esquecimento

lendo um livro sobre escrever romances Anoto o que penso das coisas que leio em cima das frases e ao lado
com um prazer sem tamanho de reconhecer aqueles escritos como algo que eu acredito também mas nunca tinha colocado em palavras
até que o Orhan Pamuk simplesmente colocou, decidiu vou escrever um ensaio e
colocou,
leio com fome, grifo, anoto e do alto do meu êxtase noturno
sentada na larga mesa da cozinha
de repente eu me lembro
que um dia morrerei.
meus livros, por enquanto espalhados pela casa, hora ou outra cairão na mão de alguém que não sou eu.
a pessoa que ficar com eles
ou pelo menos a pessoa que ficar com este em que anoto fervorosamente meus pensamentos
em cima dos pensamentos do autor como se fosse um caderno
feito a 2 sem o consentimento de 1
será que essa pessoa vai me entender?
ou vai me apagar?, já que escrevo a lápis.
ou vai pensar que violei o livro de Pamuk
o gênio
e eu serei apenas aquela
que estudou sem chegar
em lugar nenhum,
zero bolsas em Harvard no currículo,
nenhum mestrado em Portugal ou filho, nenhuma prisão por algo heroico ou
terrível, nenhum susto na humanidade, nenhum despertar provocado por mim,
apenas fiz
curiosas anotações no livro de Pamuk
que será vendido com mais facilidade no Sebo, será? que teremos sebos no futuro,
ou a Pedroso se transformará numa rua de carros flutuantes
movidos à luz solar num planeta cada vez mais quente com os humanos derretendo feito bonecas de plástico?
toda vez que penso no futuro
lembro que se viva já sou 1 cisco imagine então
depois de Morta.

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fumaça

encostei na cerca pra ver

aquelas crianças

jogando futebol depois da chuva.

me subiu um cheiro de terra molhada junto com uma plena consciência de estar viva

e o tamanho da liberdade que isso representa.

sentei na cerca,

 

-atrapalha se eu ficar aqui?

olhando vocês.

-não tia. – eles disseram,

concentrados no jogo.

 

quando a bola voava em busca da rede

com ela ia um pouco de lama também

e todos os olhos do campo inclusive os meus, aquele formato redondo era um imã até pra mim que,

porque decidi assistir a partida, comecei a me envolver emocionalmente com a partida

mesmo sem gostar de futebol.

ver as pessoas fazendo alguma coisa juntas

me dava um alívio,

então é possível nos desligar de nós mesmos por uma causa, ainda que seja um jogo e suas questões táticas.

a alegria no campinho começava nas camisas coloridas,

arco íris quando eles se juntavam pela bola

e cor de pele do único menino sem blusa. ele jogava bem,

era ágil,

deve ser por isso que ele sentia mais calor.

não tinha ninguém apitando a partida.

só um louco doaria seu tempo pra apitar um jogo de criança.

 

 

(eu apitaria

se soubesse as regras e tivesse um apito, minha infância eu passei bastante em casa

assistindo tv).

 

no campo

não tinha relógio além do céu.

o barulho dos pés chutando a bola

dava até uma

batucada pra quem escutasse com atenção

juntando com os gritos de vai, vai

joga pra mim e

gol

virava quase um samba

mas a Vista

dos meninos jogando

era mais bonita do que qualquer som que eles faziam.

parecia um quadro

gigante

me abrindo por dentro. 1 deles

chutou a bola no ângulo fazendo tremer a rede, o goleiro caiu de joelho pra tentar defender, não conseguiu.

 

-machucou?

-peraí gente,

o Marcelo machucou.

 

pararam o jogo.

o goleiro não chorou

mas abriu um rombo e tanto naquele joelho pontudo.

lembrei de um machucado que fiz

também no joelho

quando eu tinha mais ou menos a idade desses meninos. eu sentia orgulho do meu machucado, usava shorts pra mostrar o curativo.

 

– Dói? – me perguntavam.

