pelos Dedos

tem 1 perfume

que eu uso até hoje, é aquele

tommy

que você usava.

quando passo

lembro

de certos momentos ao seu lado, às vezes o mesmo momento

martelando,

 

(quando você virava o pescoço pra me olhar por alguma coisa que eu tinha dito alto e era segredo)

 

a memória é engraçada.

o que ela escolhe guardar nem sempre são dias decisivos, claro que esses existem e nos Brotam,

mas num relance quando estamos

desprevenidos

o que lembramos geralmente são das coisas banais,

 

(o dia que você passou base pra ir pra escola e seu rosto

ficou intacto.

você estava com uma blusa roxa e argolas douradas na orelha, eu fiquei hipnotizada

querendo ser você

ou talvez finalmente querendo ser eu mesma

só pra te ver dos ângulos que eu via nos nossos abraços, nas nossas idas

na loja de peruca

sábado de manhã provando várias

vendo como ficaríamos

com outros cabelos

rindo inseparáveis até que a escola

acabou)

 

você mudou muito.

eu mudei

Muito, de repente a vida ficou mais triste.

 

 

(o glitter na sua roupa de dança)

 

 

nos olhamos em redescobertas

 

(- você não gosta mais de batata frita? como assim? você gostava tanto.

– desistiu do teatro? Ele não era a coisa mais importante?)

 

tentando encontrar nossas meninas que liam aquele livro de amigas no pátio

esperando as mães.

algumas coisas mudaram

até na cidade

árvores morreram na chuva, é proibido pedir carona, restaurantes viraram prédios espelhados

refletindo ninguém triste com isso nos pontos de ônibus,

andando de bicicleta.

eu choro se penso que o mundo que conheci criança está morto.

me apego, agarro a terra, guardo

na boca

mas não adianta

escorre

muito mais forte do que consigo impedir.

até nossa escola mudou, agora está

Moderna.

tem bandeira na frente

do Brasil,

fico parada no portão.

um dia pedi:

 

-estudei aqui criança, posso entrar?

pra ver.

 

(não pode senhora foi a resposta

com professores que eu nunca vi se movendo pelo pátio rumo à sala

de aula,

aquelas janelas com persianas continuam as mesmas).

 

mudou que você não ouve mais música

não sai com tanta frequência pra dançar

mas aquele leãozinho de plástico continua lá no seu porta-luvas,

também tento deixar quase na superfície a minha infância, época que eu pensava em você como família.

quando eu dormia na sua casa

você acordava mais cedo pra fazer o café da manhã pra mim

bisnaguinha torrada

leite com chocolate

e meu pai já na porta, bravo,

eu preciso voltar.

como era difícil voltar pra qualquer lugar que você não estava.

e agora quando nos encontramos, geralmente em um restaurante,

sentamos uma na frente da outra e eu

não sei como meu rosto chega pra você.

o quanto mudei está? no meu rosto

repousado

te esperando notar.

quando a gente passava o dia na escola

não era tão difícil quanto parecia,

 

(a gente usava a Barsa

pra fazer trabalho

às vezes dormíamos em cima do livro)

 

e tudo que posso te dizer agora

é pouco perto da Importância que teve em mim o que vivemos,

te conhecer, me conhecer te conhecendo.

talvez eu te amo também seja pouco,

além do mais quando digo

é baixo

quando digo é por escrito

numa carta

sem teu nome,

uma das coisas que mudaram por aqui foi o lugar de sair a voz.

 

 

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s