Memória N.1

fiquei em cartaz num teatro que foi um antigo cinema.

contei isso

pro meu diretor, por acaso eu tinha assistido Titanic ali e reconheci a sala, reconheci principalmente o hall de entrada, e o diretor me disse:

 

você conhece a fábula? do cinema.

– não.

– é bonita, deixa eu te contar. aconteceu assim: um dia o teatro ficou grávido

de um ator.

era um ator inquieto,

ele passava horas pensando num jeito de guardar as peças que ele fazia.

num livro não era possível,

ele queria guardar a atuação, não o texto,

e a memória era como uma mão segurando um líquido, algo de essencial sempre escapava.

pois bem,

foi quando o teatro

engravidou desse ator apaixonado

e depois de 9 meses

nasceu um menino cabeludo, de olhos bem abertos. o teatro e o ator então

deram o nome do filho de

Cinema.

– ah tá. – eu disse. – você inventou essa história agora, né?

 

meu diretor riu

caminhando pelo palco curto que coube

a nossa peça, era só eu e mais uma atriz.

nosso cenário era uma poltrona fixa

poucas coisas entravam em cena além de uma maleta na minha mão e um paletó.

no camarim

o espelho ficava de frente pra janela, mal dava pra se enxergar por conta da luz.

por isso que eu entrava em cena parecendo um palhaço,

na época eu pensava que era por isso,

o palhaço que morava em mim aproveitava a luz ruim do espelho e saía pela maquiagem na minha cara

um alter ego indesejado

especialmente quando se está fazendo um advogado em cena, mas no fundo não era nada disso,

no fundo era só meu Eu me dizendo que

ser Atriz não era pra mim.

hoje em dia

se penso que tenho que contar uma história no palco

começo a

sentir calafrios.

prefiro não ter

consciência de estar contando

na folha em branco vou dizendo e mal sinto, pra mim é como pensar. agora subir num palco com a consciência de estar subindo, isso estraga qualquer possibilidade de ser natural. naquela época em cartaz eu ainda não sabia disso, ensaiava ingênua, gostava de chegar antes dos ensaios da peça

e ficar ali

no hall de entrada

lembrando de como era aquele espaço sendo cinema, lembrando do dia que assisti titanic com a minha amiga que trocava cartas comigo mesmo sendo minha vizinha.

 

não vai acabar muito tarde? – minha mãe perguntou preocupada.

não. – prometemos,

apesar que isso não estava nas nossas mãos.

 

lembro que sentei numa poltrona do fundo

com a pipoca no colo, a expectativa em cima da pipoca.

 

– titanic é um filme fortíssimo. – diziam os adultos

 

eu e minha amiga longe

de sermos adultas

assistindo um filme de barco e morte.

lembro que depois eu comprei um poster do leonardo di caprio, eu estava tão apaixonada, parecia que eu podia tocar naquele rosto.

da kate eu queria o tamanho do peito, o meu na época

só tinha bico.

anos depois pra peça, vejam vocês, eu tive que enrolar uma faixa no peito

já que eu estava fazendo

o papel de um homem.

a acústica do antigo cinema

não era boa. pra voz chegar até o fundo da sala tínhamos que beber muita água.

 

 

(quando a cortina abria

nunca tinha

ninguém além da segunda fileira.)

 

 

teve um dia que, minutos antes do terceiro sinal, ouvi da coxia

uma mulher dizendo:

 

teatro é feito de pessoas que estão lá, filho, por isso que não pode pipoca. são pessoas de verdade e a pipoca faz barulho, pode atrapalhar.

 

 

lembrei da pipoqueira desativa,

foi por isso que o filho ficou com vontade. quando a cortina abriu

vi que o menino tinha cara de preferir

a pipoca

mais do que qualquer história contada por pessoas que estão lá,

não o culpo.

em essência aquele lugar era um cinema

e cinema tem o milho impregnado na alma, o milho do entretenimento, não foi o caso da minha peça. minha peça não era divertida, as pessoas saiam no meio, as pessoas

não vinham

até que a peça

acabou.

nunca mais vi a atriz que contracenou comigo, nem o diretor.

demos tchau ali no hall

parabéns pelo trabalho e

nunca mais nos vimos.

depois de nós,

outras peças ficaram em cartaz por lá, ouvi dizer que nenhuma deu público.

 

– o lugar é muito escondido. – diziam os atores,

e os anos passaram.

 

até que ontem chegou.

eu estava procurando

uma assistência técnica da brastemp.

vi na internet que tinha uma grande na calçada das margaridas

número 50 e…dei de cara

com o teatro-cinema, caramba,

como eu não lembrava que ele ficava por aqui?

desci do carro.

estava tudo trancado

com folhas caídas nos degraus da entrada,

parecia outono.

cheguei perto da porta, agora com vidro fumê: não dava pra ver muita coisa, então colei meu olho no vidro.

tão de perto deu pra ver

alguns espelhos

com manchas do tempo, cadeiras viradas por cima da mesa, a bilheteria um ferro

nu de cartaz.

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