porque sentia um vazio ali, algo parecido com a Espera

de alguém que

não veio,

milagrosamente minha mão preenchia esse vazio, claro que ela não era a pessoa esperada, minha mão era outra pessoa, boa também,

que esquentava meu entre sempre tão só. nem pelo eu tinha, nem sangue,

apenas a calcinha

e um apego involuntário pelo encaixe. abraçar uma árvore também funcionava, quem me via de longe pensava que era amor pela natureza.

às vezes

eu colocava um brinquedo ali, no meu vazio, uma barbie. às vezes eu colocava a cama

da barbie, os pezinhos da cama. era bom, mas os dedos da minha mão eram melhores,

os dedos da barbie eram muito pequenos e parados.

até que um dia eu tive uma ideia

e peguei uma pedra

de gelo.

esfreguei na calcinha. esfreguei

na calcinha, esfregava.

deu vontade de rir não de gargalhar, de sorrir,

e amoleceu as minhas pernas.

deitei no sofá.

continuei esfregando, meu corpo inteiro concentrado nisso,

a pedra foi diminuindo de tamanho, foi molhando

tudo.

então a minha mãe apareceu na sala. eu tinha até esquecido dela, da minha mãe, da casa, ela me puxou pelos cabelos,

– sua porca. tira já essa mão daí.

sendo que no susto de vê-la eu

já tinha tirado.

ela foi buscar a cinta do meu pai no armário, a mais grossa,

antes dela voltar com a cinta eu sabia que a tal estaria na mão dela, aquilo

não era a nossa primeira vez.

ela estalou o couro na minha bunda, na minha bunda de verdade,

porque a mão que eu colocava não era na bunda, era na buceta,

mas e a dificuldade de dizer buceta para uma criança?

então fica bumbum mesmo, cabe melhor, além do mais nada de novo, sempre tem bumbum de mulher na televisão.

a primeira vez que vi o bumbum do meu pai foi uma surpresa. eu pensava que homem não tinha essas coisas, pensava que era reto nas costas infinitas até a perna.

apanhei de cinta por um tempo, não sei quanto, 2 minutos?

meia hora? com a sensação do gelo ainda na calcinha.

contei tudo isso

pra minha terapeuta. ela me disse

com a calma de sempre

que os prazeres sexuais estão intimamente ligados à infância, aos acontecimentos da infância.

– claro, – eu disse.

faz sentido. a infância é uma selva, nela está a essência da loucura,

do mal,

do bem, está tudo lá, pulsando, querendo ocupar espaços.

quando os adultos não sabem lidar com esse turbilhão

eles batem

de cinta, quando não com palavras, quando não

com as mãos.

isso vira um trauma no futuro, colocar o cinto na calça

se olhando no espelho e

lembrar,

ser escravo dessas lembranças úmidas, preso a elas porque elas não são apenas lembranças,

elas aconteceram quando éramos

totalmente suscetíveis à vida e suas implicações, então elas se tornam parte de quem somos, se enraízam,

não dá pra simplesmente dormir e esquecer. tem coisas que o tempo não cura,

tem coisas que

só a morte.

– você consegue prever,

consegue ter uma dimensão do quanto ter sofrido essas violências na infância influenciou em quem você é hoje? – me pergunta a terapeuta.

me fez ser 2 pessoas bem  diferentes, a pessoa da minha vida interior

e a pessoa que sou socialmente.

na história do gelo, por exemplo. não parei de fazer porque minha mãe me batia. pelo menos não naquele momento.  eu fazia quando ela não estava em casa

ou à noite

eu pegava silenciosa um gelo na cozinha e fazia

era bom demais pra evitar. quando minha mãe me pegou de novo fazendo,

foi num dia que ela chegou em casa antes do horário normal,

a mão dela estava pesada naquele dia,

ficou uma marca na minha perna de sangue pisado, eu nunca pude com sangue, nunca gostei.

então comecei a fazer isso do gelo sem fazer.

 como assim?

– eu comecei a imaginar o gelo na calcinha. eu já tinha feito isso tantas vezes que imaginar o gelo não era um fantasma do gelo,

Não,

imaginá-lo era tê-lo.

– uhum. – ela disse, e anotou algo no caderno.

– eu até olhava pra baixo às vezes, sabe doutora? pra ver se o gelo não estava ali mesmo, pra ver se sem querer eu não fui até a cozinha como uma sonambula e peguei o gelo, fui ficando louca com 8 anos.

e gozava, sem as mãos, sentia a onda

de calor percorrendo todo o meu corpo e gozava baixinho

de olho na maçaneta da porta, atenta como um gato quando um cão se aproxima. o que a violência fez comigo, doutora?

(uma pausa. e então)

me fez associar o medo ao desejo.

e isso é uma merda, claro.

– e te faz se afastar do desejo pelo medo?

– não sei. talvez por um tempo. mas penso que é impossível fugir de um desejo pela vida inteira. mas o medo paralisa, ele faz o seu papel de atrasar as coisas.

com as surras que eu levava eu gozava cada vez menos, me arriscava cada vez menos, parecia que a minha mãe estava por toda parte.

até que eu me esqueci como era me masturbar. virei uma adulta que não se tocava.

logo eu que sempre fui uma criança tão

solta.

contei isso para uma amiga. ela falou pra eu usar a parede do banheiro como apoio, já que os azulejos também são gelados. tentei

mas só consegui chorar. fiquei chorando a tarde toda, doutora.

-você nunca mais tentou se masturbar depois disso?

-não, parei de tentar. aprendi a desejar em silêncio. no fim aprendi a ser em silêncio, afinal o desejo é a essência do que somos.

mas sei

que uma hora eu vou explodir. uma hora eu vou gozar tão profundamente que

vai parecer uma morte. não é possível ficar guardando tanto, doutora. não é possível.

– e como você se sente quando vê uma cinta, por exemplo?

-às vezes eu sinto vontade de apanhar, como se eu carregasse alguma culpa. às vezes me dá vontade de bater, como se o mundo carregasse essa culpa.

(de novo a terapeuta anota qualquer coisa no caderno. será que

é pra lembrar depois? pra consultar algum livro? e resolver meu caso, me curar.

Continuo,)

– e às vezes, doutora, eu sinto vontade de não tocar na cinta, de não vê-la,

e escrever sobre ela

escrever sobre a sua simbologia, o couro de um animal morto segurando as calças de um animal vivo

segurando principalmente o desejo que mora dentro da calça.

porque o desejo é um bicho. sem grade

é impossível ele ficar em pausa

ou pelo menos à espera do melhor momento de agir. isso é coisa da cabeça, o desejo não tem dono, é selvagem, ele é a própria liberdade

que nós seres humanos pouco ou nada conhecemos.  

– ótimo. (ela olha pro relógio,

17:03) chegamos num ponto importante hoje,

foi ótimo. seguiremos com ele na semana que vem. tudo bem? – a terapeuta me diz

levantando da cadeira,

apoiando seu caderno e caneta no lugar onde ela ficou sentada, me escutando, escutando tanta gente.

apertamos as mãos na saída,

sempre um firme aperto de mão num rápido contato visual, principalmente da minha parte.

é difícil olhar pra alguém que te escuta tão intimamente, ainda mais assim, logo depois,

com tudo o que eu disse ainda fresco pulsando nela,

tomando conta dos pensamentos dela, agora não mais só dos meus.

onde será que essa mulher guarda tudo o que escuta? além de

ter que guardar também a própria existência e

claro, as consequências dela, que mesmo para os mais sábios e lúcidos são

duras, são

duríssimas.

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