no caminho alguém tirou uma foto do cachorro com o bebê na boca e só depois de ver a foto foi que o delegado acreditou na cena

alguém jogou um bebê no lixo.

o cheiro dos restos

entrava

e saia

dos pequenos pulmões que pensavam o mundo inteiro cheira assim então

se acostumavam, não queriam morrer.

o ruim mesmo era a fome.

se o bebê fosse um pouco maior

ele podia abrir o lixo

e comer a sobra da carne

ainda na maçã

mas ele era tão

pequeno

com aquela passividade dos bebês que aceitam

o que vier

a morte

a dor

uma teta com leite, o máximo que reclamam é chorando.

mas esse bebê

pelado no lixo, o clima quente graças a deus,

não estava chorando.

pra quem olhasse assim de cima parecia morto

quando um cachorro foi no lixo procurar comida, o cheiro de gente

se destacando.

 

um bebê no lixo? – o cachorro pensou, se pensasse.

 

pegou com a boca

aquele corpinho.

levou o bebê

pra delegacia mais próxima

4 horas da manhã e

entrou na sala

do delegado

que estava no telefone

e teve que olhar duas vezes pra aquela cena,

três

quatro, pensou que estava tendo alucinações.

o cachorro soltou

o bebê na cadeira que agora sim, começou a chorar,

e voltou pra rua

com os outros cães

sempre tão

parecidos.

giphy-6

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Fraude

a cena era uma tomada de decisão.

eu e a tati, minha dupla no exercício, decidimos que seria a minha personagem quem tomaria a decisão, uma jovem

com a minha idade

que usaria o meu corpo

na Cena do apartamento onde as duas moravam.

o Teatro

pode levar um sujeito à Loucura,

é muito esquisito falar com propriedade

frases que não foi você quem pensou e ainda por cima dentro de lugares no palco que não estão lá, por exemplo um apartamento. por exemplo a Grécia. por exemplo um consultório psiquiátrico, não importa. basta usar o velho pacto do isso é um jogo.

nos ensaios,

decidimos que eu acharia uma foto da personagem da tati

beijando o namorado da minha personagem.

ensaiávamos quase todas as tardes, tínhamos o prazo de 1 semana.

era uma cena improvisada, cada hora saía de um jeito

mas a gente ia memorizando

algumas falas e os lugares em que deveríamos estar, a tati sempre mais à frente quando eu encontrava a foto

e decidia ir embora daquele apartamento.

durante os ensaios correu tudo bem

numa cena fraca

de duas atrizes iniciantes que pensavam vamos mudar o mundo, eu principalmente.

quando chegou o dia da apresentação,

pra mim era um grande dia.

nosso professor era um diretor respeitado, todos os alunos queriam ter aula com ele, a escola sorteava as turmas, nesse semestre demos sorte.

eu e a tati fomos a quinta dupla a se apresentar.

todas as cenas tinham sido banhadas por vários elogios do diretor em frases como:

 

-vocês

estão no caminho.

 

quando ele chamou nosso nome, rapidamente ajeitamos a cena com os objetos que usaríamos. ele pediu silêncio pra turma com o caderno de anotações no colo.

 

-prontas?

 

fizemos que sim com a cabeça. fui pra fora da sala, a cena começava comigo chegando.

 

-Ação.

 

abri a porta como se fosse a do apartamento,

a tati arrumando umas caixas.

 

oi. – eu disse, atuando.

-oi amiga, como foi seu dia?

bem, muito trabalho na empresa, estou morta. e você como está? fazendo faxina?

-não, na verdade eu tô só dando uma limpa aqui. podemos jantar depois, se você quiser.

-claro.

 

sentei no sofá cênico

feito com 2 cadeiras. pra quem estava assistindo eu queria que imaginassem um sofá daqueles de novela. fiz uma curva de madame com o corpo.

foi então que a tati

derrubou a foto

no sem querer tão Ensaiado.

minha personagem se levantou pra pegar

sem nem imaginar

tamanha traição.

eu estava nervosa,

queria mostrar um bom trabalho

não queria ouvir do diretor um simples você está no Caminho, eu queria ser o caminho, eu queria ser

Genial.

quando minha personagem percebeu o beijo

eu comecei a

Gritar com a tati

de um jeito bem diferente do que estávamos fazendo nos ensaios, Improvisei. segui meu coração, como dizem nos filmes, gritar

era baixo pra aquilo que eu estava fazendo, eu

Berrava

a escola inteira ouviu.

