facilidades

no Nordeste

quando morre uma criança antes do batismo

ela precisa ser enterrada com os olhos Abertos.

dói

ver no caixão o corpo mínimo

de olhos parecendo que a vida fugiu dali e

por ser uma fuga

fica a impressão de que a criança pode voltar.

ela pode

levantar disso tudo

a qualquer momento ela vai começar a brincar de pula corda, claro que

uma corda imaginária.

vamos esperar mais um pouco, a multidão parece dizer,

por isso eles não enterram logo a criança,

ficam perambulando pelas estradas cantando oh deus pai,

oh deus pai,

tenha piedade da criança que se vai.

 

mas por que de olhos abertos? – eu pergunto

 

-pra ela encontrar o caminho do céu. sem batismo

a criança não é filha de deus.

 

me respondem as carpideiras

numa missa itinerante

até o enterro

que será terra

nos olhos sem pisco, enquanto a terra não cobrir tudo uma fagulha de luz.

morreu de que? a criança.

geralmente de estômago

tão vazio quanto o olho de vidro

uma bola de gude opaca

a alma se foi

pra onde? senhoras com terço na mão seguem em frente

os homens carregando o caixão também

não precisariam ser tantos

para um caixão tão pequeno

o da frente deve ser

o pai,

o da esquerda o irmão mais velho

enquanto os irmãos mais novos brincam, não sabem, com as pedrinhas que moram na beira da estrada.

a pele das pessoas parece o chão numa escama única

só a pele

do bebê morto que não sofreu nenhuma fissura

 

-é que não deu

Tempo.

 

alguém me conta interrompendo a própria reza

mas sem afetar

a reza da multidão mais triste que o canto da cigarra, tem muito desespero dentro do canto da cigarra.

pergunto ainda

tonta pelos pés aumentando, cada vez que passamos rente a uma cidade mais pessoas se juntam a nós como se conhecessem a criança, então eu pergunto:

 

-pra Onde vamos?

 

mas essa pergunta ninguém responde, ninguém interrompe a reza pra me responder.

pergunto de novo

mais alto

e de novo usando toda a minha força as veias saltam minhas pernas bambas

 

-pra Onde vamos?

 

e nenhum pio além do canto

será que as pessoas da procissão também estão mortas?

cabe?

todos os mortos

de fome debaixo da terra? não fica muito

apertado?, muito inconveniente?

 

jogue um pouco dos corpos no mar, – sugiro.

 

que Mar?

o duro

é estar de férias

nadando de biquíni novo

e trombar com o corpo de um estranho mas

porque está morto e todos nós também morreremos, então o corpo se torna familiar. isso

estraga as férias de qualquer um

mas no Nordeste

na loja de caixão

vende também banana logo ao lado e vende

sapato, não pro morto, pro vivo.

ninguém compra porque não tem dinheiro, não por pudor.

é muito próxima

uma coisa da outra nas terras que são secas

uma naturalidade em morrer, uma aceitação.

pelo menos acabou, eles pensam,

se fosse na grande são

paulo um filho de Alguém

que alvoroço seria até que o padre desse um jeito de batizar o bebê morto

pra ele fechar o olho e não precisar procurar caminho nenhum, na verdade

nem bebê morto teria.

 

sonos

sentamos no banco do ônibus.

 

-vocês são namorados? – perguntou uma senhora

tão velha quanto o próprio

Tempo.

ela viajava sozinha,

estava louca

pra conversar um pouco

sobre coisas leves e assim

voltar pra casa

com algo recente nas mãos.

 

– não. – respondi com um sorriso.

 

e o que falta pra serem?

 

eu e ele nos olhamos.

nada nos machucava

nem aquela senhora

solitária

querendo que ficássemos também sós dentro de um nome

que normalmente dão aos casais apaixonados.

cercar com Nomes é o nosso jeito de tentar entender as coisas.

acontece que no fundo

ninguém entende nada

de vez em quando parece que chegamos num mais perto

(tão distante)

e então Escapa de novo

dá um

branco e um fraco nas pernas, o mundo é tão maior.

 

– estamos bem assim – eu respondi,

e a senhora não fez mais perguntas.

