quando cheguei em casa assisti um filme chamado when harry met sally

é preciso engolir uma porção de livros pra escrever uma história. – ela disse. filmes também.

de tarde eu paro um pouco de escrever

pra assistir um filme. fico um longo período engolindo livros e filmes

antes de começar um romance, por exemplo.

não tem outro jeito.

 

é verdade. – eu digo. – e pessoas também. eu engulo pessoas, às vezes sento num banco e

fico horas assistindo a vida dali,

velhos casais discutindo

crianças andando atrás dos pais ou na frente, dificilmente na mesma linha. chefs de cozinha e garçons fumando um cigarro

sem avental

na porta dos fundos. gosto de pensar que

se eu sentasse no mesmo banco num outro momento

eu veria coisas completamente diferentes das que eu vi,

outros recortes, outros rostos, e ainda que fossem os mesmos

eu os veria em novas situações e por isso a minha impressão sobre eles já seria outra.

 

-e também você, Outra.

 

é.

na escrita também é assim, você não acha? dependendo do dia,

às vezes do minuto

o texto fica tão diferente. a ideia central pode ser a mesma, claro. mas as frases. o jeito de construir a história

é completamente outro dependendo da hora que você senta pra escrever.

 

 

ela balançou a cabeça, concordando,

mas a sua cabeça já estava em outro

lugar.

chamamos o garçom e pedimos a conta. é que ela precisava buscar a filha no colégio

já estava em cima da hora e a menina morre de medo

de ser Esquecida, até chora, então

não dá pra atrasar de jeito nenhum.

nos despedimos, ali na frente do café.

gosto muito de conversar com ela, uma das poucas pessoas

que ainda gosto de conversar.

a gente pode engatar qualquer assunto juntas. ela não estranha

se por exemplo eu começar a falar sobre

como um vidro de janela me parece macabro

porque enclausura as pessoas no ambiente

ao mesmo que parece um alívio, no meio de tantas paredes.

mas ver através da janela

não é também um tipo de

prisão? um tipo de consolo pra quem tem medo de ir?

já estou vendo daqui, dizem os covardes. já é bonito o suficiente.

eu posso dizer isso pra ela numa boa

ela vai me ouvir e

balançar a cabeça, talvez até me indicar um filme ou livro sobre isso, ela poderia me dizer:

 

-leia A Náusea, do sartre. ele fala sobre o incomodo de existir tendo consciência de estar vivo

e essa coisa que você disse sobre a janela. bom, pra mim

tem muito a ver com isso, com a consciência de estar vivo.

com ela qualquer comentário besta pode virar algo interessante.

posso também lhe contar do

romance que estou escrevendo

e dessa fase complicada do processo, não digo que o meu romance travou porque toda vez que sento pra escrevê-lo

as páginas se acumulam em letras, claro que depois eu tenho que revisar tudo e cortar boa parte.

mas o romance está engordando, não é uma questão de falta de ideias.

a questão é que tem se tornado penoso pra mim

sentar pra

escrevê-lo

penso que é o tema, essa coisa de irmãos. é um assunto difícil

tenho que

revirar meu íntimo que tanto escondo

que no fundo é ciumento, competitivo,

egoísta.

tenho escondido isso por tantos anos

quase já sou mais amável de tanto que disfarço meu lado sombrio.

mas agora, escrevendo,

tenho que descortinar minhas vergonhas

me sinto um lixo, quando termino,

mal consigo me olhar no espelho.

sentar na frente do computador é sempre uma viagem

pra dentro

e passo tanto tempo trabalhando que estou cada vez mais introspectiva. até nas conversas com amigos, está difícil olhá-los nos olhos

porque é sempre um olhar pra mim mesma, não consigo evitar.

nunca senti medo da página em branco, como alguns escritores dizem.

quando estou escrevendo mal olho a página

e meus dedos correm

pelo teclado, buscando um s

um i, escrevo de cabeça baixa.

quando paro um pouco

pensando pra onde vou agora no texto

então eu olho pra cima

do computador

não chega a ser pro teto

mas pra parede um pouco mais acima

e meu olhar continua interno. mesmo que eu escreva sobre algo que está ali na minha frente, um objeto qualquer,

já não escrevo sobre algo que está ali

escrevo sobre a memória disso

e não adianta mais olhar para o objeto, ele sempre vai estar no passado.

caminho pela rua de volta pra casa, o abraço da carola ainda quente no corpo. é bom ter uma amiga como ela.

gosto de fazer isso,

de ficar lembrando das coisas que vivi no meu passado recente

ao mesmo tempo que ando pela rua.

até sorrio lembrando,

as pessoas pensam que estou contente.

não é exatamente contente o jeito que me sinto

na verdade estou assistindo a minha vida

pela memória

e assistir tem sempre um charme à mais do que viver, de fato.

sigo pela avenida, estou quase na minha

rua.

os carros aceleram

correm pra

chegar. eu nunca tive pressa de chegar

chegar no lugar que você precisa

é também chegar mais perto da morte. o dia da minha morte

será um dia de

ansiedade. como as noivas,

no dia do casamento, só que um casamento obrigatório

com um noivo chamado Chega

de existir.

será que eu vou saber logo cedo que morrerei? ou será que morro inesperada, morrer como um passarinho, como dizia a minha vó. mas ela

morreu densa

entubada já esperando

a morte, então

não se vive.

 

oi! – me parou na calçada um homem.

oi – eu disse sem entender.

lembra de mim?

 

(tentei lembrar.

 

 

Sim, aquele era um rosto que

eu já tinha visto.

talvez um amigo de infância)

 

estudamos juntos?- chutei.

– sim! sou o Norton, lembra?

Norton! Claro! (quando veio o nome veio tudo) claro que lembro!

Poxa,

quanto tempo, hein. (nos abraçamos) meu deus do céu.

o que você anda fazendo?

estou morando na Califórnia. montei uma loja de skate por lá.

-ah é? que ótimo! e tá dando certo?

-tá, ainda bem. trabalho de frente pra praia.

