algo em mim é sempre espera

nosso vazio de palavras

vem do muito tempo que nos conhecemos

temos poucas coisas pra dizer agora

enquanto que

na memória temos uma cidade

feita de tudo o que a gente já disse.

existe deus? é o prédio.

o amor é mais importante? um rio

que corta

a cidade.

a morte acaba? uma casinha

no meio dos prédios.

vamos ter um filho? é o vento.

já conversamos tanto em cafés, quartos, ruas,

no seu quarto, principalmente, onde agora mora nossas bocas fechadas.

entende que não há? tanta variedade de sílabas para os incontáveis anos juntos.

o tempo engoliu a gente

moramos na barriga do tempo

somos um conforto de silêncios quando estamos na cama dormindo nossas tardes sem sexo, apenas lado a lado Existindo

e nenhum medo de perder. é como os cachorros fazem,

eu até já vi

1 cachorro triste, mas com certeza vejotumblr_ndkgtnpyW51tuo7d7o1_500

muito mais Pessoas.

penso nos casamentos que conheço

da convivência brota aquela frase

dita

com maior ou menor ênfase dependendo do humor:

 

-eu não aguento mais você.

 

nasce uma pedra molhada de suor

e saudade

no rosto dos amantes

a gente escuta muito disso no cinema e meu peito estufa

a lista dos casamentos infelizes é sempre maior.

 

 

(te olho no seu sono, seu rosto é quase o meu.

sua respiração

tem cheiro de corpo, seu estômago nem sempre está bom)

 

 

 

quando tudo finalmente acabar

com você se apaixonando por aquela garota tão melhor que eu na cama,

ou quando sua pele se desencantar pela minha, pode acontecer,

vai ficando difícil os dias juntos tão iguais,

sei que por enquanto é leve

mas parece que a vida a dois em algum lugar de nós deveria ser melhor,

eu pensava vai ser demais

e tem sido calmo

não ruim

tranquilo, sem muitas dificuldades,

a gente ri de enfraquecer as pernas como velhos

amigos.

com você eu posso

ser eu mesma e isso não é pouco, você pode ser assim grosseiro e jogar futebol ao invés de transar comigo não há

ofensas

e você pode ser assim plácido

não muito impetuoso

te peço:

 

-me agarra?

 

é sempre um banho antes

e então você vem como se dançasse valsa

 

 

(há muita paixão

também nesses gestos calmos)

 

não sinto vontade de fugir.

cada vez menos

vontade de fugir

ou ficar em qualquer lugar que você não esteja

além de sozinha que sozinha não me privo, sozinha sou completa

lendo um livro quando o livro é bom de um jeito que apaga o resto,

então penso que estar com você

lendo um livro

seja a melhor coisa que, por Hora,

hei de ter.

 

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um outro jeito de ter as coisas

da janela a menina viu

no meio das árvores, enroscado nos galhos,

 

 

1 Ursinho

 

 

era oitavo

o andar.

ela subiu

na pia da cozinha pra ver melhor

o Urso naquele terreno

que ainda não tinha sido vendido pra nenhuma construtora mas seria

em menos de 2

anos

e em 5

um prédio enorme

na frente da cozinha seria a Vista, mas agora

era o bicho, a menina dizia pro pai:

 

-olha!

Pai,

tem um ursinho na árvore. ele tá perdido?

 

e o pai não via nada

de urso, era domingo.

a menina tinha certeza:

 

-é um urso, pai, ele tá perdido!

a gente precisa salvar ele.

 

ela dizia isso desejando a pelúcia, já sonhando com as brincadeiras que eles viveriam juntos.

 

-mas como

eu vou pegar o urso em cima da árvore, filha? sendo que ele nem está lá.

– vamos descer que eu te mostro!

a gente dá um jeito, pai,

por favor.

 

e de tanto Insistir eles desceram

agasalhados até o terreno depois

até a árvore que tinha o urso mas

ali debaixo

era impossível ver, nem a menina mais

estava vendo,

do oitavo andar era bem mais fácil, como será aquele bicho foi parar ali?

 

uma criança deve ter jogado pela janela, a menina pensou.

 

eles subiram de volta pra casa com o pai dizendo:

 

-tá vendo? não tinha nada.

