inferno

fim comprei o biquíni de peixe mesmo

com o fundo azul parecendo um aquário

pra ir no

Acampamento.

antes de levar provei

eu estava experimentando a parte de cima quando o vendedor muito simpático querendo saber se ficou bom abriu

a cortina do provador mas 1 peito

meu

ainda estava de fora e no Susto

não consegui tapar.

ficamos nos olhando pelo espelho segundos infinitos, eu

queria morrer.

aquela minha teta com mais bico do que peito estava tão longe de ser algo

mostrável, que Vergonha meu deus,

que horror.

paguei o biquíni correndo. saí da loja sem dizer palavra até que chegou o dia do Acampamento, a mala pronta há dias.

eu estava louca pra dormir fora de casa

e o Japa

estaria lá,

quem sabe a gente podia ficar junto

imaginei nosso beijo no meio daquelas gincanas noturnas

que os monitores sempre fazem.

o lugar do acampamento não era

tão afastado da cidade.

mal vi o caminho

no ônibus ficamos cantando a fulana roubou pão na casa do joão e isso

se estendeu por horas.

fomos recebidos por monitores bonitos e mais velhos que me fizeram olhar pra baixo,

pro lado,

 

(minhas amigas sem espinhas

ou barriga.

minha olheira desnuda

deixava meu olhar ainda mais triste)

 

qual é a chance

que tenho

nesse acampamento de me dar bem?

coloquei alguns chicletes na boca

e levei a mala pro quarto

de vários beliches

com várias meninas

peitudas, sorridentes, queimadas

de sol dormindo

comigo me lembrando do quanto eu não sou

Nada.

tentei não ligar, tentei me

divertir como lia nas revistas que era Certo,

a Beleza não é comparável, claro que

Não

mas na prática eu desmanchava por dentro.

o Japa dançava forró

com todas as meninas até com a professora e eu

sem coragem.

então fui visitar

os animais no celeiro.

tinha cavalo e burro, o acampamento era um tipo de sítio. ao lado dos animais eu ficava tranquila. passava a mão na cabeça deles e não sentia mal dentro de mim.

vou ser veterinária, pensei.

quando crescer vou ser

feliz

 

 

(não fui).

 

 

de sobremesa no almoço

comíamos melancia com doce de leite, o monitor ensinou que isso

era a melhor sobremesa do mundo. ouvi atenta, deixando entrar aquela certeza em mim. depois pulamos na piscina

o sol no auge

me encondi na toalha

quando saí pela escada

rezando pra ninguém olhar

minha bunda cheia

de defeitos.

já sentada eu vi

2 meninas cochichando, era de mim, será?

era de mim com certeza.

de manhã bem cedo

tocava pelos corredores do sítio uma música do eric clapton pra acordar a gente.

na época eu não sabia quem era eric clapton

na minha casa ninguém ouvia esse tipo de

música.

mas eu achei muito boa

a música que tocava,

perguntei pro monitor

que durante o café sentou na minha mesa me fazendo sentir importante:

 

– que música era aquela?

a primeira que tocou.

 

foi então que descobri o eric,

 

(de volta pra são paulo comprei nas lojas

americanas o disco

dele e fui

feliz enquanto ouvia)

 

durante o acampamento

eu não liguei para casa nenhuma vez.

estava sem forças,

como é que eu ia explicar que me sentia triste

depois dos meus pais terem gastado tanta grana com a viagem.

até biquini eu comprei, no mínimo era pra eu estar me divertindo.

em casa eu tentaria mentir que foi

divertido, mas

por telefone

naquele momento

eu não conseguiria.

o duro é que minha mãe ficou bastante preocupada.

assim que eu cheguei em casa

levei uma Surra.

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