tentativa n. 5

não somos amigos.

quando acontecia da gente se trombar

como hoje ali na esquina do mercado, os dois com sacolas nas mãos,

conversávamos apenas sobre coisas possíveis

rapidamente como são os encontros casuais.

 

-tudo bem? – eu disse o cumprimentando sem

beijo

já familiarizada com a nossa falta de intimidade

achando até bonito

conversar com alguém que conheço pouco, era como andar por um rio congelado

a profundeza dele, os acúmulos,

ficam para uma outra

estação.

uma vez numa festa

conversando com algumas amigas eu

comecei a falar sobre perdas, as minhas perdas no romance que eu estava escrevendo e uma delas

enchendo o próprio copo de vinho

reclamou que assunto estava pesado demais.

 

tudo e você? – ele respondeu. – tá na correria?

– nem me fale. (engraçado que minha vida nunca foi corrida.

nada me acontece

e quando acontece é sem susto algum. claro que dizer isso poderia soar como algo depressivo demais. por isso eu minto quando converso. porque é sempre mais fácil inventar

do que explicar)

 

– as horas estão passando muito rápido. – ele comentou.

– é verdade. pra resolver isso eu fiz um trato comigo mesma.

– ah é? qual?

– eu não olho mais pro relógio

a não ser que eu tenha que tomar um remédio por exemplo, aí

eu olho, ou se eu marcar um horário com alguém. tirando isso

não olho mais.

-também não olha a temperatura, né? um frio desses e você aí sem blusa.

 

eu sempre deixava minha blusa em algum lugar fora de mim,

era meu jeito de mostrar a pele quando ninguém mais estava mostrando.

como disse bukowski num poema ou numa entrevista, wherever the crowd goes run in the other direction.

 

-quer meu casaco?

-não tô com frio, obrigada.

 

sorrimos.

dei um passo a frente

já com a boca abrindo num até mais quando ele me disse:

 

-você não quer tomar um café?

-um café? – estranhei. será que teríamos

estofo

pra sentar 1 de frente

pro outro e dizer coisas que passassem da fase trivial de desconhecidos que são

muito diferentes entre si mas

em algum lugar por dentro

sentiam um certo

arrepio nas costas quando se olhavam fixamente.

 

–pode ser. – respondi.

 

caminhamos até o café.

escolhemos uma mesa na parte de fora apesar do frio, ele queria fumar

perguntou se tudo bem sentarmos ali e me ofereceu o casaco de novo.

aceitei, pra sentir o cheiro dele,

era uma mistura de musgo

com nicotina.

ele ficou me olhando com a jaqueta.

 

-como tá a loja? – perguntei, desviando. ele me disse uma vez que tinha uma loja de esportes.

 

tá mais ou menos. o que mais vende são os suplementos, a galera que treina não deixa de tomar. agora roupa, tênis, essas coisas

tá vendendo muito pouco.

 

– que pena. deixa que eu pago o café então.

 

ele riu dizendo que não era pra tanto.

ficamos em silêncio, ele fumando o cigarro, eu olhando pra cidade.

aquele encontro estava

frouxo como eu imaginei que seria.

ainda assim,

aquele sujeito tinha um olhar que me atravessava.

 

me vê um expresso por favor? – ele pediu.

-dois.

 

o garçom se afastou.

 

você continua escrevendo?

-Claro.

 

(essa pergunta sempre me ofendia.

como pode alguém pensar que eu não estou escrevendo? por acaso não fica evidente? o quanto a escrita é tudo o que tenho)

 

firme e forte?

-você pensa que sou uma entusiasta?

– não, estou brincando. eu sei que você leva bem a sério.

-engraçado que eu nunca te perguntei se você ainda é atleta. porque eu sei que você é atleta, eu vejo no seu corpo, no jeito que você senta.

 

o garçom se aproximou com os nossos cafés. colocou 1 pra cada, o açúcar no centro.

saiu.

 

– você ainda escreve sobre aqueles temas mais quentes?

– quando surge na história sim.

eu gostava muito de ler aqueles seus textos mais quentes. você falava umas coisas. eu entrava sempre no seu blog pra ler as novidades.

-humn.

mas agora parece que você virou uma escritora séria.

– cê tá dizendo que escrever sobre sexo não é sério?

– você entendeu.

-não, não entendi.

-eu só tô dizendo que fico com saudade de te ler mais quente, só isso. uma mulher bonita escrevendo sobre sexo

é sempre excitante.

 

me levantei.

 

-onde você vai?

é impressionante como você reduz tudo ao pó. detesto quando as pessoas transformam um assunto filosófico como o sexo em punhetas pessoais. sabe o que eu já tive que ouvir de homens como você? que o que mais interessa no meu texto

é o meu rabo. o melhor da sua literatura é o seu rabo, o cara me disse em tom de elogio.

eu gostaria de saber que homem no mundo já ouviu isso de alguém. por pior que ele escreva, por mais cenas de sexo que ele tenha em seus livros, qual deles já escutou que o mais importante do trabalho que eles fazem é o pau que eles têm no meio das pernas?

 

saí sem pagar meu café, esqueci também das minhas sacolas. lembrei no meio do caminho, mas não voltei atrás. pelo contrário,

aumentei meu passo

tanto que

acabei numa corrida

de volta pra casa.

começou a garoar, uma garoa tão fina,

parecia que eu estava imaginando.

e pensar que eu cheguei a me sentir atraída por esse idiota. eu devia ter sacado logo

não era normal aquela nossa falta de assunto, aquele incomodo.

não sei por que ainda me arrisco

tento um café e tento uma vida

mais na superfície das coisas. isso são as minhas amigas em mim me perguntando toda hora se eu finalmente arrumei um namorado, se eu vou casar um dia, minha mãe perguntando, minha vó 5 filhos perguntando, meu pai preocupadíssimo. só meu peixe não pergunta

meu peixe que

quando cheguei em casa

estava no fundo

do aquário.

dei uma leve batida no vidro. depois outra.

está morto, pensei,

e peguei uma peneira. mais essa, pensei,

e quando fui tirar o corpo

o peixe se mexeu.

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