 

e a menina aborrecida sabendo que tinha Sim mas não sabendo como tirar o bicho de lá. de volta pra janela da cozinha

ela via

claramente o Ursinho

tão claro que ela conseguia nadar nos olhos de vidro

todo preto dele

e a vontade de tê-lo crescendo inacessível no peito,

o pai assistindo futebol com uma leveza na perna de missão cumprida.

então a menina decidiu

Brincar

com o Urso

da janela mesmo, por imaginação.

devagar ela foi sentindo

o pelo

o cheiro

o peso

e quando ela se concentrava muito

era quase como se o Urso estivesse ali.

era o pássaro que tinha voltado pra casa

ele era feito quase inteiro de amarelo

a não ser pelo fundo das penas que eram

brancas por conta da Idade, ele tinha 3 anos e canários morrem com 4,

5 no máximo, então

ele era um pássaro velho.

morava numa jaula

pequena

que ele mesmo era pequeno

cabia na mão de uma menina

dando pra fechar a mão e ele

sumir.

sua jaula

era de bronze

com alpiste à vontade parecendo piscina,

água,

jiló cortado com semente a vista,

tudo pendurado por um clips aberto

com o ferro virado pro outro lado pra não machucar o canário,

além de folhas antigas de jornal no chão da jaula.

naquela dia a manchete era

 

Hebe Camargo morreu

 

e fotos lindas

dela se divertindo com o Silvio Santos.

a notícia inteira era difícil

de ler

por conta dos cocôs constantes do canário que grudavam nas letras confundindo o leitor.

o banho do pássaro

era a cada quinze dias (deu 15 justo hoje)

mas a escovinha de dente era diária, pra tirar os resíduos da jaula que no mercado chamavam de:

 

-Gaiola.

 

cobravam 200 reais por ela,

20 pelo pássaro.

limpando a gaiola estava Gení a empregada

vestindo uniforme e Touca, logo dava a hora de preparar o almoço e não podia cair cabelo na comida, já tinha caído uma vez e a família ficou

Aborrecida,

o menino mais velho avisou:

 

-vou vomitar,

 

quando viu

o cabelo longo da gení que era crente, fizeram-na prometer que nunca mais. desde então ela passou a usar toca

logo de manhã cedo

pra não esquecer mais de pôr.

cuidando do pássaro ela foi pegar a banheirinha com água morna

se fosse quente matava o bicho

coisas pequenas morrem besta que só vendo.

quando ela levantou a jaula

que ficava pendurada na parede da lavanderia

a parte debaixo da gaiola soltou, a gení tinha esquecido

de travar.

caiu no chão

a água da banheirinha

a de beber também,

o alpiste se espalhou pelo quintal como praga

mas o pior mesmo foi o pássaro que também caiu, quer dizer,

voou, essas coisas com asa não caem nunca.

a Gení

se desesperou pensando agora sim

eu vou perder meu emprego,

tentou achar uma peneira na cozinha muito rápido

a família dormia

só o pequeno que acordou com o barulho e começou a descer as escadas, curioso.

a Gení correu pro quintal com a peneira

pra tentar voltar pra jaula o pássaro

mas

o canário já tinha sumido

já tinha

voado,

todo mundo pensava que o Cisne, chamava Cisne o bichinho,

não sabia voar só porque nunca tinha.

quando a família finalmente acordou

a Gení no quintal

varria o alpiste desolada,

sabendo que suas contas estariam na mesa assim que descobrissem a tragédia, o filho menor

ajudando com a pá.

se pelo fio de cabelo já foi aquele escândalo, imagine pelo pássaro fugido que agora eles tinham razão. o Cisne dava alegria pra casa com aquela garganta enchendo os cômodos,

ele

era uma benção de deus.

a gení

nem precisou contar da notícia, dona Mara percebeu logo

na porta da cozinha

amarrando seu hobby

de seda

e sentiu

uma Tristeza pensando meu passarinho. o que será da minha vida sem o meu passarinho?

o pai

se vestiu e foi

trabalhar cabisbaixo.

os filhos

foram pra escola, cabisbaixos.

dona Mara

chorava por dentro

não conseguiu comer

muito menos despedir

a gení,

tamanha tristeza que sentia.

no fim da tarde

com o filho mais novo assistindo chaves e aquele sol

1 coisa

na cortina

enroscou e tinha asa.

o pequeno saiu correndo

achando que era Borboleta (ele tinha

medo

de borboleta)

 

– mãe! Mãe!