Rasguei a foto do beijo

e todas as outras dentro da caixa

inclusive a caixa, um mar de papel.

dei um Tapa na cara da tati

saí de qualquer controle possível.

minhas veias saltavam, meu canto da boca ficou Branco de saliva. o chão da sala tremia

os alunos assistindo pareciam congelados.

terminei a cena batendo a porta

com uma força descomunal

ainda sem tempo de me sentir arrependida, sem perceber direito a merda que eu tinha feito.

com a porta da sala fechada me separando

deles

por alguns segundos eu pensei que tinha conseguido

ser

a mulher que eu gostaria no palco quando

num estalo

finalmente percebi

o quanto eu tinha ultrapassado

um limite grave.

abri a porta

da sala

e vi a marca de mão na bochecha da tati me encarando incrédula.

 

 

-Terminou? – o diretor me perguntou.

então se fez uma longa Pausa, enorme muito

maior

do que eu podia aguentar.

 

 

– isso aí

que você fez

não me Convence.

 

 

a palavra convence

entrou em mim

como um punhal.

comecei a chorar

sem conseguir encontrar o olho de ninguém da sala ao mesmo tempo que eu sentia

todos os olhos

me Dissecando.

fui embora aberta,

desmontada,

desmaiando querendo ser outra pessoa pelo amor de deus. sumir, sumir,

sumir de uma vez por todas.

 

o que houve? parece até que alguém morreu! –minha mãe me disse

quando cheguei em casa.

não respondi

e me tranquei no quarto.

passei a noite toda só pensando no meu surto

várias noites depois.

quase abandonei

o curso de

Teatro

mas naquela época eu acreditava de verdade

que o meu destino

era ser atriz.

Morta

fui pra aula na semana seguinte.

e na semana

seguinte. e na

semana seguinte,

 

 

 

 

 

 

 

 

(ninguém teve coragem

de tocar no

 

assunto)

 

Viva

naquela estação de Trem (em que cidade estávamos mesmo?) o sol

baixo, a espera não doía.

mal se escutava o relógio

Enorme

típico das estações, ainda assim

as pessoas se atrasavam direto.

pra não perder a hora

o ponteiro tem que estar colado no funcionamento do nosso corpo. Imagina

se o Tempo fosse em letra?

e a fala fosse

em número. pra conversar e pedir um café diriam:

 

– 59 007 54611643 09

– 604 3 11   2 56139

 

 

e os endereços

todos ao contrário

com os números dizendo dos nomes

e as letras dizendo da altura. nos acostumaríamos, se fosse o caso, nos acostumamos com as coisas do jeito que elas são. eu pensava nisso

pulando os trilhos

do trem que não estava, a criança que fui ainda fresca,

você me olhava pensando onde jantaríamos naquela noite depois do banho.

o chuveiro do hotel não era bom, mas aquele não era o chuveiro da nossa casa então

compreendíamos,

o sol de fim de tarde não castigava ninguém.

a estação vazia

era como um filme de faroeste. comecei a cantarolar raindrops

keep falling on

my head, meu vô que me mostrou essa música, just like the guy whose feet are too big for his

bed,

colocou numa fita no fusca,

 

vê filha (ele me chamava de Filha) que música bonita,

(crying is not for me cause)

ouvia desmanchando.

 

 

larguei minha mochila ao seu lado.

 

-onde você vai?

-vou ver o que tem de comida na máquina.

 

peguei umas moedas do bolso.

tinha salgadinho de camarão,

cookies,

bolinho de morango, acabei escolhendo um m&ms.

abri o saco errado, quase caiu tudo.

te ofereci

você reclamou do jeito que eu abri o saco.

 

Comemos.

 

 

um cachorro passou todo preto

andando pelos trilhos.

 

-é uma menina.

 

tínhamos ainda alguns dias na cidade

eu já estava sentindo Falta

mesmo sabendo que eu não queria viver aquela vida pra sempre.

porque eu Sabia que aquela realidade era passageira eu sentia saudade, apesar que meu avô dizia:

 

em cada canto do mundo tem um pedaço de terra que se encaixa muito bem na gente além da nossa casa.

