é a menina que sente

-vai com ela, sérgio.

 

ele foi

apesar de não poder com montanha russa

ainda que fosse dentro do shopping com descida curta

até para uma criança de

7,

Polvo Blue

era o nome da montanha.

o corpo do meu pai

mal cabia no carrinho

 

-vai Sérgio.

 

minha mãe insistindo

o corpo do meu pai

tinha pelo e

pinto

mas criança pensa que pai é boneco

assinador de

cheque para as coisas que as crianças querem, livros da turma

da mônica,

brinquedos da turma da mônica,

o cheiro de plástico

novo

na vida de um pai

acabado no chão

do shopping

por conta de uma montanha russa pequenininha que a filha encasquetou de ir.

meu pai Foi

(comigo)

e passou mal já na primeira curva, ficou amarelo depois

deitado

no banco de trás do carro, minha mãe dirigindo pela primeira vez em são Paulo direto pra farmácia, a cabeça do pai no meu colo.

passei a mão na testa dele. não teria conseguido seguir minha vida sem aquela montanha russa, só deus sabe como seriam meus dias

se a montanha do shopping e eu

não tivéssemos nos encontrado, provavelmente hoje

eu teria menos

coragem de dizer o que penso pro meu chefe, o sobe e desce com velocidade ensina muito.

 

-brigada, pai.

 

eu disse na época.

em 94

quando o Ayrton Senna já tinha morrido

eu não queria mais comer de jeito nenhum.

barriga vazia com criança crescendo

dá doença,

minha mãe ocupadíssima

com a roupa de passar na lavanderia e eu de luto

com a colher: meu pai me deu na boca.

comi até ficar estufada só porque ele me disse:

 

– dentro de você tem uma Cidade.

a comida que desce pela garganta vai virando prédio, rua,

escola,

crianças na escola,

 

eu comi apressada de montar a cidade

querendo que o mundo ficasse completo dentro de mim.

 

-o Ayrton Senna é uma cenoura?

é, ele é

uma cenoura.

 

corria pro quarto

colocava espelho na boca pra tentar ver Ayrton na cidade da barriga.

não via, era

apertada demais e vermelha a minha garganta. tentei isso por anos

até chegar o dia

em que fui dar Depoimento

sobre a maconha que eu não fumei

mas parecia

pela foto que saiu na revista.

meu pai foi comigo sem ficar

bravo, inclusive rindo um pouco, de lado,

disfarçando. só percebi o riso depois, pela memória que eu guardei do meu pai na delegacia comigo e o riso lá, minúsculo,

foi lembrando que eu percebi. na hora não

que eu estava com medo da Polícia e no peito a blusa

dos beatles.

quando fiz minha primeira peça

olhei pra plateia procurando

e tudo ali era

fumaça

fiquei triste fazendo a minha personagem alegre

dona de um bordel que amava a vida

de rua.

 

-sem energia você estava hoje, hein. -me disse o diretor quando meu pai apareceu no camarim.

 

-achei que você não vinha! – eu disse lhe dando

um abraço de órfã.

 

-você acha que eu ia faltar?

 

 

então por que

esse vazio no rosto quando a gente fica de frente na mesa do café?

 

 

 

você não gosta da minha adulta

 

 

 

mal disfarça

é impossível disfarçar essas coisas que são verdades absolutas na cidade da barriga que você mesmo que criou pra mim. o Ayrton Senna ainda mora lá,

você amarelo da montanha mora lá,

a mãe ocupada

mora lá com a turma

da mônica. você não gosta da minha adulta

porque ela sente o quanto o seu adulto é triste.

 

 

 

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