 

ele gritava,

a mãe correu pra sala

a gení com vassoura também.

vendo aquela sombra com asa

todo mundo pensou que era mesmo borboleta e o moleque gritava, desconcentrando o ambiente.

a mãe disse:

 

-mata.

 

e a Gení doida

pra recuperar a confiança da Patroa

lascou o cabo da vassoura naquilo que voava e

parou.

quando a coisa caiu,

pelo peso do

Barulho,

não parecia uma borboleta não.

 

 

lembrei de tudo isso lendo 1 livro ótimo

a estrada da volta toda vez era amarga com ela chorando um choro de verdade, lamentando a lonjura de se morar tão em outro

lugar da família, tantas horas no carro pra chegar.

olhando do banco detrás e pensando bem

a estrada da volta era bonita com muito Pinheiro quase igual e vazia na medida certa de não deixar criança com medo,

alguns carros, 3 ou 4 caminhões

e a solidão ficava do tamanho que me cabia, eu pensava:

 

tem gente sim no mundo,

mas poucas,

então muita coisa pode ser

minha.

 

no ouvido do carro e acima da música que tocava no rádio

o Choro da minha mãe

que não era do tipo que se mostra pra ninguém.

era Dela mais que o próprio rosto, mais que aquele tênis que ela tinha há 10 anos, as lágrimas eram Dela tanto

que ela preferia estar sozinha dirigindo, preferia estar no banheiro,

preferia que passasse o soluço

no peito,

o amarro no pescoço,

mas isso só passava quando ela chorava daquele jeito compulsivo de ficar vermelha, aquilo

era saudade do que nunca

ninguém

chegou a viver, saudade da possibilidade de sermos muito grandes

e quem sabe até um pouco

felizes.

saudade de ter uma família que ela nunca teve mas via nos filmes

bons

dos anos 90, o cara era mafioso mas a mãe ia na cadeia levar lasanha

e como? a lasanha ficava quente, a gente via a fumaça pela tela

da tv.

a mulher do mafioso levava o filho na cadeia

e o filho

levava o aviãozinho que ele estava brincando no jardim ontem

esperando o pai.

esperar o pai

é coisa que toda criança faz tendo pai ou não até depois de ser criança.

praquele choro da minha mãe no carro

não adiantava pedir calma,

era um choro que precisava ser chorado

precisava ganhar espaço de lágrima no rosto descendo pela blusa molhando um pouco do sutiã depois o bico,

ela precisava daquilo pra se acalmar, não podia simplesmente ouvir a palavra

calma

e se sentir em paz, o caminho de volta pra casa era grande.

mas já houve maiores.

quem construiu tanta estrada

está morto.

perdeu a vida pintando de amarelo a rua

pra dividir os caminhos

e evitar acidentes.

quem vai

não volta

pelo menos não naquele momento ou batidas e mortes acontecerão.

eu ia aprendendo,

ribeirão pra mim tinha cheiro de terra batida misturado com o cheiro de algodão da minha vó que não era perfume,

um cheiro de vestido na loja que nunca foi lavado.

o cheiro de ribeirão pra minha mãe

era Salgado, bastava ela dar tchau

pra vó

com a janela do carro aberta

até o limite

do fim

da rua

e a mão da minha mãe incansável balançando adeus,

até ali

o rosto dela era seco.

quando meu pai ao volante

virava a esquina e minha vó sumia

então começava

o Choro

compulsivo triste lindo quente.

 

-calma mãe. – eu dizia na minha

tentativa inevitável,

 

aquilo era medo

de nunca mais Ver a vó,

porque o tempo é assim

demora e tira

vidas.

era longe Ver,

o dinheiro
curto,

demorávamos pra voltar

com risco da volta ser forçada por conta da morte, 70 anos não é

mais nenhuma

menina.

os primeiros 10 minutos de estrada eram puro som

do choro que não se tampa.

depois

um choro baixo

que ia ficando

pra dentro

até chegarmos em são paulo geralmente chovendo. morar perto da vó era um sonho da mãe, sendo que tem tanto filho que morar longe é o sonho.

a família sufoca alguns, minha mãe queria ser sufocada pelos seios fartos da vó

sutiã 46

peitos de muito leite para os 5 filhos que teve

minha mãe queria morar naquele seio, a vontade eterna

do regresso ao úterotumblr_nm0rbqbDfr1sofs6go2_250

que eu nunca tinha

sou das que sonham

e lutam

pela distância.