 

às vezes

me dá vontade de procurar esse canto

carregando em mim os ventos das cidades Partidas.

a busca por si só

já se tornaria outra viagem, os dias nas cidades estrangeiras

se Descolam de todo o resto da nossa existência,

são como passarinhos.

 

(ouvi o trem chegando.

imaginei ele vindo quando

segundos depois

o trem chegou)

 

entramos com as mochilas nas costas

e a sede

do chocolate.

 

-tem água?

 

não tinha, era um trem simples.

sentei na janela

nem precisei pedir

você sabe que eu gosto de ver a terra passando e pensar quando meu deus, eu volto aqui?

nunca é a reposta que tem mais chance de acontecer, então a vista ganha um quê de Despedida e no peito bate a pergunta será que eu aproveitei Tudo o que podia? sendo que sou

a maior peneira do mundo.

 

tá chorando menina? –me perguntam. – cê tá triste?

tá feliz?

 

não – eu digo.

 

eu tô uma coisa no meio disso.

 

 

depois que li marguerite duras

fecho a porta do quarto no meu pequeno apartamento.

a vida

com suas implicações diárias por exemplo fazer comida ou lavar a roupa, eu fecho a porta pra isso também e para as conversas entre minha mãe e eu.

depois falamos

mãe, eu quero dizer quando fecho a porta e ela

Entende, as mães são assim, as dores morrem caladas no peito delas que entendem tudo o que vem de um filho,

chorando elas entendem

que o ser humano saído do útero

não tem nada a ver com a palavra Meu.

de porta fechada no espaço mínimo

sento na cadeira. Hemingway escrevia de pé eu vi num filme que tenho

aqui no quarto,

só não acho

onde? o computador na mesa

 

 

Aguarda

 

 

com a folha virtual em branco.

nunca senti medo da folha em branco, acho bonito quando dizem: eu Sinto.

meu teclado

é como um piano

é como se eu tocasse uma música que já ouvi antes

naquela festa

que dançamos juntos,

meu corpo conectado com o que Conto

e o que conto absolutamente conectado com a música, no fundo

querendo ser A Música e com sorte

atingir uns corações Bem no Meio enquanto todo o resto

some.

dobro a testa enquanto escrevo,

faço um vinco na pele que em breve se tornará uma ruga definitiva. não me preocupo, nada

me preocupa, apesar dos dermatologistas dizerem tanto

que essa ruga entre o nariz e a testa

é típica de quem se preocupa.

 

memória

era um galpão e tanto

cercado de prédios espelhados que são Bancos

ou estão envolvidos

com Bancos.

nenhuma árvore na rua, talvez

1

tão pequena que parecia uma flor

quando por acaso eu achei aquele galpão vestido de Bar, o táxi tinha se perdido. eu disse:

 

-vou descer aqui mesmo, obrigada.

 

Entrando

descobri que ali também customizavam motos. a parte do bar

só tinha os garçons

e eu

comendo um burguer

cercada por aqueles quadros de banda e filme, com uma playlist de rock tocando solta

de lynyrd skynyrd

a joni mitchell.

eu me sentia ótima.

comecei a frequentar ali levando um livro.

o bar

dava mais prejuízo do que ganho mas o dono era Rico, me disseram, 1 dos garçons que foi ficando meu amigo chamado Ricardo.

o Ricardo

nunca andou de moto

nem viajou

de avião. sentia medo,

medo de

tudo.

 

– é rico de herança, o dono. – o Ricardo me dizia

de bigode mexendo.

 

só assim

pra manter aquele bar quase sempre vazio, o ponto não era bom.

a vila madalena

talvez fosse um lugar melhor com a sua boemia dos jovens de 30.

 

– o problema é que vai encher, né, ricardo? e eu gosto assim

vazio.

é egoísta, eu sei. mas eu gosto assim.

-também prefiro. se for pra vila vai ficar ruim pra mim. é muito longe de casa, não compensa.

 

e o dono arrumando as motos, sempre sujo, de jaqueta. saía acelerando sua Harley sem olhar pra ninguém.

fiz meu aniversario no Bar, na época que eu tinha amigos.

comemoramos numa mesa grande de madeira

que um dia foi árvore. comemos e bebemos em cima da árvore morta sem pensar em morte, uma banda de rock tocava, eles tinham cara de motoqueiros também. perguntei pro meu primo:

 

-você iria? no meu casamento.

