caloi

abri o porta malas
pensando que encontraria minha mala
Encontrei
estava embaixo da
bicicletinha?
vermelha, unisex, de criança, mas
como?se do aeroporto eu vim direto pra casa,
olhei
ao redor
procurando: o dono, a polícia, o silvio Santos: nada, e nenhuma
criança na rua.
tirei exagerada a bicicleta do porta malas como quem
pede
uma explicação.
a Vontade, depois eu percebi, nasceu do meu tornozelo, a vontade de andar
se infiltrou pelo tênis
até a Unha
até o dente que se abriu sorrindo pro tanto de tempo que fazia desde a última vez que andei. Lá
o amor não era essa coisa de cemitério em mim, naquele tempo era o vento que me dava medo, agora
nem frio.
como se sentasse numa Flor
subi
na bicicleta.
pedalei de joelho sobrando
no triste de ter crescido meus
1 e 60 e 5
enormes
pr`aquela noite de rua Só.

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17:02

descendo as escadas correndo pra entregar o Envelope que salvará

minha vida especialmente financeira, especialmente

o aluguel,

não tenho mais cara

pra atender a porta ou

o telefone

estou passando tempo demais no sofá esperando

algo importante acontecer comigo.

da janela vejo

coisas importantes acontecendo com a velha do nono andar tão perto da morte, mais perto

que eu?

ela tromba

com pessoas

da igreja, Sei por conta da camiseta

de cristo, se abraçam todas, o sol no rosto velho delas

no meu não, tenho cortina.

coisas importantes acontecendo

com o cachorro da velha também

o cocô por exemplo, pra mim

nem isso

uma prisão

de ventre

sento no vaso por horas desempregada com revista do ano passado na mão lendo a mesma matéria da moça bonita na novela das 7 e Nada

sai do meu cu, nem o

ar

condicionado quebrou, aquele que comprei com a grana do meu pai

morto, quase que respirando ainda, morrer nunca foi

rápido, fica aquela sensação de que

o morto

está de olho

na não existência dele em nós,

o morto quer Ver

se a gente

aguenta.

o dinheiro sim

é rápido, da herança

gastei tudo com coisas que

não lembro,

o ar condicionado agora com balde

embaixo

a água eu uso

pra dar descarga, agora esse Caos

que vai acabar

comigo descendo as escadas pra entregar o Envelope

salvador de

Vida, já estou na rua certa alberta 215, dentro do envelope o Documento

dentro do documento

letras escritas por mim que virarão a história que vai me salvar, tenho certeza, pelo menos das

dívidas

das dúvidas nem deus

(a maior de todas)

agora

só faltam 12

degraus, agora

10

8

4

tropeço no cadarço e caio

de frente pra porta de vidro

escrita horário de funcionamento das 8 às

17.

 

laboratório

andei na praia aos 14 sem pensar em telefonar pra ninguém.

era eu

e uma turma de amigos

também os pais da minha amiga, a casa com 4 andares.

no último ficava o quarto mais bonito

claro que era dos pais

com janela de vidro

desnudando Mar

do alto, dando pra ver mais do mar do que debaixo, da areia, tomando sol.

foi Uma semana

de verão

em Ubatuba com estrada de carro e curva,maya_0

longe de casa longe da mãe longe da escola Longe.

numa dessas tardes tão

parecidas,

que dias bons e calmos sempre se parecem fazendo a gente se perder,

eu estava na piscina

sentada no pescoço do renan com um biquíni preto de estampa reggae.

eu ouvia

reggae e dançava forró

jamais usava salto

era chinelo o tempo todo e a pele morena cada dia mais. eu era linda

porque não me importava.

então fazendo guerra

de água com meus amigos

Menstruei aos 14

pela primeira vez.

senti algo no meio das pernas que não era só o pescoço do renan ou o Frescor que isso me dava. era algo interno, espesso mais que

xixi, se locomovendo pra fora do biquíni sem que eu pudesse controlar.

pulei na água

e chamei baixinho

minhas amigas que fizeram

festa, eu era a última

que nunca tinha

virado mulher.

mas que hora pra acontecer, pensei. no apartamento em são Paulo cinza não descia nunca e agora que eu estava na praia querendo mar

acontece,

o mods

vai virar uma fralda e pra piorar

meu biquíni era Mínimo.

minha amiga falou:

 

-vem aqui.

 

fui

até o quarto dos pais dela

que não estavam lá, estavam no centro,

fazendo mercado.

ela abriu o armário da mãe e pegou um o.b.

 

-bota isso. – ela disse. – assim você pode nadar.

mas boto onde?

-dentro ué.