 

virou pro lado da janela. o céu estava preto como um cavalo preto.

olha uma estrela, – apontei.

 

(os olhos do cavalo)

 

meu não namorado

ficou procurando

 

isso dá verruga, apontar estrela. – ele disse me dando um cutucão

que virou cócega, depois

um beijo

longo

estávamos no fundo

do ônibus

na última cadeira aquela mais alta e a senhora única companhia

Dormiu

 

 

(num sono tão profundo que

 

Morreu,

 

mas isso a gente só descobriu depois, quando o ônibus parou no terminal,

e a senhora foi a única pessoa que não desceu.

foram chamá-la, o motorista, gelada ela

não desceu)

 

seguimos beijando

a mão dele veio

pro meio das minhas pernas

 

-você é quente aqui. – ele disse

 

meu bico subiu a gente sabia da língua sendo tão gostosa

das línguas no corpo molhando tudo

começamos a nos lamber por baixo e ai meu deus como é bom uma língua morando, suspendi o vestido e ele veio

encaixado

sem se mexer muito

apenas ficando dentro de mim o que virou a gente se olhando com calma,

se encontrando até que ele

dormiu

no meu peito,

o pau ao lado

da calcinha descansando. o peso do meu não namorado me fez sentir viva.

a vista da janela

eram telas

que passavam rápido demais pra que eu percebesse qualquer detalhe

era como se num museu tivéssemos rodas ao invés de pés, rodas incontroláveis.

eu via a imagem de antes

na de agora

porque eu ainda estava presa na imagem de antes mesmo com a de agora pulsando.

o tempo de fora pressiona

mas o nosso tempo é sempre o de dentro, ainda que ele tente se ajustar.

a estrada

tinha muita montanha, árvores com alturas parecidas

quando de repente apareceu uma

Cidade

 

– é campinas? – eu pensei.

 

uma pessoa começa

a construir sua casa, alguém tem que ser o primeiro.

então vem outra

pessoa construindo e

depois outra.

pela vontade de ficarmos juntos como seres humanos é que nascem as cidades

o vento é o conjunto dos cheiros de tudo que mora nela, pessoas, ruas, lâmpadas, bicicletas, pássaros,

mas isso não dá pra ver de longe assim

do ônibus

de longe se vê apenas algumas luzes acesas, apesar da madrugada, se vê as milhares de janelas

algumas enfeitadas pro natal

não todas

nunca todas

não se vê os cachorros que moram nos apartamentos

ou os cachorros que moram na rua

muito menos os que morrem na rua, esses estão ainda mais baixos e a cidade logo passa

com o asfalto enrolando nas rodas.

algumas motos

olharam pra gente,

um homem dormindo em cima de uma mulher não é muito pesado? geralmente

o contrário

e o meu não namorado

tosse.

ele está vivo

e confia em mim de deitar no meu corpo

consegue dormir ao meu lado sem morrer porque morrer não é confiar

morrer é não ter escolha.

mortas as pessoas ficam expostas

aos lugares em que morreram, dormindo não. dormir num lugar é ter uma casa.

faço um carinho nos cabelos dele

do meu ângulo vejo

o nariz

os cílios

a franja

tão de perto

e a cidade lá longe bem pra trás

 

-era campinas?

 

com gente que também vê

outras pessoas bem de perto e ninguém se assunta

as pessoas respiram juntas

dizem oi, tchau

e tudo dorme

aparentemente calmo

não importa as coisas que tenham acontecido antes, uma hora se dorme de novo,

nem que seja porque a morte quis assim.

 

 

fechei tudo com fita várias vezes se não as lembranças voam

– está aqui a caixa. e a fita. tenta fazer isso logo, tá?