 

porque a minha família é muito

desunida.

 

-eu iria, claro. – ele disse pleno, – é só me convidar.

a gente se abraçou

tirou foto

lembrando do playcenter e do dia que ele comeu um sabonete incentivado por mim, acabamos parando no hospital. foi uma noite e tanto

a do sabonete

e a de hoje que como todas

Terminou.

voltei dirigindo, meu namorado bêbado. nem olhei direito a fachada do bar com aquele vento da madrugada na minhas costas e uma alegria de estar viva que às vezes bate quando fazemos aniversário. não lembrei de dar uma última olhada pro bar, eu

não sabia, não fazia ideia de que aquela

era a última vez.

passaram-se uns meses

quando recebi a notícia

que o bar tinha

Fechado, um amigo me contou:

 

fechou. passei lá outro dia e estava tudo escuro com placa de aluga-se.

-o que? você tem certeza?

 

peguei um táxi e fui até lá ver se sim Pedindo que não. pra deus? é

pra deus,

fiquei pedindo no táxi pra que o bar estivesse bem.

chegando na rua,

da esquina já dava pra ver a falta de luz. que dor,

era Verdade,

o bar estava

morto com corrente nas vagas. aqueles prédios ao redor é que engoliram tudo, como a rua ficou triste, não passei mais por lá depois disso, não que fosse vingança. é só que

eu tinha perdido o Propósito.

 

(tempos depois o bar reabriu, na vila madalena. o ricardo não estava, como ele havia dito que não estaria. nem meu primo

que se mudou pra patos

de minas. nem muitos dos meus amigos que estavam naquele meu

aniversário.

o bar ficou diferente na vila, bem menor. o dono dizia que aquela esquina só poderia trazer sucesso.

quando passei por lá eles estavam finalizando o balcão e o cheiro forte

de serragem.

 

-tragam suas Motos, – o dono dizia

alto

na esquina

com a cerveja na mão parecendo um louco.

o bar reabriu

e aquele morno dentro.

que me desculpem as pessoas que estavam ali, mas

as que não estavam

me chamaram muito mais a atenção.

que lugar Vazio,

antes isso não me incomodava. deve ser cisma, pensei,

e visitei de novo o bar

no inverno.

pedi um burguer. o gosto

estava diferente, sobrou no prato quase a metade e isso nunca aconteceu.

fora que no lugar novo não cabiam todos os quadros do outro galpão

e o dono

escolheu ficar com os quadros errados, onde está aquele do

Manhattan

com o Woody Allen e a Mariel Hemingway?

onde foi parar aquele quadro meu deus,

fiquei de olho

nos lixos próximos.

tempos depois,

 

o bar fechou outra vez.

 

 

-vou reabrir nos estados unidos. – o dono disse em entrevista, dificultando pro Ricardo

cada vez mais)

 

 

cadência

o portão fechado.

a rua

dormia.

a casa

dormia na rua. as pessoas

dormiam na casa menos ela

já de pé

a cama depois das 5 dá coceira ainda mais assim

Viúva,

ela ficava lembrando do marido

acordando no meio dos peitos

a camisola por 1 fio e o beijo

com cheiro de

manhã.

isso

doía mais do que ver o túmulo

com ele debaixo da terra e deixar umas flores lendo aquelas datas

vendo aquela

foto, morto também ali.

o pior era o dia a dia

a falta de

toque,

os netos a tocavam mas

era diferente, aquelas mãos pequenas e puras tocavam na vó e tocavam na bola, tocavam no cachorro

e tocavam no cabelo, no prato

de comida, tudo com a mesma intensidade e em nada lembrando

a mão dele passeando aberta pelo corpo dela, Insuportável ficar na cama depois das 5. Levantava, com tudo amanhecendo,

e fazia Café

o primeiro cheiro da casa.

então o gato acordava, dava oi de um jeito simples, olhando pra ela apenas.

estamos vivos

era o que ele pensava, o cabelo dela atrapalhado e fino, o vapor do café invadindo os pelos.

ela abria o armário da esquerda

e pegava uma xícara.

encostava na pia pra beber

sua vista era a toalha de plástico na mesa.

