atriz,

caminhávamos

buscando a nossa futura casa,

ainda despreocupados com a nossa futura casa

e com as contas

por de baixo da porta ou quem? vai fazer o almoço, afinal.

não nos preocupávamos ainda,

apenas quase,

com os nossos objetos de uma vida sendo organizados ali

na prateleira

quero ver como fica a minha roupa convivendo com a sua.

– esses seus livros ruins não vão pra nossa casa, – eu disse brincando, mas

era sério –  deixa na sua mãe.

dar nome para os filhos era um jogo

de sons

nunca os filhos em carne e osso foram sequer imaginados por nós.

qual será

o rosto das pessoas que faremos existir? não pensávamos, pensávamos em nomes

como pensávamos em quadros pra decorar a sala.

nossa vida

continuaria sendo como era por um tempo ainda

e isso tranquilizava a busca

tudo com calma em nosso passeio, tirávamos fotos das placas de vende-se pra ligar depois.

você gosta de imobiliária?- perguntei.

-não muito.

eu gostava, quando criança eu mudava de casa a cada dois anos por conta do trabalho do meu pai.

estávamos sempre em imobiliárias, pra encontrar o próximo apartamento.

eu adorava quando entrávamos

naqueles que tinham gente morando

e o morador era quem nos recebia.

eu entrava quase fechando o olho

de prazer

respirando a atmosfera da casa inédita

eu tinha uma obsessão por tudo o que não era meu, a começar pelos rostos

e jeito de pentear os cabelos. reparava nos tapetes

no onde as crianças guardavam seus brinquedos

na cor do sabonete do banheiro

e repetia tudo em casa

vivia meu dia sendo aquela criança desconhecida

usando o leque de coisas que eu tinha observado,

abria a cortina do jeitinho que eu tinha visto naquela casa que em breve poderia ser a nossa.

quando minha mãe falava:

-não gostei, vamos continuar procurando.

ah eu sentia uma alegria.

pois então eu vou continuar

colecionando hábitos

e fazia tudo em silêncio.

lavava os cabelos com meu shampoo de maçã pensando que era

o de pêssego que vi no banheiro da criança desconhecida.

usava

e me sentia outra pessoa

olhava no espelho e não me via

via a patrícia

de sabrit

naquela novela do sbt

que ela trabalhava numa firma

com calças justas

e cabelos longos.

eu brincava de ser uma mulher de calça justa

me olhava no espelho e nunca me via.

quando finalmente encontrávamos a casa perfeita

era como se eu mudasse de país.

além do internamente sendo diferente pra mim que nunca fiz rotina na minha vida interior, sempre fui tudo o que quis por dentro,

agora as paredes também eram diferentes

o chão com outras linhas,

eu imaginava cenas que jamais conseguiria na casa antiga

com todos aqueles estímulos de morar num lugar que nunca morei.

olhava o espelho e

beijava o espelho

imaginando que eu era ao mesmo tempo

eu mesma e outra

pessoa, criava uma historia de amor entre nós. eu gritava com o espelho

numa discussão terrível entre os amantes.

uma vez minha mãe me pegou no flagra

com a boca aberta no auge da

briga,

peguei rápida o fio dental.

ela disse:

que bom que você está aprendendo a cuidar melhor dos dentes.

nunca tive problema em mudar.

nem problema com imobiliárias, meu pai

fez amigos corretores

de tanto que íamos nelas.

teve um que até cuidou de mim quando meus pais precisaram trabalhar até tarde.

ele ficou na sala assistindo tv enquanto eu dormia, quer dizer,

eu só fingia que dormia

na verdade eu estava acordada

me conectando com a presença daquele estranho na sala, pedindo pra deus pra virar invisível e conseguir observar aquele homem por alguns instantes,

tirar dele o que eu achava que podia dar uma história dentro de mim.

então eu não tenho

medo de imobiliárias, ou

de mudanças

talvez eu tenha só um

medo

leve

de ser eu.

te dei a mão enquanto caminhávamos por aquele bairro que eu tanto te dizia que amava até que você começou a amar também.

olhávamos os prédios pensando se algum era bom o suficiente para nos fazer morar nele,

aceitar aquelas paredes como testemunha não era uma decisão fácil.

tem uma árvore linda na frente desse. – eu dizia.

e você ria me achando louca e gostando da árvore também

mas sabendo que mal a veríamos ali de cima, veríamos outros prédios e o céu carregado de fumaça,

o mais importante era o apartamento em si, a planta.

olhávamos os mercadinhos ao redor dos prédios

pra comprar a nossa janta

olhávamos as casas de chá e pensávamos:

aqui poderemos bater um papo quando cansarmos da nossa sala.

planejávamos tudo

caminhando pelo nosso futuro, escolhendo algumas coisas dele

(pelo menos o cenário)

não doía, nunca me doeu mudar

estou mudando

até de espírito

percebo que está se soltando em mim meu medo leve

de ser eu

porque sou eu que estou indo

morar com você

e no caminho está garoando

meu medo na rua

pra quando de fato morarmos juntos eu estar inteira na realidade de viver ao seu lado,

sem meu truque de

ser feliz pelos troncos da

imaginação.

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