-que delícia.

sim. mas meus pais ainda moram por aqui. uma vez por ano venho pro Brasil.

-claro.

-e você tá trabalhando em que?

-sou escritora.

-mesmo?

-sim.

-que legal. já tem algum livro publicado?

-não, ainda não.

 

(ficou um silêncio.

eu devia fazer alguma pergunta, sentia que era a minha vez. talvez algo sobre o skate,

mas o que? eu não entendo nada de skate

tentei andar uma vez

mas parei assim que bati a prancha na canela. fora que eu não estava pronta pra conversar,

fui pega de surpresa, não deu pra bolar nenhum assunto

ainda mais sendo o Norton,

eu não estava nem vestida pra isso, meu deus.)

 

-eu era apaixonada por você, sabia? – soltei.

digo,

na nossa época de infância.

 

ele riu.

 

-é sério. – constatei.

 

e não dissemos mais Nada.

me arrependi de ter contado, definitivamente ele não reagiu do jeito que eu esperava.

então nos despedimos

com um beijo no rosto

 

ele subiu a rua eu

desci.

 

quando demos tchau eu disse:

 

tenha uma boa vida.

 

e isso me soou tão triste. o Norton nunca me fez falta mas vê-lo e depois

 

vê-lo partir

 

era como uma despedida

era como perder alguma coisa, o que? se eu nunca o tive.

a chance,

perder a probabilidade de.

devaneios sobre Patti Smith

a patti estava fazendo uma mala

pequena

é provável que dessa vez a viagem seja curta.

pela janela do apartamento

vazava um lampejo de sol que se desenhava na parede.

a patti ficou olhando

tentando entender de onde vinha a luz, se tinha algum espelho, algum prédio

espelhado na frente, aquilo era

nova york.

no parque ali debaixo

crianças e cachorros brincavam,

gritavam, mas

estava tudo bem, é só que a diversão quando grande precisa disso,

precisa ser colocada pra fora do corpo, se não

a pessoa pode até explodir. as mães

conversavam umas com as outras

sempre de olho na correria atrás da bola, da bolinha,

pessoas e animais brincando juntos deixam claro

o quanto é frágil o ser humano.

pra patti ali no apartamento, ocupada com a mala,

não tinha a cena do parque

com seus personagens desconhecidos. ela preenchia os sons que subiam o vidro

com recortes da própria infância.

lembrou da mãe

na porta da cozinha chamando pro almoço

e a patti perdida

no bosque do quintal

na verdade um punhado de mato

mas pra ela criança dava pra se perder ali profundamente, dava até não voltar

nunca mais ou

só voltar quando a mãe chamasse pro almoço, a patti tinha um apetite e tanto.

quando entrava pra cozinha,

a mão da mãe que não estava fumando

deslizava pelo cabelo da filha

num carinho breve

como a vida.

esse gesto ficou guardado pra sempre

no topo da cabeça de patti, ela que gosta tanto de colecionar objetos,

um gesto também é 1.

a patti não sabia

se era ela quem passava rente pela mão da mãe forjando o toque

ou se era a mãe que sutilmente esticava o braço

pra sentir a textura dos cabelos

da filha

(no fundo um pouco dos dois).

a patti

seguiu fazendo a pequena mala

até que o Robert apareceu.

cochichou qualquer coisa no ouvido dela, podia ser um:

quer que eu te leve até a estação?

ou talvez fosse algo melhor, talvez fosse um insight

sobre algum poema de Rimbaud.

a epifania poderia ter acabado de acontecer pro Robert,

pelo jeito que o vento entrou no quarto movendo ali só o que era leve

e

de repente as coisas se encaixaram, o verso e a vida, de repente tudo fez sentido.

a patti sorriu. o corpo dela estava mole, as costas curvadas como se ela estivesse com sono, como se tudo aquilo estivesse acontecendo numa manhã de sábado.

então o Robert puxou a mão da patti

para um abraço

ela foi

sem nenhuma resistência.

primeiro aconteceu um encaixe de pescoço entre eles

depois uma dança

sem música, ali no canto da sala.

as crianças e os cachorros ainda gritavam,

já o parque estava silencioso, recebendo isso, um dia de gente e mães.

e quem? afinal é a mãe de um parque.

a rua,

a rua é a mãe de tudo o que mora nela

até ela virar outro nome

mas no fundo e tirando o nome

o mundo é uma mesma rua.

quase pronta

a mala da patti ficou assistindo a dança

quem olhasse de longe pensaria que era uma vitrola, aquele tipo específico de vitrola que de costas ou fechada lembra muito uma mala.

eles dançavam como anjos,

comecei a cantar uma valsa pra acompanhar a dança muda.

até que o Robert soltou a patti, não sem antes

girá-la.

ela ficou no ar por um tempo, não esperava parar aquilo tão cedo,

pareceu envergonhada depois que o Robert a soltou.

foi muito bonito

ele tomar ela pelos braços daquele jeito, muito inesperado e mesmo assim

ela aceitou tão bem.

ele pegou a carteira na cômoda

o sol bateu no olho dele, deixou verde,

e saiu pra comprar cigarros.

mandou um beijo no ar pra patti que ele fez chegar até ela soprando com as mãos. eram amigos,

deu pra perceber ali quando ele saiu.

ela escolheu levar o livro de sempre

illuminations, não arriscava muito nesse sentido, carregar o mesmo livro nas viagens tem lhe dado sorte,

ela tem conhecido os lugares que sempre quis

e os lugares se mostravam exatamente como ela via nos mapas, talvez só um pouco mais distantes entre si.

o estado de espírito também alterava algumas coisas

quando estamos nos sentindo bem a pior das cidades pode até parecer média, pode até ser levada com um certo humor. viajar é de dentro pra fora, invariavelmente.

a patti fechou a mala.

deu uma última olhada no apartamento e

saiu, agora sua vez de tomar a rua.

a porta guardou as 2 partidas, a da patti um pouco mais demorada pra voltar, mas a porta

vai ter que se acostumar com isso, com a espera.

