o pai acordou

quando li Flauta na lista de materiais eu

gelei.

pensava que essas coisas

de tocar instrumento

eram exclusivas para bandas que se apresentavam na tv, eu não fazia ideia

que era permitido em escolas

a música acontecer pelo próprio

sopro, eu pensava que escola não tinha sopro,

só lousa e

cabeça

1 de frente pra outra.

quando a flauta finalmente chegou em casa

dentro de um plástico

transparente

junto com os outros materiais que meu pai trouxe e

deixou na sala,

 

-não mexe que no fim de semana vamos arrumar isso juntos.

 

eu não aguentei.

naquele dia mesmo, inquieta como eu estava, esperei

a casa dormir.

me certifiquei que sim pelo som mais lento

de tudo o que tinha nela,

meu pai

as paredes

a noite lá fora, todos respirando devagar.

então eu andei

de meia até a sala

vi a flauta ali

por cima dos cadernos e dos livros,

 

era linda.

 

com o dedo fiz um

furo no saco

encostei nela

era fria

de tamanho um pouco maior que 2 mãos.

no final do ano que vem

provavelmente eu já estaria tocando

algumas músicas

e isso

não era um bom motivo pra

viver?

se eu ficasse muito boa

as pessoas iam gostar

mais de mim

eu podia até tocar noite feliz na ceia de natal

que todos deitariam

no meu som

não como se faz na cama

mas como se faz quando olhamos

o desenho de uma nuvem.

espiei a casa.

tudo seguia

em pausa

então pra disfarçar eu virei o

saco da flauta de costas pro furo, qualquer coisa eu minto.

 

– foi pra ela respirar melhor.

 

meu pai entenderia

já que ele de vez em quando também precisa

de ar e afasta

a camisa do pescoço de um jeito que faz o botão abrir.

de qualquer maneira era arriscado

demais ficar ali

meu pai tinha sono leve

então eu dei uma última olhada pra pilha

de materiais me despedindo

quando 1 livro

me chamou atenção.

era sobre

heitor villa-lobos,

eu já tinha ouvido falar nele

como um país que nunca fui além do nome.

abri o livro

e a história começava com o heitor menino

gostando de instrumentos

na sala de casa

a porta aberta, o sol entrando. ele tinha um pai

como eu,

uma casa com quintal,

uma vontade de

música

e gostava de suspensórios, eu também gostava. fui lendo a história

e o jeito do heitor criança

era tão parecido

com o meu.

eu também

odiava a

escola

tomava leite de tarde

e de repente eu me lembrei que era errado

ler aquilo antes de começarem as aulas, era como largar na frente, era preciso

que a professora falando sobre o que ela tinha que ensinar

fosse inédito para os nossos ouvidos.

fechei o livro sentindo culpa

o cheiro de tinta e papel ainda no meu

nariz. livros pra mim

sempre foram brinquedos

eu levava no carro pra esperar alguma coisa

como no dia que fui com o meu pai na casa de um cliente dele

ele tinha que resolver uma situação

complicada sobre

números

eu fiquei esperando na parte de fora da casa

sentada na cadeira da piscina com meu livro sobre piolhos no colo.

eu já sabia tudo o que acontecia naquele livro

mas relia sempre

a cada página virada meu coração virava junto, incansável.

eu o amava

e também um outro da mesma coleção que era sobre o primeiro dia de aula de uma garota que mudou de escola. ela fingiu estar doente

pra não ir na aula

mas seus pais não eram bobos

você vai pra aula sim.

quando ela chegou na escola, a professora entregou uma folha sulfite para cada aluno escrever uma história

sobre si mesmo.

eu ficava brincando de estar na mesma sala da menina do livro

e fazia com gosto o exercício que a professora tinha mandado.

forçava tanto o lápis

que rasgava a folha

culpa do estado

de felicidade concentrada que eu ficava em viver algo que não fui eu que inventei, foi algo que aconteceu de verdade

em um livro.

mas agora esse do heitor me deixou em

dúvida.

se a gente criança se parece tanto

será que podíamos ser parecidos também quando eu crescesse? daquele jeito com altura, fama,

eu crescia devagar

mal percebia o quanto

achando que por mais que eu fizesse anos

eu não mudaria ao ponto de

me tornar alguém. chegava na escola e as crianças da minha sala só viravam pro meu rosto pra pedir um lápis, a professora

não me olhava nem pra entregar a prova

eu caminhava pelos corredores roçando a mão na parede

queria sentir

alguma coisa

queria o olhar de alguém pousado em mim.

mas se o heitor criança

era como eu tão

parecido

e se tornou um músico importante

será que eu

também não poderia? vou pedir

pra jesus cristo

será que é isso que eu vou aprender na sexta série? comecei a procurar nos livros

de ciências

de história

de matemática

então é isso? as coisas passam. ser sozinha

passa, quando crescer eu posso virar alguém que toca

em teatros lotados

uma música que faz as pessoas

deitarem no som.

me responde livro, régua,

flauta, é possível

depois de grande

nos tornamos o que quisermos ser?

