saber o nome de alguém é a primeira pergunta quando as pessoas estão se conhecendo

causei dor em um desconhecido,
pisei no pé dele me apoiando pra não cair no bueiro.
antes de pisar
me imaginei no esgoto tapete de
Rato,
até chegarem os bombeiros eles já teriam andando tão profundamente por mim que nenhum banho seria suficiente, eu ficaria com aquela sensação de patas pro resto da vida.
se ninguém me visse caindo,
se não tivesse ninguém na rua muito menos aquele desconhecido
casualmente ao meu lado e o pé de chinelo, minha queda
teria sido só Minha.
do bueiro eu tentaria ouvir os passos de alguém
mas o jeito que eu explicaria tudo quando chegasse finalmente uma pessoa
pra me ajudar, o jeito seria totalmente Livre
nenhuma testemunha contradizendo meu relato,

-fui jogada no bueiro por um louco, – eu diria e a cara péssima, a cara Atuando.

se eu caísse mais pra direita
ao invés do bueiro a queda seria na frente das pessoas
todo mundo vendo
minha calcinha que não estava
o vestido na barriga de cortina pro espetáculo de mostrar o que há no meio das pernas de uma mulher quando ela tropeça e perde
o equilíbrio.
qualquer opção seria catastrófica
apesar que,
secretamente eu preferia o bueiro, é mais fácil suportar a dor quando estamos longe
das pessoas.
intuitiva
escolhi nenhuma das alternativas que pensei nos milésimos de segundo antes da queda
e pisei no pé do desconhecido
não sem tentar amenizar meu peso
jogando o volume do corpo pro topo da cabeça
como aprendi no teatro com ana
thomaz.
depois voltei pro eixo
graças ao apoio involuntário daquela pessoa que eu não sei o nome
e a cidade ficou de novo
na horizontal.
lancei um sorriso tímido pedindo desculpa
botando a mão no joelho do desconhecido pedindo desculpa.
ele fez cara de:
não doeu
e voltou a escrever no caderno.

sei que doeu, eu ia dizer

mas ele fechou o olho pra pensar no que estava escrevendo
encerrando assim o nosso breve
assunto.
enquanto eu pisava no pé do estranho
não percebi a escrita, estava mais preocupada com minha perna tombando
o joelho dobrando,
minha falta de calcinha, jurei que nunca mais botaria um vestido sem calcinha,
vou sentir saudades do
Vento.
o caderno do desconhecido
estava repleto de palavras
a letra é um corpo possível
pras emoções sempre tão presas, o que será? que ele está escrevendo,
tentei ler esticando o pescoço;

casas abandonadas são lugares que quero
entrar em são Paulo. aqui tudo é
abandono até no
Higienópolis gravatas tomando
café.

o desconhecido usava turbante
era como se ele cercasse com pano as ideias que tinha
antes delas virarem texto.
fiquei com vontade de puxar assunto, algo como

– qual é o nome
que as pessoas te chamam e você atende além do seu próprio nome?

mas o som não saía
da boca
de repente me restou um nada pra ser dito
entre mim e todos
os desconhecidos
que andavam naquela rua até onde alcançava meu olho.

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fim de ano

no último natal aconteceu uma Briga que ninguém mais lembra

o motivo.

uns dizem que foi pelo frango

que irmã mais velha não assou.

outros pensam que foi a garagem

apertada demais pra dançar.  os tios têm certeza

que a culpa foi do gênio

da bia

enquanto dezembro vem chegando

sem nenhum telefonema.

 

noitada

coloquei o disco do lou reed pra tocar, a peça que vi estava me matando,

principalmente a cena do ator de Coleira

com o carrasco cantando uma ópera em francês, dói? – fiquei com vontade de perguntar. fazer uma pessoa que parece um cavalo?

vestir essas roupas todo sábado

meses a fio e o ator sem fim

de semana fazendo a besta

acorrentada.

fiquei com vontade de subir no palco

pra libertar o ator com o braço, Chega!

dessa peça,

chega dessa posição de bicho, descanse um pouco, venha tomar um café.

mas também se o ator não estivesse na peça, o que ele estaria fazendo de proveitoso num sábado à noite, tomando uma?

no meio da rua.

com os amigos conversando os mesmos papos de sempre, de vez em quando passa

uma mulher interessante

o marido logo atrás, a mão na cintura cercando.

um amigo me contou que uma vez comeu

a mulher de um cara que estava no bar, mas o cara estava distraído tomando cerveja.

a mulher falou que ia pegar qualquer coisa no carro

e deu uma piscadela pro meu amigo, vamos chamá-lo de:

 

-Lou.

