tentativa n. 5

não somos amigos.

quando acontecia da gente se trombar

como hoje ali na esquina do mercado, os dois com sacolas nas mãos,

conversávamos apenas sobre coisas possíveis

rapidamente como são os encontros casuais.

 

-tudo bem? – eu disse o cumprimentando sem

beijo

já familiarizada com a nossa falta de intimidade

achando até bonito

conversar com alguém que conheço pouco, era como andar por um rio congelado

a profundeza dele, os acúmulos,

ficam para uma outra

estação.

uma vez numa festa

conversando com algumas amigas eu

comecei a falar sobre perdas, as minhas perdas no romance que eu estava escrevendo e uma delas

enchendo o próprio copo de vinho

reclamou que assunto estava pesado demais.

 

tudo e você? – ele respondeu. – tá na correria?

– nem me fale. (engraçado que minha vida nunca foi corrida.

nada me acontece

e quando acontece é sem susto algum. claro que dizer isso poderia soar como algo depressivo demais. por isso eu minto quando converso. porque é sempre mais fácil inventar

do que explicar)

 

– as horas estão passando muito rápido. – ele comentou.

– é verdade. pra resolver isso eu fiz um trato comigo mesma.

– ah é? qual?

– eu não olho mais pro relógio

a não ser que eu tenha que tomar um remédio por exemplo, aí

eu olho, ou se eu marcar um horário com alguém. tirando isso

não olho mais.

-também não olha a temperatura, né? um frio desses e você aí sem blusa.

 

eu sempre deixava minha blusa em algum lugar fora de mim,

era meu jeito de mostrar a pele quando ninguém mais estava mostrando.

como disse bukowski num poema ou numa entrevista, wherever the crowd goes run in the other direction.

 

-quer meu casaco?

-não tô com frio, obrigada.

 

sorrimos.

dei um passo a frente

já com a boca abrindo num até mais quando ele me disse:

 

-você não quer tomar um café?

-um café? – estranhei. será que teríamos

estofo

pra sentar 1 de frente

pro outro e dizer coisas que passassem da fase trivial de desconhecidos que são

muito diferentes entre si mas

em algum lugar por dentro

sentiam um certo

arrepio nas costas quando se olhavam fixamente.

 

–pode ser. – respondi.

 

caminhamos até o café.

escolhemos uma mesa na parte de fora apesar do frio, ele queria fumar

perguntou se tudo bem sentarmos ali e me ofereceu o casaco de novo.

aceitei, pra sentir o cheiro dele,

era uma mistura de musgo

com nicotina.

ele ficou me olhando com a jaqueta.

 

-como tá a loja? – perguntei, desviando. ele me disse uma vez que tinha uma loja de esportes.

 

tá mais ou menos. o que mais vende são os suplementos, a galera que treina não deixa de tomar. agora roupa, tênis, essas coisas

tá vendendo muito pouco.

 

– que pena. deixa que eu pago o café então.

 

ele riu dizendo que não era pra tanto.

ficamos em silêncio, ele fumando o cigarro, eu olhando pra cidade.

aquele encontro estava

frouxo como eu imaginei que seria.

ainda assim,

aquele sujeito tinha um olhar que me atravessava.

 

me vê um expresso por favor? – ele pediu.

-dois.

 

o garçom se afastou.

 

você continua escrevendo?

-Claro.

 

(essa pergunta sempre me ofendia.

como pode alguém pensar que eu não estou escrevendo? por acaso não fica evidente? o quanto a escrita é tudo o que tenho)

 

firme e forte?

-você pensa que sou uma entusiasta?

– não, estou brincando. eu sei que você leva bem a sério.

-engraçado que eu nunca te perguntei se você ainda é atleta. porque eu sei que você é atleta, eu vejo no seu corpo, no jeito que você senta.

 

o garçom se aproximou com os nossos cafés. colocou 1 pra cada, o açúcar no centro.

saiu.

 

– você ainda escreve sobre aqueles temas mais quentes?

– quando surge na história sim.

eu gostava muito de ler aqueles seus textos mais quentes. você falava umas coisas. eu entrava sempre no seu blog pra ler as novidades.

-humn.

mas agora parece que você virou uma escritora séria.

– cê tá dizendo que escrever sobre sexo não é sério?

– você entendeu.

-não, não entendi.

-eu só tô dizendo que fico com saudade de te ler mais quente, só isso. uma mulher bonita escrevendo sobre sexo

é sempre excitante.

 

me levantei.

 

-onde você vai?

é impressionante como você reduz tudo ao pó. detesto quando as pessoas transformam um assunto filosófico como o sexo em punhetas pessoais. sabe o que eu já tive que ouvir de homens como você? que o que mais interessa no meu texto

é o meu rabo. o melhor da sua literatura é o seu rabo, o cara me disse em tom de elogio.

eu gostaria de saber que homem no mundo já ouviu isso de alguém. por pior que ele escreva, por mais cenas de sexo que ele tenha em seus livros, qual deles já escutou que o mais importante do trabalho que eles fazem é o pau que eles têm no meio das pernas?

 

saí sem pagar meu café, esqueci também das minhas sacolas. lembrei no meio do caminho, mas não voltei atrás. pelo contrário,

aumentei meu passo

tanto que

acabei numa corrida

de volta pra casa.

começou a garoar, uma garoa tão fina,

parecia que eu estava imaginando.

e pensar que eu cheguei a me sentir atraída por esse idiota. eu devia ter sacado logo

não era normal aquela nossa falta de assunto, aquele incomodo.

não sei por que ainda me arrisco

tento um café e tento uma vida

mais na superfície das coisas. isso são as minhas amigas em mim me perguntando toda hora se eu finalmente arrumei um namorado, se eu vou casar um dia, minha mãe perguntando, minha vó 5 filhos perguntando, meu pai preocupadíssimo. só meu peixe não pergunta

meu peixe que

quando cheguei em casa

estava no fundo

do aquário.

dei uma leve batida no vidro. depois outra.

está morto, pensei,

e peguei uma peneira. mais essa, pensei,

e quando fui tirar o corpo

o peixe se mexeu.

