gripe

comecei a sentir falta de ar.

fiquei lenta, abri a boca

mas o ar que entrava pela boca

me sufocava um pouco

mais cada vez que

entrava e tudo

era em ritmo de folha

que voa

com o vento denso do verão.

estou morrendo, pensei. e fui ficando dura.

 

 

– você tá longe. tá tudo bem?

é que eu tô morrendo – eu disse pro meu namorado

que me olhou

rindo,

todo mundo sabe que as pessoas morrem e quando finalmente chega a hora ninguém acredita.

não tô conseguindo fazer o ar entrar. – sussurrei.

 

então ele me deu o guardanapo

que veio junto com a pipoca.

disse:

-assoa.

o cinema era só o som

do filme que não tinha ação, era uma história sobre vizinhos pacíficos, qualquer chiado na sala ganhava volume.

o silêncio

deixa enorme o som que o Corta, é um tipo de vingança

pela interrupção.

olhei pro guardanapo sentindo nele um abrigo.

Assoei,

deu pra ver algumas cabeças virando.

coitada, devem ter pensado

que nojo, devem ter pensado

quando algo começou a se contorcer em mim.

meu corpo foi encolhendo as costas

o olho

a boca abriu o pescoço

os buracos do

nariz meu cu travado e o

 

Espirro

veio com força, meu namorado

passou a mão na minha coxa e, pelo menos por hora, ninguém mais morreu.

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Um comentário sobre “gripe

  1. Pingback: gripe — ALINE-SE | O LADO ESCURO DA LUA

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