domingo

fazia tempo que a gente não se via,

 

 

pra falar sobre isso decidimos

caminhar, ela

fechou o portão

olhando pros lados

do bairro

perigoso, a família toda fora

viajando

era natal e sobramos nós, as primas,

com compromisso de trabalhar amanhã então não deu

pra viajar também.

 

você quer tomar um suco?

pode ser. – eu disse, mas no fim

 

nem isso,

acabamos desembocando na rua da igreja.

quando meninas, éramos obrigadas a assistir missa até uns 15 anos,

se Não

era tapa na boca de mão aberta, nossas mães

extremamente religiosas, coisa mesmo

de criação.

 

-nunca gostei de ir na missa.

 

eu disse baixo como se mamãe pudesse

me escutar da

curva.

pra quem não gosta de deus a vida não dá

certo,

ela costumava me dizer

quando via minha cara Triste no banco da igreja.

ao sair da boca dela aquela frase eu tinha certeza,

minha vida

seria

O Desastre começando já por aquela missa, o padre

chiquérrimo e muito velho de ruga

escorrendo.

acontece que não era deus que eu não gostava, na verdade deus

é tudo bem,

talvez ele nem exista só se for pelo tanto que a gente o inventa,

 

é a igreja o lugar

 

mais esquisito

 

(do mundo)

 

-começando pelo cheiro. –eu disse pra minha prima que riu

e porque riu

confessou que era assim pra ela também.

minha prima é muito bonita.

quando criança ela fez carinho no meu bumbum, quando fomos ao banheiro juntas

pra descobrir as partes Mais que Sensíveis do corpo

e o bumbum um pouco antes

do corte

da bunda, naquele canto que já não é mais costas e quase já é o cu,

mora muito sentimento,

que se revelou ao toque de nossos dedos

curtos dos 6 anos que tínhamos.

nunca conversamos sobre isso. tanto que, às vezes, penso ter inventado aquele Banheiro,

como quando eu estava conversando com um amiga e ela me disse que o marido, depois de muitos anos da morte da mãe,

foi ao cemitério ver a tiração dos restos mortais do túmulo

pra botar naquelas gavetas de menos

Espaço

e o esqueleto da mãe

ainda tinha cabelo.

com amor,

ele passou a mão no cabelo morto da mãe.

minha amiga não sabe

se

inventou isso

ou se a coisa do carinho e do cabelo realmente aconteceu

de tanto que ela e o marido nunca mais

conversaram sobre

a Cena.

mesma coisa o cu com a minha prima, um assunto

intocável,

dá medo de estragar com palavras

a memória já tão

esfarrapada do nosso

primeiro gozo.

então falamos da igreja, na caminhada, falamos de como nossas mães

eram bravas

achando que um tapa na boca

resolvia melhor do qualquer outra atitude

e resolveu,

já que estamos assim

crescidas e com

saúde,

?,

andando na rua

em busca de uma suqueria, todas fechadas

com portões

calados

como nós

que não ousamos

dizer

sobre as coisas que mais nos martelam,

as coisas que dormem entre o nariz e o

dente, na impossibilidade

absoluta

de 1 dia virarem

sons.

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