contagiosa marlene d.

 

vi a Marlene pintando num pequeno vídeo.

era vigoroso

era com os

dedos, alguns detalhes,

as texturas das tintas pareciam bexigas sem o voo.

o estúdio dela

tinha um chão de ardósia,

quando criança eu brinquei na ardósia

montei casinha no piso gelado que de vez em quando servia como terra

outras vezes oceano

meu corpo um navio as bonecas em cima, seguras como deve ser.

pintando

a marlene não usava mesa

a mesa que tinha no estúdio era coberta por revistas de pessoas nuas

polaroides nas paredes

a imagem, a imagem

e a marelene trabalhando muda.

 

– estou escrevendo um livro que precisa de uns

desenhos no decorrer da história. – fiquei com vontade de dizer, mas

como?

se a marlene morava num Vídeo.

quem dera eu pudesse andar

pelas ruas dos vídeos

e trombar com a Marlene tudo filmado.

que ela gostasse de mim é só o que peço, que ela aceitasse tomar um café comigo pra conversarmos sobre

arte.

eu preciso tanto de uns desenhos expressivos como os dela

meu livro se passa dentro da cabeça de um menino sufocado

pelo peito

da mãe

o leite morno escorrendo na garganta

e de repente vem o Pai

numa noite que o menino

fingia sono

e chupa os peitos da mãe com outro

propósito. intuitivamente o menino entende

o propósito.

quer matar o pai.

planeja isso, é aí que entram os desenhos no livro.

nos traços de marlene

eu vejo o ciúme que existe dentro de um menino de 5 anos

que não sabe o que é morte

ele sabe só que não quer mais o pai

ali na mãe chupando as tetas

eu vejo nos desenhos de marlene a família

que se detesta porque se ama

nos mínimos detalhes tão

cruéis.

 

não falo com a minha irmã há séculos. – a Marlene me diria. – não sei se ela está viva. é bem mais velha do que eu e tem problemas respiratórios,

sempre teve.

uma vez eu pintei a asma dela. vendi o quadro por 10 mil dólares.

 

minha mãe também. – eu diria. – não fala com os irmãos há séculos. nem meu pai. as pessoas não se amam na minha família.

 

em nenhuma, querida. as pessoas não sabem o que é o amor. tem uma vaga ideia

totalmente falsa. quando as pessoas se relacionam com outras ficam possesivas, querem exclusividade, se sentir especiais. não amam ninguém, apenas se preocupam com suas imagens.

o ser humano é muito Vaidoso

e praticamente mais nada além disso,

chegam ao ponto de pensar em deus como um pai, imagine só. e dão nome pra deus,

chamam de:

Deus.

e escrevem livros, rezam missas, têm certezas. eu não consigo entender.

por isso que pinto. porque

não entendo.

 

isso fica claro nos seus quadros, Marlene, é o mais bonito deles.

eu olho pra eles e ainda sinto o cheiro da tinta. você não esconde

as horas pensando, as dúvidas, as questões filosóficas de existir

e criar.

mas tem alguns artistas que gostam de fazer parecer fácil.

 

são uns idiotas.

 

fazer parecer fácil também carrega uma certa magia.

 

– faz você.

 

– o que?

 

– os desenhos que você precisa pro seu livro.

é urgente?

 

-em que sentido?

 

-você tem tempo pra fazer o livro?

 

-tenho, claro. na verdade eu tenho todo o tempo do mundo. ninguém sabe que o livro existe.

 

-então pinte você mesmo. pegue uma folha, umas cores. é como dançar.

todo mundo já fez isso quando criança.

 

-meu personagem é uma criança. e as pinturas seriam como se ele estivesse as feito. ou melhor

como se ele estivesse olhando praquilo, pros desenhos,

porque tem muito do que somos no jeito que olhamos pras coisas que existem. interpretar uma obra é uma espécie de espelho.

 

– você tem que entrar então na tua parte da cabeça em que a criança ainda está.

na verdade você tem que sentir se ela ainda está na cabeça. nos adultos

geralmente a criança migra pra barriga.

e desenhe no chão, não use mesas. fiquei descalça, coma comidas que você daria para um filho. pra chegar num traço interessante

você precisa da infância.

 

– tenho a impressão que a gente sempre precisa da infância.

as pessoas chamam as crianças

de inocente, são pequenas formas de vida

as pessoas esquecem da potência interna que sentiam

quando foram crianças

e subestimam os seres pequenos, dizem: que fofos, eles não podem ficar sozinhos, precisam de mãos,

de cuidados,

batem neles quando não obedecem, forçam banhos, horários.

particularmente eu não acredito que se uma criança ficar sozinha com outra elas morrem porque são frágeis. se morrerem

elas morrem pelo contrário, por se arriscarem demais

por terem mais peito juntas as duas

do que uma sala cheia de pessoas adultas fumando e conversando numa festa.

eu acredito que desse convívio só de crianças

sairia um jeito único de domar o cotidiano, uma nova matemática da vida, elas reinventariam a nossa existência se tivessem a liberdade sem o medo dos pais.

uma cidade vazia para as crianças e a gente assistindo. meu deus, como aprenderíamos.

 

a marlene deu um sorriso concordando.

 

não deixe de tentar o desenho. – ela disse em despedida, apertando a

minha mão – ninguém fará o que está na sua cabeça melhor do que você.

 

 

 

horas depois

e já em casa

percebi um invisível me

nascendo,

uma loucura que não era minha, um apego por imagens.

fui me deitar um pouco,

não estava com medo. deitei pra

espalhar aquilo

que deve ter me entrando

pelo aperto de mãos com Marlene.

um mamífero

me despontava pelas

costas

um pouco de menino querendo leite na minha boca

é capaz que amanhã eu já consiga

esboçar alguns desenhos.

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