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estudo de monólogo para uma peça em três atos

(terceiro ato)

 

 

 

nasci com manchas na pele

meu tempo no útero não me fez bem.

as pessoas podiam desvestir uma flor pra nascer, imagine que rápido, ou pular do olho de um peixe,

o médico explicou que a minha mãe menstruou em mim.

pra sarar

eu tive que tomar banho de Luz no hospital. minha mãe avisou com raiva

que não sairia de lá sem mim quando a enfermeira disse a senhora já pode ir pra casa.

assim que nasce um filho

as mães ficam mais próximas da natureza de um tigre, a minha ficou selvagem me esperando por dias, me olhando do vidro com o terço nas mãos.

não era de morrer, o que eu tinha. ainda assim aquilo entristecia a minha mãe profundamente, acabava com ela ver o próprio bebê Encubado, aquilo parecia ser um mal sinal.

 

– devo ter feito alguma coisa errada. – ela chorava pro meu pai. – meu útero deve ser muito ácido.

não, não. – meu pai respondia. a conhecia bem

por dentro

e nada nela lhe parecia ácido.

a gente

ficava junta só pra ela me amamentar, depois eu voltava pra Luz.

demorou 2 semanas

pra eu ficar boa. então me liberaram, meu pai abriu a porta de casa

minha mãe comigo

no colo

umas olheiras enormes.

eu não me lembro de nada,

minha mãe me contou que

eu dormia demais.

um bebê morto

e um bebê com sono

não são tão diferentes assim.

por isso minha mãe ficava

colocando o dedo debaixo do meu nariz

eu tenho o cheiro do dedo dela guardado em mim.

fui filmada, quando bebê,

meu pai tinha um amigo que adorava pensar em si mesmo como um artista. ele usava boina e estava sempre filmando as coisas com ar de documentarista. narrava em off o que estava acontecendo enquanto filmava, eu olhava pra ele encantada.

assisti o vídeo um dia desses. achei a fita fazendo faxina e parei a faxina pra assistir. sentei no sofá, cobri as pernas com uma manta.

me vi bebê

com um casaquinho de tricô, as bochechas rosadas.

eu não queria sair da cama e o amigo do meu pai dizia atrás: ela não quer sair da cama.

demorei pra aprender a andar, minha mãe me contou,

devia ser uma intuição

de que aprender a andar

era deixar algumas coisas para trás, era começar a perder e

se acostumar com isso. minha mãe me chamava

 

-vem filha.

 

e eu segurava no lençol com a maior força como quem diz não quero ir, lençol, me ajuda,

o rosto concentrado,

um bebê que mal percebo ser eu.

quando finalmente comecei a andar

minha mãe notou que meu pé

era torto, eu pisava muito aberto.

me levou no ortopedista.

ele analisou a chapas levantando-as contra a luz.

 

uhum. – ele disse.

 

e eu tive que usar uma bota ortopédica

por 4 anos o tempo da faculdade do meu pai.

a bota

travava meus movimentos como se eu

fosse tímida

tinha um tênis da moranguinho

com cheiro de morango que eu Queria usar,

 

 

-não pode, filha. você tem que usar a botinha.

 

 

quando passava na tv a propaganda do tênis

eu dançava

sonhando com o dia de tirar as botas pra sempre.

algumas crianças riam de mim, na escola. eu ria com elas

não entendia que era de mim. e odiava fotos, toda vez que minha mãe me arrumava para tirarmos fotos aquela botinha não combinava com nada.

descíamos pelo elevador de mãos dadas até a parte de fora do prédio

onde tinham algumas árvores.

eu gostava das árvores

e gostava de descer com a minha mãe de mãos dadas

mas na hora da foto a câmera me olhando eu emburrava de um jeito

em todas as fotos que tenho criança

parece que eu estou mastigando um cravo.

mais pra frente

quando eu tinha 5 anos e já sem

a bota

eu gostava de brincar de boneca

cultivava barbies, regava elas, a gente usava o mesmo shampoo pra crescer.

eu também gostava de música

especialmente no rádio, decorava as letras pra quando tocasse de novo (e eu nunca sabia quando tocaria de novo, a graça nascia daí)

eu pudesse acompanhar cantando com o corpo também.

aquilo me deixava muito feliz

porque tinha os aplausos do meu avô que estava temporariamente morando com a gente.

 

a vó e o vô estão bravos 1 com o outro. – a minha mãe explicava.

 

meu avô era tão alto que mal cabia no sofá.

nessa época

entrei numa escolinha inglês. a professora tinha os olhos puxados mas não era do Japão.

anos depois comprei um casaco

de veludo

igual ao que ela usava. me senti melhor olhando no espelho, mas logo passou.

minhas aulas de inglês

tinham músicas

eu gostava de cantar e dançar as músicas

apontando para a parte do corpo que eu estava aprendendo a palavra em inglês.

um dia mostrei pro meu avó a dança

e ele foi colocando a mão

em cada parte do meu corpo

junto comigo

cabeça ombro joelho e pé

joelho e

ele colocava as mãos até onde não tinha na música

me jogava no sofá e

apertava todo o meu corpo fazendo cócegas.

eu tinha vontade de rir ao mesmo tempo um incomodo

uma semente me brotando

atrás da orelha.

eu andava de carro

com o meu Outro avô e era tão diferente. com o meu Outro avô

eu colecionava nuvens

e os animais que moravam nas curvas das nuvens.

sentava em cima da maleta dele

para ficar mais alta no banco de trás

e guardava em mim as coisas do céu, quando escurecia

um pedaço de lua, o som da chuva um pouco antes dela cair, a estrada com pontinhos amarelos no chão dividindo quem vem e quem vai

até que eu pegava no sono, cantava algumas músicas durante o sonho que a minha mãe tinha me ensinado

aquela do sabiá na gaiola fez um buraquinho a favorita.

já com o vô que morava na minha casa

com ele eu

não sentava na maleta (ele não tinha maleta)

meus pais trabalhando

era meu vô que cuidava de mim.

