saber o nome de alguém é a primeira pergunta quando as pessoas estão se conhecendo

causei dor em um desconhecido,
pisei no pé dele me apoiando pra não cair no bueiro.
antes de pisar
me imaginei no esgoto tapete de
Rato,
até chegarem os bombeiros eles já teriam andando tão profundamente por mim que nenhum banho seria suficiente, eu ficaria com aquela sensação de patas pro resto da vida.
se ninguém me visse caindo,
se não tivesse ninguém na rua muito menos aquele desconhecido
casualmente ao meu lado e o pé de chinelo, minha queda
teria sido só Minha.
do bueiro eu tentaria ouvir os passos de alguém
mas o jeito que eu explicaria tudo quando chegasse finalmente uma pessoa
pra me ajudar, o jeito seria totalmente Livre
nenhuma testemunha contradizendo meu relato,

-fui jogada no bueiro por um louco, – eu diria e a cara péssima, a cara Atuando.

se eu caísse mais pra direita
ao invés do bueiro a queda seria na frente das pessoas
todo mundo vendo
minha calcinha que não estava
o vestido na barriga de cortina pro espetáculo de mostrar o que há no meio das pernas de uma mulher quando ela tropeça e perde
o equilíbrio.
qualquer opção seria catastrófica
apesar que,
secretamente eu preferia o bueiro, é mais fácil suportar a dor quando estamos longe
das pessoas.
intuitiva
escolhi nenhuma das alternativas que pensei nos milésimos de segundo antes da queda
e pisei no pé do desconhecido
não sem tentar amenizar meu peso
jogando o volume do corpo pro topo da cabeça
como aprendi no teatro com ana
thomaz.
depois voltei pro eixo
graças ao apoio involuntário daquela pessoa que eu não sei o nome
e a cidade ficou de novo
na horizontal.
lancei um sorriso tímido pedindo desculpa
botando a mão no joelho do desconhecido pedindo desculpa.
ele fez cara de:
não doeu
e voltou a escrever no caderno.

sei que doeu, eu ia dizer

mas ele fechou o olho pra pensar no que estava escrevendo
encerrando assim o nosso breve
assunto.
enquanto eu pisava no pé do estranho
não percebi a escrita, estava mais preocupada com minha perna tombando
o joelho dobrando,
minha falta de calcinha, jurei que nunca mais botaria um vestido sem calcinha,
vou sentir saudades do
Vento.
o caderno do desconhecido
estava repleto de palavras
a letra é um corpo possível
pras emoções sempre tão presas, o que será? que ele está escrevendo,
tentei ler esticando o pescoço;

casas abandonadas são lugares que quero
entrar em são Paulo. aqui tudo é
abandono até no
Higienópolis gravatas tomando
café.

o desconhecido usava turbante
era como se ele cercasse com pano as ideias que tinha
antes delas virarem texto.
fiquei com vontade de puxar assunto, algo como

– qual é o nome
que as pessoas te chamam e você atende além do seu próprio nome?

mas o som não saía
da boca
de repente me restou um nada pra ser dito
entre mim e todos
os desconhecidos
que andavam naquela rua até onde alcançava meu olho.

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