sua vista de dentro

era pensar na vida pensado no passado. até o futuro estava cheio de passado, por exemplo

 

Vou na padaria

 

era diário

então o Vou

virava Ia, virara tenho Ido e é muito parecido ir todo dia para o mesmo lugar. as pessoas mudam um pouco

mas é Bem pouco, é um cílio.

naquela altura ela precisava de uma mudança brusca,

algo como a Morte

ou mudar de cidade, tem a ver. ou se apaixonar, tem a ver mais ainda. (ela riu.

uma velha como ela se apaixonando não tinha cabimento. tinha?

cabimento. se ela sentia

cabia)

o gato no telhado

tendo a vista da cidade acordando.

ela se vestiu

sem olhar no espelho.

a cozinha

impregnada nos azulejos

esperava o resto do café da manhã que chegaria em breve.

ela abriu com cuidado

o portão

não por amor ao sono das pessoas, mas

por amor a Solidão.

caminhou os quarteirões sempre os mesmos até chegar na padaria. assoviava um blues, o cheiro do pão na memória. quando ela era menina o pai botava pra tocar here comes the blues o tempo todo e isso virou a infância, quando a gente gosta de uma música o disco fura

e roda

dentro de nós.

ela chegou

na padaria, o sol nascendo

na canela.

 

-Bom dia.

-Bom dia.

 

alguns bons dias eram falados, outros

sorridos e esses eram para os mais íntimos, que já se conheciam bem em feições, o caso do Padeiro.

 

– 8 pãezinhos por favor.

– 8, dona Lurdes?

-é,

os netos estão em casa.

 

 

(o saco de pão enchendo)

 

 

-os mais queimadinhos, por favor – ela dizia sempre

mas não precisava e todo mundo sabia

que não precisava.

 

Pagou,

o dinheiro guardado no sutiã.

caminhou de volta

pra casa

reparando nas calçadas antigas daquele bairro antigo, as pessoas já estavam mais acordadas, batendo tapete na frente de casa, devagar pegando seus carros,

a carteira no bolso, as crianças na escola, as coisas

funcionando sozinhas, intocáveis.

 

era assim também, o mundo, quando eu era menina.

então minha mãe morreu e o mundo

mal mudou.

meu pai

tá morto, meu marido

morto

e o fato de eu ainda estar viva

fazendo as mesmas coisas todos os dias

quer dizer que estou morta, também? – ela pensou,

será

que eu estou morta

também? – essa indigestão

nascia

assim que começava a sumir

aquela hora da manhã bem cedo que era só dela, no saco de pão uma esperança pequena caso os pães estivessem bem queimados e

estavam, o padeiro não errava nunca.

 

 

A primeira vez que fui livre

são paulo era uma cidade estranha pra mim, nem de bicicleta eu andava nela.
via pessoas andando,
não parecia tão
difícil,
me faltava só o manejo
de ruas percorridas, eu precisava de tempo na cidade,
anos nela sem
lua,
quando tinha eu parava pra ver onde quer que eu estivesse.
não sentia medo
como meus avós diziam que eu sentiria.

é diferente daqui. – eles me explicavam,
no quintal
a galinha de barulho era a única.

leio em são paulo um livro na praça
e ninguém faz o mesmo. difícil encontrar nossos pares com tanto trânsito.
na calçada
as pessoas andam sempre em frente,

é medo de assalto.

mas não só de armas
também da beleza de viver por aqui e bateu
um vento
em mim e na minha Amiga. combinávamos nosso shopping para amanhã e me deu uma coragem.
à noite falei pra minha mãe:

é Ensaio.

não era. era uma tarde nossa
fazendo o que quiséssemos inclusive nada
depois iríamos pra escola de Teatro, sempre atentas no horário pra não nos atrasarmos naquela animação
de ter a tarde deitada
ao nosso dispor
e como isso passa rápido
e como isso passa
devagar.
eu, que comia a comida da minha mãe diariamente,
sentia pontadas de alegria no estômago pensando que almoçaria fora.
fui de ônibus pro shopping, o coração na mão. parecia que eu ia receber um prêmio de melhor atriz em los angeles.  ou que
me descobriram, não era ensaio coisa nenhuma e aquele susto, aquelas explicações.
chegando no shopping
minha amiga me esperava
com um cheiro de eucalipto no ar saído das lojas recém abertas,
na praça de alimentação algumas pessoas tomando café, pensativas.
entrávamos nas lojas
de bolso
oco
mas estarmos juntas fazendo
algo divertido enfim era tão
maravilhoso e