 

o vô cuida. – ele dizia com a boca perto

 

me botava no colo dele e fazia cavalinho.

uma coisa

me ardia no peito, um medo, um abandono de mundo.

até que um dia eu estava de pijama e ele

abaixou o meu pijama.

ficou me olhando e no olho dele eu lembro, tinha faísca.

no dedo dele não, o dedo era seco,

 

imagina que é um pirulito.

 

fechei o olho,

ele também.

senti uma boca me percorrendo

a língua áspera, nunca ninguém tinha caminhado por mim assim.

me senti desmanchada

desmanchando

morta um pouquinho

e uma vontade de fugir

uma vontade de correr

por esse mundo

só parar quando chegasse de frente para um lugar que fosse longe

tão Longe que eu não saberia se é

neste planeta

talvez não fosse

era bonito demais

uma mistura de

poesia com lago e teatro e baleias além do que já era tarde, acabou ficando

um pouco tarde

pra voltar.

 

 

 

(a atriz deita no centro do palco em posição fetal.

 

Blecaute)

 

 

 

contagiosa marlene d.

 

vi a Marlene pintando num pequeno vídeo.

era vigoroso

era com os

dedos, alguns detalhes,

as texturas das tintas pareciam bexigas sem o voo.

o estúdio dela

tinha um chão de ardósia,

quando criança eu brinquei na ardósia

montei casinha no piso gelado que de vez em quando servia como terra

outras vezes oceano

meu corpo um navio as bonecas em cima, seguras como deve ser.

pintando

a marlene não usava mesa

a mesa que tinha no estúdio era coberta por revistas de pessoas nuas

polaroides nas paredes

a imagem, a imagem

e a marelene trabalhando muda.

 

– estou escrevendo um livro que precisa de uns

desenhos no decorrer da história. – fiquei com vontade de dizer, mas

como?

se a marlene morava num Vídeo.

quem dera eu pudesse andar

pelas ruas dos vídeos

e trombar com a Marlene tudo filmado.

que ela gostasse de mim é só o que peço, que ela aceitasse tomar um café comigo pra conversarmos sobre

arte.

eu preciso tanto de uns desenhos expressivos como os dela

meu livro se passa dentro da cabeça de um menino sufocado

pelo peito

da mãe

o leite morno escorrendo na garganta

e de repente vem o Pai

numa noite que o menino

fingia sono

e chupa os peitos da mãe com outro

propósito. intuitivamente o menino entende

o propósito.

quer matar o pai.

planeja isso, é aí que entram os desenhos no livro.

nos traços de marlene

eu vejo o ciúme que existe dentro de um menino de 5 anos

que não sabe o que é morte

ele sabe só que não quer mais o pai

ali na mãe chupando as tetas

eu vejo nos desenhos de marlene a família

que se detesta porque se ama

nos mínimos detalhes tão

cruéis.

 

não falo com a minha irmã há séculos. – a Marlene me diria. – não sei se ela está viva. é bem mais velha do que eu e tem problemas respiratórios,

sempre teve.

uma vez eu pintei a asma dela. vendi o quadro por 10 mil dólares.

 

minha mãe também. – eu diria. – não fala com os irmãos há séculos. nem meu pai. as pessoas não se amam na minha família.

 

em nenhuma, querida. as pessoas não sabem o que é o amor. tem uma vaga ideia

totalmente falsa. quando as pessoas se relacionam com outras ficam possesivas, querem exclusividade, se sentir especiais. não amam ninguém, apenas se preocupam com suas imagens.

o ser humano é muito Vaidoso

e praticamente mais nada além disso,

chegam ao ponto de pensar em deus como um pai, imagine só. e dão nome pra deus,

chamam de:

Deus.

e escrevem livros, rezam missas, têm certezas. eu não consigo entender.

por isso que pinto. porque

não entendo.

 

isso fica claro nos seus quadros, Marlene, é o mais bonito deles.

eu olho pra eles e ainda sinto o cheiro da tinta. você não esconde

as horas pensando, as dúvidas, as questões filosóficas de existir

e criar.

mas tem alguns artistas que gostam de fazer parecer fácil.

 

são uns idiotas.

 

fazer parecer fácil também carrega uma certa magia.

 

– faz você.

 

– o que?

 

– os desenhos que você precisa pro seu livro.

é urgente?

 

-em que sentido?

 

-você tem tempo pra fazer o livro?

 

-tenho, claro. na verdade eu tenho todo o tempo do mundo. ninguém sabe que o livro existe.

 

-então pinte você mesmo. pegue uma folha, umas cores. é como dançar.

todo mundo já fez isso quando criança.

 

-meu personagem é uma criança. e as pinturas seriam como se ele estivesse as feito. ou melhor

como se ele estivesse olhando praquilo, pros desenhos,

porque tem muito do que somos no jeito que olhamos pras coisas que existem. interpretar uma obra é uma espécie de espelho.

 

– você tem que entrar então na tua parte da cabeça em que a criança ainda está.

na verdade você tem que sentir se ela ainda está na cabeça. nos adultos

geralmente a criança migra pra barriga.

e desenhe no chão, não use mesas. fiquei descalça, coma comidas que você daria para um filho. pra chegar num traço interessante

você precisa da infância.

