estudo de texto curto n.3

saí carregada do mercado, as frutas na sacola pesavam mais do que a palavra manga na lista de compras,

as pessoas reparavam no meu caminhar trôpego

eu desviava o rosto, não queria parecer frágil.

1 passo

de cada vez, pensei, quando um homem me perguntou se eu precisava de ajuda.

não obrigada, eu disse

e ele continuou andando.

 

parou de repente.

 

 

voltou até mim dizendo segura a sacola de um lado que eu seguro do outro

e foi como se eu ganhasse asas.

não precisava eu moro logo ali.

não me custa, ele disse sinceramente

e conversando descobri que o homem morava no prédio de frente pro meu.

você trabalha em que? ele me perguntou. sou escritora.

ah é? e tem funcionado?

 

um cachorro passou por nós.

 

não, nem um pouco, respondi

e ele disse que gostava muito

de cachorro,

não tenho porque fico o dia todo fora, hoje eu tô de folga mas tem mês que eu trabalho até de fim de semana. sou analista de sistemas.

você é casado? perguntei.

ele não me respondeu.

isso atrapalhou o nosso pequeno

começo de

intimidade. acabamos ficando em silêncio só os passos na calçada, a sacola roçando no jeans.

será que a esposa tinha morrido?

pior, será que ela

tinha morrido recentemente?

eu não devia ter perguntado nada, maldito cachorro.

chegamos na portaria do meu prédio. agradeci a ajuda e

nos despedimos.

à noite

eu fiquei procurando

o homem no apartamento da frente

vestindo um hobby de Seda na gaveta há anos e

mais nada

meu olho caminhando pelas salas acesas.

 

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