 

já que o disco está tocando

comigo lembrando desse papo do meu amigo que comeu alguém que

não sou eu.

pois a mulher deu uma piscada

e meu amigo entendeu tudo

foderam no banco de trás do corsa, o marido rindo no balcão da piada que o da esquerda contou.

a mulher voltou pro bar com o vestido torto, ajeitou bem depois

quando percebeu

e nunca mais ninguém tocou no assunto.

talvez seja melhor mesmo trabalhar no sábado à noite

como fazem os atores

os cantores, os garçons, como faço eu quando estou assim sozinha

coloco um disco

leio poemas em voz alta, a luz do abajur cintilando, mas hoje

depois de ver o ator cavalo

com um figurino fechado de botões coloridos,

olhar pela janela lendo poemas e ver tantos apartamentos de plateia, algumas luzes acesas prontas pro natal, aquilo

estava me deixando deprimida.

tanta gente existindo e eu querendo o que, paz? ouvir música? sacar o centro secreto dos poemas de guerra de Wislawa Szymborska?

peguei a chave do carro.

saí

pelas ruas

esburacadas de são paulo, se eu visse um pub que prestasse deixaria o carro com o manobrista

pagando a fortuna que eles pedem mais cara que a cerveja ou o couvert

artístico

e os homens de camisa abrindo a porta pra mim como se eu fosse uma espécie de celebridade

só porque estou pagando os vinte reais escritos na placa

que depois virarão salário pra eles, uma pequena parte, claro, a maior sempre pra empresa

com o nome escrito na blusa.

as pessoas nas filas das baladas pareciam estar esperando qualquer coisa além da porta de entrada se abrindo. as que já entraram tentavam dançar preocupadas com o cabelo, um cheiro de perfume misto invadia a pista

e a banda

cantando covers sempre os mesmos, quando arriscam cantar 1 música autoral é a hora que todo mundo vai ao banheiro,

acabei não parando em pub nenhum.

agora era bob dylan

que cantava no carro

virei retorno de volta pra casa

cansei desse disco mas toda vez que saio esqueço de pegar outro.

o ator fazendo o cavalo já estava mais suave na minha cabeça,

ele suando no palco como um bicho. senti sede lembrando

e vi no banco

a água que você deixou pra mim. estava quente, velha, não dava mais pra beber

(muito menos pra jogar

fora

foi você que deixou ela aqui

e como isso dá um novo significado pra garrafa, jogar ela no lixo

seria como se eu jogasse você).

sintoma

é estranho que, enquanto tem alguém morrendo neste exato instante, tenha eu tomando café

falando com a minha mãe sobre o

passado, ouvindo ela mais que falando, do quanto ela teve coragem de largar tudo aos 19 e casar com o meu pai. eles foram morar num lugar horrível, não tinha nem colher pra mexer o açúcar.

agora

temos uma gaveta de colheres, são tantas, fica até

difícil pra escolher qual e temos

1 pessoa ali na esquina morrendo

de saudade de um amigo atropelado.

a pessoa ali da esquina

agora bebe

pra esquecer e mora

na rua mas não esquece, nem de porre, nem dormindo,

o barulho que fez o carro quando atingiu o corpo

do amigo.

morreu na hora. – o médico disse.

e o choro escorreu pelos anos.

enquanto eu lavo a louça

minha mãe soluça lembrando

ela tem muita angústia de não ter trabalhado fora, ela gostaria de ter tido uma profissão.

