finalmente livre

choveu o mar ao contrário,

eu estava dirigindo

mas não passei por aquela Rua.

desacelerei, todos que estavam na estrada

desaceleraram, o limpador de para brisa trabalhando em nível

máximo me mostrando ralas visões

das árvores

assassinadas pela água que parece

delicada saindo da torneira.

acontece que

quando a água se junta e desce do céu com força

ela mata feito machado na mão de um homem ruim e muito rápido.

alguns carros

viraram barco, a luz da cidade acabou.

os ônibus ficaram entalados no trânsito

de muita gente

com medo, os guarda chuvas não aguentaram. soltaram-se em pinos e voaram

na cara

das pessoas do outro lado do ponto que morreram com ferro no olho, água nos pelos, medo

do celular nunca mais funcionar.

um amigo me mandou mensagem:

 

-estou alagado, não vou conseguir chegar.

 

tínhamos marcado um café.

eu cheguei pro café apesar da chuva e o lugar vazio do meu amigo e de todos que não chegaram.

íamos bater um papo,

sempre marcamos de bater esse

Papo

que nunca acontece por diversos Imprevistos que nos acontecem antes

a chuva fim de mundo, por exemplo.

como somos religiosos dizendo que não, achamos que esses desencontros são uma espécie de:

 

-carma.

 

um sinal

de que não deveríamos ficar juntos nunca mais.

hoje em dia

meu amigo e eu nos odiamos

mas não é sobre isso que eu queria falar.

queria mesmo dizer da manhã seguinte depois da Chuva,

foi quando eu passei por aquela Rua

de casas abertas

sem telhado, madeiras encaixadas umas nas outras e os colchões no chão,

uma tábua velha servindo de mesa

em cima dela 1 toalha

de crochê, mas isso

foi antes da chuva.

naquelas casas no meio da Rua

tudo era improvisado

e arrumado ao mesmo tempo,

tinha gaiola com pássaro e prego na parede-muro, tinha cachorro preto, crianças com roupas pequenas demais,

homens fumando

mulheres com blusa

do Prefeito, uma família grande

que acordava cedo.

dormir na rua

é o maior abandono porque é a maior liberdade, depois da rua

só a morte, passei devagar ali depois da Chuva:

 

virou entulho

aquilo tudo

com cara de lixo sem pessoa.

 

pra onde foi o cigarro, o fósforo,

o prego?

e o cachorro?, sempre que eu passava na Rua

ele ia pra frente do meu carro sem ser suicídio,

era só pra chamar

a minha atenção.

pra onde foram as crianças de roupa justa?,

e a toalha

de crochê, as tábuas, os colchões, o prefeito, a vida

sem porta e a gaiola

com pássaro?

 

 

talvez o Pássarotumblr_n9add7EgWx1th6bk7o1_500

 

 

 

 

seja o único que eu saiba realmente onde está.

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