 

 

 

(cai a flauta no chão.)

 

 

 

 

 

 

 

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estudo de texto sobre o amor

nos beijávamos,

você desceu pros peitos

morou ali por alguns minutos

que passaram pra mim em câmera lenta.

olhei seu topo trabalhando

sua língua ou um pedaço dela

entre a saída da boca

e o bico do meu

peito.

seu corpo

estava de lado na cama

eu te segurava como a pietá de

Michelangelo

seu rosto bem mais

interessado na mama do que

o de cristo.

pela entrega absoluta nos meus braços

seu tronco ganhou a curva de um filho

aliás em você já pulsa algo

do meu futuro filho, talvez o nariz.

a sua boca eu espero que ele não tenha

não quero ficar confusa

quando for alimentar a criança

não quero ser

uma mãe ruim.

 

 

-vai sair leite do meu peito mesmo?– te perguntei um dia. – e se não sair

nada?

-vai sair sim. – você me disse calmo.

 

por seis meses é só o que o bebê toma

nem água

apenas leite materno e uma proximidade com a natureza que eu vou sentir.

mas e se eu perder

o bebê? e se ele morrer

como muitos morrem

engasgado no berço

sutilmente com a própria

saliva. bebê morto

de longe parece que está

dormindo.

se meu bebê morrer

ou se ele não nascer

ou se ele for

doado

e não tiver ninguém pra tomar meu leite

o líquido vai virar

pedra em mim. vi num filme

de mulheres que ficaram grávidas e não podiam estar com os seus bebês porque não eram casadas, então o bebê era levado pra longe

para um lugar que ninguém sabia do

bastardo, mas o leite não. o leite virara pedra

dentro da mãe sem filho

Doía de fazer a coluna

envergar.

me promete que se eu tiver leite sem bebê

você me mama

pra não empedrar? me promete

que você me salva

pelo menos dessa dor?

você diz

calma, ainda não temos filho

e não responde a minha pergunta. mas eu sei

que você seria

capaz de tomar meu leite por mim.

te digo

sim, ainda não temos filho

por enquanto é só você que eu vejo

mamando em mim um homem adulto.

você se lembra de quando tomava leite na sua mãe?

alguma vez você já olhou para o peito dela pensando ter colocado a boca insistentemente ali? a Fome, em primeira instância,

não é

sexual,

as coisas mais sujas

andam pouco eróticas tamanha a intimidade que uma família constrói.

estamos virando alguém

da família um do outro?

será que vamos nos arrepender

do tempo que passamos juntos? eu jamais

me arrependeria, você se lembra

daquele cara no trem?

desfilando pra vender as roupas. trocando de roupa toda hora, sendo várias pessoas até uma mulher?

em machu picchu? você me pergunta.

sim,

no trem voltando

de machu picchu.

lembro,

ele estava sem graça

de fazer aquilo,

e no telefone o silêncio da nossa respiração lembrando

daquele dia

e de tantos outros.

 

-não tá a fim? – você me pergunta

parando de chupar o

peito ali, disponível,

a alma do peito não.

 

-desculpa amor. hoje eu tô um pouco distraída.

 

te dou um beijo, tiro a

roupa que falta e vou

para o banho

você fica na cama deitado, pensando (no quê? no quê você está

pensando? os casais se perguntam, no começo,

depois aprendem

que a mentira existe, que a mentira é

inevitável)

 

ligo o chuveiro. a água cai

morna em mim, o xixi sai

morno também

os dois se misturam

no ralo que engole

tudo

e não é um pouco boca, um pouco leite, um

pouco peito

todas as coisas do mundo?

sugar e dar,

infinitamente.

 

Jazz

parecia uma caverna, o lugar. entrei e

da porta tocou um sino

avisando,

uma loira me deu boa noite

se virou pra pegar o cardápio.

eu queria ficar perto

do palco mas

cheguei tarde, as melhores mesas já estavam ocupadas.

me sentei então ao fundo

a loira se aproximou.

passou um pano

na minha mesa, acendeu a vela e largou o cardápio ali.

olhei pra frente,

 

um pilar atrapalhava

 

a minha visão dos instrumentos, pensei aqui não é

um bom lugar, então migrei

como fazem as aves

para o banco que restava

no balcão.

 

a loira mascando chiclete me perguntou de dentro

do bar:

 

– vai ficar aqui mesmo?

agora sim. dali não dava pra ver muita coisa.

-já sabe o que vai beber?

estou escolhendo ainda.

na parte de cima tem uma loja de discos. – ela avisou. – fica aberta a noite toda.

-bom saber.

 

a loira entrou pra cozinha. fiquei imaginando

as pérolas musicais que tinham

em cima da minha cabeça, bastava subir as escadas. mas eu não estava podendo gastar muita grana,

essa noite já era um excesso

caiu hoje a última parcela

do meu pagamento e com essa crise

quem?

vai me contratar pra escrever sobre

livros.

olhei ao redor.

tinha uns velhos

bebendo uísque ainda com a roupa do trabalho,

algumas mesas com casais

as mulheres vestidas elegantemente

coques, colares e uma mesa grande

com amigos

que não saiam do telefone, batiam fotos de si mesmos

e se filmavam.

