o marido chegou do trabalho 7 horas depois

um sobrado,

ela no quarto pegando roupa suja pra botar na máquina, segunda feira as crianças na escola,

o fim de semana eles passaram no parque,

a bunda do shorts

ficou marrom.

vou ter que colocar no botão pesado-sujo pra ver se Desencarde, ela pensou.

a música

no fone de ouvido, uma balada cubana

que ela nunca viajou, então

imaginava cuba

com suas Estradas,

no máximo marginal tietê ela pegava e já achava 1 viagem

por causa do rio.

 

imagina se fosse limpo, – ela dizia

pro marido.

-se fosse limpo já estava sujo. – ele retrucava rindo

 

ela não.

 

de fone no ouvido buena vista

social

club ela desceu o primeiro degrau da escada

rumo a Lavanderia

e foi o único degrau

que ela desceu.

o resto

ela Rolou,

tropeçou numa calça jeans que tinha caído do cesto tão

Cheio

pensando que era o Cachorro, isso Assustou seu pé

que pisou em

falso,

o cachorro dormindo

em cima do sofá.

ela Rolou

Escada

abaixo,

os olhos fechados

o corpo apanhando

dos degraus

de Cimento.

as roupas sujas voaram

dos seus braços que se abriram na queda pra tentar se salvar, Reflexo chamam na tv,

e também o cesto voou,

também 1 Dedo

dela

que se Partiu com osso e tudo,

descolou da mão direita

pra repousar sem vida

ao lado das roupas

sujas

agora também de sangue.

 

violenta queda.

 

violento berro, deus o livre,

era a Dor

ainda sem olho

sem saber que tinha perdido 1 dedo, ia piorar

quando o olho visse.

por enquanto ela sentia um oco de Fogo na mão,

um machado no tronco,

uma explosão na pele pra sair toda a dor que cada vez mais consumia seu corpo já no chão, o sangue pela escada inteira.

o fone

foi o único Intacto, ainda no ouvido

só que mais enfiado, o ipod

foi parar na calcinha.

o cachorro correu pra ver o que estava Acontecendo e o berro dela agora mudo,

o rosto

era todo Espanto

a boca

pairou aberta.

lágrimas escorriam por vontade própria

mesmo depois que ela

desmaiou,

o cheiro do dedo morto

provocando o cão que estava com fome.

 

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(finalmente)

tenho pensando muito no meu vestido preto,
no cabide ele
Espera
com cara de bailarina
na coxia.
não posso nunca esquecer do seu
formato, a etiqueta pendurada,
a seda parece que chora pedindo
me veste: ainda não, amor.
nossa hora
ainda não é.
no dia que as coisas derem certo

sim

você e eu
estaremos juntos
não usarei sutiã ou
calcinha,
não quero que nada fique entre nós além do gosto de

finalmente

que por enquanto não
sabemos nem
da cor. imaginamos,
você do armário
eu
dos livros
de mário
de andrade
no dia do lançamento
paulicea desvairada, os amigos
todos lá.

assim que o velho
Sonho
virar aconteceu
você será meu único companheiro de corpo na possível
sexta
ou quarta
ou terça
de algum mês como novembro, janeiro,
março,
em algum ano que eu ainda esteja viva
e caiba
no meu vestido preto,

nós dois caminhando juntos

pelos corredores do grande dia,

domingo

fazia tempo que a gente não se via,

 

 

pra falar sobre isso decidimos

caminhar, ela

fechou o portão

olhando pros lados

do bairro

perigoso, a família toda fora

viajando

era natal e sobramos nós, as primas,

com compromisso de trabalhar amanhã então não deu

pra viajar também.

 

você quer tomar um suco?

pode ser. – eu disse, mas no fim

 

nem isso,

acabamos desembocando na rua da igreja.

quando meninas, éramos obrigadas a assistir missa até uns 15 anos,

se Não

era tapa na boca de mão aberta, nossas mães

extremamente religiosas, coisa mesmo

de criação.

 

-nunca gostei de ir na missa.

