estudo de monólogo para uma peça em 3 atos

 (segundo ato)

 

 

um texto meu

está sendo lido agora na Filadélfia

numa espécie de sarau gringo, os organizadores esperam que ele tenha uma boa recepção.

minhas coisas

estão começando a dar

certo

será que estou pronta? não me sinto pronta,

me sinto como sempre estive, uma menina tentando.

é até engraçado

pensar que em algum lugar do mundo

há pessoas que estão ouvindo o que um dia eu escrevi em cima de uma tábua de passar roupa

alta demais pra ser uma mesa de trabalho e

não estão fugindo dali.

escrever é tão

solitário que quando vejo gente

não sei direito o que fazer, pra que lado olhar, principalmente o tom de começar uma conversa sem ofender ninguém.

nem sempre a minha vida foi assim. houve um tempo que eu trabalhava cercada por pessoas e respirava normalmente, me habituei àquilo, na época que eu fazia teatro.

costumávamos ensaiar na casa de uma menina do grupo, uma casa grande em mogi das cruzes, ela morava ali com os pais.

quando cansávamos

atravessamos a rua em busca de pães para o café da manhã

sem manhã

tudo escuro pro ensaio

as cortinas fechadas da sala

porque a peça era noturna e os ensaios tinham que ser também.

um dia sentamos numa roda pra conversar sobre bobagens, estávamos abertas pra isso, pra sermos pessoais.

nossa amiga dona da casa começou a contar do namorado

os dois trancados por horas num motel.

 

eu olhei pra cima e vi meu corpo no espelho. – ela disse.

inacreditavelmente

naquele dia eu estava me sentindo bem. vi minhas curvas, aquela bunda enorme,

meu cabelo jogado no travesseiro e

me achei bonita, meu namorado dormia nos meus braços.

 

eu sorri com aquela imagem

mas não tinha nada em troca pra contar. naquela época eu não fazia ideia do que era sexo,

não imaginava como ficava o corpo quando duas pessoas que sentem tesão uma pela outra ficam nuas num mesmo quarto.

eu achava que sexo era violento

e libertador

eu achava que com alguém entrando em mim não daria pra prestar atenção em mais nada

mas eu presto atenção em várias coisas durante o sexo,

no teto, por exemplo, e no contorno do corpo da pessoa que está comigo

tão vulnerável e suada, tão íntima.

o que faz essa pessoa querer entrar em mim? eu me pergunto,

e reparo na cor do chão também, nos sons involuntários do corpo,

na temperatura do quarto

e depois no úmido que fica nos lençóis.

fico tentando lembrar da primeira vez que gozei

o primeiro homem que me chupou.

ah sim.

acho que me lembro dele

e do dia

estávamos apoiados na parede nos beijando num apartamento vazio.

ele tirou a minha calcinha

e colocou a língua lá. quase dei um pulo

depois fiquei com vontade de escorregar pro chão.

era morno aquilo

bem macio

era como se a língua fosse feita pra isso. meu vestido cobria a cabeça dele, eu só via o tronco ajoelhado

e sentia a língua rodando

também as mãos

dele segurando

a minha bunda como se eu fosse um prato de

sopa. as Minhas eu coloquei no topo da cabeça dele

depois por dentro do vestido

perto da boca

pra sentir também com os dedos aquele milagre em mim.

meus deus que dia.

que Descoberta o rosto dele colado no meu sexo

quase entrando

quase um filho

querendo voltar pro útero.

fui discreta, na primeira vez que gozei. não dei espaço pro prazer no corpo, não me esparramei no gozo como faço agora. sentia medo

do meu cheiro não ser confortável, o nariz dele enfiado ali.

me esfregava com sabonete até assar toda vez que nos encontrávamos, queria perguntar abertamente pra ele sobre o meu cheiro mas

não encontrava como.

me sentia assim tão Insegura

por conta de um menino do colégio que gostei.

faz bastante tempo, mas eu nunca esqueci. foi um caso clássico, gostei de um garoto que não dava a mínima pra mim. a gente devia ter uns 13 anos

e claro que eu não era do grupo dele, meu grupo era o das meninas consideradas feias demais para serem divertidas.

um dia, não me lembro como,

eu consegui beijar o menino

no estacionamento de um restaurante.

ele devia estar bêbado

ou aquilo era uma aposta entre amigos.

na segunda feira

ele me chamou no canto

e disse que eu beijava mal, que eu tinha bafo. e disse também que se eu contasse pra alguém que tínhamos ficado

eu não ia aguentar a pressão.

