no parque

os ipês inclinados cercavam o caminho

e o vento batendo no meu rosto

fazia grudar o cheiro das árvores até depois

que eu já tinha ido embora do parque, era como se eu

morasse na floresta sendo um pássaro baixo (era baixa a minha

bicicleta).

na cestinha

deitada

estava Isa, minha mãe que costurou o vestido dela, colocou botão

de gente. eu fiz o olho

de caneta e cílios

o nariz de bolinha

a boca feliz mas sem mostrar os dentes.

a Isa era um palhaço

longe do circo,

ela já existia antes de ser boneca, ficava me rondando

querendo ter 1 forma.

-quer ser bolacha? – perguntei.
-não que bolacha morre. – ela me disse.

então pedi pra minha mãe fazer um corpo

de algodão pra Isa morar, acabou que ela ficou com cheiro de linha

e não era tão bonita quanto as bonecas de embalagem.

mas era minha

dormia comigo

às vezes eu dava banho nela e demorava demais pra secar o pano

eu tinha que estender a Isa

no varal.

meu cachorro achava que ela

era um espantalho e

latia

por medo.

-para burro, é a Isa lembra?

ele não lembrava,

às vezes eu também me assustava

de noite,

o jeito que ela me olhava do travesseiro.

um dia me assuntei tanto

que joguei a Isa pela janela.

ainda bem que de manhã minha mãe viu e trouxe

ela de volta

pra cama, pensou que a queda tinha sido sem querer.

pedi desculpas

pra Isa baixinho

pedir desculpa dá muita vergonha.

a Isa disse que tudo bem

mas me fez prometer que eu a levaria no parque hoje, ela gosta

muito de árvore.

então desenhei

nas costas do vestido dela

um ipê amarelo.

ela chorou um pouquinho

de amor e

a gente se abraçou

era outono.

-por isso que tá esse cheiro de folha caindo. (expliquei pra ela)

amo esse cheiro

queria que a minha cama fosse verde

mas eu não queria morar de verdade na floresta porque tenho

medo dos macacos, eles se parecem muito com as pessoas

quando olham assim bem fixo pra gente, os cachorros também. os

elefantes também.

os mamutes.

minha mãe contou

que eu chorei assistindo um filme de macaco quando eu era

bebezinha. ela achou que eu estava com fome

e me deu leite

mas eu estava com medo

de todo mundo ser pessoa

e não ter outro jeito de existir.

-vem comer, filha.

encostei a bike e peguei a Isa pela mão.

o lanche com queijo

estava com gosto de papel alumínio

quentinho não de chapa

de bolsa

Térmica.

minha mãe estendeu uma toalha.

sentei, meu tênis cheio

daquela folha pequena que parece carrapato.

-mãe.
-humn.
(minha mãe estava bonita de óculos de sol mas não tinha sol)
– e se todos os bichos do mundo estiverem só vestidos de bichos? e se no fundo todo mundo for pessoa?
– isso é impossível filha. onde é que eles iam arranjar tanta roupa?
– no shopping.
– mas uma hora eles iam ter que tirar.
– e se for uma roupa grudada que fica pra sempre?
-não filha, roupa grudada não existe. os bichos são bichos mesmo, pode acreditar.
– e as coisas, são coisas?
– claro!
– a minha bicicleta. ela é exatamente isso que estou vendo?
-sim.
-mas ela é muito mais que isso, mãe. ela me faz pássaro. ela faz o cheiro das árvores morar em mim até depois que a gente vai embora do parque, parece que eu ainda tô aqui. e a isa? a isa tem corpo de boneca mas ela é um palhaço velho e ela é a minha filha.
– come seu lanche, amor.
– você é muito mais também. você é a casa que eu moro e não tem nenhum telhado na sua cabeça.

ela me olhou sorrindo.

disse que me amava, acho que é porque eu contei que a amo sem

dizer.

as coisas do mundo são tão

diferentes do que parecem ser quando a gente usa só o olho.

algumas pessoas escutam por dentro,

esses ipês

são inclinados porque escutam? no tronco deles

devem viver os pardais que ainda não sabem voar. se não

aprenderem a tempo

vão virar flores.

nenhum pássaro fica triste de virar flor,

a flor também voa

quando bate o vento

eu também, preciso só de um pouco de bicicleta.

nos galhos dos ipês

vivem os ipês crianças

junto com os ipês espíritos

que são ainda mais crianças e vivem até aqueles girassóis de vaso

do vicente sem orelha que a professora mostrou no livro, no fundo

todo livro

é uma árvore que morreu, ouviu?

Isa,

– eu sei.

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