 

– tenho a impressão que a gente sempre precisa da infância.

as pessoas chamam as crianças

de inocente, são pequenas formas de vida

as pessoas esquecem da potência interna que sentiam

quando foram crianças

e subestimam os seres pequenos, dizem: que fofos, eles não podem ficar sozinhos, precisam de mãos,

de cuidados,

batem neles quando não obedecem, forçam banhos, horários.

particularmente eu não acredito que se uma criança ficar sozinha com outra elas morrem porque são frágeis. se morrerem

elas morrem pelo contrário, por se arriscarem demais

por terem mais peito juntas as duas

do que uma sala cheia de pessoas adultas fumando e conversando numa festa.

eu acredito que desse convívio só de crianças

sairia um jeito único de domar o cotidiano, uma nova matemática da vida, elas reinventariam a nossa existência se tivessem a liberdade sem o medo dos pais.

uma cidade vazia para as crianças e a gente assistindo. meu deus, como aprenderíamos.

 

a marlene deu um sorriso concordando.

 

não deixe de tentar o desenho. – ela disse em despedida, apertando a

minha mão – ninguém fará o que está na sua cabeça melhor do que você.

 

 

 

horas depois

e já em casa

percebi um invisível me

nascendo,

uma loucura que não era minha, um apego por imagens.

fui me deitar um pouco,

não estava com medo. deitei pra

espalhar aquilo

que deve ter me entrando

pelo aperto de mãos com Marlene.

um mamífero

me despontava pelas

costas

um pouco de menino querendo leite na minha boca

é capaz que amanhã eu já consiga

esboçar alguns desenhos.

estudo de monólogo para uma peça em 3 atos

 (segundo ato)

 

 

um texto meu

está sendo lido agora na Filadélfia

numa espécie de sarau gringo, os organizadores esperam que ele tenha uma boa recepção.

minhas coisas

estão começando a dar

certo

será que estou pronta? não me sinto pronta,

me sinto como sempre estive, uma menina tentando.

é até engraçado

pensar que em algum lugar do mundo

há pessoas que estão ouvindo o que um dia eu escrevi em cima de uma tábua de passar roupa

alta demais pra ser uma mesa de trabalho e

não estão fugindo dali.

escrever é tão

solitário que quando vejo gente

não sei direito o que fazer, pra que lado olhar, principalmente o tom de começar uma conversa sem ofender ninguém.

nem sempre a minha vida foi assim. houve um tempo que eu trabalhava cercada por pessoas e respirava normalmente, me habituei àquilo, na época que eu fazia teatro.

costumávamos ensaiar na casa de uma menina do grupo, uma casa grande em mogi das cruzes, ela morava ali com os pais.

quando cansávamos

atravessamos a rua em busca de pães para o café da manhã

sem manhã

tudo escuro pro ensaio

as cortinas fechadas da sala

porque a peça era noturna e os ensaios tinham que ser também.

um dia sentamos numa roda pra conversar sobre bobagens, estávamos abertas pra isso, pra sermos pessoais.

nossa amiga dona da casa começou a contar do namorado

os dois trancados por horas num motel.

 

eu olhei pra cima e vi meu corpo no espelho. – ela disse.

inacreditavelmente

naquele dia eu estava me sentindo bem. vi minhas curvas, aquela bunda enorme,

meu cabelo jogado no travesseiro e

me achei bonita, meu namorado dormia nos meus braços.

 

eu sorri com aquela imagem

mas não tinha nada em troca pra contar. naquela época eu não fazia ideia do que era sexo,

não imaginava como ficava o corpo quando duas pessoas que sentem tesão uma pela outra ficam nuas num mesmo quarto.

eu achava que sexo era violento

e libertador

eu achava que com alguém entrando em mim não daria pra prestar atenção em mais nada

mas eu presto atenção em várias coisas durante o sexo,

no teto, por exemplo, e no contorno do corpo da pessoa que está comigo

tão vulnerável e suada, tão íntima.

o que faz essa pessoa querer entrar em mim? eu me pergunto,

e reparo na cor do chão também, nos sons involuntários do corpo,

na temperatura do quarto

e depois no úmido que fica nos lençóis.

fico tentando lembrar da primeira vez que gozei

o primeiro homem que me chupou.

ah sim.

acho que me lembro dele

e do dia

estávamos apoiados na parede nos beijando num apartamento vazio.

ele tirou a minha calcinha

e colocou a língua lá. quase dei um pulo

depois fiquei com vontade de escorregar pro chão.

era morno aquilo

bem macio

era como se a língua fosse feita pra isso. meu vestido cobria a cabeça dele, eu só via o tronco ajoelhado

e sentia a língua rodando

também as mãos

dele segurando

a minha bunda como se eu fosse um prato de

sopa. as Minhas eu coloquei no topo da cabeça dele

depois por dentro do vestido

perto da boca

pra sentir também com os dedos aquele milagre em mim.

meus deus que dia.

que Descoberta o rosto dele colado no meu sexo

quase entrando

quase um filho

querendo voltar pro útero.

fui discreta, na primeira vez que gozei. não dei espaço pro prazer no corpo, não me esparramei no gozo como faço agora. sentia medo

do meu cheiro não ser confortável, o nariz dele enfiado ali.

me esfregava com sabonete até assar toda vez que nos encontrávamos, queria perguntar abertamente pra ele sobre o meu cheiro mas

não encontrava como.

me sentia assim tão Insegura

por conta de um menino do colégio que gostei.

faz bastante tempo, mas eu nunca esqueci. foi um caso clássico, gostei de um garoto que não dava a mínima pra mim. a gente devia ter uns 13 anos

e claro que eu não era do grupo dele, meu grupo era o das meninas consideradas feias demais para serem divertidas.

um dia, não me lembro como,

eu consegui beijar o menino

no estacionamento de um restaurante.

ele devia estar bêbado

ou aquilo era uma aposta entre amigos.

na segunda feira

ele me chamou no canto

e disse que eu beijava mal, que eu tinha bafo. e disse também que se eu contasse pra alguém que tínhamos ficado

eu não ia aguentar a pressão.