a patti passou na frente do parque

deu uma boa olhada nas crianças

e nos cachorros

eles pareciam úmidos

de suor

mas não tão úmidos quanto o gesto

do carinho casual da mãe

escorrendo pela memória de patti

aquelas mãos

uma livre

a outra segurando o cigarro, junto com o antebraço e o cotovelo,

essas mãos que nunca mais serão vistas

mãos que descansam em paz num cemitério em nova jérsei

BERVELY SMITH

ela se lembrou do túmulo,

bervely smith daria um belo nome de rua.

poder

eu estava no café de sempre

lendo um romance que tem me mostrado um jeito de escrever sem excessos.

no livro

o todo importa mais do que a engenhoca das frases

alguns escritos trazem partes tão bonitas que parecem epitáfios,

belas frases em túmulos

fariam do cemitério um lugar mais interessante, seria quase como um passeio literário. a não ser que você queira ser cremado. aí o mar

é uma alternativa.

mas o romance que eu estava lendo não era desse tipo, nada ali se destacava, ele era vertical nos personagens em seus meios, a África do Sul pós apartheid,

e a linguagem ali à serviço, límpida como uma mesa de

granito.

é forte contar assim, com técnica, eu penso olhando pro ventilador de teto

sem enxergá-lo, estou introspectiva. aquilo era um livro sobre juntar os próprios cacos, notar onde tudo se rompeu

inclusive caminhar por isso com os dedos, pelas cicatrizes.

foi quando senti o peso de alguém

sentando na mesa ao lado.

me virei e,

adivinha?

era ele,

puta que o pariu era ele,

esse homem que parece estar em todos os lugares.

será que ele é um detetive? ou talvez tenhamos gostos iguais.

acabamos sempre batendo um papo, não que eu queira,

mas um fluxo de conversa simplesmente acaba acontecendo entre nós e porque já aconteceu outras vezes, vai ficando natural que siga acontecendo. mas tem alguma coisa nele que não me convence, alguma coisa

no olho. pra completar não sei seu nome, enquanto ele pronuncia o meu abertamente. no primeiro dia de conversa ele me disse o nome dele, mas eu não escutei.

nunca escuto a primeira vez que a pessoa me diz seu nome

fico mergulhada na novidade daquele rosto conversando comigo

e o nome me escapa.

agora ficou tarde pra perguntar, não tem mais clima.

ele sorri pra mim.

me diz um Oi como faria uma criança.

as pessoas interrompem as leituras dos outros sem nenhum pudor, é impressionante.

acho que elas pensam: aquele ali tá de bobeira

e então se julgam no direito de fazer a pessoa fechar o livro. geralmente a pergunta pro interrompido é sempre a mesma,

 

o que você está lendo? (meus olhos viraram

de saco cheio mas ele

não percebeu, estava com o pescoço torto tentando ler o nome do autor).

 

tô lendo um fodão. o cara já ganhou nobel e o caralho. chama JM Coetzee. (foi a primeira vez que verbalizei o Coetzee, não sabia se a pronuncia estava certa, provavelmente não)

 

não conheço. ele é de onde?

 

– da África do Sul.

 

– ele já morreu?

 

-não. (e mostrei a foto do autor no livro)

 

– ah, ele já tem idade.

 

-é, tem.

 

contei minimamente a história do livro,

não queria fazer isso, na verdade essa era a última coisa que eu gostaria de fazer. eu queria ler o livro

pensar sobre ele

sozinha tomando café mas

a partir do momento em que estamos num lugar público ficamos vulneráveis a qualquer tipo de intromissão.

 

-você está muito magra. – ele me disse

e chupou as bochechas pra ilustrar meu rosto.

 

– é sério que cê tá falando isso de Novo? – eu disse, me surpreendendo com o desprezo que

escapou da minha voz.

parecia um filme de terror. toda vez que me encontrava ele falava a mesma frase, no mesmo tom,

e chupava as bochechas.

na primeira vez não levei a mal, expliquei que eu era magra assim mesmo, de nascença, que estava tudo bem com a minha saúde, obrigada pela

preocupação.

depois quando ele me reencontrou e disse

de novo a mesma coisa

e de novo (infelizmente a gente se encontrava com frequência) como se eu estivesse emagrecendo toda vez que nos trombávamos, aí fui perdendo a paciência.

meu peso é o mesmo há mais de 10 anos, eu tentei explicar,

ele não me ouvia,

repetia

você está muito magra

como se eu estivesse a serviço do seu padrão ou

da morte.

 

você quer que eu minta? – ele retrucou.

(eu quero que você suma, pensei. não disse.) – meu peso é esse. se você tem dificuldade pra lidar com isso, o problema é seu. agora me diga uma coisa. não te dá no saco ficar falando sempre a mesma frase? que merda.

 

ele ficou visivelmente constrangido.

mudou de assunto.

 

e seu trabalho, como está?

tudo certo.

– que bom. o meu está bem, também. na verdade eu estou trabalhando mais do que preciso.

ah é? você tá fugindo de quê?

 

ele não me responde. começa a dizer da fábrica em que ele trabalha

e do tamanho do grupo de engenheiros que ele lidera.

 

você é casado? – perguntei.

 

pela expressão que fez, ele pensou que essa pergunta foi um jeito delicado que encontrei de mostrar interesse nele, um interesse sexual. definitivamente a gente não estava se entendendo.

sou casado no papel. mas não moro com a minha mulher. é cada um para um lado já há algum tempo.

e você tem filhos?

tenho 2. esses sim, são a minha vida. a mais velha tem (ele pensa pra dizer a idade dela, não é uma questão de memória,

o fato é que ele teme que a filha tenha mais ou menos a minha idade) 21. e o menino 15.

eles já sabem o que querem estudar?

o menino quer ser jogador de futebol (ele ri).

que beleza.

beleza nada, né. beleza nenhuma. deixamos ele de castigo sem jogar por 1 ano pra ver se ele esquece essa bobagem.

mas isso não funciona, isso vai deixar ele com ainda mais vontade de jogar. fora o tempo perdido.

não, ele esqueceu.