– comece agora, – eu lhe digo.

ela se acha velha pra começar agora,

-mãe você pode

viver até os 100.

e no canto da maternidade ali da Eusébio

matoso nasce

uma criança cabeluda que ninguém sabe, mas

em 20 anos

amará tanto alguém que vai machucar essa pessoa com um vaso

de ciúme, e depois fugir

arrependida.

dentro do apartamento à esquerda do nosso

tem 1 empregada que usa os perfumes da patroa e a patroa

sabe, a patroa

deixa e a casa fica com um cheiro forte de rosa até no sofá.

a mãe da empregada

que mora na bahia, faz mais de 10 anos que as duas não se veem, a mãe dela

além do pai

tem mais 2 homens e todos os 4 terminam o dia

felizes.

na escola da rua de trás da minha casa tem uma menina feia

que sofre e quer mudar

de escola porque de corpo não é possível, mas ela ainda não conseguiu

dizer isso pra família.

as meninas bonitas ganham flores na rua

para feias as pessoas não olham, não querem

levar um susto

preferem não enfrentar a dor. então a menina feia se corta

eu também

me cortava

escondida no banheiro

quebrava um copo e usava o caco

porque o caio me humilhava todos os dias me chamando de:

-sapo.

não que os sapos sejam ruins.

acontece que eu era ser humano

e queria muito

parecer um.

enquanto isso minha irmã bebê brincava no corredor de pequenos animais da floresta que ela tinha de plástico,

enquanto isso meu pai tinha dor de cabeça e o quarto escuro, a mão no olho, o olho enterrado na testa e minha mãe fazendo polenta

sempre sozinha

com molho de carne, enquanto isso meus ossos cresciam

por dentro do corpo sem alarde,

as pessoas escreviam livros

eu lia os livros

e não pensava que um dia eu ia querer tanto escrevê-los também.

domingo contei pro meu namorado que antigamente eu me cortava.

ele me olhou surpreso

não soube o que dizer. perguntou por que, respondi:

-não sei.

enquanto a mãe dele jogava um jogo pelo celular e o cachorro procurava no lixo qualquer entulho que pudesse ser mastigado, vê?, é infinito

outras coisas acontecendo em acúmulo, mais ou menos importantes,

quando acontece com a gente vira

Importante,

e o ouvido do mundo crescendo

pra caber os

lamentos, imagina o tamanho de deus se existisse algo

do tipo que abraçasse tudo.

passei a semana de castigo

pra montar o tabuleiro

meu avô puxou pro canto a mesinha

a estátua de cima rodou e

caiu quebrando

o vidro

espatifaram os dois em tantos pedaços

pareciam maiores no chão

a sala também parecia Maior

e a mesinha agora sem vidro

ficou muda guardando a queda das coisas preferidas de Mamãe quando Ela apareceu da cozinha,

queria saber

que raios tinha acontecido, olhou pro chão com cara de triste:

 

-foi a menina. –disse meu avô me apontando.

a Visão

sentei na escrivaninha.

puxei da gaveta uma folha em branco e

lápis,

comecei assim:

 

 

naquele dia no ônibus

que você tomou um Tapa

eu percebi o quanto eu estava apaixonada por você.

corri pra te salvar, queria matar a vagabunda que fez isso com o seu rosto, lindo rosto Chileno não é do Chile

que você veio? vi umas fotos de Santiago no google e pensei que moraria lá numa boa, ainda mais com você.

eu corri pra te salvar, Vicente,

mas na hora que cheguei perto minha perna ficou bamba, a voz não saía.

sou tímida,

queria ter te ajudado

não consegui controlar a minha vergonha, mas aquela imagem sua

no chão humilhado

ficou na minha cabeça,

 

(inclusive sexualmente,

você podia lamber

meu salto

nem precisaria se mexer muito, aquela sua posição

estava perfeita.)

 

Vicente, olha,

eu acho que a gente devia ficar junto.

sou muito melhor do que pareço, sei que existem mulheres lindas por aí inclusive a kátia mas a Kátia não quer nada com você, Vicente,

eu quero

e quando a gente quer alguma coisa com outra pessoa a gente se esforça mais.

assisti um filme ótimo nesse fim de semana

chama A Juventude

e o que eu entendi ser o cento secreto do filme é que a vida passa rápido e passa devagar,

mas ela passa de qualquer jeito e um dia a gente morre.

temos que escolher a lápide antes de morrer

eu fico pensando na minha

confesso que invejei A de um escritor que não lembro o nome mas é famoso. ele usou uma música do leonard cohen como lápide

 

like a Bird on the wire

like a drunk in a midnight choir

I have tried in my way to be free 

 

achei genial,

só que eu não posso usar depois que o cara usou, fica chato,

fica pouco original.

desculpa.

não queria que o papo enveredasse pra esse lado de

morte

sei que estou escrevendo a lápis

poderia apagar

mas acontece que a carta tem um fluxo e se eu apagar isso

vou ter que apagar outras coisas, fora que eu quero uma carta espontânea.

