Museu de gente

passei na frente da antiga locadora de vídeo

agora com corrente

nas vagas

e placa de Aluga-se que ninguém olha o número de ligar,

ninguém se interessa

ou tem dinheiro pra pagar 1 lugar tão

grande

que antes

alugava fitas,

as pessoas passavam pelos corredores escritos

drama

terror

comédia para escolher os filmes da tarde de sábado,

tocavam nas capas, viam nas mãos

as fotos dos atores, tinha cheiro de plástico envelhecido escolher um filme,

era como ir na banca

de jornal.

agora

pra escolher o que assistir

as pessoas passam

pelas setas

do controle

remoto,

o filme só existe dentro

da tela

e dentro

da cabeça de quem assistiu.

a música também,

não se usa mais cd,

e meu carro cheio

de cds

meu armário cheio

de dvds

e de livros

guardando as histórias que amo mas que nunca aconteceram comigo.

a memória

tem vezes que parece 1 invenção e isso

pode levar as pessoas à loucura,

os objetos

são tão reais.

me acalmam porque não dependem de mim ou da minha imaginação

para existirem, eles estão ali

mesmo que eu não me esforce.

os anos vão passar.

o espaço

está Menor e cada vez mais pessoas, casas, prédios, cachorros, túneis,

até o ponto de

nada

guardar mais

nada, com as coisas morando no plano

virtual.

a gente

não vai mais caber

no mundo

com as nossas necessidades de Ter, além dos nossos corpos e lembranças,

também as nossas coisas, xampus, cartas,

vidros vazios

do perfume que saiu

de linha.

passar pela rua antiga da locadora ficou mais Triste com ela morta,

pra onde foram (?) todas aquelas fitas

e aqueles balcões

e aquelas pessoas usando uniforme que tanto sabiam de cinema,

a rua ficou tristíssima agora

ainda que eu saiba que certas coisas

não mudam

como o amor que sinto pela minha mãe ou as árvores sendo importantes,

algumas tem mil anos.

numa conversa de bar

ouvi que aos 120

finalmente 1 oliveira atinge

a sua melhor

forma

e o tempo

passa

feito a pipa amarela

daquele menino

que num piscar

já é um homem.

o bairro que eu nasci mudou muito a vista

as imobiliárias dizem que não quando você vai comprar um apartamento.

um dia,

e será num dia comum como hoje, como ontem,

um dia também as pessoas

acabarão

esquecidas, exceto por alguns mini usos que farão da gente, os próximos seres

habitantes desse

planeta.

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4 comentários sobre “Museu de gente

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