-ah. – eu digo

e me sobe um amargo na boca. é claro que o menino não esqueceu. o moleque foi castrado, isso sim, e começo a contar que fiz teatro

mas tive que parar por pressão da família.

 

– isso me fez muito mal. até hoje é um trauma, assistir uma peça, fico pensando como seria se eu tivesse ali. a vida vai levando a gente pra outros lados, claro, mas tem coisas que viram pedras

tem coisas que a gente não esquece.

 

ele chamou o garçom. não pareceu ter ligado

a minha história com a do filho.

 

-oi, tudo bem? você me vê um expresso?

 

mas que anta. contei

pra ver se ele percebia o tamanho do

Erro de não deixar o menino tentar, apoiar mesmo que não der certo,

numa idade em que o moleque ainda é vulnerável às exigências da família

e de repente um cuspe

grosso

voou da minha boca como um jato.

 

pausamos o assunto

 

 

cada um pensando como reagiria àquilo, eu que babei, ele que viu.

 

escolhi seguir a conversa

 

instantaneamente mais murcha nas minhas convicções.

um cuspe fora do contexto, meu deus, isso desmoraliza qualquer pessoa.

fiquei fraca, morta

de vergonha,

querendo ir embora.

eu só queria ir

embora

e ele falando alguma coisa sobre a língua alemã. dei uma desculpa qualquer e

me levantei, paguei meu café me sentindo menor que a xícara.

o poder que o olhar daquele homem tinha sobre mim era impressionante, era como se eu precisasse acertar o tempo todo ao lado dele

no fundo

ele me lembrava um pouco o

 

 

meu pai.

 

 

babar

me trazia de volta pra condição de humana

eu caia do lugar onde eu tinha me colocado pra conseguir falar com ele, um lugar alto,

aquele homem era como o meu pai.

cheguei em casa.

fui direto pro

banho

pra fazer aquele encontro escorrer

pelo ralo.

de relance olhei meu reflexo no box

ainda lembrando dele chupando o próprio rosto como um espelho.

não tenho mãe

meu rosto ainda estava no asfalto

na queda tem esse momento

pequeno

em que a gente quase se acostuma com o chão, a gente quase mora no lugar onde caímos

também na pessoa em nós que caiu

como se a queda fosse irreversível

como se a vida, agora, se limitasse a isso, a esse

beijo.

o asfalto

é um lugar de pisar e carros, um lugar de passagem, não parece natural um rosto ali, Imóvel.

ou morreu

ou a queda está doendo demais

até que eu me levantei

devagar

sentindo falta de algo no corpo.

não era a pele

nem o sangue

esse sangue que fica como um rio pela gente, já pensou? no quão líquido somos, água, sangue e nada vaza, a Pele de barreira e ainda por cima é macia, ainda por cima ela é útil

no amor.

depois da queda

meu plano de virar uma grande escritora subitamente ficou pra depois.

cair é uma pausa

no movimento da vida, de repente uma consciência

se não da própria morte

talvez da fragilidade que nos é inata

e no turbilhão dos dias a gente se esquece dela.

parecemos tão fortes lutando pelo que queremos, pelas pessoas que amamos, pagamos nossas contas, planejamos viagens, um filho, e de repente lembramos,

de repente entendemos que

somos feito de vidro.

 

-tá tudo bem?- perguntam, me ajudando a levantar.

sim. – respondo esgotada.

-vou chamar uma ambulância.

não, não precisa. tá tudo bem, não foi nada grave. eu vou pra casa agora.

-mas seu rosto. tá bem machucado. vem, a gente te ajuda.

não precisa, é sério. eu moro logo ali. obrigada. tá tudo bem.

 

e me lembrei de um dia

em que eu caí assim também, de rosto, minha mãe estava perto, ela me puxou pelo braço tão rápido

que doeu o ombro em cima da dor

do rosto.

 

-filha, filha. –ela dizia agitada.

 

me colocou no peito num abraço, aquela correntinha de pássaro que ela tinha

grudou na minha bochecha

meu suor, o dela,

ficou a marca do pingente em mim.

 

-tô bem, mãe. – eu disse. – foi só um susto.

 

e ela chorando. me vi ali, com 5 ou 6 anos,

consolando minha mãe da minha queda, acalmando ela da minha dor, eu que sempre fui a mãe da minha mãe.

ela nunca soube

cuidar de ninguém.

mas tentava, desesperada cuidar, às vezes ficava até violenta cuidando,

fazendo o curativo com força. ela se aborrecia rápido,

gritava Eu tenho tanta coisa pra fazer e colocava as mãos na cabeça.

esse era o seu jeito de lidar com o Susto, como uma menina.

então eu passei a evitar machucados,

tomava um cuidado absurdo como se minha vida fosse dentro de uma loja de cristais.

não queria ver minha mãe gritando, evitava contar as histórias das outras crianças que podiam assustá-la,

como quando a mãe da sofia morreu

e a sofia não comia mais

ficou tão magra que ia pra escola de cadeira de rodas.

não contei nada

nada de trágico para os ouvidos de mamãe. quando chegava de Noite

ela ficava mais macia.

a noite tinha um efeito devastador de calmaria pra minha mãe, sempre foi assim. ela nunca brigou com ninguém à noite,

ela ficava doce,

compreensiva, até bem humorada, até menos dona

de si. vulnerável à cama, ao peso dos lençóis, ela finalmente se calava, cedia, de noite você podia contar pra ela até de 1 medo.

calmamente ela te ouviria

dizendo tá tudo bem

e um abraço, um abraço também seria bom.

mas quando amanhece o dia

a calmaria passa

a calmaria é como se fosse um sonho que tive ou quem sabe era ela quem estava sonhando

e por isso me tratou assim, como aquelas mães nos filmes,

que cantam pra fazer o filho dormir, a mão delicada passeando pela testa do menino.

e assim eu sigo

tentando não me machucar

evitando qualquer perigo

pisando em

ovos tenho conseguido

me equilibrar com o passar dos anos, é pena que hoje eu tenha caído assim desprevenida

nem me lembro como. fico tentando lembrar

estava tão lúcida antes da queda

como posso esquecer de tudo assim, de repente? a memória. a memória tem vida própria

ela é um anão

morando na gente

entre a cabeça e o peito, mais ou menos na altura garganta.