 

 

(é claro que

em algumas noites

me dá um

medo.

então a vontade de morar no peito

da mãe

me nasce na ponta dos dedos

e vai se

espalhando, mas não conto disso pra ninguém que eu nunca conto nada

pra ninguém)

siameses

o beijo que eu dou na sua testa quando estou saindo

lembra muito o beijo que ele te dá

quando está saindo. te beijo

e não gosto

porque lembro do beijo dele que é

vazio,

um beijo tal e qual se daria na parede numa noite de demência,

um beijo categórico

apenas pra manter

o clima calmo, apenas para seguirmos

assim tranquilos, pelo menos aparentemente

tranquilos.

nunca gostei do quanto de engano e solidão há

nesse beijo que ele te dá quando saí e a falsa ternura

e o quanto você não percebe

Nada, não enxerga

o desprezo,

a ausência, e agora me vejo

te dando o mesmo

beijo

sem conseguir evitar.

festa em homenagem termina em tiroteio

 

– o que Aconteceu com o seu pescoço? – ela disse alto,

 

 

todo mundo olhou

pro pescoço dele,

 

 

procurando.

 

 

de braços e pernas

cruzadas,

ele se manteve em silêncio

pensando que o silêncio

faria A pergunta desaparecer,

era tática

esse Calar esperando virar pó, as coisas.

se não virassem

virava ele que morto não precisa falar mais nada nem entre os mortos, já viu?

cemitério barulhento

quando não tem coveiro ou família visitando.

 

-hein, pai?

o que aconteceu com o seu pescoço?

 

a mesa

e as pessoas

na mesa

ficaram Suspensas, o olhar delas cada vez mais com jeito de boca

devorando o pescoço

e o que havia de errado com ele.

 

-por que? – o pai perguntou finalmente,

quase já sabendo

sobre o que se tratava,

ele tinha momentos Firmes o suficiente no espelho pra perceber o que estava aconteceu com o seu eu do lado de fora

em resposta ao caos do lado dentro e também as condições climáticas.

 

-tá todo

Enrugado, – a filha disse

puxando a pele do próprio pescoço ainda bem jovem, como se concertasse nela

o que no outro incomodava tanto.

a mesa

seguia Analisando

sem qualquer

piedade

parte por parte

do pescoço do pai que pagava desde sempre todas as contas.

é claro que a família já tinham reparado

naquela pele

esquisita, mas não com um alarde desses.

eram pequenas observações

tão mínimas que não passavam pelo racional

eram mais como intuições visuais,

flashes, ninguém tocava no assunto do pescoço triste

que ter ruga

é triste

(um pouco menos do que não ter).

acontece que a filha

era muito

sem medo

de machucar as pessoas porque oficialmente

ela nunca tinha machucado 1 pessoa.

(a ana não contou daquele dia da foto, o luís nunca mais disse nada depois do xingo, ou seja,

as pessoas não contavam pra ela

que estavam machucadas, é difícil

contar).

então a filha puxou o assunto

na mesa de restaurante

com a luz do dia tão crua quanto a sua indagação deslocada.

a mãe, em pânico,

perguntou:

 

e o meu? tá assim também?

 

(a idade dos pais

era a mesma)

 

-o seu não.

-ah que bom, graças a deus.

 

(a mãe voltou a comer)

 

-hein pai? – insistiu a filha,

obstinada pela resposta

louca pra ouvir

a resposta

-o que o houve com o seu pescoço?

 

o pai

que constantemente ignorava (com sutileza, ele era bom

nesse jogo)

aquela família que era a dele mas nem parecia de tão estrangeiro que ele se sentia ali,

melhor trabalhar o dia inteiro

do que

enfrentar isso

essas

mulheres,

então ele respondeu

ou aquela pergunta ficaria ecoando pela mesa a tarde toda ganhando Tamanho,

cavando um buraco cada vez maior

na dor que é escutar uma pergunta difícil e ter que responder,

ainda que todos saibam da resposta no fundo de si

ninguém quer

olhar pro fundo de si.