 

certo. – eu disse

 

e nasceu ali meu medo de não cheirar bem.

comecei a mascar chicletes compulsivamente

lotava de pasta a escova

de dente, mas tudo isso não foi o bastante pro menino me deixar em paz. ele começou a me xingar na escola

dizer pra todo mundo que eu parecia um

sapo

que eu era feia como um sapo e o apelido pegou.

aquilo me humilhava ao ponto de eu sair da aula pra me olhar no espelho,

queria ter certeza que eu não tinha me transformado num anfíbio

de tanto que as pessoas me chamavam de

sapão.

isso

me machucava mais do que se eu

apanhasse dele

como eu apanhava da minha mãe. ela parou de me bater quando ficou grávida, não tinha forças. mas depois que nasceu a minha irmã ela voltou com a mão pesada no meu cabelo

na minha cara

seu queixo duro de ódio

seu corpo rígido e pequeno. eu tinha que cuidar da minha irmã

como uma mãe

eu só podia sair com as minhas amigas depois de dar banho na neném, dar janta,

depois que ela já estivesse dormindo, mas aí

já não dava mais tempo

aí o filme já tinha acabado.

se meu pai não estivesse em casa, se ele estivesse viajando como ele sempre estava

a trabalho pra pagar as contas de escola, comida,

eram tantas e tudo caro,

eu tinha que ficar em casa enquanto ele estava fora

cuidando da minha mãe

e da minha irmã.

até que eu comecei a fazer

Teatro (o primeiro poema que escrevi se chama A Fuga e é sobre

teatro)

pra entrar na vida de alguém que não fosse eu.

eu sentia que ser eu

era ser a pior pessoa do mundo. ainda me sinto assim, a diferença é que agora eu disfarço melhor.

um dia

e não faz muito tempo

uma amiga minha na sua festa de aniversário quis pegar um álbum de fotos nossas, somos amigas de longa data.

a festa estava cheia.

Implorei não pega

e pelos olhos dela percebi que ela sabia

que eu não queria que as pessoas descobrissem que eu tinha sido

muito feia na adolescência, vergonhosamente feia.

já passou, ela parecia me dizer,

ela que sempre teve o rosto de um anjo.

e eu

com as minhas olheiras

a cara inchada

oleosa dos alcoólatras

mas eu tinha 13 anos

e ainda brincava de boneca, aquele rosto pesado era culpa do meu avô.

vou pegar, ela disse com um sorriso.

gritei não internamente

o rosto tentando disfarçar

o tanto de medo e agonia que eu sentia em prever aqueles olhos da festa me julgando, as pessoas levam a feiura muito a sério, o riso delas dura anos.

aquelas fotos

eram mais do que o registro de ter sido

feia

aquelas fotos eram a humilhação voltando

sapo babalu

masca chiclete pra disfarçar o bafo

e outras musiquinhas que não acabavam mais

numa época que a gente precisa

desesperadamente ser amada, 13,

14 anos e eu no chão a escória da escola

 

não acredito

que você ficou com ela,

você? com ela?

 

eu queria morrer e ao mesmo tempo eu sabia

que a minha vida não podia continuar assim pra sempre, uma horaela tinha que melhorar.

finalmente minha amiga trouxe o álbum, veio caminhando pela sala com ele nas mãos.

as pessoas da festa abriram aquilo

e começaram a virar as páginas.

eram fotos grandes, aqueles álbuns de capa dura.

 

– nossa, – me disseram.

mas você não mudou nada.

 

-não mesmo. – disseram. –tá igualzinha.

 

escutei aquilo e

de repente Entendi

de repente tudo ficou claro

por mais máscaras que eu use

por mais que o Tempo me diga calma vai passar

não adianta,

nada adianta,

ao menos que eu me Mate a pessoa que sou não descola de mim.

 

 

(cai o pano. fim do segundo ato)

estudo de monólogo para uma peça em 3 atos

eu quis tanto uma vitrola. assistia filmes sobre literatura e jazz

e a vitrola estava sempre lá, no quarto do personagem principal, tocando um disco que nunca se sobressaia ao ambiente, pelo contrário,

se misturava

e se tornava algo tão natural quanto o Ar.

aquilo

fazia parecer que a vida doía menos nas pessoas do filme, a música se ajustava perfeitamente aos passos delas

entrando em lugares, restaurantes, cafés, cumprimentando velhos conhecidos

ninguém ali era indesejado ou sentia inveja,

tudo simplesmente fluía, os espaços, as

pessoas.

mas agora que eu tenho uma vitrola (ganhei de aniversário e

faz um tempo que tenho)

mal ligo.

é porque ela não fica perto da tomada, eu penso, tentando me

Enganar, é porque eu não tenho uma mesa,

não cabe uma mesa apropriada aqui nesse apartamento minúsculo.

o pior

é que eu tive que colocar meus discos em cima da vitrola, fazer uma pilha deste tamanho,

aí você imagina o trabalho que eu tenho pra encontrar 1

eu preciso espalhar todos pelo chão já que claro, o disco que eu quero nunca está no começo da pilha

geralmente

está por último.

pra ligar a vitrola

eu preciso colocar ela em cima da cama, tirar os travesseiros, tirar o meu cachorro

ou botar ele pro lado, pesado e preguiçoso como é,

querendo me morder toda vez que o levanto, é como se ele dissesse tira

a mão de mim,

pra então finalmente eu ouvir

o disco,

que termina

estranhamente rápido em

5 ou 6 músicas.

além do mais

ouvir um disco em casa

é tão diferente de ouvir num filme, no filme tem um contexto que

me interessa muito mais do que a minha própria vida,

não me leve a mal.

sou grata pelo que tenho, mas

Cansa, entende? ser a mesma pessoa pela vida inteira.

as pessoas mudam, você me diria.

