a caminhada de volta pra casa depois da notícia virou um jogo de imaginar

o casamento vai ser na casa da vó, você vem?

vou, – prometi.

 

queria ver

meu primo casando

já vi ele fazendo tanta coisa jogando bola tomando banho. já acordei tantas vezes antes dele

e também dormi depois

só pra assistir

o sono se instalando

nele com pijama de nuvem

que foi parar no corpo de outra criança quando meu primo cresceu a perna.

agora já não sei mais por onde anda aquele pijama, talvez

tenha virado pó.

de Terno

eu nunca vi meu primo

nem de ônibus

só quando ele me conta

 

-andei de ônibus.

 

e eu fico imaginando ele sentado

olhando a cidade

pela janela do ônibus que eu também imagino

baseada nas vistas que guardo em mim.

é claro que eu vou no seu casamento, pensei voltando pra casa.

quero ver você

entrando de noivo

depois de mãos

dadas

com a sua esposa vestida de rendas enormes, não exatamente bonita,

mas a sua esposa até que alguém diga

chega.

comecei a imaginar a festa,

pra no dia me ser um pouco mais fácil.

vai ter um bolo

na mesa da cozinha

feito por uma empresa de bolos e 2 bonecos noivos em cima, geralmente se divertindo.

serão poucos convidados já que a casa da vó é

pequena e terá um dj no quintal. a vó dançará com o vô

seu pai dançará com a sua mãe

seus amigos vão conversar sobre o quanto você tá mudado, antes você dizia eu nunca vou casar e agora

o Terno

agora esse perfume que eu não reconheço

nessa noite fria demais pra ficar com as costas nuas

num vestido.

no dia do seu casamento

você me cumprimentará como alguém ocupado

e eu te cumprimentarei sem forças pra dizer qualquer coisa parecida com um parabéns.

vai cair

uma lágrima de mim

e você verá nela uma espécie de brinde aos noivos.

pra secar comerei um brigadeiro

ele vai tapar

meu choro

nascido na garganta

deixando tudo doce demais e eu me ocuparei exatamente disso, de matar a sede, pegando no bar improvisado uma taça de champanhe.

 

 

( – você é muito Fechada, –minha irmã me disse um dia

sem cuidado.

não sabia disso, pensava que eu era uma

boca.

o que ela me disse

fez nascer uma imagem de mim em formato de Porta

sem ninguém conseguindo me abrir porque eu não tinha fechadura e isso

me deixou assustada.

eu precisava de mais calma pra ouvir o que ela me disse,

dito assim tão do peito me fez fugir da frase

que acabou virando uma briga entre nós)

 

 

beberei a champanhe

como se fosse um veneno.

me imaginei morta

num canto da sala

quando percebessem todos correriam até lá.

 

– meu deus meu deus. – diriam. –chamem uma ambulância.

 

comigo morta

ouvindo tudo.

depois me imaginei bebendo a champanhe como se fosse o sangue da esposa do meu primo, sugaria aquela mulher pelo pescoço

discretamente

por trás.

 

a noiva morreu. –diriam abismadas as pessoas da festa

 

e a noiva oca cor de

azul.

meu primo

a beijaria tentando

o que?

 

– ressuscitar, sei lá, como é que uma noiva cai assim tão morta?

 

e ele

se sentiria beijando um freezer.

depois me imaginei bebendo a champanhe como se fosse água

como se eu não me importasse

e por fim decidi que esse seria o jeito oficial que eu beberia a champanhe no dia do casamento do meu primo, como se eu não me importasse, (a frase da minha irmã criando raízes).

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