 

que horas começa a banda, cê sabe? – perguntei pro sujeito ao meu lado.

11. – ele respondeu por cima do copo.

ótimo,

obrigada.

eu sou amigo do pianista.

ah é?

– na verdade sou amigo de todos da banda, nos conhecemos na faculdade. na época eles já tinham esse grupo

só que com outro nome

chamava all that feeling

ou algo assim. mas meu amigão mesmo é o pianista.

 

sorri sem

os dentes. ele continuou.

 

-o cara é bom, viu. a banda toda é. eu

até que me arrisco no baixo, mas

só entre amigos, não toco profissionalmente. apesar que eu poderia,

se eu tivesse me dedicado,

talento eu tinha.

(ele deu um gole na bebida)

sou advogado,

tenho cara? acabo fazendo mais grana que todos esses músicos juntos. faço mais grana que o dono dessa casa. bar dá muita despesa,

cê não acha?

 

balancei que sim

e virei de costas pra

encerrar o assunto, quem fala muito sobre si mesmo não me cheira bem.

chamei a loira. pedi uma

cerveja.

 

você tá sozinha? – o sujeito me perguntou.

 

quando alguém senta

de costas pra você

isso quer dizer que a pessoa não quer mais

falar com você, fiquei com vontade de responder.

disse, ao invés,

 

– eu gosto de mulheres, tá legal? vê se dá um

tempo.

-por mim não tem problema. – ele riu surpreso – até prefiro

que seja à três, você é muito magrinha.

 

 

mas que filho da puta.

fiz questão

de não olhar mais

pra fuça dele

não queria ler os

pormenores

daquela reação que eu já previa

típica desses homens que pensam que as mulheres estão no mundo para satisfazê-los. eu estava completamente sem saco

para homens daquele tipo

então a loira trouxe

a minha cerveja

eu bebi lenta

tentando me acalmar.

foi quando a banda subiu no palco

do inferninho

a bateria

o baixo

e o piano em cima de um grande tapete persa.

como aquele piano entrou ali, meia cauda,

enormemente pela porta de sino? deve ter sido pela janela

ou construíram a casa

ao redor dele que

já estava, sempre esteve, se move pouco o que tem tamanho.

os três homens

assumiram seus postos nos instrumentos

o sujeito do meu lado aplaudiu os amigos com assovios e palmas exageradas.

que grande babaca, pensei, e decidi mudar

de lugar de novo

a loira não vai gostar nenhum pouco

mas o que posso fazer?

peguei uma mesa alta

que um casal tinha acabado de abandonar, pra minha sorte.

 

-vocês não estão mais usando aqui?

-não, – eles disseram indo embora.

 

por que será

que eles foram embora? bem na hora do show.

e milagrosamente eu fiquei

bem posicionada para assistir a banda, longe do camarada

mas não o suficiente

que aquilo era um lugar pequeno.

 

o pianista pegou o microfone.

 

senhoras e senhores, boa noite. eu queria agradecer a presença de todos vocês

em especial de um velho amigo nosso

Carlos Savana.

 

e o pianista pediu

uma salva de palmas para

adivinha quem? o Babaca,

ele levantou do banco como se não quisesse

tamanho alvoroço apenas por estar presente.

agradeceu com o tronco os aplausos

e ficou me olhando

como se dissesse

Viu? esse cara

não entendeu nada, não é que eu estava duvidando que ele era amigo dos músicos, era só que eu estava achando ele um idiota e claramente eu tinha razão.

mas não vou estragar

a minha noite, não por ele, eu vim aqui pra ficar em paz,

maldita hora

que eu perguntei o horário, pra que? saber do horário, deixa

as coisas fluírem, eu tenho que parar

de querer

me preparar pros acontecimentos, preciso perder essa mania de uma vez por todas. na terça eu vou conversar

com a minha psicóloga

e também dizer

que não posso

mais pagá-la, agora que fui demitida. seu tratamento não pode parar, ela vai me dizer. então me atenda de graça, vou replicar,

quero ver a cara dela.

 

nós vamos começar com três músicas do nosso disco novo

que está à venda na loja aqui de cima,

depois fazemos um pequeno intervalo

pra beber um pouco que ninguém é de ferro.

(a plateia riu)

na volta seguiremos com mais música, espero que vocês tenham uma ótima noite.

 

as pessoas aplaudiram animadas. ele sentou no piano, olhou para os companheiros e

os três começaram

a Tocar.

logo na primeira nota

meu corpo todo se

conectou

com a banda virando uma

chave em mim

que me fez

esquecer num estalo

do idiota,

da demissão,

da loja de discos que não posso

comprar, a Música tem

esse poder.

dei um gole na minha cerveja

meu pé já balançando

no ritmo

como tocavam bem aqueles caras

que sintonia

que coração. eles se olhavam

rindo como se fosse

fácil, transavam com os instrumentos

de vez em quando fechavam os olhos,

as mãos rápidas pareciam tocar uma mulher

até o

gozo.

tive a impressão que eu os conhecia de séculos,

esqueci que eu estava em

são paulo

me senti em nova orleans

aqueles quadros de billie holiday na parede

chet baker

miles davis

e como deve ser calejada

a mão do baixista

olha a grossura

daquelas cordas

e a delicadeza do som que ele tira

eu poderia morrer

numa nota

que nada em mim ficaria pra trás.