é claro que o pai

podia mentir dizendo é o frio. outumblr_nl6mx69xH31rmnhhko1_400.gif

é a luz

desse lugar muito claro.

ou

é alergia a peixe. ou

não é nada, chega

de bobagens,

talvez fosse isso

que a filha gostaria de ouvir, a mulher também, a mesa também, o restaurante inteiro gostaria de ouvir uma resposta suave e por que não? engraçada,

mas ele decidiu

ser tão cruel quanto tudo e disse:

 

-eu tô ficando Velho, filha.

o que você esperava?

 

-ah não. – a menina disse quase chorando, 1 medo da morte terrível.

 

-ah Não,

pai.

 

 

e a boca do pai fez uma curva parecida com riso.

se as igrejas

e os padres os professores e os

canais de televisão fossem sinceros assim

o planeta terra teria que mudar de nome para algo como Eu não aguento

mais.

tem o Eu em situação e tem o outro eu que vê o Eu em situação (não gosto de nenhum deles)

sua cabeça

e a minha

se inclinaram por entre as roupas quando você disse:

-fique à vontade.

te Reconheci devagar.

era o mesmo bigode

na mesma voz de quando sua barraca ficava na frente da banca monte alegre.
meu deus como o tempo passa
mas fica

preso

em fósforos que são

memórias,

ainda que eu nunca mais tivesse pensado na sua camisa

aberta, no seu tino

pra negócios, veio tudo

logo que te

reconheci.

lembrei até dos seus vestidos que ainda tenho no armário,

outros tantos

doados

vivendo em corpos que não conheço

passeando por ruas que talvez nem sejam são paulo, vai saber.
uma roupa dada

é dada milhares de vezes na sua vida longa de tecido imortal caso ele não encontre objetos pontiagudos.

lembrei até daquele vestido de olho grego

que usei quando minha mãe fez cirurgia.

o cheiro de hospital

ficou grudado nos botões, não saía
de jeito nenhum.

acabei matando

o vestido

pra não enlouquecer.

por entre as roupas da sua barraca

eu de pé

com você sentado

nos reconhecemos tão devagar quanto um pássaro comendo.

passada a surpresa de te ver

me escondi

no meio dos vestidos disfarçando, não é que eu não goste

de você, pelo contrário,

foi medo

do seu olhar em mim

depois de tanto
tempo, vou te deixar triste se você me ver.

acreditava na vida naquela época que comprava vestidos seus. eu tinha certezas,

amigos,

agora
tenho sono mas não é fácil dormir

muito menos

acordar.

no rápido que nos vimos

deu pra perceber pelo formato que fez a sua sobrancelha

que você

mal acreditou na mulher que eu me tornei.

se ficássemos frente a frente

eu olharia pro chão querendo que o chão abrisse.

saí da barraca

pelo lado contrário da sua cadeira, desviando.

estava frio fora do sol

e era domingo.

antigamente

o embu das artes pra mim era como viajar,

tão bom quanto uma feira típica de um lugar exótico que te faz passar 10 horas no avião sem reclamar e depois carro.

o embu

tão perto de casa

era mágico

com suas barracas de artesanato, posters de cinema, roupas hippies, pastéis.

agora

sinto um

desencontro

ao olhar tudo isso que não uso mais. agora dá medo

de ser vista por um velho amigo que só mesmo do nome eu não lembro, o sorriso tá grudado na minha testa.

agora dá ânsia

sentir o cheiro de gordura saído dos bares,

antes eu comia pensando foda-se

as minhas amigas rindo

comigo.

agora bate um desprezo

pelas crianças se divertindo me olhando, querendo chamar a minha atenção, eu também fazia isso quando era criança e um adulto me olhava,

eu corria mais rápido querendo me mostrar. sinto pena

das telas à venda na pracinha, enormes,
horríveis e caras,

agora

eu sou esse Eu

Impenetrável

que tem no peito outro eu

triste com o impenetrável, mas

olhando tudo

de cima

e porque é de Cima

ele não pode fazer muita coisa
além de chorar.

et

trombei com Nara tentando disfarçar a surpresa de vê-la daquele jeito.
ontem mesmo, ou anteontem, ela era
1 criança no parquinho do prédio gritando mãe socorro a ritinha quer me matar
e bola de vôlei pra todo lado,
agora no elevador me dizendo:

-boa noite.

