filha única

no chão do pátio tinha amarelinha. usávamos papel alumínio amassado do lanche pra jogar nos números, o suor

escorria da testa de tanto

sentir.

às vezes

eu não pulava, ficava sentada com perna de índio

olhando as crianças que pulavam

e o quanto chegar até o céu sem pisar em linha era importante pra nós.

a professora cheirosa

ia chamando os nomes conforme os pais iam chegando,

era meu avô que me buscava no colégio

ou então o Sérgio motorista

da empresa que usava uniforme

azul como o meu.

às vezes

eu deixava uma parte do meu lanche para comer na saída

como desculpa pra olhar as crianças e não brincar.

 

-peraí que tô comendo. – eu dizia com a boca cheia

 

mastigando devagar pra esticar meu tempo,

eram lindas as crianças e minha casa muito

Sozinha.

eu sentia vontade

de guardar as crianças na mochila

pra quando chegar em casa eu abrir o zíper

e a gente brincar no quintal.

eu sentava na grama amortecida

olhando as crianças

morrendo de vontade

eu amava cada uma delas com aquelas mãozinhas do tamanho da minha

aqueles cachos no cabelo

aquela sede tomando toddynho o canudo ia ficando marrom conforme o leite ia subindo pra boca descendo pro pescoço até chegar na

barriga,

o umbigo das crianças sempre aparecia na descida do escorregador.

eu olhava o Meu

pra ver se a minha barriga também tinha.

a professora cheirosa era mãe do Marquinhos

e me chamava:

 

-seu avô chegou.

 

(de vez em quando o Sérgio chegou)

 

e eu querendo colocar o marquinhos na bolsa, será que a professora emprestaria?

a gente podia ir na loja de brinquedo

eu pediria pro meu avô, ele

levaria.

os corredores da loja de brinquedo tem muitas cores

se corro fico tonta

as bonecas parecem mortas

até alguém brincar com elas.

nessa hora eu tiraria o marquinhos da bolsa

pra ele escolher um brinquedo novo.

 

– posso levar esse vô?

e o marquinhos? pode levar esse?

– quem é Marquinhos?

– é o filho da professora cheirosa. ele tem a minha idade e mora na minha mochila. em casa eu solto ele pra gente brincar.

 

eu também queria guardar a Bianca

que me olhava assustada percebendo meu plano

acho que era algo que eu fazia com as mãos abrindo os dedos e ela percebia,

fugia Chorando,

chamava a professora que

não entendia.

 

– mas o que ela estava fazendo Bianca? ela só quer brincar.

(a Bianca ouvia, soluçando.)

 

 

não vou desistir de você, eu pensava.

 

uma hora ela dorme, aí eu boto na mochila.

quando ela acordar

estará brincando no quintal comigo

e com o marquinhos

e com o Raí meu pastor alemão

invisível porque ele

já morreu.

 

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