perto do coração selvagem

a cachorra era bem maior. e urgente em amar quem entrava pela porta de sua casa, as pernas das pessoas ficavam vermelhas depois

roxas

por culpa das patadas fortes que ela dava pra dizer seu

oi

carregado

da saudade

ancestral.

mesmo que ela não conhecesse a pessoa que entrasse

mordia o braço

chorando longo

de felicidade quase dizendo obrigada por eu não estar mais sozinha e grandes pulos

numa ânsia de Ver que

trasbordava de seus pelos

ruivos, sardas, dentes

língua. a roupa das pessoas que entravam

ensopava de tanto

lutar.

uma vez,

a cachorra comeu uma perereca morta.

ligaram pro veterinário, os donos.

 

tudo bem, disse o médico. – ela aguenta.

 

e aguentou, seguiu alegre pra receber quem abria a porta,

comemorava Chegadas acima de Tudo

não importa se a pessoa ficou fora por 5 minutos ou

5 dias,

tudo na cachorra era fruto

da loucura brutal de existir.

mas quando a bebê chegou, Não.

quando a Bebê chegou

com a mãe segurando uma taça

de vinho,

a cachorra sempre doida pra estar mais perto ficou em pausa, Atenta.

a bebê, o contrário, caminhou cega pra todo o resto rumo a cachorra,

a mãe da menina não se preocupou.

a cachorra

esperou paciente a pequena que andava devagar aprendendo como fazem os cavalos nenês, a perna treme, o passo

a passo até que

a bebê chegou, de olhos arregalados e boca vazia de dente. colocou sua mão de 3 centímetros

em cima da cachorra enorme tão maior,

 

 

o toque.

 

 

antes de qualquer carinho

aquilo

era uma Descoberta,

as pessoas ao redor ficaram olhando.

a cachorra

cheirou a bebê

devagarinho

numa calma

inédita, a língua guardada dentro dos dentes, a boca morna sem perigo de arranho, só o nariz trabalhava

sentindo o cheiro da bebê que devia parecer muito com uma jarra de leite.

as pessoas ao redor

que conheciam o temperamento da cachorra disseram:

 

-caramba.

 

disseram:

 

-meu deus.

 

disseram:

 

-como? ela sabe

 

essas coisas de tamanho e

força.

a bebê curiosa

era pura

nunca sentiu arrepio de medo

não sabia o que era perigo em gesto

muito menos

em palavra, se alguém levantasse 1 mão em direção ao seu rosto

ela olhava a mão, simplesmente, e nenhuma memória de medo.

a cachorra Admirada

deixou a bebê desvendar

os mistérios de ser

um cão,

aquele formato em pelo aos olhos da menina

lembrava muito os bichinhos de berço só que com Vida e por isso

tão Interessante.

não era mais imaginação,

a bebê descobrindo isso ficou em estado de graça.

sentou, as duas sentaram.

se olharam infinitamente

 

um espelho.

 

(todo bebê tem algo de cachorro.
depois perdemos
como perdemos um copo
no balcão de um bar
cheio
pra virar essa angústia crescida, essa eterna esperança de ser
amado, esse ciúme, essa pressa. mas não dói.
o importante é que há
O tempo em que somos selvagens no coração mais puro, acho
que a Clarice escreveu sobre isso aos 16 ou
17
anos)

 

a bebê deu um beijo

na boca da cachorra.

a mãe disse:

 

-ela tá com mania

de dar beijo na boca das coisas que ela gosta muito.

 

 

as pessoas ao redor

só conseguiam pensar nos micróbios.

 

 

 

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