dor.

tem um homem na minha janela.
ele fica me olhando
sem descanso
do jardim: finjo que não o vejo.
pego da estante um livro furado
(discreto buraco no centro)
e o vigio também, ele pensa que estou distraída.
ele pensa que eu não sei o quanto ele quer me matar
devagar
dia após dia me sugando com os olhos a vida besta que levo.

(hoje vi na
televisão
1 mulher apanhando de um homem.
pela filmagem da câmera de segurança
ela recebia os Socos
e os chutes
em silêncio
pessoalmente ela deve ter Gritado
o rosto inchando a cada joelhada do marido infinitas vezes no olho
a mão dele puxando os longos cabelos da mulher
tirando da cabeça os cabelos pretos da mulher que é a mãe da filha dele, disseram na tv, e depois
mudaram de assunto,
não dá pra ficar o dia todo falando disso.)

o homem me vigiando
até que enfim
parou pra almoçar sua marmita,
pela primeira vez se distraiu com coisas que
não sou eu.
aproveito e me troco,
coloco um Vestido curtíssimo
transparente nas tetas e volto
pra poltrona de frente da janela.
sigo fingindo que leio meu livro
buraco invisível na capa grossa
William Faulkner
Som e Fúria
quando puxo
pro lado
a calcinha: toco meu Centro sem pelos.
minha anatomia
fica exposta, a curva das coxas, o gordo das carnes, abro ainda mais a perna, apoio uma delas no braço da poltrona.
o homem na janela percebe a cena. quase não acredita no que está vendo, sinto a respiração dele esquentando pelo vidro que embaça, não faço nenhum contato visual.
ele pensa que eu não sei dele,
ele pensa que eu penso que estou sozinha pra me tocar assim desse jeito despudorada
ou talvez eu seja apenas uma Louca
talvez eu seja apenas uma puta, ele pensa,
e o pau dele instantaneamente duro
o pecado é sempre no corpo do outro, é sempre 1 dedo
apontado pro lugar em que você não está.
eu
sigo escancarando minhas curvas pélvicas
minha carne de dentro é rósea feita a carne do boi no abate e assim eu vou crescendo
assim eu vou virando
a grande buceta
e o homem
atrapalhado
acaba derrubando a marmita.
o homem
confuso
acaba caindo em cima da marmita
se suja de feijão e mato
toca o pau mas o pau já não existe.
estou te vendo, seu merda, eu sempre te vi.
você como todos nasceu pelo buraco de uma mulher. como todos você também passou pelos canais da vagina pra chegar nesse mundo um feto viscoso e a sua Mãe imensa
a sua mãe gritando
de dor rompida
enquanto você chorava escandaloso porque fora da barriga estava um pouco mais frio. Desesperado,
você buscou um bico de teta. quando encontrou porque te levaram lá a enfermeira (se não você jamais encontraria)
quando encontrou o bico você finalmente calou a boca
e por anos se alimentou do corpo de uma mulher que parece,
olhe mais de perto,
parece muito com o meu.

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