quando cheguei em casa assisti um filme chamado when harry met sally

é preciso engolir uma porção de livros pra escrever uma história. – ela disse. filmes também.

de tarde eu paro um pouco de escrever

pra assistir um filme. fico um longo período engolindo livros e filmes

antes de começar um romance, por exemplo.

não tem outro jeito.

 

é verdade. – eu digo. – e pessoas também. eu engulo pessoas, às vezes sento num banco e

fico horas assistindo a vida dali,

velhos casais discutindo

crianças andando atrás dos pais ou na frente, dificilmente na mesma linha. chefs de cozinha e garçons fumando um cigarro

sem avental

na porta dos fundos. gosto de pensar que

se eu sentasse no mesmo banco num outro momento

eu veria coisas completamente diferentes das que eu vi,

outros recortes, outros rostos, e ainda que fossem os mesmos

eu os veria em novas situações e por isso a minha impressão sobre eles já seria outra.

 

-e também você, Outra.

 

é.

na escrita também é assim, você não acha? dependendo do dia,

às vezes do minuto

o texto fica tão diferente. a ideia central pode ser a mesma, claro. mas as frases. o jeito de construir a história

é completamente outro dependendo da hora que você senta pra escrever.

 

 

ela balançou a cabeça, concordando,

mas a sua cabeça já estava em outro

lugar.

chamamos o garçom e pedimos a conta. é que ela precisava buscar a filha no colégio

já estava em cima da hora e a menina morre de medo

de ser Esquecida, até chora, então

não dá pra atrasar de jeito nenhum.

nos despedimos, ali na frente do café.

gosto muito de conversar com ela, uma das poucas pessoas

que ainda gosto de conversar.

a gente pode engatar qualquer assunto juntas. ela não estranha

se por exemplo eu começar a falar sobre

como um vidro de janela me parece macabro

porque enclausura as pessoas no ambiente

ao mesmo que parece um alívio, no meio de tantas paredes.

mas ver através da janela

não é também um tipo de

prisão? um tipo de consolo pra quem tem medo de ir?

já estou vendo daqui, dizem os covardes. já é bonito o suficiente.

eu posso dizer isso pra ela numa boa

ela vai me ouvir e

balançar a cabeça, talvez até me indicar um filme ou livro sobre isso, ela poderia me dizer:

 

-leia A Náusea, do sartre. ele fala sobre o incomodo de existir tendo consciência de estar vivo

e essa coisa que você disse sobre a janela. bom, pra mim

tem muito a ver com isso, com a consciência de estar vivo.

com ela qualquer comentário besta pode virar algo interessante.

posso também lhe contar do

romance que estou escrevendo

e dessa fase complicada do processo, não digo que o meu romance travou porque toda vez que sento pra escrevê-lo

as páginas se acumulam em letras, claro que depois eu tenho que revisar tudo e cortar boa parte.

mas o romance está engordando, não é uma questão de falta de ideias.

a questão é que tem se tornado penoso pra mim

sentar pra

escrevê-lo

penso que é o tema, essa coisa de irmãos. é um assunto difícil

tenho que

revirar meu íntimo que tanto escondo

que no fundo é ciumento, competitivo,

egoísta.

tenho escondido isso por tantos anos

quase já sou mais amável de tanto que disfarço meu lado sombrio.

mas agora, escrevendo,

tenho que descortinar minhas vergonhas

me sinto um lixo, quando termino,

mal consigo me olhar no espelho.

sentar na frente do computador é sempre uma viagem

pra dentro

e passo tanto tempo trabalhando que estou cada vez mais introspectiva. até nas conversas com amigos, está difícil olhá-los nos olhos

porque é sempre um olhar pra mim mesma, não consigo evitar.

nunca senti medo da página em branco, como alguns escritores dizem.

quando estou escrevendo mal olho a página

e meus dedos correm

pelo teclado, buscando um s

um i, escrevo de cabeça baixa.

quando paro um pouco

pensando pra onde vou agora no texto

então eu olho pra cima

do computador

não chega a ser pro teto

mas pra parede um pouco mais acima

e meu olhar continua interno. mesmo que eu escreva sobre algo que está ali na minha frente, um objeto qualquer,

já não escrevo sobre algo que está ali

escrevo sobre a memória disso

e não adianta mais olhar para o objeto, ele sempre vai estar no passado.

caminho pela rua de volta pra casa, o abraço da carola ainda quente no corpo. é bom ter uma amiga como ela.

gosto de fazer isso,

de ficar lembrando das coisas que vivi no meu passado recente

ao mesmo tempo que ando pela rua.

até sorrio lembrando,

as pessoas pensam que estou contente.

não é exatamente contente o jeito que me sinto

na verdade estou assistindo a minha vida

pela memória

e assistir tem sempre um charme à mais do que viver, de fato.

sigo pela avenida, estou quase na minha

rua.

os carros aceleram

correm pra

chegar. eu nunca tive pressa de chegar

chegar no lugar que você precisa

é também chegar mais perto da morte. o dia da minha morte

será um dia de

ansiedade. como as noivas,

no dia do casamento, só que um casamento obrigatório

com um noivo chamado Chega

de existir.

será que eu vou saber logo cedo que morrerei? ou será que morro inesperada, morrer como um passarinho, como dizia a minha vó. mas ela

morreu densa

entubada já esperando

a morte, então

não se vive.

 

oi! – me parou na calçada um homem.

oi – eu disse sem entender.

lembra de mim?

 

(tentei lembrar.

 

 

Sim, aquele era um rosto que

eu já tinha visto.

talvez um amigo de infância)

 

estudamos juntos?- chutei.

– sim! sou o Norton, lembra?

Norton! Claro! (quando veio o nome veio tudo) claro que lembro!

Poxa,

quanto tempo, hein. (nos abraçamos) meu deus do céu.

o que você anda fazendo?

estou morando na Califórnia. montei uma loja de skate por lá.

-ah é? que ótimo! e tá dando certo?

-tá, ainda bem. trabalho de frente pra praia.

-que delícia.

sim. mas meus pais ainda moram por aqui. uma vez por ano venho pro Brasil.

-claro.

-e você tá trabalhando em que?

-sou escritora.

-mesmo?

-sim.

-que legal. já tem algum livro publicado?

-não, ainda não.

 

(ficou um silêncio.

eu devia fazer alguma pergunta, sentia que era a minha vez. talvez algo sobre o skate,

mas o que? eu não entendo nada de skate

tentei andar uma vez

mas parei assim que bati a prancha na canela. fora que eu não estava pronta pra conversar,

fui pega de surpresa, não deu pra bolar nenhum assunto

ainda mais sendo o Norton,

eu não estava nem vestida pra isso, meu deus.)

 

-eu era apaixonada por você, sabia? – soltei.

digo,

na nossa época de infância.

 

ele riu.

 

-é sério. – constatei.

 

e não dissemos mais Nada.

me arrependi de ter contado, definitivamente ele não reagiu do jeito que eu esperava.

então nos despedimos

com um beijo no rosto

 

ele subiu a rua eu

desci.

 

quando demos tchau eu disse:

 

tenha uma boa vida.

 

e isso me soou tão triste. o Norton nunca me fez falta mas vê-lo e depois

 

vê-lo partir

 

era como uma despedida

era como perder alguma coisa, o que? se eu nunca o tive.

a chance,

perder a probabilidade de.

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