-dentro Dentro? –perguntei espantada.

-é, dentro Dentro. não dói, besta, é de algodão. eu uso sempre.

 

fiquei com vontade de perguntar

se aquilo de ob tinha qualquer coisa de pinto entrando, se engravidava botar aquele algodão dentro,

não perguntei.

em algum lugar eu Sabia

que aquilo

não era de fazer filho, se fosse imagina quanta Criança a mais no mundo teriam principalmente as esportistas, já que minha amiga me disse que as nadadoras são as que mais usam.

entrei no banheiro.

ouvi na lembrança recente minha amiga dizendo: abre Bem as pernas.

Abri.

vi o sangue

escuro e grosso, parecido com gelatina de morango,

bem diferente de quando eu cortava o dedo,

gelatina de útero,

provei: não era ruim.

era forte

o gosto, feito vinho pra quem não tá acostumado.

desembrulhei o o.b., a mão

trêmula.

Coloquei no meio dos pelos, não entrou fácil. Forcei, abri mais

a perna, uma gota larga de sangue pingou no chão

e meu dedo tentando

afundar o algodão compacto

em mim

aquele cotonete gigante

fazendo nascer uma vontade

de me

Tocar, especialmente uma vontade

de que o renan

me tocasse

quem sabe até assim, com esse sangue

grosso, quem sabe até botando

a língua.

 

de passageira, eu nunca pensava no depois

não sou mais passageira,

é raro quando sento no banco detrás.

ônibus também faz tempo, táxi

faz tempo,

na minha bicicleta

nasceu uma capa

de pó

feita de outras

bicicletas esquecidas na

garagem.

no dia que eu lavar a minha (acho que esse dia

Não chega,

o tempo para coisas pequenas como lavar a bicicleta, nadar de piscina, lixar

o pé

está minguando esquisito,

o tempo pra coisas miúdas foi gasto com coisas menores

como a tv, por exemplo,

ou o amor)

no dia que eu lavar

vai sair um

Caldo cor de rio

tietê.

a pé eu ainda ando

quando as distâncias são curtas, meu cachorro está velho com medo de morrer

eu com medo

de perder.

por andar tanto de carro, quando estou a pé estranho as calçadas, as pessoas reagindo a mim que finalmente uso minhas pernas,

sou veloz.

abaixo a cabeça

e Vou

o mais rápido do mundo para chegar no lugar que pretendo, geralmente um lugar importante,

geralmente a farmácia.

a pé

escuto homens de terno fechando o espaço da rua com conversas.

quando passo

eles me abrem Apertados

sinto o olho deles grudado

na minha bunda avaliando.

do carro

é o rádio que me olha. o volante gordo

o vidro fechado

eu

enclausurada me sentindo Bem

melhor no carro-continuação

do meu apartamento, meu cheiro lá

empregando no banco, não sinto,

não sei

como é meu cheiro.

 

-posso entrar fumando?

 

perguntou meu amigo quando lhe ofereci carona.

 

-pode. – eu disse arrependida, o cheiro do cigarro

cobrindo tudo.

com insulfilm na cidade o fim de tarde é pra sempre até de noite.

as árvores

correm de mim

eu vou

elas ficam,

escuto

entrevistas

pelo rádio. os entrevistados

dizem deles mesmos o tempo todo,

parecem que estão falando de mim e do carro

que sou eu também

comigo mesma.

agora no domingo

acabou que

por excesso de carros na família, vamos só com 1 te deixo em casa depois,

calhou de

eu ficar passageira

no carro dos meus pais.

sentei com saudade no banco detrás,

a janela com a vista atrasada,

no banco da frente é tudo primeiro, a música chega

primeiro, o impacto da batida quando houver batida, olhei a paulista

Noturna.

alguns jovens

estavam na rua, eu mesma

já fui menina

e dormia muito no carro.

mesmo dirigindo

ainda sinto

bastante Sono

mas sei que se eu dormir é bem possível que eu não acorde mais ou qualquer coisa parecida com a Ideia que fazemos de morrer, então

eu seguro o olho,

até quando não sei.

anything great

todas as moedas que eu tinha no bolso estavam em cima da mesa.

-não é pra mim, ela disse sem me olhar,
é pro Cigano.
ele que precisa da troca
pra dizer do futuro
e a energia negativa fica no metal,
vê?
é bom pra Você também.

eu não via nada
e estava com medo bastante curiosa e um pouco arrependida da Consulta mas
agora é tarde,
as velas acesas,
o quarto cheirando.