 

eu dizia que muito

e fazia cara de choro depois segurava pra mostrar coragem,

era mentira,

doeu na hora

depois passou.

quando virava casquinha eu cutucava

pra sangrar de novo

o machucado rendia semanas

a atenção especialmente de mamãe.

como eu era exigente com ela

na minha vontade insaciável de receber carinho.

a molecada voltou pro jogo.

o goleiro fez sinal com o dedão de tô bem,

tô bem,

que moleque forte meu deus

que paixão pela bola.

eles continuaram animados por um tempo

a tarde caindo demorada até que

a mãe do moleque sem camisa o chamou pra jantar.

pela janela da casa marrom saiu o berro da mulher

velha demais pra ser mãe de alguém tão novo. podia ser avó talvez.

podia ser seu filho caçula.

o moleque sem camisa largou tudo e se mandou pra casa, disse um tchau tão rápido pros amigos

o berro da velha não era brincadeira.

os meninos continuaram jogando, mas

engraçado

faltando o moleque sem não estava mais tão legal.

pensei em me oferecer pra ficar no lugar dele

sou adulta

mas jogo tão mal que meu tamanho não tira vantagem de ninguém quando a chuva

começou de novo

deixando o mato pesado e as mães

chamando

os meninos de volta

com medo de gripe e raio.

nenhuma voz de mãe foi tão dura quanto a da velha que berrou, então os meninos

se apressaram bem menos do que o sem camisa. enrolaram com a bola mais um pouco até o limite de fecharem a porta de casa cabisbaixos pensando depois da janta o que mais?

banho?

televisão?

e cama,

amanhã é outro dia,

 

-amanhã o campo seca.

 

disse um menino de amarelo

tentando animar a turma.

ele colocou a bola debaixo do braço não sem certo orgulho e entrou pra casa ganhando um cafuné da mãe de unhas feitas.

fiquei sentada na cerca por mais uns minutos

olhando pro campo que esfriava devagar.

pelos Dedos

tem 1 perfume

que eu uso até hoje, é aquele

tommy

que você usava.

quando passo

lembro

de certos momentos ao seu lado, às vezes o mesmo momento

martelando,

 

(quando você virava o pescoço pra me olhar por alguma coisa que eu tinha dito alto e era segredo)

 

a memória é engraçada.

o que ela escolhe guardar nem sempre são dias decisivos, claro que esses existem e nos Brotam,

mas num relance quando estamos

desprevenidos

o que lembramos geralmente são das coisas banais,

 

(o dia que você passou base pra ir pra escola e seu rosto

ficou intacto.

você estava com uma blusa roxa e argolas douradas na orelha, eu fiquei hipnotizada

querendo ser você

ou talvez finalmente querendo ser eu mesma

só pra te ver dos ângulos que eu via nos nossos abraços, nas nossas idas

na loja de peruca

sábado de manhã provando várias

vendo como ficaríamos

com outros cabelos

rindo inseparáveis até que a escola

acabou)

 

você mudou muito.

eu mudei

Muito, de repente a vida ficou mais triste.

 

 

(o glitter na sua roupa de dança)

 

 

nos olhamos em redescobertas

 

(- você não gosta mais de batata frita? como assim? você gostava tanto.

– desistiu do teatro? Ele não era a coisa mais importante?)

 

tentando encontrar nossas meninas que liam aquele livro de amigas no pátio

esperando as mães.

algumas coisas mudaram

até na cidade

árvores morreram na chuva, é proibido pedir carona, restaurantes viraram prédios espelhados

refletindo ninguém triste com isso nos pontos de ônibus,

andando de bicicleta.

eu choro se penso que o mundo que conheci criança está morto.

me apego, agarro a terra, guardo

na boca

mas não adianta

escorre

muito mais forte do que consigo impedir.

até nossa escola mudou, agora está

Moderna.

tem bandeira na frente

do Brasil,

fico parada no portão.

um dia pedi:

 

-estudei aqui criança, posso entrar?

pra ver.

 

(não pode senhora foi a resposta

com professores que eu nunca vi se movendo pelo pátio rumo à sala

de aula,

aquelas janelas com persianas continuam as mesmas).