Vicente,

tudo isso é pra te pedir uma chance

e além do mais

somos vizinhos, isso é no mínimo Conveniente e

neste fim de semana eu estou

 

sozinha.

 

 

 

assinei,

coloquei num envelope, queria carimbar como se fosse nos correios pra ficar emocionante chegar uma carta na casa dele,

do chile será?

quem é essa mulher?

ele terá que ler o endereço.

terá que bater na minha porta

pra descobrir.

aí não vai ter jeito, eu vou puxar o Vicente

pra dentro da sala

jogá-lo no sofá

não vai dar tempo nem dele pensar.

desci a rua

se não tiver ninguém na casa dele vai ser melhor. será que o Vicente já me notou no ônibus? nunca vi

ele me olhando e quem será aquela mulher que bateu nele,

uma ex?

cheguei

de frente pra casa, coloquei a carta silenciosa na porta de entrada ouvindo

uma Respiração

ofegante

vinha do corredor do quintal.

aquilo era um som

de quem estava prestes

a gozar.

meu deus. será que ele voltou com aquela mulher? se sim minha carta não faria sentido, seria rasgada pra morrer

no lixo, eu precisava espiar.

 

(percebi a fresta

na parte debaixo do portão)

 

 

se eu abaixasse pelo canto de lá

ele não veria meu corpo

e eu veria o que ele estava fazendo, apesar que eu já sabia o que ele estava fazendo. Continuei

com passos de pena

o sussurro crescendo

olhei ao redor

estava tudo vazio no condomínio, um domingo, deitei na grama e foquei meu olho no vão:

 

 

 

(o vicente sem calça

com a perna aberta

e um pastor alemão no meio)

 

no parque

os ipês inclinados cercavam o caminho

e o vento batendo no meu rosto

fazia grudar o cheiro das árvores até depois

que eu já tinha ido embora do parque, era como se eu

morasse na floresta sendo um pássaro baixo (era baixa a minha

bicicleta).

na cestinha

deitada

estava Isa, minha mãe que costurou o vestido dela, colocou botão

de gente. eu fiz o olho

de caneta e cílios

o nariz de bolinha

a boca feliz mas sem mostrar os dentes.

a Isa era um palhaço

longe do circo,

ela já existia antes de ser boneca, ficava me rondando

querendo ter 1 forma.

-quer ser bolacha? – perguntei.
-não que bolacha morre. – ela me disse.

então pedi pra minha mãe fazer um corpo

de algodão pra Isa morar, acabou que ela ficou com cheiro de linha

e não era tão bonita quanto as bonecas de embalagem.

mas era minha

dormia comigo

às vezes eu dava banho nela e demorava demais pra secar o pano

eu tinha que estender a Isa

no varal.

meu cachorro achava que ela

era um espantalho e

latia

por medo.

-para burro, é a Isa lembra?

ele não lembrava,

às vezes eu também me assustava

de noite,

o jeito que ela me olhava do travesseiro.

um dia me assuntei tanto

que joguei a Isa pela janela.

ainda bem que de manhã minha mãe viu e trouxe

ela de volta

pra cama, pensou que a queda tinha sido sem querer.

pedi desculpas

pra Isa baixinho

pedir desculpa dá muita vergonha.

a Isa disse que tudo bem

mas me fez prometer que eu a levaria no parque hoje, ela gosta

muito de árvore.

então desenhei

nas costas do vestido dela

um ipê amarelo.

ela chorou um pouquinho

de amor e

a gente se abraçou

era outono.

-por isso que tá esse cheiro de folha caindo. (expliquei pra ela)

amo esse cheiro

queria que a minha cama fosse verde

mas eu não queria morar de verdade na floresta porque tenho

medo dos macacos, eles se parecem muito com as pessoas

quando olham assim bem fixo pra gente, os cachorros também. os

elefantes também.

os mamutes.

minha mãe contou

que eu chorei assistindo um filme de macaco quando eu era

bebezinha. ela achou que eu estava com fome

e me deu leite

mas eu estava com medo

de todo mundo ser pessoa

e não ter outro jeito de existir.