respondi um Tá cheio de será que eu consigo?
quinze anos
vivendo neste quarto, as surras e os choros, tudo que eu dormi em horas, que escrevi em horas, que li, deve dar a idade de um adolescente.
estudei teatro morando aqui, o colegial morando, comecei a dirigir, renovei a carta três vezes,
a faculdade na segunda vez eu fui
até o fim
o começo do namoro
o cachorro
aprendi inglês
a descoberta do corpo, dos lugares de guardar as coisas, não cabe
faz mais uma
prateleira, comecei espanhol, francês,
viajei de avião
de maquiagem em excesso e depois
de rosto
limpo os espelhos
as colagens dos ídolos john lennon
o limão na pele pra conseguir as sardas e o sol que antes era tênis.
a tv aumentou
mas veio com defeito da loja, dá uma nuvem na ponta direita quando ela fica ligada por muito tempo
então eu nunca deixo a tv ligada
por muito tempo tenho medo
de morrer cada vez menos.
a vitrola tão sonhada vinda da argentina foi um presente que
nasceu aqui.
olho pra ela e vejo
os meus pés envelhecendo.
em cada coisa que guardo na caixa escuto um adeus em forma de música
mas se eu tiver que escolher 1 música
escolho autumn leaves.

a caminhada de volta pra casa depois da notícia virou um jogo de imaginar

o casamento vai ser na casa da vó, você vem?

vou, – prometi.

 

queria ver

meu primo casando

já vi ele fazendo tanta coisa jogando bola tomando banho. já acordei tantas vezes antes dele

e também dormi depois

só pra assistir

o sono se instalando

nele com pijama de nuvem

que foi parar no corpo de outra criança quando meu primo cresceu a perna.

agora já não sei mais por onde anda aquele pijama, talvez

tenha virado pó.

de Terno

eu nunca vi meu primo

nem de ônibus

só quando ele me conta

 

-andei de ônibus.

 

e eu fico imaginando ele sentado

olhando a cidade

pela janela do ônibus que eu também imagino

baseada nas vistas que guardo em mim.

é claro que eu vou no seu casamento, pensei voltando pra casa.

quero ver você

entrando de noivo

depois de mãos

dadas

com a sua esposa vestida de rendas enormes, não exatamente bonita,

mas a sua esposa até que alguém diga

chega.

comecei a imaginar a festa,

pra no dia me ser um pouco mais fácil.

vai ter um bolo

na mesa da cozinha

feito por uma empresa de bolos e 2 bonecos noivos em cima, geralmente se divertindo.

serão poucos convidados já que a casa da vó é

pequena e terá um dj no quintal. a vó dançará com o vô

seu pai dançará com a sua mãe

seus amigos vão conversar sobre o quanto você tá mudado, antes você dizia eu nunca vou casar e agora

o Terno

agora esse perfume que eu não reconheço

nessa noite fria demais pra ficar com as costas nuas

num vestido.

no dia do seu casamento

você me cumprimentará como alguém ocupado

e eu te cumprimentarei sem forças pra dizer qualquer coisa parecida com um parabéns.

vai cair

uma lágrima de mim

e você verá nela uma espécie de brinde aos noivos.

pra secar comerei um brigadeiro

ele vai tapar

meu choro

nascido na garganta

deixando tudo doce demais e eu me ocuparei exatamente disso, de matar a sede, pegando no bar improvisado uma taça de champanhe.

 

 

( – você é muito Fechada, –minha irmã me disse um dia

sem cuidado.

não sabia disso, pensava que eu era uma

boca.

o que ela me disse

fez nascer uma imagem de mim em formato de Porta

sem ninguém conseguindo me abrir porque eu não tinha fechadura e isso

me deixou assustada.

eu precisava de mais calma pra ouvir o que ela me disse,

dito assim tão do peito me fez fugir da frase

que acabou virando uma briga entre nós)

 

 

beberei a champanhe

como se fosse um veneno.

me imaginei morta

num canto da sala

quando percebessem todos correriam até lá.

 

– meu deus meu deus. – diriam. –chamem uma ambulância.

 

comigo morta

ouvindo tudo.

depois me imaginei bebendo a champanhe como se fosse o sangue da esposa do meu primo, sugaria aquela mulher pelo pescoço

discretamente

por trás.

 

a noiva morreu. –diriam abismadas as pessoas da festa

 

e a noiva oca cor de

azul.

meu primo

a beijaria tentando

o que?

 

– ressuscitar, sei lá, como é que uma noiva cai assim tão morta?