 

tem certeza que não precisa de ninguém pra te levar em casa?

tenho, obrigada. eu já vou indo.

 

pego minha bolsa e a chave que foram parar do outro lado da calçada. agradeço com um leve aceno de cabeça os olhares preocupados dos desconhecidos ali

na rua

eles formavam uma pequena plateia.

olhavam com pena

minha volta pra casa, espero que a mãe esteja no mercado

ou que o machucado seque

com o vento,

 

ventava bastante,

 

aquele algo a menos no corpo ainda latejava em mim.

estudo de diálogo com dois personagens ao telefone

– posso te mandar uns poemas? tenho escrito tanto, tenho
divido meu tempo pintando e escrevendo.

– e se você escrevesse nas telas? pode me mandar seus poemas, claro.

– eles não são muito grandes.

– então eles cabem na tela.

– não, não disso. eu digo pra te mandar. você não vai perder muito tempo lendo.

– eu não perco tempo lendo, não é assim que eu vejo. pra mim tudo é escrever.

– pra mim ainda não. eu pinto há mais tempo. vejo as coisas como quadros, por exemplo a mulher que vi ontem com algo de triste no rosto
saindo de um restaurante
entrando num
táxi: é um quadro

– é um texto, também. dá pra virar. ontem por exemplo meu pai me deu uma folha que chegou do banco
com um cartão do seguro de vida.
ele me deu e disse pra eu guardar num lugar seguro. disse pra eu não esquecer nunca
do cartão e da folha. aí eu dobrei, perguntei se podia dobrar, coloquei o cartão dentro e guardei os dois numa caixinha no meu quarto. fiquei pensando a noite inteira na morte do meu pai. no livro do karl ove, sabe? o primeiro da série, você leu?

-não, não conheço.

-ah, você precisa ler. depois eu te empresto. (ela nunca
emprestou livro nenhum na
vida, tampouco emprestaria esse. mas usava sempre a mesma frase, eu te empresto,
sabendo que isso era pedir demais de si mesma.
emprestar um livro que ela amava como os do Karl Ove
era como emprestar uma canção favorita,
carregada das emoções que ela traz por ser A favorita, essas coisas
não se emprestam. ela gostava de dizer que sim porque a frase ficava boa
na boca)
– mas então, eu fiquei pensando: ainda bem que eu tenho uma irmã pra me ajudar no luto. aí eu lembrei que ela é muito jovem
e a probabilidade
é que ela não ajude em nada
por estar sofrendo demais e não saber lidar nem com a própria dor. senti que eu era a única pessoa que ia cuidar das coisas quando meu pai se for,
sou eu que vou ter que deixar minha dor de lado pra cuidar da parte prática. mas aí eu fiquei pensando.
como é que meu pai tem tanta certeza que ele vai morrer primeiro? ele parece ter muita certeza. eu posso morrer primeiro, entende? eu sei que sou mais jovem e tal, mas é engraçado ele ter tanta certeza.

-os pais são assim. eles não pensam na morte do filho como algo natural. eles não querem lidar com essas coisas, eles querem que a gente lide com a morte deles.
os pais colocam muito peso nas nossas costas.

-é verdade.

-porque é foda ser pai. e mãe. eu acho que eles se arrependem um pouco, eles amam a gente e tal, mas em algum lugar
eles sentem falta da liberdade. quando você tem um filho você é menos livro, digo, menos livre. você tem um laço eterno com alguém. e isso pesa.

-com certeza. eu entendo. Foi estranho o papo do meu pai, mas ele é sempre assim, meio gélido, deve doer ser pai pra ele, ainda mais que ele foi pai muito novo. quando ele vem falar comigo são sempre de coisas práticas. o carro quebrado,
o 4g da internet.
e a morte, a morte dele. algo prático que ele pensa que precisa resolver. mas sabe, não é legal chegar na janta e falar da própria morte assim.

-não, não mesmo.

-mas então, na hora que tudo aconteceu, que ele me deu o cartão e tal, eu pensei vou escrever sobre isso. sobre um pai que ao invés de dar um abraço no filho pra falar da morte, ele dá um cartão de seguro,
entende? até nos meus momentos mais delicados,
até quando eu estou sofrendo muito
como ontem
porque essas coisas pequenas acabam comigo, essas delicadezas da personalidade do meu pai que são terríveis,
sombrias, isso me faz sofrer demais, não sei lidar com ele nessas miudezas. ainda assim, nesses momentos, eu estou sempre pensando na escrita. é como se tudo, absolutamente Tudo, fosse material pra escrever um livro.

– e é.

-e é. às vezes eu sinto que trocaria tudo pela escrita. mas se eu trocasse tudo, eu não escreveria nada.

– as coisas são como são. é melhor assim.

-me manda logo seus poemas, vai, tô curiosa.

-vou mandar. vou escolher alguns.

-eles são sobre o que?

-sobre sensações. sensações que eu ainda não consegui guardar numa palavra única, do tipo
solidão e
pronto ela dá conta da minha sensação. não, eu escrevo sobre algo que não está na superfície das coisas. aí eu tento puxar
com o poema.

(ela ficou em silêncio. estava tendo uma ideia
para um texto
por conta do que ele disse, das coisas que não estão na superfície. escrever um poema
é colocar um colete
salva vidas em algo
que estava perdido nas
profundezas do oceano. ela anotou a frase no bloco de notas)

-cê taí?

