Viva

naquela estação de Trem (em que cidade estávamos mesmo?) o sol

baixo, a espera não doía.

mal se escutava o relógio

Enorme

típico das estações, ainda assim

as pessoas se atrasavam direto.

pra não perder a hora

o ponteiro tem que estar colado no funcionamento do nosso corpo. Imagina

se o Tempo fosse em letra?

e a fala fosse

em número. pra conversar e pedir um café diriam:

 

– 59 007 54611643 09

– 604 3 11   2 56139

 

 

e os endereços

todos ao contrário

com os números dizendo dos nomes

e as letras dizendo da altura. nos acostumaríamos, se fosse o caso, nos acostumamos com as coisas do jeito que elas são. eu pensava nisso

pulando os trilhos

do trem que não estava, a criança que fui ainda fresca,

você me olhava pensando onde jantaríamos naquela noite depois do banho.

o chuveiro do hotel não era bom, mas aquele não era o chuveiro da nossa casa então

compreendíamos,

o sol de fim de tarde não castigava ninguém.

a estação vazia

era como um filme de faroeste. comecei a cantarolar raindrops

keep falling on

my head, meu vô que me mostrou essa música, just like the guy whose feet are too big for his

bed,

colocou numa fita no fusca,

 

vê filha (ele me chamava de Filha) que música bonita,

(crying is not for me cause)

ouvia desmanchando.

 

 

larguei minha mochila ao seu lado.

 

-onde você vai?

-vou ver o que tem de comida na máquina.

 

peguei umas moedas do bolso.

tinha salgadinho de camarão,

cookies,

bolinho de morango, acabei escolhendo um m&ms.

abri o saco errado, quase caiu tudo.

te ofereci

você reclamou do jeito que eu abri o saco.

 

Comemos.

 

 

um cachorro passou todo preto

andando pelos trilhos.

 

-é uma menina.

 

tínhamos ainda alguns dias na cidade

eu já estava sentindo Falta

mesmo sabendo que eu não queria viver aquela vida pra sempre.

porque eu Sabia que aquela realidade era passageira eu sentia saudade, apesar que meu avô dizia:

 

em cada canto do mundo tem um pedaço de terra que se encaixa muito bem na gente além da nossa casa.

 

às vezes

me dá vontade de procurar esse canto

carregando em mim os ventos das cidades Partidas.

a busca por si só

já se tornaria outra viagem, os dias nas cidades estrangeiras

se Descolam de todo o resto da nossa existência,

são como passarinhos.

 

(ouvi o trem chegando.

imaginei ele vindo quando

segundos depois

o trem chegou)

 

entramos com as mochilas nas costas

e a sede

do chocolate.

 

-tem água?

 

não tinha, era um trem simples.

sentei na janela

nem precisei pedir

você sabe que eu gosto de ver a terra passando e pensar quando meu deus, eu volto aqui?

nunca é a reposta que tem mais chance de acontecer, então a vista ganha um quê de Despedida e no peito bate a pergunta será que eu aproveitei Tudo o que podia? sendo que sou

a maior peneira do mundo.

 

tá chorando menina? –me perguntam. – cê tá triste?

tá feliz?

 

não – eu digo.

 

eu tô uma coisa no meio disso.

 

 

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2 comentários sobre “Viva

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