 

e ele

se sentiria beijando um freezer.

depois me imaginei bebendo a champanhe como se fosse água

como se eu não me importasse

e por fim decidi que esse seria o jeito oficial que eu beberia a champanhe no dia do casamento do meu primo, como se eu não me importasse, (a frase da minha irmã criando raízes).

a professora percebeu que eu estava fazendo qualquer coisa que não era prestar atenção na aula e me mandou prestar atenção na aula

eu via o anel dourado na mão da minha mãe que tirava pra lavar a louça depois recolocava, apressada, no dedo.

via o mesmo anel9673_479156445470149_1925683122_n

dourado

na mão do meu pai com pelo

já ele não tirava tanto

teu pai não mexe com água– minha mãe dizia.

por um tempo

eu pensei que o anel era 1

e que meus pais se emprestavam aquele arco

numa velocidade tão grande que meus olhos perdiam o quando,

de repente estava na mão de um

de repente

na mão do outro

até que percebi que Não.

foi no parque

quando meus pais deram as mãos.

eles não tinham tempo

pra dar as mãos

ficavam separados na maior parte do dia e quando eles finalmente deram, eu um pouco atrás, foi quando percebi que o anel

eram 2

contei de dentro da cabeça

1

2

e perguntei na janta por que eles tinham um anel igual no mesmo dedo.

é pra selar o nosso amor, querida. esse anel é como um símbolo de união, de família.

certo.

então porque eu não tenho 1 também se sou da família e vocês dizem eu te amo pra mim o tempo todo?

meus pais riram.

-é porque você não é casada com a gente. esse anel só eu e o papai que podemos usar.

subi pro quarto com passos pesados

a frase só eu e o papai grudada na testa.

peguei da gaveta um papel sulfite e cortei 2 tiras que dessem pra enrolar, pintei de amarelo.

coloquei 1

na pata do urso panda

e a outra

na pata do coelho

mas como eles eram de pelúcia e o anel cor de lápis

não ficou muito parecido com os anéis dos meus pais: peguei no sono mesmo assim.

cresci um pouco

não muito

ainda estava na terceira série.

fui ao cinema

com a minha vó

que me levou para assistir um filme de gente, eu prefiro filme de desenho.

mas eu quero tanto ver esse, os olhos da minha vó me diziam.

era um documentário

sobre um músico chamado Django Reinhardt, mas esse sobrenome eu não sabia dizer alto, nem minha vó.

ela gostava muito

da música desse moço que morreu e eu disse tudo bem vó, então vamos.

django

tocava violão muito bem e rápido

ela era um Cigano

gostava de morar na natureza tocando. um dia

seu trailer pegou fogo.

ele queimou a mão inteira

que ficou torta e

desobediente pra tocar música rápido.

porque ele tentou muito e porque ele amava violão com toda a força do seu ser

a mão dele voltou

a tocar as músicas

lindas que ele tocava

 

– e que mudaram a história do Jazz! – o narrador do filme disse, minha vó com lágrimas nos olhos.

depois do filme ela me contou

que dançava 1 música do Django chamada (eu não lembro o nome) com o meu avô.

foi num dia tão antigo

que hoje ele vive só na memória, as vezes a vó pensa que está inventando essa dança de tanto tempo que faz.

a memória

é a alma e mora no nosso corpo. quando dormimos

a alma passeia pela grandeza que somos por dentro do corpo muito maior do que parece

com muito mais peso e altura do que temos

o corpo é um espaço sem fundo igual ao universo

só a alma sabe e passeia por isso

a gente acordado corpo e alma não faz ideia do nosso tamanho.

mas antes

da minha vó me dizer essas coisas que me deixaram acesa na

mente,

no filme documentário eu vi

um anel dourado na mão de um moço tocando violão que não era o Django, era um admirador, eu vi o anel

igual ao do meu pai

igual ao da minha mãe.

o que significa isso? – perguntei.

que ele é casado. – respondeu minha vó. – eu também tenho, ô. – ela me mostrou a mão esquerda.

-mas o vô morreu.