 

mudou que você não ouve mais música

não sai com tanta frequência pra dançar

mas aquele leãozinho de plástico continua lá no seu porta-luvas,

também tento deixar quase na superfície a minha infância, época que eu pensava em você como família.

quando eu dormia na sua casa

você acordava mais cedo pra fazer o café da manhã pra mim

bisnaguinha torrada

leite com chocolate

e meu pai já na porta, bravo,

eu preciso voltar.

como era difícil voltar pra qualquer lugar que você não estava.

e agora quando nos encontramos, geralmente em um restaurante,

sentamos uma na frente da outra e eu

não sei como meu rosto chega pra você.

o quanto mudei está? no meu rosto

repousado

te esperando notar.

quando a gente passava o dia na escola

não era tão difícil quanto parecia,

 

(a gente usava a Barsa

pra fazer trabalho

às vezes dormíamos em cima do livro)

 

e tudo que posso te dizer agora

é pouco perto da Importância que teve em mim o que vivemos,

te conhecer, me conhecer te conhecendo.

talvez eu te amo também seja pouco,

além do mais quando digo

é baixo

quando digo é por escrito

numa carta

sem teu nome,

uma das coisas que mudaram por aqui foi o lugar de sair a voz.

 

 

 

 

 

lentamente apaixonada

tinha acabado o ensaio e na cena eu tinha beijado marina.
era a primeira vez
que eu beijava uma mulher e achei
Macio
mesmo sendo no meio
das falas decoradas e das
marcações combinadas pensando na melhor luz, ainda assim
era uma boca macia
bem mais do que dos homens e um gosto Quente, disponível.

– a cena ficou boa. – nos disse o diretor. – vocês chegaram numa densidade interessante.

eu não sabia como
tínhamos chegado nela, por dentro eu não pensava em nada que tinha relação com a peça,
tampouco sabia como faria pra chegar de novo naquele estado
por toda a temporada, noite após noite.

fomos liberadas do trabalho, eu dei um beijo na bochecha de marina dizendo tchau,
ela tinha um compromisso ali por perto, a vi indo embora com a bolsa de lado, a cabeça um pouco baixa, os cabelos curtos.
eu tinha que pegar a estrada pra voltar pra casa.

dirigi

pelas curvas insistentes,
nenhuma música no carro
tinha esquecido meus cds
e as rádios chiavam, aquilo era uma outra cidade da minha, era Mogi das Cruzes quase praia
quando começou a tempestade
a maior que já vi.
parecia uma onda do mar
ao contrário e insistente
despencando aço
no meu carro. dirigi tão devagar, não via nada
sabendo que a estrada estava cheia
podíamos bater o carro infinitamente
o asfalto virando rio
o dia virando noite
quando vi por entre as águas um posto de gasolina.
encostei num canto semi coberto,
muitas pessoas tinham feito o mesmo
e o posto na parte coberta estava lotado.
desliguei o carro sem conseguir abrir a janela nenhum pouco ficando quente. pensei que morrer podia ser num dia qualquer
não necessariamente no hospital
e pensei em marina
boca macia
tentando imaginar como seriam então os seios.

 

a crise de Flávia durante um programa de tv

se existir mesmo esse negócio de reencarnação, – a Flávia pensou,

então na minha próxima vez na Terra eu ficarei de novo sem poder escolher onde nascer?

e se na próxima vida eu nascer no meio de uma guerra? com cruz vermelha na cabeça de enfermeira, uma criança

brincando com granada ou um homem

destroçado pelos tiros.

nunca senti

as dores de um tiro, nem quero, além de me preocupar com isso nessa vida vou ter que me preocupar com isso por toda eternidade? tomar cuidado pra sempre não adianta, uma hora eu me distraio, não tem jeito, e então levo o tiro e

morro

de novo, pra nascer mais uma vez.

são quantas as chances,

infinitas? para todas as pessoas o mesmo número de chances?

quem Decide não dorme nunca? as pessoas não param de morrer.

será que na minha próxima vez renasço homem? será que é assim que funciona? 1 vez homem

na outra mulher.

