sintoma

é estranho que, enquanto tem alguém morrendo neste exato instante, tenha eu tomando café

falando com a minha mãe sobre o

passado, ouvindo ela mais que falando, do quanto ela teve coragem de largar tudo aos 19 e casar com o meu pai. eles foram morar num lugar horrível, não tinha nem colher pra mexer o açúcar.

agora

temos uma gaveta de colheres, são tantas, fica até

difícil pra escolher qual e temos

1 pessoa ali na esquina morrendo

de saudade de um amigo atropelado.

a pessoa ali da esquina

agora bebe

pra esquecer e mora

na rua mas não esquece, nem de porre, nem dormindo,

o barulho que fez o carro quando atingiu o corpo

do amigo.

morreu na hora. – o médico disse.

e o choro escorreu pelos anos.

enquanto eu lavo a louça

minha mãe soluça lembrando

ela tem muita angústia de não ter trabalhado fora, ela gostaria de ter tido uma profissão.

– comece agora, – eu lhe digo.

ela se acha velha pra começar agora,

-mãe você pode

viver até os 100.

e no canto da maternidade ali da Eusébio

matoso nasce

uma criança cabeluda que ninguém sabe, mas

em 20 anos

amará tanto alguém que vai machucar essa pessoa com um vaso

de ciúme, e depois fugir

arrependida.

dentro do apartamento à esquerda do nosso

tem 1 empregada que usa os perfumes da patroa e a patroa

sabe, a patroa

deixa e a casa fica com um cheiro forte de rosa até no sofá.

a mãe da empregada

que mora na bahia, faz mais de 10 anos que as duas não se veem, a mãe dela

além do pai

tem mais 2 homens e todos os 4 terminam o dia

felizes.

na escola da rua de trás da minha casa tem uma menina feia

que sofre e quer mudar

de escola porque de corpo não é possível, mas ela ainda não conseguiu

dizer isso pra família.

as meninas bonitas ganham flores na rua

para feias as pessoas não olham, não querem

levar um susto

preferem não enfrentar a dor. então a menina feia se corta

eu também

me cortava

escondida no banheiro

quebrava um copo e usava o caco

porque o caio me humilhava todos os dias me chamando de:

-sapo.

não que os sapos sejam ruins.

acontece que eu era ser humano

e queria muito

parecer um.

enquanto isso minha irmã bebê brincava no corredor de pequenos animais da floresta que ela tinha de plástico,

enquanto isso meu pai tinha dor de cabeça e o quarto escuro, a mão no olho, o olho enterrado na testa e minha mãe fazendo polenta

sempre sozinha

com molho de carne, enquanto isso meus ossos cresciam

por dentro do corpo sem alarde,

as pessoas escreviam livros

eu lia os livros

e não pensava que um dia eu ia querer tanto escrevê-los também.

domingo contei pro meu namorado que antigamente eu me cortava.

ele me olhou surpreso

não soube o que dizer. perguntou por que, respondi:

-não sei.

enquanto a mãe dele jogava um jogo pelo celular e o cachorro procurava no lixo qualquer entulho que pudesse ser mastigado, vê?, é infinito

outras coisas acontecendo em acúmulo, mais ou menos importantes,

quando acontece com a gente vira

Importante,

e o ouvido do mundo crescendo

pra caber os

lamentos, imagina o tamanho de deus se existisse algo

do tipo que abraçasse tudo.

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