testemunhas

 

eu vendia pedras preciosas na garagem de casa,

estendia um tapete

com elas espaçadas

e dava o preço pelo tamanho de cada uma, apesar que

a prateada,

ainda que Pequena,
lembrava muito um Diamante

batia sol e ela fazia
Nascer na parede
um arco íris bem parecido com o que dá no céu.

por ela (a preferida) eu cobrava todo o dinheiro que a pessoa tivesse no bolso, na época as pessoas andavam com dinheiro no bolso, o valor da Diamante era de arrasar.

– o mais caro possível pra você, quanto cê tem? 100? então é
100. – eu treinava a venda
com o meu cachorro que de vez em quando queria comer a mercadoria.

-ah, não. fora, vai.
Fora.

todo dia eu não conseguia vender pedra nenhuma,
meu ponto na garagem
não era bom.

terminava o trabalho cansada

(e discretamente
feliz que ninguém tinha comprado
nada, assim as pedras seguiam sendo

minhas).

tentei arranjar um outro jeito de ganhar dinheiro:

-mãe, posso lavar o carro?
-mas você já lavou semana passada. está limpo, eu nem usei.

era verdade, estava limpíssimo.
ofereci meu trabalho para os vizinhos:

-posso lavar seu carro?
Posso?
lavar seu carro.
posso lavar?
seu carro.

-Não. – era a resposta que eu ouvia. criança não pode trabalhar, nem deve
fazer direito.
então segui tentando vender as pedras. tinha comprado todas juntas
numa caixa de madeira
em um restaurante beira de estrada rumo a Holambra.

-posso levar essa caixinha de pedras, mãe?
pai?

perguntei na época, ao que me disseram tudo bem.

as pedras eram bonecas

pra mim. brincava com elas e ninguém entendia porquê, eram tão geladinhas e sem rosto, algumas redondas

outras pontudas com jeito de
montanha
só que no útero, ainda, da Montanha de verdade que mora na natureza, eu vi num filme,
ao vivo nunca,
quem sabe vejo 1 no acampamento que a escola disse:

Levem
seus filhos.

por um bilhete que veio colado na agenda.

-acampamento? meu pai disse alto
na cozinha.
você viu o preço disso, laura?

eram vários números, o preço.
eram vários dias
longe

de casa
bem no
natal.

-não temos dinheiro,
filha.

na hora lembrei
das pedras preciosas.
perguntei pra professora:

-aceitam isso? como pagamento.

ela disse:

-não,
querida. – e riu, a risada dela ficou grudada no meu olho.

(por anos eu usei
a mesma risada que ela me deu
quando alguém me mostrava com certa esperança alguma coisa idiota).

então tive a ideia
da garagem de casa virar uma loja
de pedras
e tentei vender cada uma
delas, pra provar pra professora que elas valiam muito.
eu gostava das pedras
e odiava
passar o fim de ano
em casa
mais do que gostava das pedras, era uma questão de matemática
ou de
sobrevivência,

aquela velha árvore
de natal brilhando e a boca do meu avô murcha
me olhando,

no fim
não consegui vender pedra nenhuma.

(é que eu

não consegui me desapegar delas

e isso foi criando
um Muro

entre mim

e os meus possíveis clientes que não chegavam nunca)

tive que passar

o fim de ano em casa mesmo
no colo quente
do meu
avô e foi
terrível,

como sempre,

as pedras na caixinha viram tudo

e fizeram silêncio.

 

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