-tô, desculpa. (ela não sabia ainda se usaria a ideia pro romance ou
pros textos soltos,
as maiores preciosidades ela guardava pro romance mas
não acontece assim na página.
às vezes ouvir uma coisa é bonito
e parece dar caldo
mas quando se escreve a beleza evapora, as palavras apagam aquilo que antes não tinha nome,
que antes era apenas uma força,
um sopro atrás da orelha, agora em palavras aquilo, aquela potência,
se desmancha
porque ela não é do tipo que se guarda
e tudo se dissolve como uma
aspirina)

-ei. que foi? ficou muda de repente?

-nada, desculpa. estava pensando no meu romance.

-não sabia que você estava escrevendo um romance! é sobre o que?

-ah, ele não é de Sobre. ele é mais como palavras escorrendo pela página.

-é poesia?

-não. é uma história. quer dizer. poema também é uma história. é em terceira pessoa. é difícil falar sobre ele, ainda (ela sabia
que sempre seria difícil falar sobre seus escritos
algo na escrita é intrasferível pra fala
fica sempre um buraco
e esse buraco a incomodava. ela queria construir uma ponte
e assim caminhar pelo buraco, ver o buraco,
nunca tapá-lo, saber que ele existe. mas passar por ele, sem cair. os ouvintes mais distraídos nem perceberiam, olhariam só
pro céu.)

– então tá. – ela disse. – tenho que desligar agora. me mande logo os poemas, tô louca pra ler.

-tá bom. vou escolher aqui e te mando. Um Beijo.

-beijo

mas o beijo dela
já saiu pelos dedos, no teclado, querendo virar
uma História
de amor? é,
de amor
uma mãe apaixonada pelo filho de um jeito estranho,
um jeito que machucava a mãe
e o filho, os dois começaram a perceber isso já na
amamentação, o bico
a boca, os dentes.
taí. essa história parece que dá
caldo,

vamos ver.

meu jeito de entender

numa festa

um homem veio conversar comigo. estávamos na porta do banheiro, esperando, e nesses momentos parece que o silêncio é algo rude demais, conversar sobre qualquer coisa se torna uma necessidade,

se proteger nas

palavras, qualquer coisa menos deixar que esse silêncio contamine ,

quando ele

contamina

é tão forte que nasce uma pedra, vamos ficando mudos, as pessoas acham que é

timidez mas

é o peso

dos silêncios passados, é preciso não deixar que se chegue nesse ponto, principalmente em relações rasas como são os encontros sociais.

era uma festa de noivado, aquilo,

então o homem começou a

reclamar do Casamento, ali na porta do banheiro, falando que pessoas jovens deviam fugir

disso, dos noivados, as pessoas jovens tinham o direito de

viver. fazer viagens,

gastar dinheiro

com viagens de barco também

porque nada é como o mar, ele disse, nem o céu.

vi uma aliança no dedo dele. perguntei:

– você se arrepende de ter casado?

minha esposa está ali. – ele disse

dando um gole no whisky.

percebeu me olhando

que de fato eu perguntei querendo ter uma resposta, aquilo não tinha sido uma pergunta de roda de amigos.

ele respirou fundo.

me disse:

 

– claro que não. casar é bom, eu tô brincando. aquela mulher ali

é a minha companheira, por mais que tenhamos problemas

com ela eu não sinto só. a solidão é uma coisa terrível, sabe? eu não desejo pra ninguém.

aquilo me bateu de um jeito.

parecia que ele estava falando de algo que ele conhecia bem. fiquei pensando no que era solidão pra mim, no geral costumo dizer que

gosto dela.

aquela em que fico trancada no quarto por dias, escrevendo,

é boa, necessária.

não ter nenhum amigo que me ligue só pra perguntar como eu estou também não me faz falta, aliás um alívio. atender telefone me dá calafrios, isso

vem da infância.

quando eu era pequena

toda vez que eu atendia o telefone

era notícia de alguém que tinha morrido.

a vó morreu. não fala pra mãe.

tô indo praí.

que facada no estômago segurar uma notícia de morte.

olhar pra minha mãe

saber da morte da mãe dela e

não dizer nada.

Segurar, foi meu pai que pediu, afinal de contas eu era uma criança.

só consegui não dizer porque não olhei minha mãe nos olhos.

prever o tamanho da dor que ela sentiria foi

horrível.

vê-la chorando apoiada na parede

caindo no chão

foi exatamente do jeito que imaginei.

tinha muita solidão ali na dor dela, só ela sabia o que era perder a mãe que a mãe dela foi.

eu

já quis usar

a palavra solidão

como título de um livro que acabei não escrevendo. eu só tinha essa palavra e mais nada, era um livro sem página pra ficar em lugar nenhum.

então me lembrei

da solidão que senti

outro dia

quando minha mãe foi viajar.

minha casa

finalmente ficou

muda, pensei que bom esse tempo, esse espaço

pra ser.

comi torrada no café da manhã.

a manteiga

estava rançosa.

lavei a louça mínima do meu café, nem precisaria ter lavado,

mas aquilo era a minha mãe em mim

sempre deixando a pia limpa.

pela janela eu vi as árvores balançando ao vento num pequeno barulho de folhas

que ouvindo dali, da pia,

a água da torneira era mais alta.

meu cachorro me olhava sentado, esperando alguma coisa. não posso te dar

isso que você espera,

só consigo dar

quando recebo e por hora

estou lisa.

esfreguei o nescafé grudado na xícara. pensei no dia

da morte da minha mãe, esse futuro que me assombra. pensei que

um dia minha mãe Vai morrer

e talvez

talvez eu esteja aqui pra ver isso.

não sei o que é pior, se é estar vivo pra ver isso e todas as coisas antes disso, entre, depois. ou se é não estar.

sem minha mãe em casa

eu tinha todo o tempo do mundo pra escrever

ler na sala

aproveitar o silêncio estendido pela casa toda

chamar o zelador pra concertar o cano e

transar com ele, por que não?,

pular em cima dele meu velho fetiche.

acabei assistindo um filme pornô. na sala, sem parede nenhuma pra proteger a minha intimidade. abri as pernas, estava de camisola ainda

e ficaria de camisola pelo dia inteiro.

era um apartamento comum no filme

e de repente um cara entrou em cena. ele mal falou hello e já se ajoelhou

para chupar a moça

segurou a perna

bamba dela

pela bunda, uma mão enorme, um pau enorme.

gozei 2 vezes. não baixei meu volume gemendo, gozaria mais 3,

4,

5, tudo era tão

vazio, minha mão, a buceta, meus líquidos. depois adormeci. quando acordei eram três da tarde, na tv 2 homens fodiam uma mulher de 4.

lembrando desse dia foi quando entendi

o que era a Solidão que o homem casado tinha me dito não desejar pra ninguém, foi aí

que eu liguei a palavra solidão ao dia que a minha mãe foi viajar.

eu posso morar sozinha, posso morar longe, morar fora, eu posso não voltar

nunca mais

que não vou sentir solidão, o problema é esta Casa quando minha mãe não está.