 

-você gosta mesmo de jazz, né. – a loira me disse, levando embora

minha garrafa vazia – quer mais uma?

 

seu humor

havia melhorado consideravelmente

ela nem comentou

minha terceira mudança

de mesa.

 

-não, obrigada. você também gosta de jazz?

-e de mulheres, – ela disse saindo

 

reparei na simetria

do corpo dela se afastando

depois voltei meu olho

pra banda

me sentido aberta como uma flor.

 

 

eu sentada, ele de pé

estava num restaurante. pedi meu suco de sempre

e o garçom, nos conhecíamos de todas as vezes que eu ia pra esse lugar e não eram poucas,

já falávamos das nossas famílias abertamente, ele que deixou

a esposa e os cinco filhos

no interior de minas, esperando.

lá não tem emprego, ele costumava me dizer. quando tinha

se trabalhava a noite toda e

na hora do pagamento

o patrão dizia não tenho troco.

como assim não tem troco?

não tenho. passa aqui amanhã.

ele passava,

a rua deserta

as portas trancadas, dentro do bar as cadeiras em cima das mesas, ele

me contou também da saudade

que sentia da esposa

de dormir com ela

acordar e

vê-la.

vou trazer ela pra cá

logo de uma

vez, ele dizia,

então quando chegou o meu suco

ele me perguntou com cara de

faz tempo que eu quero

te perguntar isto,

 

– você não bebe?

 

-não. – eu disse.

 

-nada?

 

um vinho, de vez em quando, mas sempre sobra na taça. o pessoal fica bravo comigo, fala que é desperdício. eu digo: pode beber o que sobrou, gente. eles viram num segundo o que eu fico a noite toda pra beber.

 

como pode alguém aguentar a vida sem 1 gota de álcool no sangue?

 

-ah mas

têm outras coisas que me fazem aguentar, não é que eu não tenho nenhum álibi.

 

-o que, por exemplo? não consigo imaginar.

 

você gosta de ler?

 

-não tenho o hábito.

 

-mas você já tentou, alguma vez?

 

quando eu era menino. na escola

tinha uns livros.

 

poesia você não lê?

 

-poesia é complicado, né?

 

-você gosta de música?

 

– de música eu gosto sim.

 

poesia tem um pouco de música. na verdade tudo tem um pouco de tudo. poesia tem um pouco de vinho também.

 

-é?

 

-claro. os dois são tipos de fuga. uma busca por outro estado de espírito, outro alguém dentro da gente que nos agrade mais,

que nos faça aguentar a vida

como você bem disse.

 

-é, que a vida não é mole não. sabe que eu lembrei de uma coisa? lá em minas,

na casa que eu morava com o meu avô, ele gostava muito

de contar histórias.

acendia um trago

chamava eu, meus primos, a criançada toda que ficava por ali na rua

e contava uma história pra gente.

ele sentava numa cadeira de balanço

e ia contando

não sei ele inventava, mas ele dizia que tudo tinha acontecido mesmo com ele.

 

-não brinca?

 

-ele contava muito bem. dava umas pausas pra fumar o trago, olhar pro céu. e a gente ficava ansioso pra ele continuar contando

mas essas pausas aí que ele dava eram boas, sabe. fazia a gente ficar preso na história

e até reparando melhor

no céu bonito que tinha por lá, descampado, a gente ficava mais atento a tudo

depois que ele contava essas historias.

 

-então você gosta de poesia.

 

-será? não sei não,

poesia é muito complicado.

 

-é nada. deixa eu te ler uma,

peraí.

 

abri a bolsa pra pegar o

livro,

 

– um dia meu vô me contou como ele conheceu minha vó, nunca mais esqueci.

 

-é mesmo? – eu disse com o livro já na mão.

 

-foi. conheceu num baile da cidade, ela estava com um vestido vermelho

igualzinha a uma rosa, meu vô disse.

era a mulher mais bonita que ele já tinha visto

e você sabe como que é, né? mulher bonitona assim

assusta a gente.

 

-sei.

 

-minha vó é bonita até hoje. 83 anos e a danada é bonita até hoje. e aí no baile meu vô ficou pensando como que ele faria pra tirar aquela moça pra dançar,

a noite passando.

e sabe o que meu vô falou?

 

-o que?

 

-que no fim das contas foi a minha vó que tirou ele pra dançar. ele fica até emocionado quando conta disso. e ele diz que se não fosse ela

ia ser difícil ele ter coragem de pedir a dança.

se ela não tivesse feito

era bem capaz da gente nem estar aqui.