livre
?,

em casa sempre tinha alguém me chamando, precisando
desesperadamente de
mim
louça na pia
trocar fralda da irmã mais nova
banho na irmã mais nova
aprender a fazer feijão.
descansar não existia em casa
por isso eu disse que era
Ensaio, se não
minha mãe não me deixava sair.
naquele dia eu tinha conseguido, Mentir não é fácil, tem que olhar no olho da pessoa e dizer com um tom normal a coisa que você precisa dizer.
era na hora de olhar nos olhos que eu me atrapalhava, perdia o
tom,
mas naquele dia eu tinha conseguido

finalmente

e saí
longe
pra encontrar a minha amiga.
usei o vestido do meu aniversário. almoçamos batata recheada rindo das cenas da tereza que nunca decorava fala nenhuma e nem levava figurino.
às vezes
eu também cansava das aulas de Interpretação.
era bom ter aula teórica
sentar na cadeira
anotar e
poder ser eu mesma.
minha amiga concordou
que é bom ser a gente mesma.

vamos voltar de ônibus?, estávamos na faria lima.
vamos a pé, vai. – implorei.

era dezembro
um calor nas ruas, são paulo uma cidade que eu nunca decorava
o lugar de virar. uma hora você aprende, me diziam.
fomos a pé no fim das contas,
quase dávamos as mãos e então dávamos, todo mundo pensava que éramos irmãs.
passamos de mochila pelas ruas
as pessoas vindo
em direção contrária
nós duas felizes por absolutamente
nada
eu não conhecia bob dylan
nunca tinha lido bukoswi
por alto ouvi falar de woody allen e da música
clássica eu
não sabia mais do que um recém nascido
e tão menos
quando a chuva começou a cair
grossa
como um chuveiro
sem mudar a cor do céu.
caía água
no cabelo
no dedo do pé
molhou a nossa mão grudada de sacola com figurino, a nossa meninice,
molhou o dente da minha amiga,
molhou meu colo,
a nuca,
a pinta de infância nas costas um longo caminho pela frente até a escola
de teatro.

-tá vendo?,  a gente devia ter voltado de ônibus. – minha amiga disse, ensopada.

não ouvi
o que ela disse
o cheiro do asfalto molhado invadia tudo.

perto do coração selvagem

a cachorra era bem maior. e urgente em amar quem entrava pela porta de sua casa, as pernas das pessoas ficavam vermelhas depois

roxas

por culpa das patadas fortes que ela dava pra dizer seu

oi

carregado

da saudade

ancestral.

mesmo que ela não conhecesse a pessoa que entrasse

mordia o braço

chorando longo

de felicidade quase dizendo obrigada por eu não estar mais sozinha e grandes pulos

numa ânsia de Ver que

trasbordava de seus pelos

ruivos, sardas, dentes

língua. a roupa das pessoas que entravam

ensopava de tanto

lutar.

uma vez,

a cachorra comeu uma perereca morta.

ligaram pro veterinário, os donos.

 

tudo bem, disse o médico. – ela aguenta.

 

e aguentou, seguiu alegre pra receber quem abria a porta,

comemorava Chegadas acima de Tudo

não importa se a pessoa ficou fora por 5 minutos ou

5 dias,

tudo na cachorra era fruto

da loucura brutal de existir.

mas quando a bebê chegou, Não.

quando a Bebê chegou

com a mãe segurando uma taça

de vinho,

a cachorra sempre doida pra estar mais perto ficou em pausa, Atenta.

a bebê, o contrário, caminhou cega pra todo o resto rumo a cachorra,

a mãe da menina não se preocupou.

a cachorra

esperou paciente a pequena que andava devagar aprendendo como fazem os cavalos nenês, a perna treme, o passo

a passo até que

a bebê chegou, de olhos arregalados e boca vazia de dente. colocou sua mão de 3 centímetros

em cima da cachorra enorme tão maior,

 

 

o toque.

