estudo de monólogo para uma peça em três atos

(terceiro ato)

 

 

 

nasci com manchas na pele

meu tempo no útero não me fez bem.

as pessoas podiam desvestir uma flor pra nascer, imagine que rápido, ou pular do olho de um peixe,

o médico explicou que a minha mãe menstruou em mim.

pra sarar

eu tive que tomar banho de Luz no hospital. minha mãe avisou com raiva

que não sairia de lá sem mim quando a enfermeira disse a senhora já pode ir pra casa.

assim que nasce um filho

as mães ficam mais próximas da natureza de um tigre, a minha ficou selvagem me esperando por dias, me olhando do vidro com o terço nas mãos.

não era de morrer, o que eu tinha. ainda assim aquilo entristecia a minha mãe profundamente, acabava com ela ver o próprio bebê Encubado, aquilo parecia ser um mal sinal.

 

– devo ter feito alguma coisa errada. – ela chorava pro meu pai. – meu útero deve ser muito ácido.

não, não. – meu pai respondia. a conhecia bem

por dentro

e nada nela lhe parecia ácido.

a gente

ficava junta só pra ela me amamentar, depois eu voltava pra Luz.

demorou 2 semanas

pra eu ficar boa. então me liberaram, meu pai abriu a porta de casa

minha mãe comigo

no colo

umas olheiras enormes.

eu não me lembro de nada,

minha mãe me contou que

eu dormia demais.

um bebê morto

e um bebê com sono

não são tão diferentes assim.

por isso minha mãe ficava

colocando o dedo debaixo do meu nariz

eu tenho o cheiro do dedo dela guardado em mim.

fui filmada, quando bebê,

meu pai tinha um amigo que adorava pensar em si mesmo como um artista. ele usava boina e estava sempre filmando as coisas com ar de documentarista. narrava em off o que estava acontecendo enquanto filmava, eu olhava pra ele encantada.

assisti o vídeo um dia desses. achei a fita fazendo faxina e parei a faxina pra assistir. sentei no sofá, cobri as pernas com uma manta.

me vi bebê

com um casaquinho de tricô, as bochechas rosadas.

eu não queria sair da cama e o amigo do meu pai dizia atrás: ela não quer sair da cama.

demorei pra aprender a andar, minha mãe me contou,

devia ser uma intuição

de que aprender a andar

era deixar algumas coisas para trás, era começar a perder e

se acostumar com isso. minha mãe me chamava

 

-vem filha.

 

e eu segurava no lençol com a maior força como quem diz não quero ir, lençol, me ajuda,

o rosto concentrado,

um bebê que mal percebo ser eu.

quando finalmente comecei a andar

minha mãe notou que meu pé

era torto, eu pisava muito aberto.

me levou no ortopedista.

ele analisou a chapas levantando-as contra a luz.

 

uhum. – ele disse.

 

e eu tive que usar uma bota ortopédica

por 4 anos o tempo da faculdade do meu pai.

a bota

travava meus movimentos como se eu

fosse tímida

tinha um tênis da moranguinho

com cheiro de morango que eu Queria usar,

 

 

-não pode, filha. você tem que usar a botinha.

 

 

quando passava na tv a propaganda do tênis

eu dançava

sonhando com o dia de tirar as botas pra sempre.

algumas crianças riam de mim, na escola. eu ria com elas

não entendia que era de mim. e odiava fotos, toda vez que minha mãe me arrumava para tirarmos fotos aquela botinha não combinava com nada.

descíamos pelo elevador de mãos dadas até a parte de fora do prédio

onde tinham algumas árvores.

eu gostava das árvores

e gostava de descer com a minha mãe de mãos dadas

mas na hora da foto a câmera me olhando eu emburrava de um jeito

em todas as fotos que tenho criança

parece que eu estou mastigando um cravo.

mais pra frente

quando eu tinha 5 anos e já sem

a bota

eu gostava de brincar de boneca

cultivava barbies, regava elas, a gente usava o mesmo shampoo pra crescer.

eu também gostava de música

especialmente no rádio, decorava as letras pra quando tocasse de novo (e eu nunca sabia quando tocaria de novo, a graça nascia daí)

eu pudesse acompanhar cantando com o corpo também.

aquilo me deixava muito feliz

porque tinha os aplausos do meu avô que estava temporariamente morando com a gente.

 

a vó e o vô estão bravos 1 com o outro. – a minha mãe explicava.

 

meu avô era tão alto que mal cabia no sofá.

nessa época

entrei numa escolinha inglês. a professora tinha os olhos puxados mas não era do Japão.

anos depois comprei um casaco

de veludo

igual ao que ela usava. me senti melhor olhando no espelho, mas logo passou.

minhas aulas de inglês

tinham músicas

eu gostava de cantar e dançar as músicas

apontando para a parte do corpo que eu estava aprendendo a palavra em inglês.

um dia mostrei pro meu avó a dança

e ele foi colocando a mão

em cada parte do meu corpo

junto comigo

cabeça ombro joelho e pé

joelho e

ele colocava as mãos até onde não tinha na música

me jogava no sofá e

apertava todo o meu corpo fazendo cócegas.

eu tinha vontade de rir ao mesmo tempo um incomodo

uma semente me brotando

atrás da orelha.

eu andava de carro

com o meu Outro avô e era tão diferente. com o meu Outro avô

eu colecionava nuvens

e os animais que moravam nas curvas das nuvens.

sentava em cima da maleta dele

para ficar mais alta no banco de trás

e guardava em mim as coisas do céu, quando escurecia

um pedaço de lua, o som da chuva um pouco antes dela cair, a estrada com pontinhos amarelos no chão dividindo quem vem e quem vai

até que eu pegava no sono, cantava algumas músicas durante o sonho que a minha mãe tinha me ensinado

aquela do sabiá na gaiola fez um buraquinho a favorita.

já com o vô que morava na minha casa

com ele eu

não sentava na maleta (ele não tinha maleta)

meus pais trabalhando

era meu vô que cuidava de mim.

 

o vô cuida. – ele dizia com a boca perto

 

me botava no colo dele e fazia cavalinho.

uma coisa

me ardia no peito, um medo, um abandono de mundo.

até que um dia eu estava de pijama e ele

abaixou o meu pijama.

ficou me olhando e no olho dele eu lembro, tinha faísca.

no dedo dele não, o dedo era seco,

 

imagina que é um pirulito.

 

fechei o olho,

ele também.

senti uma boca me percorrendo

a língua áspera, nunca ninguém tinha caminhado por mim assim.

me senti desmanchada

desmanchando

morta um pouquinho

e uma vontade de fugir

uma vontade de correr

por esse mundo

só parar quando chegasse de frente para um lugar que fosse longe

tão Longe que eu não saberia se é

neste planeta

talvez não fosse

era bonito demais

uma mistura de

poesia com lago e teatro e baleias além do que já era tarde, acabou ficando

um pouco tarde

pra voltar.

 

 

 

(a atriz deita no centro do palco em posição fetal.

 

Blecaute)

 

 

 

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