ela era uma senhora de 20 anos com óculos e camisa num emprego que deve pagar bem tão séria ela estava.
sou mais velha que Nara
em pelo menos 10 anos e visto
uma blusa escrita west coast.
passo meus dias em casa trabalhando de roupão ouvindo patti Smith o café
na cozinha, meu cachorro
na sala, meia com chinelo havaiana, é tão
Bom que não parece
trabalho.
na hora que acordo as pessoas
estão pegando ônibus e
esperando nos carros com a rua abarrotada de caminhão e moto, saindo de bancos,
feiras comerciais.
às vezes penso eu deveria estar como as pessoas,
na guerra da
grana,
as pessoas acordam e fazem contas, pagam contas, atendem o telefone e eu
Adolescente de celular carregando bem
longe
fazendo o que
amo
lotada de
Culpa
timidamente feliz, mas fd0248d380cfffbaa44323ac6a031f02
passa rápido.

é a menina que sente

-vai com ela, sérgio.

 

ele foi

apesar de não poder com montanha russa

ainda que fosse dentro do shopping com descida curta

até para uma criança de

7,

Polvo Blue

era o nome da montanha.

o corpo do meu pai

mal cabia no carrinho

 

-vai Sérgio.

 

minha mãe insistindo

o corpo do meu pai

tinha pelo e

pinto

mas criança pensa que pai é boneco

assinador de

cheque para as coisas que as crianças querem, livros da turma

da mônica,

brinquedos da turma da mônica,

o cheiro de plástico

novo

na vida de um pai

acabado no chão

do shopping

por conta de uma montanha russa pequenininha que a filha encasquetou de ir.

meu pai Foi

(comigo)

e passou mal já na primeira curva, ficou amarelo depois

deitado

no banco de trás do carro, minha mãe dirigindo pela primeira vez em são Paulo direto pra farmácia, a cabeça do pai no meu colo.

passei a mão na testa dele. não teria conseguido seguir minha vida sem aquela montanha russa, só deus sabe como seriam meus dias

se a montanha do shopping e eu

não tivéssemos nos encontrado, provavelmente hoje

eu teria menos

coragem de dizer o que penso pro meu chefe, o sobe e desce com velocidade ensina muito.

 

-brigada, pai.

 

eu disse na época.

em 94

quando o Ayrton Senna já tinha morrido

eu não queria mais comer de jeito nenhum.

barriga vazia com criança crescendo

dá doença,

minha mãe ocupadíssima

com a roupa de passar na lavanderia e eu de luto

com a colher: meu pai me deu na boca.

comi até ficar estufada só porque ele me disse:

 

– dentro de você tem uma Cidade.

a comida que desce pela garganta vai virando prédio, rua,

escola,

crianças na escola,

 

eu comi apressada de montar a cidade

querendo que o mundo ficasse completo dentro de mim.

 

-o Ayrton Senna é uma cenoura?

é, ele é

uma cenoura.

 

corria pro quarto

colocava espelho na boca pra tentar ver Ayrton na cidade da barriga.

não via, era

apertada demais e vermelha a minha garganta. tentei isso por anos

até chegar o dia

em que fui dar Depoimento

sobre a maconha que eu não fumei

mas parecia

pela foto que saiu na revista.

meu pai foi comigo sem ficar

bravo, inclusive rindo um pouco, de lado,

disfarçando. só percebi o riso depois, pela memória que eu guardei do meu pai na delegacia comigo e o riso lá, minúsculo,

foi lembrando que eu percebi. na hora não

que eu estava com medo da Polícia e no peito a blusa

dos beatles.

quando fiz minha primeira peça

olhei pra plateia procurando

e tudo ali era

fumaça

fiquei triste fazendo a minha personagem alegre

dona de um bordel que amava a vida

de rua.

 

-sem energia você estava hoje, hein. -me disse o diretor quando meu pai apareceu no camarim.

 

-achei que você não vinha! – eu disse lhe dando

um abraço de órfã.

 

-você acha que eu ia faltar?

 

 

então por que

esse vazio no rosto quando a gente fica de frente na mesa do café?

 

 

 

você não gosta da minha adulta

 

 

 

mal disfarça

é impossível disfarçar essas coisas que são verdades absolutas na cidade da barriga que você mesmo que criou pra mim. o Ayrton Senna ainda mora lá,

você amarelo da montanha mora lá,

a mãe ocupada

mora lá com a turma

da mônica. você não gosta da minha adulta

porque ela sente o quanto o seu adulto é triste.