é verdade, mudam,

só que não o suficiente para as minhas expectativas de mudança,

as vezes eu gostaria de saber como é ser um homem negro de 2 metros

jogando basquete nos estados unidos e isso

é impossível

dentro da realidade de quem eu sou.

não a toa há tantos atores e

suicidas por aí, às vezes até atores-suicidas.

quando acabam as 5 músicas do lado A

eu tenho que Parar de lavar o banheiro, por exemplo,

pra virar o Disco pro lado B,

secar a mão, o pé,

que é bem possível de escorregar nesse chão que parece um lago e a queda,

ah eu já sonhei com a minha queda tantas vezes,

tem dia que ela se parecesse com a Morte

tem dia que ela é um corte profundo na cabeça me deixando demente, os médicos não conseguem me salvar.

nunca mais poderei ouvir música e entender o que estou ouvindo

nunca mais poderei escrever.

 

como ela ficou desse jeito? – perguntariam pro infeliz que estivesse cuidando de mim, provavelmente um enfermeiro.

ela caiu no banheiro molhado, foi virar o disco que estava no quarto e

caiu.

– que tragédia. – diriam. – uma coisa que daria pra evitar,

não é mesmo?

 

parece evitável, claro, seca o pé, coloca um chinelo. mas é fácil falar que uma coisa é evitável depois que ela já aconteceu.

essa minha vitrolinha azul. era um grande sonho, ter uma.

agora que ela está aqui

é só mais um objeto

fechado

quase que o tempo todo. quando eu fui para a Itália

foi assim também.

eu tinha um sonho

 

quero ir pra Toscana – eu dizia. – tem coisas que

só acontecem por lá.

 

juntei meu dinheiro por

Anos.

quando fui,

logo no primeiro dia, eu estava de óculos escuros e chapéu, um Dobermann

segurado por uma dona que não parecia saber o que estava fazendo,

quase me atacou.

se ele me atacasse

seria um cavalo entrando mim, eu morreria em segundos

numa rua

sem saída

meu corpo despedaçado no chão.

 

é brasileira? é,

Brasileira. – os italianos checariam

 

e a burocracia de me mandar morta de volta pra casa.

ainda bem que o cachorro não me pegou. percebi que ele queria que eu corresse mas eu não corri, então ele

não me pegou.

no dia seguinte, já mais calma, eu fui conhecer a torre de pisa.

de perto, por dentro,

e de longe comendo uma pizza na hora do almoço, um calor dos infernos.

ela é muito torta. realmente muito bonita e

torta

a impressão que dá é que ela vai desmoronar a qualquer instante e isso não passa. lá dentro, subindo as escadas pra chegar no topo,

dá tontura como se a pessoa estivesse de pé numa roda gigante.

é bonita, a torre de pisa. Original,

ela nasceu do erro de um arquiteto

e se não fosse pelo erro

ela não seria tão famosa.

segui comendo minha pizza

não sem certa melancolia de estar observando a torre tão de perto, a gente fica um pouco triste quando finalmente consegue o que queria,

a gente fica pensando E Agora? o que mais.

então minha mãe me ligou.

sua voz parecia a de alguém que estava tão próximo de mim quanto o garçom, o telefone é algo mágico.

 

oi filha. como está tudo aí?

-triste e lindo, e claro muito menos expressivo do que eu imaginava.

a realidade e a gente se acostumando com ela, né mãe.

não importa quão boa

ou ruim ela seja

estranhamente a gente se acostuma.

a senhora não acha isso

Extraordinário?

– o que você disse, filha? a ligação tá cortando.

– nada não. só que está tudo bem por aqui.

– estou com saudades, querida. se cuide, hein.

um beijo.

 

também com isso a gente se acostuma

com a falta que alguém nos faz

e também nos acostumamos com ter a Consciência de que nos adaptamos a qualquer situação, nos acostumamos tanto ao ponto de

perder essa consciência

até que tenhamos o insight mais uma vez

percebendo que viver

sempre é diferente de

sonhar em viver. sonhar é Longo

viver o sonho é

gozo, com aqueles minutos estupefatos e

pronto, rapidamente os casais voltam a se odiar.

ganhar um Oscar deve ser mais ou menos assim.

na primeira noite ninguém dorme, amigos e primos distantes telefonam dizendo parabéns, pensando um pouco neles também, nas oportunidades que podem surgir pra eles a partir de Você.

na terceira noite

é um pouco mais fácil, o frio na barriga é quase um eco.

na quinta noite você já se lembra mais daquele encontro que terá amanhã do que do seu aplaudido discurso

e quando passa 1 ano

sua estatueta espirra

com o pó na prateleira que você gastou uma nota pra fazer só pra apoiá-la e agora

nem pano,

então por que? vende-se tão bem essa ideia de

Felicidade,

nas propagandas de fim de ano,

nas fotos de

revista,

se acabamos sempre voltando para aquele estado

neutro, conseguindo coisas, perdendo outras,

e se acostumando com o cenário de tal forma que

ele é você.

 

 

 

 

(cai o pano. fim do primeiro ato)

antes de dormir

fim do dia, deitei na

cama,

do banho restavam algumas gotas no meu ombro, nas minhas

costas. apaguei as luzes de casa e

tudo dormiu instantâneo,

apesar dos cômodos, do peso dos cômodos, uma casa não pensa

antes de dormir.

como um cão ela se apaga

volta a se abrir quando a janela levanta, a janela que é a pálpebra

de uma casa. Invejo isso,

e invejo aquelas crianças da rua da frente

brincando de pular uma corda imaginária, hoje eu

quase vi a corda

se eu me concentrasse um pouco mais nos pulos eu

veria a corda, tenho certeza, mas estava ocupada e não pude

continuar ali.

antes de me deitar

terminei o livro só garotos da Patti Smith.

assim que li a última frase

me veio aquela tristeza

típica de quando eu termino um livro, isso porque ainda que eu

possa lê-lo mais uma vez,

nunca mais poderei lê-lo pela Primeira vez.