na outra homem no corpo de uma mulher

e na última mulher

no corpo de um homem

até começar tudo de novo

com os relógios do mundo rodando

sem ninguém pra lembrar de nada ou simplesmente pedir chega e ser ouvido. quem é o meu verdadeiro eu?

a que sou

ou as que fui junto com as que serei? – a Flávia pensou.

e se calhar de eu renascer numa lavoura? nunca tive o menor interesse por plantação. trabalharia no sol o dia todo

sem nenhum livro em casa

comigo morrendo de câncer provavelmente aos 40.

e se eu for uma pessoa ruim na próxima vida?

sem conseguir me livrar dessa ruindade

ainda que no fundo da alma eu queira pensar diferente, ser mais como sou hoje,

não que eu seja grande coisa

mas pelo menos nunca matei ninguém.

ou Será que a gente ama o que é, a vida que tem,

e esquece os valores da vida passada mais distante que o passado dessa vida que já nem lembro

o nome da rua que fui ontem e lá fiquei por horas

no café – a Flávia pensou

debaixo do lençol

a testa franzida

o dedão do pé curvado, tenso. odiava ter que pensar naquelas coisas,

dava um Vazio igual ver programa de planeta no discovery channel.

acontece que a Flávia não conseguia desligar a tv, estava interessante a beça, o filósofo falava com tanta veemência de Bauman, de

Nietzsche,

em que momento do pós morte entra deus?, os anjos,

o diabo e todas aquelas pessoas que a gente ajoelha a vida inteira por elas e que estão na bíblia.

como é que elas foram parar num livro sagrado, essas pessoas?

se houver mesmo reencarnação, numa vida passada eu posso ter sido judas? Jimi Hendrix.

Sylvia Plath.

um amigo me disse que se eu ver espíritos de noite não é pra eu ficar com medo,

é pra eu ficar feliz

já que fica provado a existência de alguma coisa pós morte e isso acalma.

pós morte com vida Pode ser um inferno, eu disse pra ele.

pior que esse não é, – ele riu, mas

e se não houver

absolutamente nada

além dessa minha existência besta? e então quando morre

é morte Mesmo

fim da linha

terra e osso

é assim que acaba pra qualquer sujeito, o gente boa, o cuzão, o bêbado, o gênio, a menina brutalmente assassinada. fica tudo por isso mesmo

debaixo da terra

e as pessoas não param de querer ter filho.

talvez a terra esteja só querendo descansar um pouco e a gente não entende.

vai pra onde

depois da morte

a memória, as roupas das pessoas mortas, todas as coisas que ela descobriu e não contou?

 

– deus é uma invenção dos covardes. a ideia de um ser supremo que nos ama incondicionalmente não importa quem você é só comprova uma séria carência do ser pós moderno.

qualquer pessoa inteligente que reflete um pouco não consegue acreditar em algo por mais de 2 horas.disse o Filósofo na tv,

o auditório anotava

 

o dedo da Flávia abaixou

o volume

tentando encontrar uma saída mais leve do que

o suicídio, quem sabe dormir um pouco

ou até interfonar

pro Ângelo

pedindo pra ele:

 

-Sobe.

 

inferno

fim comprei o biquíni de peixe mesmo

com o fundo azul parecendo um aquário

pra ir no

Acampamento.

antes de levar provei

eu estava experimentando a parte de cima quando o vendedor muito simpático querendo saber se ficou bom abriu

a cortina do provador mas 1 peito

meu

ainda estava de fora e no Susto

não consegui tapar.

ficamos nos olhando pelo espelho segundos infinitos, eu

queria morrer.

aquela minha teta com mais bico do que peito estava tão longe de ser algo

mostrável, que Vergonha meu deus,

que horror.

paguei o biquíni correndo. saí da loja sem dizer palavra até que chegou o dia do Acampamento, a mala pronta há dias.

eu estava louca pra dormir fora de casa

e o Japa

estaria lá,

quem sabe a gente podia ficar junto

imaginei nosso beijo no meio daquelas gincanas noturnas

que os monitores sempre fazem.