é bonito isso, né? de pensar

que a gente tudo existe porque alguém um dia teve coragem

de fazer alguma coisa,

de dizer sim.

 

– leva esse livro, (não é fácil pra mim

dar um livro meu, eles são forrados

de anotações que

faço

tão íntimas.

se alguém ler,

ardo só de

pensar) lê com calma, quando você estiver de folga. se você gostar muito

não precisa me devolver.

 

 

ele pegou o livro, tímido.

 

 

-não fica com vergonha, é um presente. tenho certeza que você vai gostar.

 

-não é do presente que eu tô com vergonha.

é que na verdade eu

menti pra você

na verdade eu

não sei

ler direito, sei um pouco

pra escrever os pedidos daqui, mas

um livro

daí eu já não sei direito não.

 

– então deixa que eu leio pra você.

 

peguei o livro de volta.

abri numa página aleatória como eu sempre faço em momentos assim.

calhou de ser um poema

sobre um velho

charuto numa fazenda

e os olhos do meu amigo

ficaram molhados, parece que cê tá falando do meu avô.

 

no lobby

vejo seu mário passando, meu deus como ele está

velho,

a humanidade inteira

envelhecendo, acontece que nele

de longe se nota

na corcunda, especialmente, aquilo parece a morte escapando.

mas seu mário aguenta, Quer aguentar,

talvez isso dê a ele um tempo extra,

talvez isso

não dê a ele coisa alguma, eu mesma já vi

velhos que lutam

morrendo como pássaros numa cama de hospital.

 

-foi de gripe. papai morreu de gripe. – o filho diz

no enterro, também o filho já velhíssimo

e ainda dizendo papai.

 

nunca vi

seu mário com gripe. se tossir, à essa altura, é capaz que ele

exploda.

sinceramente eu gostaria

de ver seu mário pelado, deve ser uma aula de como a vida pode

curvar um corpo pra terra

já que é pra ela que iremos

assim que tudo

acabar.

seu mário

anda sempre com uma pasta

debaixo do braço

como se ele fosse resolver algo

na rua.

meu avô fazia isso também,

no fundo

absolutamente nada pra resolver, mas seu mário se veste,

dá beijo no porta

retrato da esposa e pega

a pasta,

sai pelas ruas com ela e com um pouco de dignidade.

quando vejo seu mário passando

sinto uma

vontade de puxar-lhe o braço e perguntar o que tem nessa pasta, afinal.

cartas? papéis

em branco, essa pasta, sabemos, é o jeito que o senhor encontrou pra seguir sobrevivendo. sinto vontade de furar com faca

a corcunda do seu mário pra ver se ela

murcha,

estatisticamente ele está mais perto da morte

do que qualquer um no meu prédio,

quantos velhos já soubemos que se foi por um recado de missa no elevador?

uma vez

eu estava numa praça cheia de cachorros.

de repente chegou um boxer

e os cachorros

pararam de brincar

alguns ficaram agressivos, outros abaixaram o rabo. eu pensei que aquilo era

uma rixa entre eles

mas a dona do boxer me disse que

não,

que aquilo era porque o seu cachorro estava velho

e os animais não aceitam

nenhum tipo fraqueza.

outro dia eu desci

o elevador do meu

prédio, precisava ir no mercado e

esbarrei com o velho.

ele estava conversando com o porteiro, animado como sempre, a farsa diária de ter um trabalho dentro de uma pasta e se sentir importante.

no banco ali da área comum

tinha um menino com a mãe

esperando a vã do colégio.

seu mário ficou

reparando no menino

e na mãe brincando com o filho cantando uma música.

 

oi Ângelo, tudo bem? – o velho disse. – bons estudos pra você.

 

o menino não respondeu.

ficou olhando

pro velho

a mãe olhando pro menino

que a educação que ela dava era de responder o que perguntavam, o Ângelo mudo.

então ela cutucou o filho,

responde o vovô.

 

-brigado. – ele disse finalmente.

 

com uma mochila de rodinha ao lado, a lancheira em cima,

o logo da escola no peito da camisa como se fosse um país. que orgulho estudar

lá, ter amigos, uma professora,

o Ângelo não sabia que professores tinham uma vida além da escola,

sem aluno ele achava

que os professores dormiam esperando,

o menino era branco e liso como porcelana

pela cabeça dele não passava que, se não morresse antes, um dia ele ficaria velho também

igual aquele vovô

e veria criancinhas

indo pra escola de vã

ingênuas por isso animadas

com o dia que virá

e sentiria uma certa

inveja

do Tempo que elas tinham pela frente

pequena aula de literatura

 

decidi sair pra escrever num café perto de casa. ando muito reclusa, quase me perco quando tento me comunicar naturalmente com alguém.

se eu continuar assim

olhando só pra parede enquanto escrevo

meus textos vão secar de um jeito pouco criativo ou interessante pra literatura de boxeadores que eu gosto, aquela que tira o leitor do lugar, esmurra, mata, beija, rouba a alma, como eu posso tirar alguém do conforto estando tão confortável? o bom escritor é aquele que nem parece estar escrevendo. é aquele que transpassa o livro e chega

direto no peito, uma flecha

uma flor, um copo d’agua que seja, mas

no peito.