– sinto inveja dos jovens, – um escritor me disse. – inveja deles lerem esses clássicos

(eu estava com o velho e o mar do Hemingway nas mãos)

pela primeira vez. o choque inicial, nada se compara a ele.

descobrir que no mundo existem coisas assim

e que você estava vivendo seus dias sem nem imaginar que existia.

a ingenuidade e perdê-la,

pouco a pouco,

esse é o tempo mais precioso da vida.

espero que o seu tempo de descoberta se arraste pelos anos.

espero que você não perca rápido a sua

ingenuidade.

fiquei lembrando desse dia,

desse conselho improvisado,

que de alguma forma se conectou com o meu dia de hoje.

deitar na cama pra mim nunca é só encostar a cabeça no

travesseiro

fechar o olho e dormir

é também fechar o olho e lembrar

de como foi o dia, este agora que morrerá como realidade a partir

do momento em que eu me entregar ao sono, o limbo do sono,

que fica entre o que passou e o que virá.

é claro que

alguns dias ficam

mas a maioria deles

morrem

em nós, os dias comuns morrem, às vezes 1 dia em especial fica

guardado na memória de um amigo

que quando vai conversar com você te conta,

– lembra? quando subimos naquele muro?
e passou um moço correndo
ele pensou que a gente precisava de ajuda.

e você não se lembra, apesar do esforço, é como se ele estivesse

falando de outra pessoa. mas o importante é que alguém se

lembra, enquanto alguém se lembrar, o tal dia segue vivendo.

o meu de hoje, apesar de

comum,

sinto que ele

não morrerá. aconteceu uma coisa

no meu almoço

eu estava com tanta fome, pensei que ia desmaiar.

enquanto o prato não chegava

comecei a prestar atenção no que era a Fome no corpo

é um oco

tão grande na barriga

parece que não sobrou órgão nenhum ali, a fome comeu os órgãos,

é carne também, não?, um rim, o útero,

e esse oco sobe

pela garganta

culmina num bocejo constante que é uma espécie de equilíbrio do

corpo pra engolir um pouco de ar e impedir o desmaio. conforme fui

reparando nos sintomas

minha fome foi ficando mais intensa, dar atenção à coisa piora

a coisa,

não é isso que dizem? ignora que passa. um conselho que a gente

escuta desde criança.

sentindo a fraqueza até nos ossos,

pensei que se eu morasse na rua

ou me perdesse numa floresta

eu não aguentaria mais que 2 ou

3 dias, ao mesmo tempo que me sinto invencível. prestei atenção

num gato semana passada. ele

era assim também. ao pegá-lo no colo o senti delicado em pouco

peso

e ao mesmo tempo algo nele era tão desafiador

algo nele era um aviso

as garras da pata

um quê de cobra no rosto.

meu prato chegou.

o restaurante já estava fechando

só tinha a minha mesa e mais uma, pedindo a conta.

dei a primeira garfada no peixe

depois outra

lentamente a sensação de fome foi se espalhando até que

aconteceu o inesperado:

1 choro

começou a me escorrer pelos olhos

sem que eu pudesse controlar, aquilo descia

de qualquer maneira, aquilo tinha

uma força própria.

eu engolia o peixe

e chorava

o oco da garganta virou engasgo.

ainda bem que os garçons estavam

de costas guardando garfos,

ainda bem que a única mesa que tinha gente já não tinha mais.

quem me visse chorando

pensaria que morreu alguém que amo muito.

morreu o peixe

mas eu não comia o peixe e pensava que ele era um ser vivo no

mar que tinha uma vida boa até ser caçado,

eu via o prato como comida pura

e simplesmente, não estava chorando pelo peixe. era pela fome

que passei? e o alívio que senti com a fome passando,

não, também não era isso.

pensando agora, do travesseiro,

acho que aquilo foi um choro guardado

costumo me guardar

porque nunca parece ser o momento ideal de soltar um choro

trancado, deve ser

por isso que ele escorreu assim, sem o meu consentimento, eu

nunca daria o consentimento pra ele cair.

chorar demais

se parece com sentir fome

um vazio parecido

minha água salgada do olho caia no peixe

é um pouquinho de mar

pra ele

matar a saudade de como era a sua vida antes de morar no meu

estômago.

quantas coisas precisam morrer diariamente pra que a gente não

morra? coitado do peixe, meu deus, acho que eu chorava por ele

também.

ele não escolheu ser peixe e sendo 1

tampouco escolheu virar alimento de alguém,

o que me torna melhor do que ele pra comê-lo assim? senti a

fronha úmida, a cama úmida do banho, o choro estava

acontecendo de novo.

sim,

esse dia de hoje apesar de

comum

vai ficar na minha memória. vou abrir uma Pasta. vou chamá-lo de:

o dia em que perdi mais um pouco da

minha inocência,

com o tempo esse dia vai se misturar com outros, por isso a Pasta,

já que perder é um exercício diário.

som do tiro

desprevenida numa quinta à noite

comecei a assistir o documentário do kurt cobain.

logo nos primeiros minutos de filme

a mãe dele disse que

Não estava apaixonada quando se casou.

ele era meu amigo, mais do que qualquer coisa. e usava uma franja que, francamente, não ficava boa em ninguém.

 

(por trás aparece o pai do kurt numa filmagem antiga

rindo na cozinha

sentando em

cadeiras, a franja lá,

a franja era só o que eu via)

ela disse que se casou porque

gostava dele.

era jovem, pensava que gostar era como

Amar.