-humm.

ela foi tirando as cartas
colocando o jogo na mesa
aquilo era grego
pra mim, uns bonecos místicos desenhados,
muito roxo e vermelho nas cartas, será
que aquilo era
bom? ela ainda sem me olhar.

-humm.

será que eu ia
morrer? quem sabe atropelada.
ou até
assassinada,
vítima de um crime passional,
respirei.

– eu vejo uma pessoa

(pausa)

na cama
de um hospital.
-quem?
-alguém que você ama muito.
-puta merda. é morte?

ela não respondeu.
colocou mais cartas na mesa.

– e não vejo nada
profissionalmente.
nada mesmo.

(outra pausa, essa
menos longa)

no amor
eu vejo um rio tranquilo.

caralho.
por que será que as notícias do futuro tem que ser sempre tão tristes, meu deus.
não era melhor eu ficar sem saber? o que eu estava fazendo ali afinal? eu devia é tocar a vida
cega dos próximos dias, a natureza é sábia
isso é culpa da
Susy,
foi ela
que plantou em mim a curiosidade besta, me deu telefone e tudo, meu dedo coçando, a gente fica querendo saber. pra ela deu tudo certo, né, as cartas foram
boas com susy
pra mim essa Merda
e minha mãe tirou
as amídalas
6 meses depois.
profissionalmente
nada mesmo
segue dando
certo,
no amor aquela paz
e a linha da vida se apagando,
deve ser essa mania que tenho
de ficar passando álcool
em gel na
mão, o mundo
é tão sujo.

o pause

 

te ouvi chamando de mistério o que Não aconteceu entre nós,

eu chamo de medo

e tomando coca cola na fila do cinema chamo também de Indisposição amorosa, nada a ver com sexo,

sexo é uma conta de matemática que deu certo e logo depois

esquecemos dela, justamente por isso.

falo mesmo é da inércia do não estar apaixonado, pra mim é como boiar no mar e o ouvido oco,

finalmente um sossego morando na cabeça,

tão bom quanto morrer

em paz.

tem também a memória da dor de amar, depois de uma Queda

ninguém anda de bicicleta com o peito livre igual.

tem também que eu preciso de tempo

pra escrever,

tempo dentro de mim,

com você eu não teria. seria tudo sobre nós nas semanas que passássemos juntos

e que mesmo que fossem anos

começariam sendo semanas.

teria também os dias que não estaríamos juntos mas a saudade de você lá

me consumindo,

te procuraria desconcentrada

no fundo

de uma xícara, ficando velha te procurando em

objetos,

obsessiva e com sono mas sem conseguir dormir: porque é assim que o amor Faz. isso

os filmes não contam.

escreveria eu te amo (amando a ideia do amor e não exatamente você)

no nublado do box do banheiro e o banho quente querendo me matar.

te encontrei na padaria: você fingiu não me ver.

passei pelas suas costas e fiz nascer um vento na sua nuca que você sentiu, eu sei que sim, as pessoas ao lado achando que somos desconhecidos.

é horrível morarmos no mesmo bairro, antes a grande vantagem de ficarmos juntos,

fazíamos tudo a pé.

você já deve ter encontrando um colo enquanto pensa de vez em quando que talvez teria sido bom entre nós. bom é pouco. bom faz esquecer os problemas por um tempo curto demais.

me arrependo toda vez que começo a querer me apaixonar, devia ter te avisado, que me fiz fria por

proteção,

meu avó foi o primeiro que me amou e meteu

a mão

em mim.

é lento

meu processo de começo de amor

então dá pra dizer:

 

-Pare.

 

pra mim mesma e me escutar com atenção.

já foi rápido me apaixonar, agora

prevejo os sinais e

paraliso as coisas em mim sem sofrer. estou ficando velha e a gente aprende isso ficando velho.

até por uma cidade quando estou viajando e começo a me apegar demais à ruas, sentindo frisos na pele parecidos com rugas mesmo antes de partir,

ou até em livros, durante a leitura,

pensando já no próximo capitulo,

o que acontecerá com marta? essa personagem maravilhosa

que lembra tanto minha mãe.

não deixo mais o amor entrar escancarado assim, livremente pousado nos meus órgãos, Chega.

tive amigas dilaceradas depois do fim de um amor, sentaram até em bancos de igreja

procurando uma reposta e o silêncio na gruta

com cheiro de incenso,

e jesus com prego

no pé e nas mãos, o sangue no meio das pernas porque o amor

Acaba,

ainda que ele se transforme em algo bonito também feito amizade.

ou um poema.

ou 2 estranhos como eu e você na padaria.