um amigo me disse

que um verdadeiro músico

tem que fazer as pessoas esqueceram do tamanho de um instrumento

ou seja transpor a matéria

pra virar só o som

como se caísse do céu. um escritor

deve fazer o mesmo. todos os artistas

se são artistas

devem fazer

isso de deixar a mesa

limpa.

então eu peguei

meu caderno, a caneta, coloquei na bolsa e saí caminhando na manhã fria

cheia de pombos como naquele filme do macaulay culkin

sozinho no natal.

engraçado que

os pombos demoram pra levantar voo quando passa um carro

parece que o carro

vai pegar o pombo

quase vejo pegando

mas naquele milésimo de segundo do antes da roda tocar na pena

o pombo voa

sem classe alguma

para um lugar baixo

um banco de praça, um degrau. e ali ficam, entre eles, ciscando como quem não quer nada. eles são ótimos

em não serem influenciados pelas coisas ruins que lhe acontecem. ou as boas, o que também distrai. eles são sempre serenos, intocáveis, vez em quando passa alguém comendo

eles caminham logo atrás. são ratos que voam, uma amiga costumava dizer. mas agora ela está morta, não de fato, só pra mim,

já que nunca mais nos telefonamos e o tempo vai tornando completamente fora do contexto alguma de nós nos ligarmos, vai ficando

esquisito, mas

não dói.

cheguei no café. escolhi uma mesa do lado de fora, com os fumantes, não que eu seja. acontece que os fumantes costumam soltar o que sabem

pela fumaça

e sentada perto eu posso sugar o que eles jorram, discretamente.

na mesa ao lado, por exemplo, tinha um homem que fumava. ele estava sentado de frente para uma mulher que não vi o rosto

tampouco tentei qualquer truque

pra descobrir

preferi ter dela só o cabelo, o casaco xadrez,

além de vê-la pelos olhos daquele homem.

pedi meu café,

a garçonete cansada me disse:

 

-já trago.

 

se eu trabalhasse num café

os primeiros dias poderiam ser interessantes, no começo as coisas são.

depois passa

e no fim até as paixões mais genuínas acabam virando um pequeno inferno particular.

abri meu bloco de notas,

li desanimada meus últimos rabiscos

esse romance que estou escrevendo não está ficando bom, acho que vou deixá-lo de lado por um tempo e

ler mais, quem sabe fazer uma viagem. pra argentina

esse antro de grandes

escritores, lá as pessoas leem nos cafés o tempo todo,

foi quando eu comecei a ouvir

a conversa do fumante com a mulher de costas,

 

 

-não consegui terminar de ler essa parte da história. – ele disse. – sou pai, entende. pensei na morte da minha filha e comecei a tremer. juro pra você que eu tremia dos pés a cabeça. você chegou a ver o filme?

 

-vi. – ela respondeu.

 

eu também, o filme eu consegui ver inteiro. o livro eu pulei toda a parte da morte da menina, é muito duro aquilo, meu deus, tem muito detalhe.

e o pior é que me virou uma chave. de que é possível morrer muito jovem,

é claro que a gente sabe que é possível morrer muito jovem,

mas a ficha caiu de verdade pra mim. eu fico colocando o dedo no nariz da minha filha quando ela tá dormindo

pra ver se o ar tá saindo mesmo, a coitada deve sentir um puta cheiro de cigarro.

 

cê não acha que tá levando essa história muito a sério?

 

acho, claro, mas o que eu posso fazer? a porra toda entrou em mim de um jeito que eu não consigo mais tirar. eu acho que uma parte do meu cérebro acredita mesmo que aquilo aconteceu.

 

– se as pessoas soubessem o quanto um livro pode ser poderoso elas leriam mais.

ou menos.

 

-o foda é que eu sou cristão. aí você imagina como eu fiquei naquela parte da cruz, que a menina ressurge.

 

mas esse é um tipo de história que precisa da fé do leitor, né? porque na verdade o autor não consegue provar nada.

 

-ah sim, isso é. o problema é que eu sou exatamente esse cara. eu acredito em qualquer coisa.

 

eu nem tanto. quando eu era assim (ela apontou com o queixo para uma menininha que estava comendo com o pai) eu ia na igreja todo domingo,

minha mãe era muito religiosa.

eu sentava no banco e me sentia uma idiota ali, não conseguia encontrar significado em nada, achava um porre. quando era hora de rezar depois de receber a hóstia, todo mundo abaixava a cabeça, eu aproveitava pra reparar nos meninos.

 

o cara riu. disse Cê não presta e

acendeu um cigarro.

eu lembrei de mim

criança

sentada no banco da igreja imaginando que aquilo era uma árvore morta

aí a minha bunda morria um pouco também.

a moça continuou,

 

-no enterro da minha mãe veio um padre rezar pra ela, antes de fechar o caixão.

