antes de dormir

fim do dia, deitei na

cama,

do banho restavam algumas gotas no meu ombro, nas minhas

costas. apaguei as luzes de casa e

tudo dormiu instantâneo,

apesar dos cômodos, do peso dos cômodos, uma casa não pensa

antes de dormir.

como um cão ela se apaga

volta a se abrir quando a janela levanta, a janela que é a pálpebra

de uma casa. Invejo isso,

e invejo aquelas crianças da rua da frente

brincando de pular uma corda imaginária, hoje eu

quase vi a corda

se eu me concentrasse um pouco mais nos pulos eu

veria a corda, tenho certeza, mas estava ocupada e não pude

continuar ali.

antes de me deitar

terminei o livro só garotos da Patti Smith.

assim que li a última frase

me veio aquela tristeza

típica de quando eu termino um livro, isso porque ainda que eu

possa lê-lo mais uma vez,

nunca mais poderei lê-lo pela Primeira vez.

– sinto inveja dos jovens, – um escritor me disse. – inveja deles lerem esses clássicos

(eu estava com o velho e o mar do Hemingway nas mãos)

pela primeira vez. o choque inicial, nada se compara a ele.

descobrir que no mundo existem coisas assim

e que você estava vivendo seus dias sem nem imaginar que existia.

a ingenuidade e perdê-la,

pouco a pouco,

esse é o tempo mais precioso da vida.

espero que o seu tempo de descoberta se arraste pelos anos.

espero que você não perca rápido a sua

ingenuidade.

fiquei lembrando desse dia,

desse conselho improvisado,

que de alguma forma se conectou com o meu dia de hoje.

deitar na cama pra mim nunca é só encostar a cabeça no

travesseiro

fechar o olho e dormir

é também fechar o olho e lembrar

de como foi o dia, este agora que morrerá como realidade a partir

do momento em que eu me entregar ao sono, o limbo do sono,

que fica entre o que passou e o que virá.

é claro que

alguns dias ficam

mas a maioria deles

morrem

em nós, os dias comuns morrem, às vezes 1 dia em especial fica

guardado na memória de um amigo

que quando vai conversar com você te conta,

– lembra? quando subimos naquele muro?
e passou um moço correndo
ele pensou que a gente precisava de ajuda.

e você não se lembra, apesar do esforço, é como se ele estivesse

falando de outra pessoa. mas o importante é que alguém se

lembra, enquanto alguém se lembrar, o tal dia segue vivendo.

o meu de hoje, apesar de

comum,

sinto que ele

não morrerá. aconteceu uma coisa

no meu almoço

eu estava com tanta fome, pensei que ia desmaiar.

enquanto o prato não chegava

comecei a prestar atenção no que era a Fome no corpo

é um oco

tão grande na barriga

parece que não sobrou órgão nenhum ali, a fome comeu os órgãos,

é carne também, não?, um rim, o útero,

e esse oco sobe

pela garganta

culmina num bocejo constante que é uma espécie de equilíbrio do

corpo pra engolir um pouco de ar e impedir o desmaio. conforme fui

reparando nos sintomas

minha fome foi ficando mais intensa, dar atenção à coisa piora

a coisa,

não é isso que dizem? ignora que passa. um conselho que a gente

escuta desde criança.

sentindo a fraqueza até nos ossos,

pensei que se eu morasse na rua

ou me perdesse numa floresta

eu não aguentaria mais que 2 ou

3 dias, ao mesmo tempo que me sinto invencível. prestei atenção

num gato semana passada. ele

era assim também. ao pegá-lo no colo o senti delicado em pouco

peso

e ao mesmo tempo algo nele era tão desafiador

algo nele era um aviso

as garras da pata

um quê de cobra no rosto.

meu prato chegou.

o restaurante já estava fechando

só tinha a minha mesa e mais uma, pedindo a conta.

dei a primeira garfada no peixe

depois outra

lentamente a sensação de fome foi se espalhando até que

aconteceu o inesperado:

1 choro

começou a me escorrer pelos olhos

sem que eu pudesse controlar, aquilo descia

de qualquer maneira, aquilo tinha

uma força própria.

eu engolia o peixe

e chorava

o oco da garganta virou engasgo.

ainda bem que os garçons estavam

de costas guardando garfos,

ainda bem que a única mesa que tinha gente já não tinha mais.

quem me visse chorando

pensaria que morreu alguém que amo muito.

morreu o peixe

mas eu não comia o peixe e pensava que ele era um ser vivo no

mar que tinha uma vida boa até ser caçado,

eu via o prato como comida pura

e simplesmente, não estava chorando pelo peixe. era pela fome

que passei? e o alívio que senti com a fome passando,

não, também não era isso.

pensando agora, do travesseiro,

acho que aquilo foi um choro guardado

costumo me guardar

porque nunca parece ser o momento ideal de soltar um choro

trancado, deve ser

por isso que ele escorreu assim, sem o meu consentimento, eu

nunca daria o consentimento pra ele cair.

chorar demais

se parece com sentir fome

um vazio parecido

minha água salgada do olho caia no peixe

é um pouquinho de mar

pra ele

matar a saudade de como era a sua vida antes de morar no meu

estômago.

quantas coisas precisam morrer diariamente pra que a gente não

morra? coitado do peixe, meu deus, acho que eu chorava por ele

também.

ele não escolheu ser peixe e sendo 1

tampouco escolheu virar alimento de alguém,

o que me torna melhor do que ele pra comê-lo assim? senti a

fronha úmida, a cama úmida do banho, o choro estava

acontecendo de novo.

sim,

esse dia de hoje apesar de

comum

vai ficar na minha memória. vou abrir uma Pasta. vou chamá-lo de:

o dia em que perdi mais um pouco da

minha inocência,

com o tempo esse dia vai se misturar com outros, por isso a Pasta,

já que perder é um exercício diário.

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