 

 

antes de qualquer carinho

aquilo

era uma Descoberta,

as pessoas ao redor ficaram olhando.

a cachorra

cheirou a bebê

devagarinho

numa calma

inédita, a língua guardada dentro dos dentes, a boca morna sem perigo de arranho, só o nariz trabalhava

sentindo o cheiro da bebê que devia parecer muito com uma jarra de leite.

as pessoas ao redor

que conheciam o temperamento da cachorra disseram:

 

-caramba.

 

disseram:

 

-meu deus.

 

disseram:

 

-como? ela sabe

 

essas coisas de tamanho e

força.

a bebê curiosa

era pura

nunca sentiu arrepio de medo

não sabia o que era perigo em gesto

muito menos

em palavra, se alguém levantasse 1 mão em direção ao seu rosto

ela olhava a mão, simplesmente, e nenhuma memória de medo.

a cachorra Admirada

deixou a bebê desvendar

os mistérios de ser

um cão,

aquele formato em pelo aos olhos da menina

lembrava muito os bichinhos de berço só que com Vida e por isso

tão Interessante.

não era mais imaginação,

a bebê descobrindo isso ficou em estado de graça.

sentou, as duas sentaram.

se olharam infinitamente

 

um espelho.

 

(todo bebê tem algo de cachorro.
depois perdemos
como perdemos um copo
no balcão de um bar
cheio
pra virar essa angústia crescida, essa eterna esperança de ser
amado, esse ciúme, essa pressa. mas não dói.
o importante é que há
O tempo em que somos selvagens no coração mais puro, acho
que a Clarice escreveu sobre isso aos 16 ou
17
anos)

 

a bebê deu um beijo

na boca da cachorra.

a mãe disse:

 

-ela tá com mania

de dar beijo na boca das coisas que ela gosta muito.

 

 

as pessoas ao redor

só conseguiam pensar nos micróbios.

 

 

 

a atriz da festa de ontem é gay

o computador ligado

num quarto de hotel

com alguns contos que ele estava escrevendo e que ficariam prontos em 3 anos,

alguns críticos dirão até que o livro:

-é uma revolução, mas

 

por enquanto

os contos eram palavras

Soltas

ainda que boas

palavras soltas

ao lado dos dois que se beijavam na cama, era amor

?,

claro que

não

com ela pensando que sim

sentindo vontade de esfregar o rosto do escritor em seu ventre

toma,

chupa isso tudo que tenho no centro de mim, vai

lambe,

me come,

ele comia

um homem que

caramba,

era ocupado não tinha tempo,

mas escrevia coisas vivas

e tinha um olho

grande que não fechava nem dormindo no estilo semicerrado,

o quarto nunca escurecia totalmente por conta disso.

ele

tinha um tamanho de corpo ajustável

e um jeito de sentar no banco da praça que não era comum.

entre 50 homens na praça sentados

encapuzados com roupas iguais

ela o reconheceria com facilidade e até

pelo tato.

fazendo sexo com o escritor em quartos de hotéis ela nunca pensava em nada

apenas papilas

dilatadas

e pressa.

era inacreditável

sentir aquelas mãos que direto ela via pela tv dissertando sobre poesia e política

agora espertas

e sem pausa

mergulhadas em seu peito

especialmente em sua bunda

de quatro rebolando e ele dizendo isso

isso, pelo amor de deus,

isso.

 

-você gosta? -ela perguntava se esfregando sem reconhecer tão pouco a sua própria voz.

 

ali,

nascia uma mulher que podia se chamar Paloma,

Cássia,

Débora, mas nunca seu nome regina. aquela mulher era nascida do tesão

pelo escritor

num quarto de hotel, sempre em quartos de hotéis que escritor famoso não tem casa, é como um rock star.

ela pensou que tinha encontrado alguém

que lhe faria companhia em algumas tardes que ele não tivesse muito ocupado escrevendo, também ela começou a escrever uns poeminhas

péssimos mas bonitinhos

já que eram fruto daquele encontro.

por um tempo

também ele achou que tinha encontrado alguém,

vou sossegar, ele pensava

sozinho

olhando ela indo pela janela

do hotel

sem virar pra trás e aquela Bunda.

gostava quando ela lia seus contos, ele se sentia mais nu do que quando estava pelado comendo ela com o pinto solto no saco e o cu aberto

e assim foi

por um bom tempo

até o dia

do computador ligado

cheio de contos do futuro livro do escritor que já era famoso e ficaria ainda mais. naquele dia

nenhum dos dois amantes abaixou as calças.