 

-ah isso é normal, sempre vem. é pra dar paz pro morto.

 

sim, mas eu tive que pagar esse padre. fiz um cheque pra ele dar a benção pra minha mãe. agora me diz como

eu vou acreditar

que uma benção paga tem algum contato com o sobrenatural? dinheiro é uma energia crua

ele não tem nada a ver com elevação espiritual.

 

o cara concordou com a cabeça.

 

-como eu posso pagar por uma coisa invisível?

 

-pensa, o padre tem as contas dele, o cara também não é nenhum monge.

 

-não mesmo.

 

o homem chamou a garçonete.

 

– você fecha pra gente?

-claro.

 

a moça de costas puxou a carteira.

 

-deixa que eu pago. – o homem disse.

-Magina.

– é sério. eu faço questão.

– para de bobagem, vai.

– faz assim então, eu pago essa e na próxima você paga.

 

a garçonete se aproximou com a conta. ele tirou a carteira do bolso, pegou o cartão. errou a senha,

depois acertou.

 

-tenham um bom dia– a garçonete disse,

se retirando.

 

os 2 se levantaram, eram altos,

o homem me deu uma olhada

eu fiz que estava

introspectiva.

 

-vamos continuar marcando esses papos. – ele disse pra ela. – eu gosto de conversar com você . – e ensaiou um abraço

meio de lado

que acabou se tornando uma tentativa frouxa de algo naquela imagem deles dois se afastando

de mim, claramente,

deles mesmos

especialmente.

 

sem barulho

estou começando a entender que meu pai se Foi

enlouqueço quando penso nisso, é uma sensação constante de tiro entrando, então eu

prefiro imaginar meu pai numa viagem Longa.

penso na roda do trem

em contato com o trilho

e no peso do meu pai no banco

com uma mala pequena no colo, um chapéu, rumo a um lugar tão distante que a viagem não acaba nunca.

a morte é isso, nada de

cemitério

ou daquela imagem da fuga de vida no corpo que insiste em roubar todas as outras que tenho dele.

tento pensar só no trem

indo tão

forte

meu medo é esquecer o rosto do meu pai

e imaginar apenas uma pele

sem feição por baixo do chapéu.

 

isso de esquecer um rosto demora, precisa de anos de morte

ou muita dor. – a psicóloga disse

na tv

 

e como eu estou evitando a dor com a imagem do trem

então o rosto do meu pai vai ficar na minha mente

por um tempo (o esforço diário

de uma prisão

de ventre) antes de eu ter que recorrer a alguma fotografia

que nunca trás o verdadeiro rosto

traz uma expressão congelada que se parece um pouco

com a morte. nos túmulos eles colocam uma foto da pessoa

geralmente séria

vestindo paletó.

eu olho praquelas fotos e fico imaginando a vida que a pessoa teve

mas na verdade eu só consigo imaginar a minha própria vida

projetada.

eu devia contar pra minha mãe desse jeito de entender a morte que dói menos

mas a gente não está conseguindo conversar

mal nos olhamos, quando nos olhamos

a dor cresce

é impossível ficar no mesmo cômodo

que ela

é morrer um pouco todo dia junto com o meu pai sem encontrá-lo, encontrando apenas a dor.

então eu passo pela minha mãe como um vento,

(quando eu era criança ela

me ensinou uma oração que tenho de cor e

rezo, isso é guardar em mim

um pouco dela nos bons dias que tivemos) dou oi sem olhá-la (o esforço)

subo as escadas

direto pro meu quarto.

deito na cama tão cansada

as lágrimas me são

diárias e nasce

1 lagoa

entre o pescoço e o osso do colo.

olho pro teto

meu peito vai subindo e descendo no movimento de tirar de dentro o que machuca pra virar

gota, eu sinto a solidão me subindo as pernas

e penso

na minha mãe lá embaixo

na cozinha

mais um dia jantando só

a comida difícil de engolir.

levantei da cama. vou comer com ela, decidi.

não podemos ficar nos evitando desse jeito. vou dizer pra ela que a Culpa

não é nossa

o pai está morto

mas a gente

não. e vou contar pra ela do trem, vou falar

imagine uma viagem longa

lembra quando pegamos aquela maria fumaça em campinas

e a viagem parecia não ter mais fim? é como o pai se sente, mãe, 

Indo,

uma hora também nós

iremos

calma que o mundo inteiro

irá, mas

ainda não.

então a gente vai

se abraçar,

conseguiremos nos olhar

de novo

ainda faltará alguma coisa mas

será melhor do que sofrermos cada uma num cômodo

da casa criando

raízes.

desci as escadas com coragem.

entrei

na cozinha

foi quando eu vi

a faca

enterrada no peito da minha mãe.

11 anos

– você acha que cachorro sente tédio?

– não, claro que não – respondi como se fosse

óbvio, não era,

aquela pergunta

ficou passeando em mim.