o amor acaba e eu não queria passar por isso de sentir o amor acabado, gastando dinheiro com

poetas que leem

seus cordéis pelas ruas, tentando me apaixonar por aquele argentino que vende brincos

só porque ele parece um pouco você e sempre me diz

que eu poderia ter a prata que eu quisesse da barraca dele.

pra quê passar por isso e morrer um tanto sendo que já morrerei de qualquer maneira num belo dia e finalmente?

não, menino,

chega. as músicas sobre a terra são tão mais bonitas que as músicas sobre seus olhos. prefiro guardar de você o seu antes,

sua expectativa de encontrar companhia em mim já que seu rosto é todo solidão de alguém que mudou de cidade recentemente

e da janela do seu flat a vista ainda é nova de alguns ângulos, você ainda

se surpreende.

eva

foram longos os anos com aquela Bacia de alumínio no braço,

antes dos 9

rio era lugar

de banho.

de pé

jogando água nas outras crianças querendo mais

naquele calor de dezembro até o aniversário dela de 9 anos.

da janela a mãe notou a menina crescida, chamou:

 

-Eva!

 

desde os 8 ela não ia mais

pra Escola que fechou,

a outra

só dava pra chegar de ônibus

e pro ônibus

o dinheiro não dava. a mãe disse:

 

-tá na hora de você começar a Trabalhar.

 

eva começou

lavando a roupa

dos irmãos menores,

7 irmãos.

a mãe foi ficando mais velha e a menina

mais velha com força,

o braço torneando,

o pai de Olho.

a menina

cada dia mais bonita

Vistosa

Crescendo,

o pai pra cima e pra baixo agarrando eva dizendo que ama, ama o que?

ele nunca foi disso,

a mãe 1 ciúme.

a menina fez 15

e foi lavar roupa

na casa da dona conceição,

os braços em calo de tanto esfregar, a pele morena,

os seios mexendo

enquanto eva trabalhava com vontade de tomar banho no rio

pra tirar o suor do corpo, mas era católica graças a deus, fazia não

essa coisa de ficar molhada por aí lavando roupa.

com o primeiro salário

eva comprou um

batom.

a mãe viu

ela chegar de boca rosa em casa parecendo mulher da cidade, o pai até levantou do sofá.

a mãe

fuçou na bolsa,

achou.

tacou da janela

o batom que espatifou no quintal:

 

-prostitua aqui não!

 

como assim?,

prostituta.

se até virgem a menina era.

eva ficou triste com a mãe. Cobra, ela pensou,

e o pai bebendo muito

lhe roubando da gaveta as calcinhas, eva desistida de morar ali.

fez as trouxas.

sabia lavar roupa, não ia lhe faltar nada.

seguiu trabalhando na casa da dona conceição

que deixou ela dormir

no quartinho do fundo.

eva foi ficando velha no quartinho do fundo, no espelho do rio seu rosto com 30

cheirando sabão.

ela nunca tinha visto a Cidade até que chegou o filho

da dona conceição.

 

voltou dos estudos,

 

disseram.

discreta, ela não perguntou de mais nada.

Reginaldo de terno e gravata tinha cara de quem muito sabe

igualzinho ao padre josé até no cheiro

de cravo.

Reginaldo

logo percebeu a Lavadora.

em São Paulo conheceu as mulheres, foi sem medo atrás de eva

e ela

nunca tinha feito essa coisa de amor, o Reginaldo martelando também no ouvido palavras como eu

te

amo

mas eva sabia

esse fisgo no peito

não era amor.

de novo fez as malas, dessa vez foi lavar roupa na casa do viúvo Ernesto.

guardou dinheiro

e comprou um barraco na beira do rio, chão de terra molhada.

quando Ernesto morreu

passou a lavar roupa pra vizinhança e na mesa arroz,

feijão,

salada, a unha da

eva parecia papel.

num dia qualquer

ela foi parada por Geraldo, o vizinho sumido da casa da frente, que lhe disse:

 

viu,

eu trabalho na cidade e conheço uma senhora de coração que nem sei.

ela tá doando a máquina de lavar, comprou uma nova. perguntou se eu conhecia alguém que precisava.

eu disse

que conhecia você.

 

 

eva já ouviu dizer de máquina,

lá na televisão do falecido

ernesto,

parecia coisa de indústria.

eva achou

que ficaria milionária

com a tal máquina

que chegou na casa dela 1 semana depois, 3 homens trouxeram.

o barraco pequeno

quase não deu conta daquele tamanho e ainda por cima aquela gente, eles ligaram na tomada, instalaram o cano,

tudo pago

é doação.

abismada com o Aço eva perguntou

se era só

colocar a roupa dentro.

