cadência

o portão fechado.

a rua

dormia.

a casa

dormia na rua. as pessoas

dormiam na casa menos ela

já de pé

a cama depois das 5 dá coceira ainda mais assim

Viúva,

ela ficava lembrando do marido

acordando no meio dos peitos

a camisola por 1 fio e o beijo

com cheiro de

manhã.

isso

doía mais do que ver o túmulo

com ele debaixo da terra e deixar umas flores lendo aquelas datas

vendo aquela

foto, morto também ali.

o pior era o dia a dia

a falta de

toque,

os netos a tocavam mas

era diferente, aquelas mãos pequenas e puras tocavam na vó e tocavam na bola, tocavam no cachorro

e tocavam no cabelo, no prato

de comida, tudo com a mesma intensidade e em nada lembrando

a mão dele passeando aberta pelo corpo dela, Insuportável ficar na cama depois das 5. Levantava, com tudo amanhecendo,

e fazia Café

o primeiro cheiro da casa.

então o gato acordava, dava oi de um jeito simples, olhando pra ela apenas.

estamos vivos

era o que ele pensava, o cabelo dela atrapalhado e fino, o vapor do café invadindo os pelos.

ela abria o armário da esquerda

e pegava uma xícara.

encostava na pia pra beber

sua vista era a toalha de plástico na mesa.

sua vista de dentro

era pensar na vida pensado no passado. até o futuro estava cheio de passado, por exemplo

 

Vou na padaria

 

era diário

então o Vou

virava Ia, virara tenho Ido e é muito parecido ir todo dia para o mesmo lugar. as pessoas mudam um pouco

mas é Bem pouco, é um cílio.

naquela altura ela precisava de uma mudança brusca,

algo como a Morte

ou mudar de cidade, tem a ver. ou se apaixonar, tem a ver mais ainda. (ela riu.

uma velha como ela se apaixonando não tinha cabimento. tinha?

cabimento. se ela sentia

cabia)

o gato no telhado

tendo a vista da cidade acordando.

ela se vestiu

sem olhar no espelho.

a cozinha

impregnada nos azulejos

esperava o resto do café da manhã que chegaria em breve.

ela abriu com cuidado

o portão

não por amor ao sono das pessoas, mas

por amor a Solidão.

caminhou os quarteirões sempre os mesmos até chegar na padaria. assoviava um blues, o cheiro do pão na memória. quando ela era menina o pai botava pra tocar here comes the blues o tempo todo e isso virou a infância, quando a gente gosta de uma música o disco fura

e roda

dentro de nós.

ela chegou

na padaria, o sol nascendo

na canela.

 

-Bom dia.

-Bom dia.

 

alguns bons dias eram falados, outros

sorridos e esses eram para os mais íntimos, que já se conheciam bem em feições, o caso do Padeiro.

 

– 8 pãezinhos por favor.

– 8, dona Lurdes?

-é,

os netos estão em casa.

 

 

(o saco de pão enchendo)

 

 

-os mais queimadinhos, por favor – ela dizia sempre

mas não precisava e todo mundo sabia

que não precisava.

 

Pagou,

o dinheiro guardado no sutiã.

caminhou de volta

pra casa

reparando nas calçadas antigas daquele bairro antigo, as pessoas já estavam mais acordadas, batendo tapete na frente de casa, devagar pegando seus carros,

a carteira no bolso, as crianças na escola, as coisas

funcionando sozinhas, intocáveis.

 

era assim também, o mundo, quando eu era menina.

então minha mãe morreu e o mundo

mal mudou.

meu pai

tá morto, meu marido

morto

e o fato de eu ainda estar viva

fazendo as mesmas coisas todos os dias

quer dizer que estou morta, também? – ela pensou,

será

que eu estou morta

também? – essa indigestão

nascia

assim que começava a sumir

aquela hora da manhã bem cedo que era só dela, no saco de pão uma esperança pequena caso os pães estivessem bem queimados e

estavam, o padeiro não errava nunca.

 

 

Anúncios

Um comentário sobre “cadência

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s