 

no outro dia

 

acordei com ela na testa, levantei da cama,

fui fazer café.

esperei a água ferver (a pergunta

 

a testa)

 

coei, enchi a caneca

olhando pela janela

embaçada do frio. as pessoas caminhavam pro trabalho

algumas de mochila, outras de

mão solta,

tão prontas para o dia que virá. não sei

se cachorro sente tédio,

o meu ainda dormia,

no quarto com cheiro de corpo descansando,

um cheiro que

com a casa aberta era impossível encontrar.

da porta eu fiquei olhando

o sono

do meu cachorro que não é meu, nada é, será que

ele sonha?

eu olho pro olho dele e

sinto ali um tipo de tristeza que não dói, que apenas está,

isso é tão nosso

é de todos que estão vivos

até dos objetos. se olharmos para o centro de uma mesa

bem no meio

a tristeza estará lá. se olharmos um piano por dentro

aquela estrutura subindo

e descendo a cada tecla

virando som

isso é a tristeza que não dói, é o olho do bicho, é o lugar onde estamos vivos todos juntos

além da Terra que gira sem ninguém notar. eu sinto solidão

quando assisto programas sobre

planetas. não sei

se o meu cachorro sente

tédio,

medo eu sei que sim, ele foge do rodo por exemplo, corre dele, eu vejo medo ali e também no quando

eu vou embora

ele tem medo de eu nunca mais voltar.

prometo que volto, mas também eu

já não sei se volto

afinal a morte existe

em mil jeitos de

morrer. uma vez

eu deixei meu cachorro por algumas horas na casa da minha vó

fui comer pizza com os meus primos.

 

deixa ele aqui, – minha vó disse. – não pode cachorro na pizzaria.

 

será que pelo tempo que fiquei fora

(a pizza foi boa e eu demorei mais do que previa)

meu cachorro pensou que aquilo foi um abandono? e a casa da minha vó seria a sua nova realidade, agora. será que ele sentiu desespero? eu queria poder consolá-lo desses traumas todos

curá-lo do que meus erros lhe causaram

me arrependo de

abandoná-lo um pouco e toda vez

inevitavelmente.

eu queria descobrir a linguagem perfeita

pra me comunicar com o meu cachorro, sei que não são as palavras.

ouvi jeff buckley dizer numa entrevista que a Voz é a nossa essência. a entonação muda tudo numa frase que é a mesma. então não é sobre as palavras, nunca é sobre elas.

o jeff disse também que edith piaf captava a imaginação dele como ninguém. não era porque ela cantava em francês, não era sobre o francês. era algo entre

o ar que saía da boca

e a voz virando canto. meu cachorro gosta de música. a música capta a imaginação dele. cachorros imaginam vidas possíveis

em meio a outros animais e a nós, os donos,

que não somos donos de nada.

os cachorros pensam na gente como alguém que eles amam muito e por isso

achamos que somos donos deles

porque eles entregam o coração pra gente e ter o coração de alguém na mão é tão forte, ficamos sem saber o que fazer. então começamos a dar ordens, achar que estamos no comando, vestimos botas, apontamos dedos. quanto erro, meu deus, meu café na caneca

está esfriando. dou mais um gole

tentando não fazer barulho

não quero acordar meu cachorro

é bom assistir seu sono, é como ouvir uma música de satie.

meu cachorro gosta

de música clássica

sei pelo jeito que ele respira enquanto coloco um disco pra tocar. e sei que ele espera algo a mais da vida

porque meu cachorro olha pela janela do terraço

diariamente apoia as patas

no beiral e

fica olhando a cidade pelo vidro

até onde a vista alcança, isso

é sonhar.

ainda que de longe

quando ele vê outro cachorro

o corpo dele muda

a identificação com um ser parecido é uma coisa bonita de perceber. eu já vi

uma criança

caminhando por um restaurante sem

fixar os olhos em nada

mas quando ela viu outra criança

então o corpo dela de repente ficou mais vivo

ela soltou a mão

da mãe

não sentia medo

foi direto

se conectar com

aquele ser parecido e nada mais importava. eu mesma

já passei por isso.

estava almoçando em um restaurante de shopping

numa mesa que era

de frente para um corredor

e naqueles cinquenta minutos de almoço eu vi passar tantas famílias, tantos casais e mulheres sozinhas, amigos,

pessoas que estavam trabalhando no shopping,

um cozinheiro fora do expediente,

irmãos com sacolas, velhos tomando sorvete, um homem que parou a namorada e

a beijou profundamente

apenas porque lhe deu vontade,

eu vi

tanta gente passando,

aquilo

me deu uma

paz. percebi que estamos todos buscando uma coisa parecida

não sabemos o nome do que buscamos

mas tem a ver com o olhar do outro

em nós.

 

(meu cachorro despertou.

 

bocejou seus pequenos dentes

e língua

me olhou com a cabeça virada. Retribui o olhar dando um último gole no café

identificando no gosto daquilo

uma falta de pressa pra começar

o dia, mais 1,

mais quantos

não é pergunta que se faça.

 

– hoje é o seu aniversário. – eu disse pra ele

que se levantou da caminha,

roçou na minha perna e foi

fazer xixi.)