só consigo falar de mim

entrei na livraria pra matar

o Tempo.

fucei na bancada da frente, ali

a maioria dos livros eram de autores ingleses, a capa uma fotografia de céu, guerra ou

um casal.

na frente da bancada tinha uma placa escrita: os mais vendidos

e ao lado uma mesa

com outros livros

tão bem encaixados que lembravam prédios numa rua sem saída.

esses livros da mesa

eram de uma série infantojuvenil chamada Desventuras em Série, me veio meu pai,

calado como é,

me trazendo depois do trabalho os 5 primeiros livros dessa saga, dava tudo errado para os protagonistas que eram crianças como eu

dando tudo errado pra mim também, imagine o alívio.

depois de ler esses livros

entendi que as histórias também podem ser tristes

com finais inacabados

e ainda assim estarem num livro que as pessoas querem ler. antes eu assistia filmes com tudo dando certo não importa a merda que tenha acontecido

e aquilo fazia nascer em mim uma angústia

intuitivamente eu já entendia

que a vida é feita de coisas que dão certo com errado

e de coisas que não dão em lugar nenhum, coisas neutras.

continuei andando pela livraria

deixando a vista me levar pelos caminhos das prateleiras,

bancadas,

placas de: literatura estrangeira, literatura brasileira,

espiritismo,

informática,

meu cinema começaria em 40 minutos. se eu estivesse em busca de algo

seria de um café

já que semana passada sentei em um café sem saber que no dia seguinte eles desmontariam o lugar por falta de dinheiro.

o dono devia ter avisado os clientes, um bilhete que fosse, perdido no cardápio dizendo: Amanhã fecharemos pra sempre.

ah se eu soubesse.

teria sentado com muito mais vigor naquele café.

olhei para as pessoas ao redor na livraria.

elas

pareciam encontrar os títulos que precisavam, ainda que sem ajuda dos poucos atendentes,

inclusive encontravam os títulos que elas precisavam há tempos e nunca tinham encontrado.

– leia este,

em algum lugar do passado chegaram a ouvir

e anos depois a pessoa encontra o tal livro que disseram leia

passa no caixa com o dito cujo no braço,

leva o calhamaço pra casa sentindo que fez a sua parte mas

não lerá naquele momento, ocupada como está no trabalho, no amor,

talvez dias depois, talvez meses.

a vida de um livro é toda Espera

desde antes

dele ser escrito

até o momento

de ser lido

e também depois

quando é lembrado, isso tudo leva o tempo de uma Montanha ficar pronta.

um livro ansioso

nem nasce livro

nasce a história de um animal em extinção. foi quando meu olho encontrou um título

CHA

RLO

TTE

na capa a pintura de uma jovem,

hipnótica mulher amarela.

eu não estava tão próxima assim do livro, havia uma certa distância entre nós. mas era forte

a mulher amarela

de olhos caídos, era como se eles fossem líquidos escorrendo pelo rosto.

pensei: não vou encostar

nessa capa

não quero

gastar dinheiro hoje além do cinema, 1 história de cada vez.

Resisti

por alguns minutos

sem conseguir tirar o olho

do livro

até que chegou a hora em que tudo ficou impossível, era como se aquela história

tivesse me escolhido.

fui até ela. segurei no braço seu peso de 238 páginas.

David Foenkinos era o autor. nascido em Paris.

tinha 42 anos

e além de escritor era músico de jazz.

virei o livro,

o Booklist em sua crítica tinha dito:

– um romance que lembra poesia.

abri o livro:

 

Charlotte aprendeu a ler seu nome num túmulo.

porra que frase

excelente pra começar uma história

foi quando notei a forma

cortada que o David escrevia.

engraçado,

ele fazia como eu.

eu também corto

frases pra contar histórias

elas se enraízam eu

corto

é duro cortá-las, dói a mão mas eu

corto

com uma faca de madeira que peguei da gaveta da minha vó.

o livro

conta a história da pintora Charlotte Salomon

que morreu grávida aos 26 anos

em Auschwitz, o David conta baseado numa auto biografia dela

lida por ele

anos depois da morte de Charlotte.

os dois nunca se viram, nem ao menos se trombaram numa esquina qualquer,

o David conta do jeito que imagina ou consegue

imaginar.

eu leio ali mesmo

de pé na frente

de todo mundo

as primeiras páginas e descubro Charlotte do tamanho que me cabe, tiro os lençóis

empoeirados da

memória lendo aquilo.

vou comprar, decido,

e descubro os caixas da livraria,

abrindo e fechando gavetas cada vez menos por conta das maquininhas de cartão.

não há troco, parece estar escrito nas camisetas dos atendentes, pague no débito. na época em que eu brincava

de caixa registradora

no quintal de cimento da casa da freguesia, minhas tardes de infância tão livres, ah mas era um abre e fecha sem fim de gaveta, os produtinhos de plástico imitando os do mercado, meu sonho era trabalhar no mercado usando patins

é no débito? – me pergunta o atendente da livraria, num desanimo de fim de domingo.

-é.

guardo Charlotte na bolsa, subo as escadas rolantes em direção ao cinema.

estou porosa, imersa nas minhas memórias, os livros contam tão além das histórias que eles guardam, são como espelhos meu deus, são

como Espelhos.