é dito tanto sobre o amor nos filmes, nos poemas. mas como diferenciar no peito o que é amor e o que é medo

de ficar sozinho.

ela deve ter pensando: é bom estar com ele. é bom

na maior parte do

tempo,

nos darmos bem pode ser o suficiente.

quando eles finalmente se casaram

ela quis ficar grávida logo,

era esse o objetivo de casar, 1967,

não sei por que eu casei com o pai do kurt, – ela repetia

como se uma força maior a tivesse impulsionado pra isso,

a força do Kurt querendo nascer.

ele

foi uma criança agitada.

o kurt estava sempre ocupado. – a mãe disse no filme

e eu me lembrei da minha

infância. não sentia tédio. me ocupava bastante também

com brinquedos, com as músicas no rádio, com o meu próprio corpo, os sons que saiam dele, as pintas que nasciam.

enquanto isso

o kurt não dava sossego. o menino é hiperativo, diziam, então a mãe decidiu marcar uma consulta.

– doutor, meu marido

gosta de silêncio. e meu filho

não faz silêncio.

uhum. – resmungou o médico

e prescreveu umas pílulas.

o kurt ficou muito esquisito depois de tomar remédio. – a mãe disse no documentário

e depois não falou mais nada sobre isso. cortou a cena para uma filmagem da família no jardim

(aquela casa lembrava a da minha vó,

o sofá marrom,

o tamanho da sala, os tios sentados sem camisa)

o kurt mandava beijos pra câmera, virava e mandava beijos,

como faria qualquer criança que não estivesse com sono.

até que

ele aprendeu a tocar guitarra

sozinho

e desenhava bonecos corpudos

cheios de

alma, bonecos que eu não saberia imaginar

com rostos retangulares e um olhar parecido com o de alguém que já existe.

 

– o kurt precisava nascer – a mãe disse, profética.

pra 27 anos depois

ele não aguentar mais e

desistir deixando

Francis, uma bebê a cara dele,

esperando.

 

– papai, papai, – ela devia chamar, se apoiando nas paredes do corredor.

-o papai não vai chegar, – a Courtney diria. – o papai

agora é um anjo.

ela que disse pro kurt

que ele era uma mistura de led zeppelin, leonard cohen, beatles, menos bob Dylan. bob Dylan conta histórias de um jeito

que você não faz.

– papai, papai, – a francis seguiria chamando, inconsolável.

quem pode medir a dor de um bebê?

se um bebê

chora profundamente por tudo, a chupeta no chão, o sono, a morte. bebê não sabe o que é morte, dizem. mas convive com ela, é obrigado a conviver,

até que um dia o bebê para de chamar quem ele perdeu,

compreende que não Adianta,

vira um adulto

e dirá seco

quando perguntarem do pai:

-ele morreu há tanto tempo.

voltará pra casa com isso na cabeça. pegará do armário uma caixa de fotos.

olhará devagar centenas delas

se reconhecendo ali, no bebê que ela foi,

também nos olhos do pai tão azuis.

– o kurt precisava nascer, – a mãe dele repetia, incansável.

se o kurt não tivesse sido

ninguém em especial, um anônimo que caminha pela rua, que tem o seu emprego, que vai ao cinema,

será que ela diria o mesmo?

por que vocês são o Nirvana? – perguntou o entrevistador.

porque não somos o Aerosmith. – respondeu o baixista.

existe isso, de precisar nascer? se existe, então quando uma pessoa precisa nascer ela simplesmente Nasce, independente das circunstâncias?

o filho de Charlote Salomon, por exemplo,

a pintora que morreu grávida num campo de concentração. esse filho

não precisava nascer?

não seria um astro quando crescesse? um grande empresário? um sujeito de bom coração?

quem, afinal, prevê o futuro de um ser que ainda não existe, ele mesmo?

-o kurt precisava nascer.

então quer dizer que existe vida

antes da vida

já que uma pessoa que nem nasceu tem a força de se sentir predestinada

e faz

dois seres humanos que mal se amavam

ficarem juntos pra ela nascer.

– ele tinha que nascer. – escuto algumas mães dizendo,

especialmente as que tiveram uma gravidez de risco, seja por motivos externos como uma guerra,

seja por motivos internos como um mioma.

ele tinha que nascer, elas dizem de olhos molhados.

mas se uma mãe

sofre aborto, depois fica grávida de novo e

sofre

aborto de novo, até que finalmente ela consegue ter um bebê:

esse bebê que nasceu

é o mesmo que não conseguiu nascer todas as outras vezes? o corpo não é, mas

e a alma, é a mesma? Lutando pra existir.

ou será que alma e corpo são uma coisa única? e quando morre 1

morre o outro, simultaneamente.

e se a alma for feita de algo perpétuo,

pra onde ela vai depois que morre o corpo, pro céu?

você acredita em

céu?

acredita mesmo que lá em cima muito em cima

tem um mundo paralelo que não cai nas nossas cabeças, pelo contrário,

flutua sobre nós

nos observa e nos julga

como se estivéssemos num gigantesco programa de tv?

e as almas ruins

queimam no fogo

com chifre e rabo,

por que será que o mal está sempre associado a características animais?

sendo que as guerras são feitas por homens, não touros.

você acredita mesmo que as pessoas ou são boas ou são más?

acha que é possível reduzir indivíduos

em classificações desse tipo e assim

encaixa-los em lugares específicos, inferno, céu, parecido com as gavetas de um cemitério?

você acredita em

deus? a imagem de um homem

branco e

velho

como tantos homens

brancos e velhos que tem nos

governado (os quadros de jesus pregados na parede do quarto da minha vó

não me deixavam dormir à noite. hoje você vai dormir na vovó, minha mãe me dizia. não, não, eu implorava, minha mãe achava que

eu não gostava de

vó.

são os quadros, uma vez eu disse

baixinho. são os quadros, mãe,

mas a minha mãe já estava dormindo)

ou a ideia de deus é fruto de um desespero

por não sabermos nada

sobre estarmos vivos nesses corpos

exatamente nessa época e de repente

não estarmos mais?