 

eu disse baixo como se mamãe pudesse

me escutar da

curva.

pra quem não gosta de deus a vida não dá

certo,

ela costumava me dizer

quando via minha cara Triste no banco da igreja.

ao sair da boca dela aquela frase eu tinha certeza,

minha vida

seria

O Desastre começando já por aquela missa, o padre

chiquérrimo e muito velho de ruga

escorrendo.

acontece que não era deus que eu não gostava, na verdade deus

é tudo bem,

talvez ele nem exista só se for pelo tanto que a gente o inventa,

 

é a igreja o lugar

 

mais esquisito

 

(do mundo)

 

-começando pelo cheiro. –eu disse pra minha prima que riu

e porque riu

confessou que era assim pra ela também.

minha prima é muito bonita.

quando criança ela fez carinho no meu bumbum, quando fomos ao banheiro juntas

pra descobrir as partes Mais que Sensíveis do corpo

e o bumbum um pouco antes

do corte

da bunda, naquele canto que já não é mais costas e quase já é o cu,

mora muito sentimento,

que se revelou ao toque de nossos dedos

curtos dos 6 anos que tínhamos.

nunca conversamos sobre isso. tanto que, às vezes, penso ter inventado aquele Banheiro,

como quando eu estava conversando com um amiga e ela me disse que o marido, depois de muitos anos da morte da mãe,

foi ao cemitério ver a tiração dos restos mortais do túmulo

pra botar naquelas gavetas de menos

Espaço

e o esqueleto da mãe

ainda tinha cabelo.

com amor,

ele passou a mão no cabelo morto da mãe.

minha amiga não sabe

se

inventou isso

ou se a coisa do carinho e do cabelo realmente aconteceu

de tanto que ela e o marido nunca mais

conversaram sobre

a Cena.

mesma coisa o cu com a minha prima, um assunto

intocável,

dá medo de estragar com palavras

a memória já tão

esfarrapada do nosso

primeiro gozo.

então falamos da igreja, na caminhada, falamos de como nossas mães

eram bravas

achando que um tapa na boca

resolvia melhor do qualquer outra atitude

e resolveu,

já que estamos assim

crescidas e com

saúde,

?,

andando na rua

em busca de uma suqueria, todas fechadas

com portões

calados

como nós

que não ousamos

dizer

sobre as coisas que mais nos martelam,

as coisas que dormem entre o nariz e o

dente, na impossibilidade

absoluta

de 1 dia virarem

sons.

o cavalo ainda está vivo

a escravidão no olho do cavalo deixou o rosto dele ainda mais com formato de serrote.

a Angústia

se agarrou no corpo grande feito praga

e no olho inteiro preto do cavalo

magro, Ela

não vai desistir

nem quando ele morrer no chão de pata

imensa

pelo Sim de alguém que julgou o cavalo Sofrendo e por isso o melhor pra ele foi

o sacrifício.

ninguém perguntou pro cavalo:

-que tal a morte?

porque cavalo não fala.

mas ao olharem o corpo morto

abismados notarão a Angústia ainda no pelo,

um resto

da vida

que ele não

teve. alguns sentirão Pena,

outros dirão

vamos comer uma pizza. pra 1 ou outra reação será um tanto

Tarde

mas

por Enquanto

o cavalo ainda está vivo.

por ordem do condutor parou o

Trabalho

pra comer 5 minutos nem isso

num saco

improvisado de mercado, cheio de

ração, não tudo pra agora.

Agora

já é hora de voltar ao trabalho,

o sonho do cavalo é estar no mato com os outros

1 deles a mãe, mas os cavalos

não sabem disso, pra eles basta o fato de estarem

juntos, o céu com sol ou chuva,

a liberdade de ser animal

tomou um

Tiro,

o dedo no gatilho sempre foi o nosso.

depois você come mais ração,

e 5 homens feitos

subiram na

charrete

sendo que carro e perna existem, mais o Peso

da charrete. mais o peso

do condutor

com corda

que vira chicote e amarra a boca

do cavalo,

perto do olho um tampão pra cidade não distrair

o escravo

além do peso dele mesmo sempre só,

2 cavalos numa charrete é dinheiro danado jogado no lixo.

além do mais

Cavalo é bicho forte, por exemplo uma mulher coxuda

e com queixo

é chamada de:

-Cavalona.

por um grupo

que bebe cerveja

e bebe

a bunda da mulher de costas, 5 homens

feitos,

no mínimo 80 quilos

cada um.

o condutor diz:

-aqui é a igreja central,

aqui

o museu,

aqui acontecem os shows mais importantes

e o cavalo puxando

as rodas, indo pro lado tomar fôlego,

ele sente

Fome no olho,

ferro na pata,

as moscas não o deixam em paz e na bunda

um saco

pra ele cagar dentro sem sujar a cidade que faz fila

pra andar de cavalo,

as pessoas preferem

com este calor.

colocam seus filhos na charrete, dão dinheiro na mão do condutor que pensa:

-(m)Eu trabalho.

as crianças

vão tranquilas, os pais

tranquilos, ninguém gritou
Chega

nem mesmo eu que vi a Dor de ser cavalo

no olho do cavalo e fiz

silêncio.