– é, mas eu sou casada com ele mesmo assim.

olhei confusa

pra minha vó que estava com cara de saudade

e olhei pras mãos

sempre esquerdas de várias

pessoas nas ruas.

vi o anel dourado em muitas

quantas histórias cabem nos dedos de anéis iguais?

achei o amor

uma coisa poderosa,

quando eu me apaixonar vai nascer um anel em mim?

acontece que eu já estava

apaixonada

pelo carlos menino que senta

na carteira da frente com o Cabelo mais preto que já vi.

segunda feira fiquei olhando

pro cabelo dele e

pro meu dedo

muito rápido pra ver se nascia

o anel,

não queria perder o momento de ver nascendo como tantas vezes já

perdi.

gripe

comecei a sentir falta de ar.

fiquei lenta, abri a boca

mas o ar que entrava pela boca

me sufocava um pouco

mais cada vez que

entrava e tudo

era em ritmo de folha

que voa

com o vento denso do verão.

estou morrendo, pensei. e fui ficando dura.

 

 

– você tá longe. tá tudo bem?

é que eu tô morrendo – eu disse pro meu namorado

que me olhou

rindo,

todo mundo sabe que as pessoas morrem e quando finalmente chega a hora ninguém acredita.

não tô conseguindo fazer o ar entrar. – sussurrei.

 

então ele me deu o guardanapo

que veio junto com a pipoca.

disse:

-assoa.

o cinema era só o som

do filme que não tinha ação, era uma história sobre vizinhos pacíficos, qualquer chiado na sala ganhava volume.

o silêncio

deixa enorme o som que o Corta, é um tipo de vingança

pela interrupção.

olhei pro guardanapo sentindo nele um abrigo.

Assoei,

deu pra ver algumas cabeças virando.

coitada, devem ter pensado

que nojo, devem ter pensado

quando algo começou a se contorcer em mim.

meu corpo foi encolhendo as costas

o olho

a boca abriu o pescoço

os buracos do

nariz meu cu travado e o

 

Espirro

veio com força, meu namorado

passou a mão na minha coxa e, pelo menos por hora, ninguém mais morreu.

véspera

a família

estava toda num banco só

alguns ajoelhados

olhando pro altar

com o padre contando as histórias do evangelho.

minha vó

tinha ainda mais cheiro de mate nessas ocasiões de missa, acho que era o vestido de malha fria

em contato múltiplo com a pele de índia e o banco

de madeira,

no fundo uma árvore morta.

 

jesus nasceu – gritaram

 

cantando um salmo alguns de cor

outros seguindo

o livreto e os sinos, um velho de terno tocava o teclado.

jesus era de mármore

com pregos no pé e tinta vermelha, a Dor

sempre enaltecida

e a culpa enorme que sentíamos só por existir.

 

jesus morreu por nós! – o padre repetiu entusiasmado, a missa inteira levantou as mãos.

 

na guerra

tanta gente morreu por outras

e ninguém colocou a imagem dessas pessoas

numa cruz dizendo:

 

– Olha.

os rostos

dos que morreram por alguém

é 1 rosto único, uma massa disforme que nem parece um

rosto.

chorei pensando nisso

minha mãe colocou a mão no meu ombro achando que aquilo era emoção do natal. quis dizer pra ela:

 

– você não entende nada.

 

mas não disse

foi quando o padre falou pra gente ir embora com deus.

fomos,

a família grande só naquela parte do ano

reunida na calçada combinando a ceia:

 

eu faço o arroz com uva

passa o pernil já está

pronto, vamos

 

e quando chegamos no carro

o vidro da janela estava

Quebrado,

tinham levado o rádio e muitos

cacos

espalhados pela rua, um cachorro podia até se cortar.

meu pai olhou pros lados procurando testemunha

e com a chave ele foi jogando

os cacos do banco pro chão.

disse:

 

-entrem logo, vai que o ladrão volta.

 

a noite estava escura

como deve ser por dentro uma azeitona.

 

ajudei minha vó a entrar primeiro

pesada como era

com medo ficou ainda mais.

depois entrou minha tia,

minha prima, minha mãe no banco da frente

meu pai motorista

e eu

olhando pro meu pai só nos olhos pelo espelho do retrovisor.

ficamos em silêncio sem rádio e

ninguém quis cantar. como? deus deixa

roubarem a gente

que estava na igreja rezando por ele?

pelo menos as pessoas que estão na igreja deviam ficar protegidas.

