estudo de monólogo para uma peça em 3 atos

eu quis tanto uma vitrola. assistia filmes sobre literatura e jazz

e a vitrola estava sempre lá, no quarto do personagem principal, tocando um disco que nunca se sobressaia ao ambiente, pelo contrário,

se misturava

e se tornava algo tão natural quanto o Ar.

aquilo

fazia parecer que a vida doía menos nas pessoas do filme, a música se ajustava perfeitamente aos passos delas

entrando em lugares, restaurantes, cafés, cumprimentando velhos conhecidos

ninguém ali era indesejado ou sentia inveja,

tudo simplesmente fluía, os espaços, as

pessoas.

mas agora que eu tenho uma vitrola (ganhei de aniversário e

faz um tempo que tenho)

mal ligo.

é porque ela não fica perto da tomada, eu penso, tentando me

Enganar, é porque eu não tenho uma mesa,

não cabe uma mesa apropriada aqui nesse apartamento minúsculo.

o pior

é que eu tive que colocar meus discos em cima da vitrola, fazer uma pilha deste tamanho,

aí você imagina o trabalho que eu tenho pra encontrar 1

eu preciso espalhar todos pelo chão já que claro, o disco que eu quero nunca está no começo da pilha

geralmente

está por último.

pra ligar a vitrola

eu preciso colocar ela em cima da cama, tirar os travesseiros, tirar o meu cachorro

ou botar ele pro lado, pesado e preguiçoso como é,

querendo me morder toda vez que o levanto, é como se ele dissesse tira

a mão de mim,

pra então finalmente eu ouvir

o disco,

que termina

estranhamente rápido em

5 ou 6 músicas.

além do mais

ouvir um disco em casa

é tão diferente de ouvir num filme, no filme tem um contexto que

me interessa muito mais do que a minha própria vida,

não me leve a mal.

sou grata pelo que tenho, mas

Cansa, entende? ser a mesma pessoa pela vida inteira.

as pessoas mudam, você me diria.

é verdade, mudam,

só que não o suficiente para as minhas expectativas de mudança,

as vezes eu gostaria de saber como é ser um homem negro de 2 metros

jogando basquete nos estados unidos e isso

é impossível

dentro da realidade de quem eu sou.

não a toa há tantos atores e

suicidas por aí, às vezes até atores-suicidas.

quando acabam as 5 músicas do lado A

eu tenho que Parar de lavar o banheiro, por exemplo,

pra virar o Disco pro lado B,

secar a mão, o pé,

que é bem possível de escorregar nesse chão que parece um lago e a queda,

ah eu já sonhei com a minha queda tantas vezes,

tem dia que ela se parecesse com a Morte

tem dia que ela é um corte profundo na cabeça me deixando demente, os médicos não conseguem me salvar.

nunca mais poderei ouvir música e entender o que estou ouvindo

nunca mais poderei escrever.

 

como ela ficou desse jeito? – perguntariam pro infeliz que estivesse cuidando de mim, provavelmente um enfermeiro.

ela caiu no banheiro molhado, foi virar o disco que estava no quarto e

caiu.

– que tragédia. – diriam. – uma coisa que daria pra evitar,

não é mesmo?

 

parece evitável, claro, seca o pé, coloca um chinelo. mas é fácil falar que uma coisa é evitável depois que ela já aconteceu.

essa minha vitrolinha azul. era um grande sonho, ter uma.

agora que ela está aqui

é só mais um objeto

fechado

quase que o tempo todo. quando eu fui para a Itália

foi assim também.

eu tinha um sonho

 

quero ir pra Toscana – eu dizia. – tem coisas que

só acontecem por lá.

 

juntei meu dinheiro por

Anos.

quando fui,

logo no primeiro dia, eu estava de óculos escuros e chapéu, um Dobermann

segurado por uma dona que não parecia saber o que estava fazendo,

quase me atacou.

se ele me atacasse

seria um cavalo entrando mim, eu morreria em segundos

numa rua

sem saída

meu corpo despedaçado no chão.

 

é brasileira? é,

Brasileira. – os italianos checariam

 

e a burocracia de me mandar morta de volta pra casa.

ainda bem que o cachorro não me pegou. percebi que ele queria que eu corresse mas eu não corri, então ele

não me pegou.

no dia seguinte, já mais calma, eu fui conhecer a torre de pisa.

de perto, por dentro,

e de longe comendo uma pizza na hora do almoço, um calor dos infernos.

ela é muito torta. realmente muito bonita e

torta

a impressão que dá é que ela vai desmoronar a qualquer instante e isso não passa. lá dentro, subindo as escadas pra chegar no topo,

dá tontura como se a pessoa estivesse de pé numa roda gigante.

é bonita, a torre de pisa. Original,

ela nasceu do erro de um arquiteto

e se não fosse pelo erro

ela não seria tão famosa.

segui comendo minha pizza

não sem certa melancolia de estar observando a torre tão de perto, a gente fica um pouco triste quando finalmente consegue o que queria,

a gente fica pensando E Agora? o que mais.

então minha mãe me ligou.

sua voz parecia a de alguém que estava tão próximo de mim quanto o garçom, o telefone é algo mágico.

 

oi filha. como está tudo aí?

-triste e lindo, e claro muito menos expressivo do que eu imaginava.

a realidade e a gente se acostumando com ela, né mãe.

não importa quão boa

ou ruim ela seja

estranhamente a gente se acostuma.

a senhora não acha isso

Extraordinário?

– o que você disse, filha? a ligação tá cortando.

– nada não. só que está tudo bem por aqui.

– estou com saudades, querida. se cuide, hein.

um beijo.

 

também com isso a gente se acostuma

com a falta que alguém nos faz

e também nos acostumamos com ter a Consciência de que nos adaptamos a qualquer situação, nos acostumamos tanto ao ponto de

perder essa consciência

até que tenhamos o insight mais uma vez

percebendo que viver

sempre é diferente de

sonhar em viver. sonhar é Longo

viver o sonho é

gozo, com aqueles minutos estupefatos e

pronto, rapidamente os casais voltam a se odiar.

ganhar um Oscar deve ser mais ou menos assim.

na primeira noite ninguém dorme, amigos e primos distantes telefonam dizendo parabéns, pensando um pouco neles também, nas oportunidades que podem surgir pra eles a partir de Você.

na terceira noite

é um pouco mais fácil, o frio na barriga é quase um eco.

na quinta noite você já se lembra mais daquele encontro que terá amanhã do que do seu aplaudido discurso

e quando passa 1 ano

sua estatueta espirra

com o pó na prateleira que você gastou uma nota pra fazer só pra apoiá-la e agora

nem pano,

então por que? vende-se tão bem essa ideia de

Felicidade,

nas propagandas de fim de ano,

nas fotos de

revista,

se acabamos sempre voltando para aquele estado

neutro, conseguindo coisas, perdendo outras,

e se acostumando com o cenário de tal forma que

ele é você.

 

 

 

 

(cai o pano. fim do primeiro ato)

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