-vem comer, filha.

encostei a bike e peguei a Isa pela mão.

o lanche com queijo

estava com gosto de papel alumínio

quentinho não de chapa

de bolsa

Térmica.

minha mãe estendeu uma toalha.

sentei, meu tênis cheio

daquela folha pequena que parece carrapato.

-mãe.
-humn.
(minha mãe estava bonita de óculos de sol mas não tinha sol)
– e se todos os bichos do mundo estiverem só vestidos de bichos? e se no fundo todo mundo for pessoa?
– isso é impossível filha. onde é que eles iam arranjar tanta roupa?
– no shopping.
– mas uma hora eles iam ter que tirar.
– e se for uma roupa grudada que fica pra sempre?
-não filha, roupa grudada não existe. os bichos são bichos mesmo, pode acreditar.
– e as coisas, são coisas?
– claro!
– a minha bicicleta. ela é exatamente isso que estou vendo?
-sim.
-mas ela é muito mais que isso, mãe. ela me faz pássaro. ela faz o cheiro das árvores morar em mim até depois que a gente vai embora do parque, parece que eu ainda tô aqui. e a isa? a isa tem corpo de boneca mas ela é um palhaço velho e ela é a minha filha.
– come seu lanche, amor.
– você é muito mais também. você é a casa que eu moro e não tem nenhum telhado na sua cabeça.

ela me olhou sorrindo.

disse que me amava, acho que é porque eu contei que a amo sem

dizer.

as coisas do mundo são tão

diferentes do que parecem ser quando a gente usa só o olho.

algumas pessoas escutam por dentro,

esses ipês

são inclinados porque escutam? no tronco deles

devem viver os pardais que ainda não sabem voar. se não

aprenderem a tempo

vão virar flores.

nenhum pássaro fica triste de virar flor,

a flor também voa

quando bate o vento

eu também, preciso só de um pouco de bicicleta.

nos galhos dos ipês

vivem os ipês crianças

junto com os ipês espíritos

que são ainda mais crianças e vivem até aqueles girassóis de vaso

do vicente sem orelha que a professora mostrou no livro, no fundo

todo livro

é uma árvore que morreu, ouviu?

Isa,

– eu sei.

para Leonard

um amigo me disse que te conhece desde os 5

anos ouvindo você pra sentir em paz saudade do pai que viajava

muito

e te ouvia tanto

quando estava em casa.

eu

te conheço muito menos, na minha família ninguém tinha descoberto

teu Disco, nem eu, brincando de bola

no meio da rua.

já mais velha,

alguns amigos do teatro me falavam Leonard Cohen e eu ouvia

teu nome

achando que você era uma espécie de

Buda.

Leonard,

Leonardo se você morasse perto

de mim, seu nome eu daria pro meu filho.

um dia,

e eu já tinha vinte anos,

sem querer na faculdade eu ouvi

Hallelujah

-Escuta isso.

me disse um amigo colocando o fone em mim

sem eu pedir.

logo na primeira palavra que escutei

acho que foi

God

depois

Above

aquilo foi como Voar

firme no chão comendo terra e nuvem igual fazem as árvores.

você não era um buda, Leonard,

você

era um Poeta

e os poetas são invisíveis.

colecionam palavras

que são bailarinas e estão no campo

secreto do mundo

um sítio pequeno, lá ninguém precisa fazer mercado

tudo dá na terra até

lençol.

depois ouvi Suzanne

e lembrei que sou uma filha

meu quarto fica dentro da casa da minha mãe e o mundo redondo

dobrando pra caber galáxias,

cometas.

depois ouvi aquela

que você fez pra janis e pensei eu também

já amei assim

foi o rafa

e foi tão rápido

virou um texto

no blog que compensa ler mesmo depois desses anos

só pela saudade que aquelas palavras emanam de amar assim

alguém esquecendo um pouco da gente.

depois ouvi Anyhow

e descobri que da janela do ônibus a cidade fica com ângulo de

Girafa.

as pessoas e seus topos

(algumas sem cabelo)

quem na rua está mais perto de morrer,
eu?

depois li

seus poemas de amor

suas letras

de música

ouvi você falando

em entrevistas de tv mostrando seu terraço de escrita com um copo

de vinho na mesa

incrivelmente profundo

até dizendo seu dizer era silêncio

era um olhe

pra dentro, era

o mar.