 

 

(anos mais tarde li

num livro

que pessoas dentro da igreja são assassinadas inclusive

padres, na guerra,

e jesus imóvel na cruz porque também ele

já está morto.

e deus? porque deus não tem uma imagem? a maria tem. Santo

espedito tem. jesus tem em várias

idades. deus não, deus ninguém ousa

imaginar)

 

chegamos pra ceia na casa da vó.

tinha uma garagem que parecia um quintal.

meu pai

parou o carro na frente da casa, não na garagem, ali a gente usaria pra fazer a ceia.

pro carro de janela aberta

minha tia pegou um lençol estampa de âncora

e cobriu.

meu pai ficou de vigília

pegou uma cadeira e sentou na garagem só o portão de grades separando o carro dele que apoiou a mão

no queixo

Triste

pelo furto? pelo custo? parecia que

por mais,

pela injustiça no mundo? pelo natal e a sua

melancolia?

então perguntei:

 

-que foi, pai?

 

e ele mudo

o olho molhado

e porque eu não fui embora dali mesmo com a mãe me chamando pra botar a mesa

então ele me deu dois tapas

leves na cabeça

como quem diz você não entende nada.

tempo passando

esperei a hóstia com as mãos fechadas
a língua um pouco
amortecida.
era diferente dos ensaios, o padre estava mesmo na minha frente vestindo branco, algumas crianças também, no ar um cheiro de álcool e
uva.
espero que eu não arrote
pensei. ou soluce
ou tussa
nada com a boca pelo amor de deus, rezei.
queria estar límpida para o padre colocar a mini massa
de pizza em mim
teria gosto de quê? de pizza, eu poderia comer mais uma?

-é 1 corpo de cristo por missa. – disse a professora do catecismo.

eu adorava as aulas
respondia tudo de bíblia mas agora
esqueci.
gostava também porque tinha uns meninos lindos na sala
era bom vê-los toda terça
era bom também ficar fora de casa
pelos menos por umas horas.
a melhor parte era voltar a pé,
não pela volta mas
pelo pé, a gruta era perto do meu prédio.

-você pode voltar sozinha se quiser – minha mãe disse depois da janta

e eu sem acreditar no que estava ouvido respondi um:

-Quero. – com todo o meu coração.

andando de volta pra casa
a noite deitava sobre mim com aquele azul escuro que não existe em cor de lápis,
azul com pitadas de branco embaçado das nuvens ,
com pintadas de prata papel alumínio as estrela
voltar do catecismo pensando em deus
no céu
e rezar pedindo espero que eu vá bem na prova de amanhã e então
ir mal
na prova de amanhã
ir mal de novo e
mais uma vez
apanhando em casa, minha mãe puxando
o meu cabelo, a minha
orelha e comer a hóstia
pela primeira vez sentindo que ela gruda demais na boca
e ajoelhar pedindo eu quero
conhecer o mundo
fugir de casa
cuba parece perto e é
uma ilha
me dê coragem meu deus
e estar em casa
no sofá
até hoje
vendo pela tv um avião cair com 77 pessoas que gostavam de
Bola,
tudo isso vai fazendo a gente
olhar para um terço
e ver uma espécie de
corretinha.

sina

dois anos trabalhando no caixa do mercado

e olha que a Raquel entrou pra ficar no máximo 6 meses

ou pelo menos até ela arrumar outro emprego que não exigisse tanto tempo de pé. no fim do dia com a perna queimando

ela lembrava da mãe fazendo molho

no Tanque,

 

 

tá lavando roupa pra fora dona marta?

-tô. se precisar de algo me diga.

-depois que morreu seu marido ficou difícil, né.

-ah maria. cê bem sabe que fácil nunca foi.

 

 

e as Varizes da mãe cintilando

especialmente nas dobras do joelho

em alto relevo como troncos que não deviam estar ali.

depois de estender toda a roupa

a mãe preparava uma bacia com água morna e

sal.