Memória N.1

fiquei em cartaz num teatro que foi um antigo cinema.

contei isso

pro meu diretor, por acaso eu tinha assistido Titanic ali e reconheci a sala, reconheci principalmente o hall de entrada, e o diretor me disse:

 

você conhece a fábula? do cinema.

– não.

– é bonita, deixa eu te contar. aconteceu assim: um dia o teatro ficou grávido

de um ator.

era um ator inquieto,

ele passava horas pensando num jeito de guardar as peças que ele fazia.

num livro não era possível,

ele queria guardar a atuação, não o texto,

e a memória era como uma mão segurando um líquido, algo de essencial sempre escapava.

pois bem,

foi quando o teatro

engravidou desse ator apaixonado

e depois de 9 meses

nasceu um menino cabeludo, de olhos bem abertos. o teatro e o ator então

deram o nome do filho de

Cinema.

– ah tá. – eu disse. – você inventou essa história agora, né?

 

meu diretor riu

caminhando pelo palco curto que coube

a nossa peça, era só eu e mais uma atriz.

nosso cenário era uma poltrona fixa

poucas coisas entravam em cena além de uma maleta na minha mão e um paletó.

no camarim

o espelho ficava de frente pra janela, mal dava pra se enxergar por conta da luz.

por isso que eu entrava em cena parecendo um palhaço,

na época eu pensava que era por isso,

o palhaço que morava em mim aproveitava a luz ruim do espelho e saía pela maquiagem na minha cara

um alter ego indesejado

especialmente quando se está fazendo um advogado em cena, mas no fundo não era nada disso,

no fundo era só meu Eu me dizendo que

ser Atriz não era pra mim.

hoje em dia

se penso que tenho que contar uma história no palco

começo a

sentir calafrios.

prefiro não ter

consciência de estar contando

na folha em branco vou dizendo e mal sinto, pra mim é como pensar. agora subir num palco com a consciência de estar subindo, isso estraga qualquer possibilidade de ser natural. naquela época em cartaz eu ainda não sabia disso, ensaiava ingênua, gostava de chegar antes dos ensaios da peça

e ficar ali

no hall de entrada

lembrando de como era aquele espaço sendo cinema, lembrando do dia que assisti titanic com a minha amiga que trocava cartas comigo mesmo sendo minha vizinha.

 

não vai acabar muito tarde? – minha mãe perguntou preocupada.

não. – prometemos,

apesar que isso não estava nas nossas mãos.

 

lembro que sentei numa poltrona do fundo

com a pipoca no colo, a expectativa em cima da pipoca.

 

– titanic é um filme fortíssimo. – diziam os adultos

 

eu e minha amiga longe

de sermos adultas

assistindo um filme de barco e morte.

lembro que depois eu comprei um poster do leonardo di caprio, eu estava tão apaixonada, parecia que eu podia tocar naquele rosto.

da kate eu queria o tamanho do peito, o meu na época

só tinha bico.

anos depois pra peça, vejam vocês, eu tive que enrolar uma faixa no peito

já que eu estava fazendo

o papel de um homem.

a acústica do antigo cinema

não era boa. pra voz chegar até o fundo da sala tínhamos que beber muita água.

 

 

(quando a cortina abria

nunca tinha

ninguém além da segunda fileira.)

 

 

teve um dia que, minutos antes do terceiro sinal, ouvi da coxia

uma mulher dizendo:

 

teatro é feito de pessoas que estão lá, filho, por isso que não pode pipoca. são pessoas de verdade e a pipoca faz barulho, pode atrapalhar.

 

 

lembrei da pipoqueira desativa,

foi por isso que o filho ficou com vontade. quando a cortina abriu

vi que o menino tinha cara de preferir

a pipoca

mais do que qualquer história contada por pessoas que estão lá,

não o culpo.

em essência aquele lugar era um cinema

e cinema tem o milho impregnado na alma, o milho do entretenimento, não foi o caso da minha peça. minha peça não era divertida, as pessoas saiam no meio, as pessoas

não vinham

até que a peça

acabou.

nunca mais vi a atriz que contracenou comigo, nem o diretor.

demos tchau ali no hall

parabéns pelo trabalho e

nunca mais nos vimos.

depois de nós,

outras peças ficaram em cartaz por lá, ouvi dizer que nenhuma deu público.

 

– o lugar é muito escondido. – diziam os atores,

e os anos passaram.

 

até que ontem chegou.

eu estava procurando

uma assistência técnica da brastemp.

vi na internet que tinha uma grande na calçada das margaridas

número 50 e…dei de cara

com o teatro-cinema, caramba,

como eu não lembrava que ele ficava por aqui?

desci do carro.

estava tudo trancado

com folhas caídas nos degraus da entrada,

parecia outono.

cheguei perto da porta, agora com vidro fumê: não dava pra ver muita coisa, então colei meu olho no vidro.

tão de perto deu pra ver

alguns espelhos

com manchas do tempo, cadeiras viradas por cima da mesa, a bilheteria um ferro

nu de cartaz.

ainda bem que estava escuro

é a segunda vez no shopping essa semana. no domingo tentei ver um filme

mas o filme que tinha não era o que eu queria assistir.

hoje acabei vendo um terceiro

que não estava indicado a nenhum prêmio, um filme esquecido.