1 dia antes

pulei na piscina.

raspei de propósito a barriga

no azulejo,

passei por baixo das pernas de marly que nem me notou

e vi

umas crianças

brincando submarinas de enterrar tesouro. achei bonito,

especialmente porque amanhã a gente vai se conhecer

e isso

tá me deixando sensível a beça, de manhã até chorei olhando pela janela sentindo que fazia sol.

você tem medo

de eu ser diferente do que sou nas fotos, nas fotos

você gosta de mim. eu gosto de algumas fotos minhas mas me prefiro viva.

saí da piscina pela escada.

tenho trauma

de beiradas, uma vez eu abri meu supercilio nessas pedras escorregadias e demorou muito

pra parar de sangrar, pensei até que eu ia morrer. desde então prefiro a escada

mas estou sentindo, pelo bambo das pernas, que com você eu vou abrir de novo

o supercílio,

área sensível perto do olho o Amor.

meu biquíni dourado

atochou na bunda enquanto eu subia os degraus, o clube cheio,

fiquei esperando o melhor momento

que seria você

tirando com os dentes meu biquíni, sua boca vermelhíssima.

ontem por mensagem eu disse que queria sentar em você

depois fiquei com pena. não quero te machucar

não quero

me machucar

estou tentando

não pensar no dia de amanhã, não criar

expectativas, é difícil e deito

na espreguiçadeira tentando. puxo da bolsa o livro da wislawa

essa mulher fala umas coisas

tem um poema dela que é sobre uma maçaneta da porta que ri

e a marly vem caminhando

na minha direção.

 

– cê vai na festa hoje?

não sei, amiga. –respondi puxando ao máximo a palavra Amiga

como uma pinça pra mostrar que quero

que ela saia da frente

do sol.

 

ela percebeu que eu não estava pra papo.

desceu até o quiosque e pediu uma água de coco.

ver ela descendo me lembrou aquelas atores da malhação quando eles desciam a rampa do colégio equipe

ou elite

pra ir embora

pra casa

mas aquilo era uma rampa de mentira. existia o cimento mas era a rampa do projac que não levava ninguém pra casa nenhuma, só a produção trabalhando ali todo os dias, passando maquiagem nas caras pálidas dos atores que já chegam cansados

de tanto decorar o texto. a memória

é uma coisa elástica.

o tempo

é um carro sem ré e amanhã

é o nosso dia, está combinado, há mais de mês.

ainda assim eu gostaria de te mandar uma mensagem, pra ter certeza de que não estou sonhando

ao mesmo tempo que sinto vontade de desmarcar nosso encontro por puro medo de me apaixonar enormemente

e ser foda a minha vida pelos próximos meses, já está sendo,

eu vi uma foto sua de sunga, você já era lindo com 22.

como você era

na escola? daqueles meninos que sentam no fundo? de quais matérias você mais gostava?

você se parece tanto com a sua mãe.

 

morar sozinho tem suas vantagens,

te li dizendo

eu quis te beijar

no banho

(sua mão percorrendo meu hálito)

seu gosto deve ser morno e a água caindo nas costas.

você vai dormir tão

relaxado

será que o seu pau sobe sem você acordar?

como era seu uniforme de escola?

que bonito,

posso ver?

(teu pau

crescendo)

 

Quer? –perguntou marly me Acordando,

-quero. –eu disse

segurando o coco

um pouco de mar no meio de tanta

piscina.

-você tá tão distraída hoje.

-tô com sono. – menti,

e a boca da minha amiga se mexeu

dizendo mais alguma coisa que eu não ouvi porque fiquei Imaginado a boca dele vermelhíssima

os braços passando por cima de mim.

meu biquíni

secava no corpo com cheiro de cloro. será que ele gostaria de me ver assim?

acho que ele gostaria

depois dormiria nos meus braços

a água descendo formiga

transparente que desmancha, amanhã vai me dar uma dor de barriga antes

de te conhecer.

 

-vamos almoçar na aldeia da serra?

 

te mandei por mensagem. tem uns restaurantes ótimos

eu passei a minha infância lá

andando de patins me machucando nos joelhos

agora quero dançar

nos seus braços

músicas calmas de chet baker

(aquela Imagination é perfeita)

e eu queimada

do dia de ontem

que ainda é hoje e como passa devagar.