 

– vai dormir, menina. não é mais hora. – ela dizia pra Raquel olhando

 

e se sentava na cadeira da cozinha. colocava devagar os pés na água, de vez em quando soltava um suspiro.

foi aí que Raquel entendeu

o que era Cansaço, antes o cansaço lhe parecia um mistério tão grande quanto a

azia, mas pelo verde grosso nas pernas da mãe ela entendeu e

queria

que a dona marta descansasse sem morrer.

não amenize, disseram na tv hoje de manhã,

a Raquel ouviu

antes do trabalho

concordando com a psicóloga que dizia: quando morre um pai

não fale pra criança que o pai foi descansar.

fale que morreu, se não a criança vai ficar pra sempre com medo de dormir.

 

 

– a senhora tem cartão mais?

-não.

-quer cpf na nota?

-não.

 

bip,

bip,

bip as compras passando

até dar em dinheiro o valor que o cliente tinha que pagar por ter tirando das prateleiras aquelas mercadorias.

de fundo

tocavam músicas em inglês

de cantores que a Raquel conhecia a voz mas não o nome, no caixa ao lado

a Cláudia

que salvava a falta de troco quando alguém pagava 1 bisnaga com nota de cem.

no caixa da Raquel 10 unidades

o que mais saía era comida, lasanha congelada,

chocolate de sobremesa, as vezes só 1 cerveja long neck que o cliente saía já bebendo, o segurança de olho.

com rímel que a Raquel era obrigada a usar

 

 

(-pra ficar com cara de gente –dizia a gerente

também maquiada)

 

 

ela desejava para os clientes no fim das compras:

 

– tenha um bom dia.

 

como a maioria não respondia

corporalmente a Raquel se preparava para resposta nenhuma

e esses dois anos de pé no caixa do mercado

acabaram deixando a Raquel com qualquer coisa de máquina.

ela pegava ônibus dez da noite de volta pra casa

no ponto com as mesmas pessoas, a Raquel ainda de uniforme.

algumas meninas do caixa levavam roupa pra se trocar depois do trabalho, algumas esticavam a noite pro bar ali da pracinha.

a Raquel não sentia vontade

disso, aliás

de nada, ela era:

 

-Assexuada. – como dizem nos diagnósticos, mas não sentia dor.

 

fazia sexo de vez em quando porque ainda não sabia que podia existir gente assim que não gostava de sexo, então pra fazer parte da massa

de vez em quando ela transava

conformada com a ausência de sensações além da

angústia

achando que isso

era normal para todas as mulheres, no fundo ninguém sente coisa alguma, ela pensava,

sexo é superestimado só pra vender produtos

como esses lubrificantes, essas

lingeries.

no fundo ninguém goza

no fundo

ninguém sabe o que é

gozar. inventaram o terno

pra justificar as pessoas fazendo sexo sem reprodução, ocupando seus tédios com o corpo alheio

mas tudo sempre de fora, em fingimento, pra pertencer ao clã das pessoas adultas.

uma vez a Raquel topou

esticar depois do trabalho

porque as meninas insistiram muito inclusive a Cláudia aniversariante

e afinal a Cláudia

já tinha lhe salvado de tantas barras, então

a Raquel topou.

depois da terceira rodada de cerveja

todas contaram abertamente de suas experiências

sexuais na maior parte intensas

e a Raquel cética

no bar, muito parecida com a Raquel máquina

do mercado.

Amor já tinha acontecido com ela

mas a vontade de fazer sexo nunca tinha vindo junto.

na manhã seguinte

já no trabalho

ela leu por acaso

a manchete

de uma revista francesa que o cliente comprou:

 

 

O que dizem sobre sexo as pessoas assexuadas?

 

 

alguns clientes

passaram por seu caixa comprando a tal revista

talvez não pela manchete,

talvez pela matéria com a Gisele Bündchen de biquíni.

já quase no fim do dia

a Raquel pensou em comprar também

a revista

pra tentar se Entender mas isso

era muito profundo nela que ainda não sabia que queria se entender.

por enquanto a curiosidade sobre si mesma se manifestava superficialmente com ela curvando as sobrancelhas enquanto olhava pra manchete

e o barulho de bip

bip

passando mercadoria

a maioria comida,

de vez em quando uma cerveja long neck que o cara saía já bebendo, o segurança de olho, quando finalmente 1 va