eles ficaram só nos beijos

e ela não estava menstruada. era algo no Ar

que estava esquisito

com cheiro de que raios eu estou fazendo aqui.

esse ar

denso

pegou os dois de surpresa e pouco a pouco os impedia de avançar nos beijos pra virar um sexo.

percebendo tudo isso em silêncio cada um no seu ritmo

eles seguiram se beijando

na força do hábito de se quererem tanto

pelo menos até ontem era assim.

os beijos

foram ficando

preguiçosos com o pensamento longe

até que finalmente as bocas se desgrudaram, meladas,

com o hálito do outro incomodando

o gosto muito forte da saliva.

ele

tinha um compromisso de escritor

com o carro esperando lá embaixo mas isso não era motivo, quantas tardes maravilhosas de correria e sexo eles já passaram juntos,

tudo entre eles sempre foi

rápido e obscuro com o carro lá embaixo esperando,

o problema dessa tarde era

outro

 

 

(ontem numa festa,

ele tinha conhecido

1 atriz.

conversaram

sem trocar telefone

mas a cara dela ficou grudada

na memória

dele,

especialmente a cara dela rindo)

 

 

isso

de conhecer alguém que mexe com a gente

foi chegando no quarto de hotel pelos poros,

é claro que eles ainda não tinham racionalizado essa sensação,

o corpo percebeu primeiro

por isso o ar denso

cheirando acabou.

 

-o carro tá me esperando. – ele disse fechando o computador

colocando na mala

junto com alguns livros que ele usaria hoje, na palestra.

-claro, – ela respondeu pegando a bolsa

um peso de bolsa.

 

 

no elevador

já e de repente

os dois se transformaram em

estranhos

e tudo ficou muito insuportável

na descida infinita

até o térreo.

 

 

 

 

a estrada também é jeito de enlouquecer

a noite não apagou aquele corpo aberto e não era a primeira vez.

de onde vem?

esses cachorros

que se aventuram em ruas rápidas sem saber o que é rápido, apenas uma vontade de ir e um pouco de intuição que às vezes Falha

e qualquer falha

nas vias expressas de uma castelo branco

é Morte que mata

pela dor

já nos primeiros acordes de violência.

o corpo do animal

Voa

como nunca imaginou que poderia tendo peso e nenhuma asa.

quando alcança o chão de novo

o corpo se abre

de susto

derramando seus órgãos na estrada

exibindo o que há mais trágico na morte bruta, (mas

 

e os açougues?

 

há diferença entre carnes abertas só quando estamos com a fome Maior).

 

se eu batesse o carro

em um cachorro

talvez não percebesse na hora que era um cachorro,

talvez eu pensasse que o pneu furou ou que

eu passei por cima

de algo muito errado na via, ficaria com medo

de ser uma pessoa. uma criança, meu deus. um pai de família.

caso eu parasse

pra ver

que raios aconteceu

com a consciência em

chamas

talvez também eu

morresse

atropelada por outro

carro

numa corrente

infinita

derramando meu dentro que, ao contrário do que dizem as igrejas, não tem nada de alma

só comida não digerida e o meu coração

solto do peito

sendo atropelado milhares de vezes

até se misturar totalmente com o asfalto ao ponto de o milésimo carro que passar não perceber que ali

houve uma morte terrível

pra começar então outra

ainda pior

a do

Esquecimento e tudo em uma questão de segundos.

não é a primeira vez que vejo um cachorro aberto na estrada. capivara também.

pombos. a velocidade pela janela faz sumir tão rápido os corpos

chego a pensar que tudo

não passou de uma

alucinação.

pelo flash do bicho morto

Gelo

quase caio

no barranco

quase desisto

de existir e é genuíno.

então me bate a Dúvida de será que eu vi isso mesmo? será que eu só não estou muito cansada? eu não devia dirigir tão tarde

depois de beber

uma cerveja, mas eu

bebi? 1 cerveja,

olha quanto acidente grave

a gente lê nas noticias, eu penso e não demora

muito

até que eu me envolva com qualquer outro

assunto

mais ou menos importante do que um bicho morto ou dirigir bêbado

por exemplo uma música boa

na rádio

me lembrando daquele amor

antigo

que me fodia tão bem.