 

– e apertar o botão. – disse o homem.

 

eva não sabia ler.

mas tinha memória

e decorou o lugar

do botão.

despejou na máquina

a roupa suja

a água fazia barulho de rio

com chuva

e aquilo

tudo

girava

mexia

molhava misturando cores

parecendo um parque

de diversão: ela assistia,

Exausta.

sobre seu luto

– seu pai morreu,

telefonaram te avisando

 

não te vi recebendo a Notícia

mas Imagino

seu corpo derretendo

sobrando só duas bolas

soltas

com um preto no meio que é a sua íris

Petrificada.

todo dia

imagino o que seria de mim se o meu Pai

morresse,

se alguém me ligasse

contando o que já sei

mas espero que seja num futuro tão Longe

lá pra depois

do último

país

do mundo.

acontece que o futuro

Chega

e quando chega

cai no colo que ainda é nosso.

seu pai morreu jovem, 60 e

poucos,

o tempo passando é físico,

os cabelos brancos do meu namorado me assustam.

a morte

tem que ficar distante pra ninguém se matar,

o relógio guardando

o poder da data, mais um domingo passou.

e outro.

e nove. quem inaugurou a morte

na sua família foi seu pai desbravador,

homem-coragem que primeiro passou pelo estado de sexo, depois

o embrião que venceu.

depois vivo dentro da barriga crescendo,

depois vivo saindo da vagina elástica,

depois vivo na vida, andando

pintando, estudando,

pegando taxi, tendo você.

depois ele passou pelo estado de um pouco antes de morrer, os segundos antes, até que

finalmente

pela Morte em si

e o nada,

quando alguém

morre

a esperança de que deus existe morre junto.

seu pai

passou por tudo antes de você, ele te conta disso em detalhes

através do corpo

agora amarelo.

você teve que comprar caixão,

escolher uma roupa, foi terno?, pagar as despesas do velório

desde a gasolina pra chegar no velório

até o padre, no meio

as lágrimas, seu peito rasgando, aquela sensação de não Acredito ontem mesmo

ele estava vivo,

todos os mortos de hoje

ontem

respiravam.

também uma risada que brota tímida em você

por lembrar do quanto teu pai era maluco,

 

nesse exato

instante

no quarto que ele pintava

bate

um sol.

 

no dia daquela viagem pra praia teve briga, você voltou antes

e odiou seu pai por semanas.

passou quando vocês almoçaram juntos,

morrer desperta memórias

que nos fazem olhar pra elas com mais

carinho,

de que adianta brigar ou ser triste agora que Acabou?

você lidou com a morte de um jeito que fez o amor saltar.

o amor

virou protagonista da perda, o amor pela vida do seu pai.

naquela dia que conversamos,

e se você soubesse que seu pai tinha só mais 1 mês de vida?

o que você faria

antes de

enlouquecer?

pegaria um carro, um voo

pra Roma?,

pra casa da sua vó? comeria um bolo de fubá com eles

implorando tempo

ao Tempo?

sabe,

eu acho que você faria tudo igual.

seu jeito de ver a morte

me fez perder o medo e meu pai

eu vejo

só de fim de semana.

ou da minha

memória

quando ele me agride dizendo

que merda você ser assim com essa cabeça que não entra dinheiro,

e também aquele sorriso pequeno que ele tem.

pra rir escancarado

só se for criança.

ou 1 velho

tão velho que o medo nele já virou

algo inofensivo tanto quanto um lápis,

apesar que um caderno escrito a lápis quando cai no rio

não borra

nem some

as letras.

vou escrever a lápis

que aprendi alguma coisa com seu pai morto e você olhando pra isso,

andando de bicicleta com a sua esposa no domingo, tristíssimo mas também Alegre

e seguindo,

 

é como uma música.

 

 

leituras.

toda foto que tiro com polaroide sai nublada de um jeito não

poético,

insisto porque vi as polaroides de patti

Smith em viagens

ao México

e outros

países, as fotostumblr_oa4in0Y4kN1ucto0yo1_500

ficaram potentes,

tanto que ela até colocou no seu último livro, linha M.

nas polaroides de patti

tem túmulo de gente famosa como Sylvia Plath

que se matou aos 30

com os filhos em casa, colocou a cabeça no forno

e ligou o forno.

a patti

tem vários livros

publicados. muitos anos de vida. 1 marido morto chamado fred,

(eu também conheço um fred)

casa na beira da

praia, disco com nome de cavalo

em inglês e uma biblioteca particular importante.

eu

tenho polaroides nubladas a coleção,

as coloco na parede do quarto com

durex, nada muito definitivo,

e sonho.