o lugar do acampamento não era

tão afastado da cidade.

mal vi o caminho

no ônibus ficamos cantando a fulana roubou pão na casa do joão e isso

se estendeu por horas.

fomos recebidos por monitores bonitos e mais velhos que me fizeram olhar pra baixo,

pro lado,

 

(minhas amigas sem espinhas

ou barriga.

minha olheira desnuda

deixava meu olhar ainda mais triste)

 

qual é a chance

que tenho

nesse acampamento de me dar bem?

coloquei alguns chicletes na boca

e levei a mala pro quarto

de vários beliches

com várias meninas

peitudas, sorridentes, queimadas

de sol dormindo

comigo me lembrando do quanto eu não sou

Nada.

tentei não ligar, tentei me

divertir como lia nas revistas que era Certo,

a Beleza não é comparável, claro que

Não

mas na prática eu desmanchava por dentro.

o Japa dançava forró

com todas as meninas até com a professora e eu

sem coragem.

então fui visitar

os animais no celeiro.

tinha cavalo e burro, o acampamento era um tipo de sítio. ao lado dos animais eu ficava tranquila. passava a mão na cabeça deles e não sentia mal dentro de mim.

vou ser veterinária, pensei.

quando crescer vou ser

feliz

 

 

(não fui).

 

 

de sobremesa no almoço

comíamos melancia com doce de leite, o monitor ensinou que isso

era a melhor sobremesa do mundo. ouvi atenta, deixando entrar aquela certeza em mim. depois pulamos na piscina

o sol no auge

me encondi na toalha

quando saí pela escada

rezando pra ninguém olhar

minha bunda cheia

de defeitos.

já sentada eu vi

2 meninas cochichando, era de mim, será?

era de mim com certeza.

de manhã bem cedo

tocava pelos corredores do sítio uma música do eric clapton pra acordar a gente.

na época eu não sabia quem era eric clapton

na minha casa ninguém ouvia esse tipo de

música.

mas eu achei muito boa

a música que tocava,

perguntei pro monitor

que durante o café sentou na minha mesa me fazendo sentir importante:

 

– que música era aquela?

a primeira que tocou.

 

foi então que descobri o eric,

 

(de volta pra são paulo comprei nas lojas

americanas o disco

dele e fui

feliz enquanto ouvia)

 

durante o acampamento

eu não liguei para casa nenhuma vez.

estava sem forças,

como é que eu ia explicar que me sentia triste

depois dos meus pais terem gastado tanta grana com a viagem.

até biquini eu comprei, no mínimo era pra eu estar me divertindo.

em casa eu tentaria mentir que foi

divertido, mas

por telefone

naquele momento

eu não conseguiria.

o duro é que minha mãe ficou bastante preocupada.

assim que eu cheguei em casa

levei uma Surra.

inútil

-reza pra Deus.

 

(silêncio)

 

-anda, menina, agradece. se não você não come.

 

se não você

não come, ela pensou. ficou olhando pra parede, decidindo,

o olhar firme da mãe

esperando

com a mão já junta típica das orações.

fazia tempo que a menina não rezava.

falar com deus

de repente começou a lhe parecer uma coisa idiota.

 

-vamos. –a mãe disse Impaciente. – se não ninguém come hoje.

 

a menina fez Força

pra juntar as mãos de chumbo,

o prato cheirando ótimo

logo embaixo do nariz.

 

– obrigada meu deus…

deus Não. – interrompeu a mãe. – senhor jesus, que as coisas de comida

é com jesus.

 

(pausa novamente,

a respiração da mãe

no pescoço da menina)

 

obrigada jesus

pelo trabalho e

esforço da minha

mãe que fez

essa comida tão boa.

obrigada também à natureza

que nos proporcionou os alimentos

e proteja senhor

as pessoas que estão passando fome, principalmente as crianças. eu acho que pra elas é pior porque as crianças

acreditam mais.

 

Amém – a mãe disse satisfeita.

