a dança da Grande atriz

nunca vou esquecer da Olívia fazendo aquela mala.
a peça era Terror e Miséria
no terceiro reich
a personagem ainda não era dela
aquela cena era uma espécie de teste.
a Olívia
trouxe como proposta de adereço
uma mala preta e dura dos anos 20
que abria como uma pasta quando alguém aperta o botão prata,
Plact.

-era da minha vó.

a turma ficou interessada
na mala que podia mesmo ter sido da personagem caso ela fosse de fato uma mulher na guerra. então ficou definido
que a mala seria essa, ainda que a Olivia não ganhasse o papel.
ela ficou triste com isso,
em algum lugar prático a mala era melhor do que ela, na verdade essencial,
e a Olívia ainda na fase de teste.
na mala preta
ela colocou várias roupas
camisolas de cetim
vestidos, sapatos.
a Olívia tirou
todo o figurino dali
e na hora da cena ela fazia a mala
da mãe judia
como se fosse a primeira vez

(aquelas camisolas na minha
cabeça).

na peça
a mãe fugiria com os filhos
passaria no meio da guerra, com licença, dá?
Licença,
ela, a mala e as crianças
todos de mãos dadas
Arriscando
já que ninguém ali tinha mais nada a perder.
a cena era pequenininha
depois que a mãe fugia ninguém sabia ao certo o que aconteceria com ela e com os filhos.
sabíamos que eles morreriam de qualquer jeito se ficassem ali naquela casa vulnerável às bombas
melhor então morrer tentando
no meio da guerra tão distante de mim
mas aquelas camisolas não.
aquelas camisolas eu já vi minha mãe usando
cheirosa depois do banho sem guerra nenhuma acontecendo, pelo menos não declaradamente,
as camisolas da Olívia
eram saudade dos dias de paz. sua personagem as levantava
moles e
geladas
pra dobrar, ela fazia isso com tanto zelo.
sua unha grande
quase enroscava no tecido, eu torcia pra não enroscar, pra não
despertar nenhum fio.
um cheiro de mate saía dos tecidos
cheiro de viagem longa
cheiro de quem
não volta.
eu usaria
aquelas camisolas
a renda tocaria suave meus pelos da coxa.
eu usaria aquela camisola quando casasse
caminharia pela sala tranquilamente e meu marido olhando meu caminhar descalço,
que bonita, ele pensaria de mim.
não sou eu, amor,
sou essa
camisola bege na minha pele querendo ser Olívia e nenhuma guerra
só garoa
no fim da tarde sem matar ninguém.
ainda não era a hora daquela gente toda ter morrido. era pra estarem vivas aquelas pessoas
e o mundo seria diferente.
talvez eu nem existisse
talvez um porção de gente não existisse
pra existir as pessoas que morreram precoces
num susto enquanto fugiam da morte, especialmente da morte predatória.
na cena
a Olivia tinha que olhar para um canto do palco e
imaginar uma janela ali
pensando que atrás do vidro
estava tudo Cinza
de pólvora
não dava pra saber se era dia ou noite o céu perdeu o azul perdeu o sol perdeu os pássaros pra ficar imóvel no cemitério escuro.
ela tinha que correr se quisesse manter seus filhos vivos por mais tempo
pra mim parecia câmera lenta a Olívia fazendo a mala
o medo pesava a mão dela deixando tudo arrastado.
ela Conseguiu
fazer a cena bravamente
com olhos inconsoláveis como se soldados estivessem passando pelo palco com botas sujas de sangue
enquanto seus filhos
dormiam no quarto
ali ao lado que no palco não existia, mas
nos olhos de Olivia eram pura vida
ninguém duvidava do sono dos filhos
com uma parte deles, a parte que adormecia, não se dando conta do tamanho do perigo de estar vivo em plena guerra, a personagem da Olívia em cena
invejava quem já morreu.
em meio aos Aplausos
calorosos eu
corri pro banheiro
vomitar.

 

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