a primeira vez no jogo

​eu vestia uma camiseta verde

com estampa de

fósforo quando tudo

aconteceu.

tenho a camiseta até hoje, é nela que guardo a

criança que fui,

deixo a blusa sempre por perto, encaixo no travesseiro para as noites difíceis,

ela me basta pra que tudo

Volte

como um caldo que a gente toma

quando se distrai no mar.

eu estava no Canil que meus pais construíram no quintal para o meu cachorro morar

mas o billy nunca aceitou passar seus dias ali.

prender um animal é desafiar a natureza dele

e de todos os animais que ele carrega dentro dele, os antepassados.

quando minha mãe colocou o billy no canil e

trancou,

– assim ele para de ficar mijando pela casa

meu cachorro gritou

com latidos graves.

depois

ele percebeu que o grave não fazia o efeito de incomodo que ele desejava.

tentou então o agudo, esse sim

fez as pessoas taparem os ouvidos,

o vizinhos reclamavam, no latido agudo a dor do billy ficou explícita.

quem ouvia

pensava que alguém estava batendo nele, meus pais ficaram com medo do disk denúncia,

mas a verdade é que ninguém encostava a mão no billy,

era exatamente isso que ele não queria,

a solidão.

foi assim que ele acabou convencendo meus pais

de que aquele canil não era um bom lugar pra ele.

mas pra mim era

pra mim parecia a minha casa

dentro da casa dos meus pais.

imaginava que o canil era em cima de uma montanha, imaginava a minha vista

com um rio lá embaixo

os animais silvestres passando (no caso o billy se tornava o alce

ou o tigre).

eu ficava horas ali depois da escola

meu cachorro correndo pelo quintal, feliz com a liberdade conquistada, eu feliz com o novo espaço que me sobrou pra brincar.

eu ficava parada na minha casa de campo

imaginando uma árvore nascendo ali,

imaginando meus dias se eu fosse a bruna

a menina que todos amavam, a menina de vários amigos.

eu

só tinha uma amiga

e no peito dela

morava uma doença de nome esquisito. ela repetia devagar o nome pra mim, mas eu nunca lembrava na hora que alguém me perguntava:

– o que ela tem?

às vezes parecia que quase vinha o nome da doença

e então não vinha

o nome ficava preso em algum lugar do meu corpo.

as pessoas achavam que o meu silêncio era de tristeza, eu recebia uma atenção incrível das pessoas que achavam isso

e aquela atenção era algo tão raro que eu não podia deixar escapar.

desfrutava dela, mergulhava naqueles olhos piedosos direcionados pra mim. mas passava rápido

e como a minha amiga faltava muito, eu ficava a maior parte do tempo sozinha no colégio.

já a bruna

caramba, a bruna estava sempre rodeada de gente. parecia feliz, comia seu lanche e engordava

de felicidade

só faltava estender um tapete pra ela, também porque

ela era famosa. minha escola tinha uma revista

e a Bruna sempre estava numa matéria ou outra, ela dizia pra todo mundo que queria ser jornalista. eu

queria ser leitora

gostava de ler no canil,

se o portão ficasse aberto meu cachorro até deitava do meu lado. minha mãe trazia lanche, leite com bolacha, eu dividia tudo com ele.

– você vai ficar aí mesmo? – minha mãe perguntava. achava estranho eu gostar tanto de algo que foi feito para um cachorro.

– é minha casa de campo, mãe. lá embaixo é o rio, vê. tem animais perigosos soltos por aí, cuidado.

ah. – ela dizia, sem nem virar o rosto e

sumia

pra cozinha, era ótimo

quando ela sumia

assim eu podia ler em paz.

abri a revista do colégio e

comecei a folhear,

li uma matéria sobre o novo uniforme, a bruna posando pra foto. olhando bem

ela não era tão bonita assim.

olhando bem

ela quase se parecia comigo,

todas as pessoas se parecem um pouco quando você olha de perto e por um tempo. é que nem repetir uma palavra várias vezes, ela acaba perdendo o

significado, virando um som estranho. os rostos

viram uma massa estranha.

vestindo minha camiseta verde

de fósforo

meu cachorro deitado na perna

comecei a olhar a galeria de fotos, adorava essa parte da revista, era como assistir tv. foi então que eu  vi

numa foto à esquerda

algo que

mudaria tudo:

um menino desconhecido

sozinho na quadra de basquete.

ele tinha uma boca enorme. olhei,

olhei de novo, meu coração acelerado. li na legenda

o nome dele era André. corri até meu quarto, minha perna mal obedecia.

peguei uma tesoura.

recortei a foto

devagar

olhando praquele

milagre. tão bonito assim eu só tinha visto coisa da natureza, pessoa nunca.

colei a foto na minha agenda, colei

no dia do meu aniversário. repeti diversas vezes andré andré andré

mas o nome dele não desmaterializava, nem o rosto, não desmontava que nem o da bruna ou o meu.

o melhor é que ele estudava na minha escola. como eu nunca tinha visto? ele parecia mais velho do que eu

uns dois anos, pelo menos, e não parecia idiota como os garotos da minha sala.

ele guardava em si alguma coisa que me era essencial,

provavelmente gostava de ler como eu. algo no jeito que a franja lhe caia no rosto me fazia sentir que a gente podia se comunicar pelos livros, telepaticamente.

na escola não fiquei mais sozinha, agora eu tinha uma

missão:

procurar o André por toda a parte, mas era difícil encontrar porque o tio do portão não me deixava sair do pátio.

eu sabia que o André estava no prédio dos meninos maiores

mas como explicar pro tio que eu precisava sair porque estava apaixonada? se nem eu mesma sabia

que estava apaixonada, aquilo tudo ainda não tinha nome.

pior que aquelas grades no pátio

dificultavam muito, eu olhava por cima delas mas

meu olho não conseguia ir tão longe quanto eu precisava, meu olho não fazia a curva.

até que um dia

sem querer

encontrei o André, estava quase desistindo.

eu e a minha amiga brincávamos de

pega pega, a lancheira

na mão,

corríamos.

foi quando ele passou pela rampa

descendo pro prédio de educação física.

o vi de costas,

mas era ele, eu tinha certeza de que era ele e distraída

trombei com tudo numa pedra alta do pátio, a lancheira na barriga.

fiquei sem

ar.

curvei as costas,

tentando recuperar o fôlego.

meu estômago ardia

nunca tinha experimentado uma sensação sufocante assim.

as pessoas me perguntavam se estava tudo bem, é claro que não estava,

e eu

não conseguia responder, a voz não saia

ainda que dentro de mim eu sentisse que minha voz pulsava normalmente,

não é que eu estava muda nem nada, é só que a minha voz não conseguia sair.  aquilo foi bem

ilustrativo

pra já de primeira eu entender o que acontece

especialmente no

corpo

quando estamos apaixonados por

alguém.

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