 

certo. – eu disse

 

e nasceu ali meu medo de não cheirar bem.

comecei a mascar chicletes compulsivamente

lotava de pasta a escova

de dente, mas tudo isso não foi o bastante pro menino me deixar em paz. ele começou a me xingar na escola

dizer pra todo mundo que eu parecia um

sapo

que eu era feia como um sapo e o apelido pegou.

aquilo me humilhava ao ponto de eu sair da aula pra me olhar no espelho,

queria ter certeza que eu não tinha me transformado num anfíbio

de tanto que as pessoas me chamavam de

sapão.

isso

me machucava mais do que se eu

apanhasse dele

como eu apanhava da minha mãe. ela parou de me bater quando ficou grávida, não tinha forças. mas depois que nasceu a minha irmã ela voltou com a mão pesada no meu cabelo

na minha cara

seu queixo duro de ódio

seu corpo rígido e pequeno. eu tinha que cuidar da minha irmã

como uma mãe

eu só podia sair com as minhas amigas depois de dar banho na neném, dar janta,

depois que ela já estivesse dormindo, mas aí

já não dava mais tempo

aí o filme já tinha acabado.

se meu pai não estivesse em casa, se ele estivesse viajando como ele sempre estava

a trabalho pra pagar as contas de escola, comida,

eram tantas e tudo caro,

eu tinha que ficar em casa enquanto ele estava fora

cuidando da minha mãe

e da minha irmã.

até que eu comecei a fazer

Teatro (o primeiro poema que escrevi se chama A Fuga e é sobre

teatro)

pra entrar na vida de alguém que não fosse eu.

eu sentia que ser eu

era ser a pior pessoa do mundo. ainda me sinto assim, a diferença é que agora eu disfarço melhor.

um dia

e não faz muito tempo

uma amiga minha na sua festa de aniversário quis pegar um álbum de fotos nossas, somos amigas de longa data.

a festa estava cheia.

Implorei não pega

e pelos olhos dela percebi que ela sabia

que eu não queria que as pessoas descobrissem que eu tinha sido

muito feia na adolescência, vergonhosamente feia.

já passou, ela parecia me dizer,

ela que sempre teve o rosto de um anjo.

e eu

com as minhas olheiras

a cara inchada

oleosa dos alcoólatras

mas eu tinha 13 anos

e ainda brincava de boneca, aquele rosto pesado era culpa do meu avô.

vou pegar, ela disse com um sorriso.

gritei não internamente

o rosto tentando disfarçar

o tanto de medo e agonia que eu sentia em prever aqueles olhos da festa me julgando, as pessoas levam a feiura muito a sério, o riso delas dura anos.

aquelas fotos

eram mais do que o registro de ter sido

feia

aquelas fotos eram a humilhação voltando

sapo babalu

masca chiclete pra disfarçar o bafo

e outras musiquinhas que não acabavam mais

numa época que a gente precisa

desesperadamente ser amada, 13,

14 anos e eu no chão a escória da escola

 

não acredito

que você ficou com ela,

você? com ela?

 

eu queria morrer e ao mesmo tempo eu sabia

que a minha vida não podia continuar assim pra sempre, uma horaela tinha que melhorar.

finalmente minha amiga trouxe o álbum, veio caminhando pela sala com ele nas mãos.

as pessoas da festa abriram aquilo

e começaram a virar as páginas.

eram fotos grandes, aqueles álbuns de capa dura.

 

– nossa, – me disseram.

mas você não mudou nada.

 

-não mesmo. – disseram. –tá igualzinha.

 

escutei aquilo e

de repente Entendi

de repente tudo ficou claro

por mais máscaras que eu use

por mais que o Tempo me diga calma vai passar

não adianta,

nada adianta,

ao menos que eu me Mate a pessoa que sou não descola de mim.

 

 

(cai o pano. fim do segundo ato)

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