A primeira vez que fui livre

são paulo era uma cidade estranha pra mim, nem de bicicleta eu andava nela.
via pessoas andando,
não parecia tão
difícil,
me faltava só o manejo
de ruas percorridas, eu precisava de tempo na cidade,
anos nela sem
lua,
quando tinha eu parava pra ver onde quer que eu estivesse.
não sentia medo
como meus avós diziam que eu sentiria.

é diferente daqui. – eles me explicavam,
no quintal
a galinha de barulho era a única.

leio em são paulo um livro na praça
e ninguém faz o mesmo. difícil encontrar nossos pares com tanto trânsito.
na calçada
as pessoas andam sempre em frente,

é medo de assalto.

mas não só de armas
também da beleza de viver por aqui e bateu
um vento
em mim e na minha Amiga. combinávamos nosso shopping para amanhã e me deu uma coragem.
à noite falei pra minha mãe:

é Ensaio.

não era. era uma tarde nossa
fazendo o que quiséssemos inclusive nada
depois iríamos pra escola de Teatro, sempre atentas no horário pra não nos atrasarmos naquela animação
de ter a tarde deitada
ao nosso dispor
e como isso passa rápido
e como isso passa
devagar.
eu, que comia a comida da minha mãe diariamente,
sentia pontadas de alegria no estômago pensando que almoçaria fora.
fui de ônibus pro shopping, o coração na mão. parecia que eu ia receber um prêmio de melhor atriz em los angeles.  ou que
me descobriram, não era ensaio coisa nenhuma e aquele susto, aquelas explicações.
chegando no shopping
minha amiga me esperava
com um cheiro de eucalipto no ar saído das lojas recém abertas,
na praça de alimentação algumas pessoas tomando café, pensativas.
entrávamos nas lojas
de bolso
oco
mas estarmos juntas fazendo
algo divertido enfim era tão
maravilhoso e

livre
?,

em casa sempre tinha alguém me chamando, precisando
desesperadamente de
mim
louça na pia
trocar fralda da irmã mais nova
banho na irmã mais nova
aprender a fazer feijão.
descansar não existia em casa
por isso eu disse que era
Ensaio, se não
minha mãe não me deixava sair.
naquele dia eu tinha conseguido, Mentir não é fácil, tem que olhar no olho da pessoa e dizer com um tom normal a coisa que você precisa dizer.
era na hora de olhar nos olhos que eu me atrapalhava, perdia o
tom,
mas naquele dia eu tinha conseguido

finalmente

e saí
longe
pra encontrar a minha amiga.
usei o vestido do meu aniversário. almoçamos batata recheada rindo das cenas da tereza que nunca decorava fala nenhuma e nem levava figurino.
às vezes
eu também cansava das aulas de Interpretação.
era bom ter aula teórica
sentar na cadeira
anotar e
poder ser eu mesma.
minha amiga concordou
que é bom ser a gente mesma.

vamos voltar de ônibus?, estávamos na faria lima.
vamos a pé, vai. – implorei.

era dezembro
um calor nas ruas, são paulo uma cidade que eu nunca decorava
o lugar de virar. uma hora você aprende, me diziam.
fomos a pé no fim das contas,
quase dávamos as mãos e então dávamos, todo mundo pensava que éramos irmãs.
passamos de mochila pelas ruas
as pessoas vindo
em direção contrária
nós duas felizes por absolutamente
nada
eu não conhecia bob dylan
nunca tinha lido bukoswi
por alto ouvi falar de woody allen e da música
clássica eu
não sabia mais do que um recém nascido
e tão menos
quando a chuva começou a cair
grossa
como um chuveiro
sem mudar a cor do céu.
caía água
no cabelo
no dedo do pé
molhou a nossa mão grudada de sacola com figurino, a nossa meninice,
molhou o dente da minha amiga,
molhou meu colo,
a nuca,
a pinta de infância nas costas um longo caminho pela frente até a escola
de teatro.

-tá vendo?,  a gente devia ter voltado de ônibus. – minha amiga disse, ensopada.

não ouvi
o que ela disse
o cheiro do asfalto molhado invadia tudo.

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2 comentários sobre “A primeira vez que fui livre

  1. não sei se você sou eu, ou se em são paulo esse é o roteiro.
    parece ser o lugar que muitos encontram liberdade, poemas marginais e chuvas inesperadas.
    parabéns

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