 

e todos na mesa começaram a comer,

começaram a

falar

de outros assuntos

como o filme novo do Tim Burton

que está em cartaz valorizado pela crítica mas

não é bom.

quando a gente Para

estávamos cansados, eu disse:

– você quer?

transar agora.

nos olhamos num sim que deu o Impulso,

montei em você tão menos cansada

a boca aberta

entrando o ar tão íntimo

no meio de nós como um filho.

pelo espelho percebi o tamanho que a gente fica um em cima do outro,

se levanto o braço alcanço o teto

depois o apartamento vizinho onde mora a viúva que tenta

não ser triste e consegue,

na maior parte do tempo.

cavalgando suada com a coxa queimando percebi que cada dia

é único, ainda que longos anos juntos tenham passado por nós, por mim, como se o vidro do carro estivesse aberto com tudo escorrendo

a viagem

a estrada

as pessoas

os sonhos, cada dia é uma rua que ninguém nunca viu.

deitamos depois do sexo um no outro e ouvimos

música

dizendo por cima dos sons o quanto a música chega

direto no

coração.

desde criança eu me impressionava com o rádio de casa,

os furos do rádio,

os sons saídos dos furos.

a Hora da Saudade, aquele programa do eli corrêa que lia Carta, tinha uma música atrás enquanto ele lia a história da carta, geralmente uma história de morte.

o horário do programa era depois do almoço. ouvíamos eu, minha mãe e a Arlete,

no tanque a roupa

de molho esperava

se fosse num rio ela não esperaria

a correnteza levaria as meias, as calcinhas, tudo pro fundo

das pedras onde o Domingos morreu. – eu disse

e a gente pelado

sem querer transar de novo

o cachorro cheirando o lençol do sexo.

aquilo

me lembrava a felicidade que senti quando andei de bicicleta sozinha pela primeira vez. caí na rua e voltei

com a bicicleta na mão,

o joelho sangrando,

o sorriso pequeno sem precisar de ninguém, ainda que parecesse.

na mesa do nosso quarto tinha chocolate, dinheiro,

uns livros,

a chave

e eu não querendo

nada

apenas ficar no seu peito falando de

música:

– charles bradley sofre quando canta, ele tem um rosto de dor – eu disse.

o charles no metrô

gravando seu clip ficando muito famoso sem poder na vida real pegar um metrô e não ser abordado por pessoas que já ouviram a sua música

que já viram a sua cara

na internet e gostaram muito

de tudo

da cara, da música, da interpretação e se sentiram menos sozinhas.

charles faz companhia para estranhos,

lutou por isso a vida toda,

quando canta ele não pensa no sucesso,

mas depois ele pensa

e também nas contas que ele tem que pagar.

você diz:

-claro.

e me faz um

cafuné

mostrando que a vida é só o momento que temos respirando.

o resto é ânsia

de ansiedade

ou gaveta

de guardar o que já foi.

respiro fundo

suspeitando que não aguento

entendo kurt cobain que se matou.

mas você é tão forte. – diziam.

a vida é tão longa, eu digo,

uma solidão de mar no inverno

que não dói.

-tenho mais dias que não doem. – te digo enquanto você quase dorme

o cafuné se

desmancha, seu pau parece uma bexiga

a Festa

presentes sendo abertos, a alegria esparramada na sala, o cachorro subiu no sofá

pra ver a blusa nova, o livro

novo, a calça

jeans que não serviu mas quem se importa,

-é linda. – ela disse se sentindo

amada,

no fundo a única

coisa que importa.

o bolo na mesa era todo espera, os garfos,

os pratos, o espelho enorme

refletindo a festa.

o parabéns foi de noite

depois que todo mundo chegou do trabalho e foi

baixinho

pra não acordar a vizinha que tem filho pequeno.

na festa não tinha
balão.

a vela parecia um cometa quando acendeu ao som da velha música

de aniversário,

a aniversariante esqueceu

de fazer um pedido quando assoprou.