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solitária

a mesa era grande e redonda pra caber todos os alunos.

nossas mãos se apoiavam nas bordas em seguida

nos livros, o colorido primeiro

com a matéria do dia, depois o preto e branco com os exercícios, alguns eram de levar pra fazer em casa.

a maioria dos alunos

não faziam os exercícios em casa, éramos adultos e tudo Gelado

pelo ar condicionado daquela escola de Espanhol.

o sino da porta de vidro

tocava toda vez que alguém entrava na escola ou

saía, pra que? se a porta

era de vidro. eu ficava imaginando

a vida da secretária

ouvindo sino o dia inteiro

depois da janta era o momento que ela fazia lição de espanhol.

Aula de graça para todos que trabalham aqui, estava no contrato, e a secretária sempre sonhou em conhecer Andaluzia.

Estudava

pensando que o esforço do estudo podia gerar alguma recompensa, por exemplo a vida se ajeitando

pra que ela conseguisse

finalmente conhecer

Andaluzia, a secretária acreditava em deus e a vida secreta por de trás disso.

quantas combinações de desfechos são possíveis para as pessoas que Acreditam?, o duro é ir assistindo

o Nada acontecendo apesar da fé, o duro

é ir desacreditando

com um lado seu não querendo

confessar pra si mesmo

que a vida só depende de nós e não tem mão que empurra

a não ser a própria,

quando eu chegava pra aula a secretária me dizia:

– que arrumada.

não exatamente num tom de elogio.

eu passava um perfume forte demais para uma escola sem janela

queria que aqueles alunos se lembrassem de mim

queria imaginar que num churrasco futuro

pelo menos 1 deles, porque surgiu o assunto, dissesse:

– eu estudei espanhol.

e pelos segundos que durassem a fala

ficaria Eu na cabeça dele

como lembrança de alguém que também estudou

espanhol na mesma escola, na mesma época um perfume forte demais, que fossem milésimos de segundo não importa, ainda assim aquilo era um jeito de não morrer.

teve um dia na aula

que sem querer eu acabei ganhando

uma amiga. dei um sorriso pro exercício do livro que ela estava fazendo e foi o que bastou para sentarmos juntas

durante o intervalo na salinha do café e de repente eu comecei a reparar

naquela garrafa térmica

cheia de um líquido escuro feito há pelo menos duas horas durando tantos alunos. era pra ser imbebível

aquele café que bebíamos

a garrafa térmica disfarçava isso igual a geladeira com os alimentos, de calor o contrário,

mas as duas seguravam a Morte

das coisas que nelas se guardam

fazendo a gente se alimentar de

pequenos estragos, aparentemente comestíveis. esse mal estar coletivo, essa ânsia, deve nascer daí.

com a minha amiga eu não conversei sobre isso, claro, não queria assustá-la. então eu disse sobre os filmes do Almodóvar

e a Espanha que aparecia neles

também em outros

filmes como Vicky Cristina

Barcelona

de um jeito que só o Woody sabe mostrar

e faz igual

com nova York, por isso eu fui aprender inglês. a minha amiga também se sentia assim, com os aprendizados sendo movidos por fetiches, Paco de Lucía não fala

em suas músicas mas o som que sai do violão é

em espanhol. rimos disso

e de como a nossa cara ficava pesada com aquela luz branca

do banheiro depois da descarga,

a gente riu pronunciando uma palavra impossível pro nosso acento

e a professora nascida em Madri dizendo no

no

qué pasa? agora ela mora em São Paulo e a gente rindo

da nossa pronúncia estúpida

da nossa falta de talento pra dizer o som das palavras nascidas numa terra que nunca estivemos

com a impressão de que lá

é sempre um pouco melhor

do que aqui

mas é só estar de fato em um lugar para já querermos o próximo

e o próximo

e o

próximo, entende? rimos

do sininho da porta

toda hora tocando

de todo mundo usando o mesmo livro

pra estudar uma língua que não é igual pra todo mundo

como? pessoas tão distintas vão aprender com métodos tão iguais?

a escola

a geladeira

a garrafa térmica

essas coisas apenas conservam

a falsa estrutura do mundo, rimos

percebendo a terrível

semelhança em tudo

e a franja líquida no olho da professora dizendo no,

no,

qué Pasa?

pra mim e pra minha amiga que Nunca existiu.

 

para ana martins marques

enquanto leio os poemas de Ana Martins Marques sem querer puxo

pra fora da blusa um peito.

acho que já fiz

isso outras vezes

com coisas que

me Identifico. é como uma Bandeira

mostrar um peito,

é um Grito de eu também

pulso assim nessa frequência

sem nunca ter conseguido

encaixar a sensação no silêncio
curto
entre as letras
de um Poema que é tão maior do que o poema e só Cresce

pros lados, pra dentro

pra baixo, subindo,

eu já tinha feito isso

de mostrar o peito

anos antes quando entrei sem querer com o carro numa rua vazia (sem querer no vazio, não na rua,
a rua era exatamente nela que eu precisava entrar)

e o inesperado

dela estar vazia

entre tantas

ruas cheias cruzadas com outras que eu sempre estive.

aquela não, aquela parecia o quintal de alguém.

fui por ela com o carro flutuando,

tentando tirar o peso das rodas

como? meu deus, tentando,

e meu peito de fora que eu mesma coloquei.

pensando bem, essa pela rua foi a única vez que eu mostrei o peito

tirando agora

no livro das semelhanças

que tem a palavra Rua por sete páginas

cada vez menos coisas

possíveis de mostrar o peito, a vantagem do raro
é a Força.