ótimo, pensei,

e comprei o bilhete, a história era sobre um grupo de escritores clandestinos.

todos eles tinham outras profissões

engenheiro,

professor, mecânico.

mas de noite eles se encontravam

numa espécie de clube de jazz

pelas ruas de nova orleans

pra conversar sobre literatura, com sorte arranjar um tema pro próximo romance.

o jazz trincava no palco

as falas dos personagens acompanhavam a empolgação dos músicos

negros como a noite que faz

na música Round Midnight.

a mesa dos escritores

era sempre a mesma

o garçom já sabia e chamava todos pelos nomes de seus drinks favoritos.

o horário do encontro também era o mesmo,

eles saiam correndo do lugar onde estavam

de bicicleta

a pé

aos saltos com

um sorriso no rosto e às 8 em ponto

todos eles estava lá

na mesa de sempre

passando o lenço na testa e já puxando um assunto,

 

aquele livro do Fante, Sonhos de Bunker Hill. Caralho, Ted, que livro! e aquela cena do strip-tease?

– Cheia de vida, não é? eu te disse. (o personagem acende um cigarro) é um livro e tanto.

– dá até raiva quando olho pra meia dúzia de páginas que escrevi ontem, será que algum dia eu vou chegar a escrever algo que realmente valha a pena?

– claro que vai! todos nós vamos. enquanto isso um brinde, hein. ao filho da puta do Fante.

– vá lá! um brinde praquele filho da puta!

 

 

 

um dia

o personagem do professor se apaixonou

por um belo rapaz

desconhecido de terno e pasta

que adentrou o clube sem mais nem menos. pediu uma bebida no balcão

ouviu a música pelo tempo do líquido

chegar ao fim do copo e depois

foi embora, deixou uma nota de 100.

 

incrível. – disseram.

o sujeito não quis saber de troco. – disseram.

ou é milionário ou

é louco. (risadas por todo bar)

 

aquilo foi assunto

no clube por várias noites. virou até anedota

dizendo que vida era mais valiosa

do que o dinheiro,

só valia menos quando alguém deixava uma nota de 100 no balcão.

o engenheiro usou a cena

como inspiração pra escrever um conto

que ele leu na mesa do bar semanas depois.

 

ficou bom, hein. ficou ótimo. – o professor falou, o rapaz de terno e pasta tampouco saía da cabeça dele.

 

o professor tinha filho

era casado

como ele poderia? assumir aquela paixão.

descobriu escrevendo

um romance chamado

O Troco

bastaram 3 noites para que ele escrevesse o livro todo

num ímpeto inigualável, de vez em quando sua esposa dizia da cama:

 

vem dormir. o que você está fazendo acordado até tão tarde?

 

ele mal respondia

ou respondia que eram as provas dos alunos

numa concentração inabalável

nem o choro do filho o distraía, era como se alguém estivesse soprado

as palavras em seu ouvido.

na quarta noite ele releu o romance, orgulhoso.

assinou com um pseudônimo,

Martha Eder

mas o livro

não vendeu bem.

ainda assim era um clássico, o professor sentia dentro do peito que era um clássico,

 

é que esses livros clássicos demoram mais pra serem reconhecidos, eles estão a frente do nosso tempo. – ele disse em aula

seus alunos anotando.

enquanto isso o rapaz de terno e pasta

tomava outro drink

num bar distante

sem nem imaginar que no mundo existia um romance de 300 páginas sobre ele

ou sobre a ideia

que um professor de inglês fazia dele, um professor apaixonado.

acontece que raramente a gente se apaixona por alguém, na verdade

a gente se apaixona por Ideias. outro dia mesmo,

eu estava no carro

no meio do trânsito

tentando virar numa rua que parecia bem mais tranquila ali pelo ângulo da janela, faltavam 3 carros pra eu conseguir virar mas a coisa não andava de jeito nenhum.

foi quando eu bati o olho num rapaz

fumando no carro

um cigarro que poderia ser de maconha.

sim,

pelo cheiro era de maconha

não fumo mas tive

um namorado que fumava como se ele quisesse morrer.

o rapaz vestia uma regata branca

daquelas de filme de guerra quando o soldado não está em combate

e várias tatuagens no braço, isso deixa um homem

viril ainda mais com aqueles olhos

apertados sugando a fumaça, fazendo um vinco na testa, caramba que gato, quem é esse homem? senti que estava me

apaixonando

como o professor do filme

mas é claro que eu não estava me apaixonando

aquilo era são paulo 6 tarde num trânsito dos infernos, aquilo era o disco do cohen no meu carro,

aquilo era eu

sozinha

e os filmes que eu tinha visto recentemente

sem nenhum homem que me fizesse brilhar o olho de novo

igual quando eu tinha 20 anos

namorando o rapaz da maconha querendo morrer nos nossos

corpos, queríamos morrer amando, entende?, aquilo nunca mais me aconteceu.

me apaixonei pela ideia

daquele sujeito tatuado

ser alguém que me levasse de novo pra ilha do tudo ou nada

dos dias correndo sem cerca

quarta segunda domingo

eu cheguei a abaixar meu vidro

e fiquei olhando pro sujeito pensando numa boa frase pra dizer pra ele mas

não me veio nada

absolutamente nada

qualquer coisa que eu dissesse estragaria a baixa possibilidade de encontro entre nós.

então eu fechei o vidro

e ele

virou a esquerda.

acabei até esquecendo da rua vazia pra fugir do trânsito

mas não vou esquecer

do sujeito tatuado de regata branca. isso

é só porque ele não faz parte da minha vida, então ele vira uma espécie de herói, um momento de virada possível que eu podia ter aproveitado pra ser feliz mas fui covarde,

igualzinho ao professor.

comi pipoca pensando eu te entendo, cara. é sério,

eu te Entendo.

inclusive acho que cheguei a verbalizar a frase

porque alguém no cinema fez Shiu

e eu senti meu corpo queimar especialmente as bochechas, aquela velha história da carapuça.