-será que é grave? – ela perguntou preocupada

durante a música de parabéns ela estava

distraída

pensando que todo mundo tinha um dia só seu chamado Aniversário

mas também o dia da morte, são os dois que ficam

cravados no túmulo

com o tempo sendo a coisa mais importante na vida de uma pessoa.

a aniversariante pensava nisso

enquanto esquecia das formalidades de um aniversário, a noiva que não jogou

o buquê.

na festa também não tinha faixa

de muitos anos de vida,

ali todo mundo sabia

que o tempo na terra podia ser longo, acontece com muita gente de 90 anos.

5 ou 6 pessoas estavam naquela sala

comemorando

o aniversário menos

Ele

sentado na poltrona mais distante

triste como um peixe no prato.

as pessoas da festa não o viram, não porque não gostassem Dele, é que as pessoas da festa estavam envolvidas com

a festa, no máximo com o barulho

que a festa fazia.

um sujeito triste é invisível pra quem se diverte, reconhecível apenas para outro

sujeito triste

e a aniversariante era

essencialmente triste

ainda que coisas maravilhosas acontecessem ao seu redor.

foi ela quem percebeu

Ele na poltrona distante, foi quando ela abriu a calça jeans que ganhou de presente e a levantou

pra ver melhor o modelo.

por entre as pernas da calça foi quando ela viu

o olho Dele que não estava

lá.

-você tá chorando? – ela perguntou baixinho ficando

próxima.

a lágrima Dele era tão tímida,

dura de sair

do olho

mas se via um certo brilho no canto

como um sal.

– por que você tá chorando? –ela disse passando a mão nos cabelos ralos.

Ele

não respondeu.

tinha um rosto sem esperança

de encontrar alguém que possa

entender o tamanho da sua dor e não falo de grandeza.

 

(a dor da gente é feita

de quê?

de memória?

quem não lembra

não sofre

ou a dor não é lembrar é Ter?

é tê-la

na pele

como uma inclinação

pra música,

uma pessoa que perdeu tudo

não está vazia.)

 

a festa acabou,

não por causa do homem triste

foi depois

e naturalmente

com todos voltando para as suas vidas

inclusive a aniversariante que no dia seguinte

já não era mais

aniversariante de nada, cedendo espaço para o próximo aniversariante e

para o próximo

aniversariante

até chegar

a sua vez de novo

até o dia

que não tem mais vez.

 

 

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atriz

o teatro virou pedra em mim, não sei mais interpretar. Esqueci, minha irmã disse que essas coisas não se esquecem,

comparou com a bicicleta, com a

natação. eu não estava escutando o que ela dizia, estava lembrando do diretor me pedindo:

 

-faz um gaúcho.                                                                     

 

um gaúcho, meu deus.

Como? se sou uma pessoa que não sai do quarto.

tento fazer, minimamente, penso num amigo que nasceu em Porto alegre mas sinto minha voz pequena em gestos mentirosos, estar de pé fingindo dói meu corpo todo,

lembro daquela noite em que me tiraram tudo.

 

-não vai mais fazer teatro que não dá dinheiro.

 

foi brutal.

eu era uma flor quando descobri

a escrita.

fui feliz sozinha com o teclado do computador

no meio dos livros usando as palavras

em silêncio, as minhas palavras finalmente, ou a busca por elas.

agora, depois de tanto tempo, a teatro voltou a Bater

na minha porta uma surra.

a cada ensaio

o diretor me olha arrependido,

 

– eu também achei que conseguiria,- digo pra ele.

 

eu também pensei que era como natação.

acontece que quando a gente fecha uma porta

como eu fechei a do teatro empurrando tudo o que não vivi e que ficou Suspenso, na força que fiz

pra Sumir

então

sumiu mesmo, foi mais definitivo do que a morte.

a porta do fingir

eu esqueci como pega na maçaneta, é um jogo mas parece uma guerra,

a minha mão fica líquida quando tento

a minha mão escorre pela porta que não existe.

o Contrato, se não fosse ele.

assinamos um contrato o diretor e eu.

o dinheiro

se não fosse ele

e as coisas absurdas que a gente faz

por ele, como por exemplo ser alguém que não sou mais e

Desconfio

 

(jamais fui)