Demônio

uma criança

beijando forçada a barriga da mãe, a boca fechadinha

as mãos também,

–dá um beijo direito– insistem,

o irmão dentro

ainda um micróbio

em algumas semanas

um feto com órgãos,

aquela novidade era muito

assustadora.

como ficarão meus brinquedos?, onde?

eles ficarão com esse Berço

enfiado aqui

no meu quarto,

eu uso cama faz tempo.

e o pior é que a barriga da mãe

tinha um cheiro forte e incomparável, a teta pelo que ele se lembra

não tinha esse gosto

de pele gelada, mas a culpa

devia ser do leite e do bico marrom igual mamadeira na farmácia.

todas as mamadeiras são bicos de peito à venda

pra acalmar bebê que quer o mundo

pela boca então toma

essa teta e vê

se acalma essa sede, menino, você

só acabou de chegar.

a barriga

estava crescendo semana por semana, a família usava fita e media com palmas,

a mãe gorda era esquisito

o pai macio com a mãe

era um

saco,

a vó dizendo que agora

ele era o homem da casa, precisava ajudar

a cuidar do

irmãozinho

que viria

chamado Antônio,

tônio

demônio

Não.

ele não gostava desse

micróbio do futuro. ele estava deixando a casa diferente pra pior e ainda

nem chegou.

gostava como era antes,

chorava

quando a mãe

não via. quando a mãe via ele pedia leite

na teta

ela dizia que o tempo

dele

já foi.

-vai brincar, menino.

ele ia, montava

quebra cabeça sozinho

no quarto

o berço atrapalhava muito, batia o cotovelo direto, antigamente meu pai me ajudava.

chegava da escola

e ninguém na porta

de casa pra carregar sua mala cheia de livros aprendendo a ler, ninguém sabia que ele já lia sozinho

o parágrafo largo do livro o sítio

do pica

pau

amarelo.

Ninguém se importava. Então ele decidiu

assistindo o desenho de um menino que morava num trem com um velho cachorro e era feliz, então

ele bolou um plano

de fazer a mala

naquela noite, a barriga da mãe um Lustro,

da cozinha ela dizia:

– seu irmão tá quase pronto.

como se irmão fosse bolo, dava vontade de

chutar

a barriga dela

mas ele não queria

ver a mãe chorando.

a noite chegou.

o desenho do menino do trem agora morava na sua cabeça.

ele botou na mochila seu caminhão de bombeiro, o saco de bisnaguinha da cozinha,

o cobertor que ganhou da tia

e saiu de casa

abriu a porta

com a chave que fica na sala

a família dormindo não viu.

a Noite

era estranhamente Escura

assim de fora mas

no menino

isso não dava mais medo do que dividir a casa com o tal

Antônio.

agora só faltava encontrar um trem e

o cachorro.

 

 

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a perna Aberta
da mulher que na verdade
é menina
tem um vão
tão Fundo
que cabe
todos os paus
duros, 3 minutos depois
moles
menores que
1 dedo, inofensivos olhando assim de lado
o saco
é até maior, não dá nem pra acreditar que
3 minutos antes
aquele punhado de carne
era símbolo do maior orgulho.
ter alguma coisa entre as pernas
é Importante pra conseguir um emprego, pra ser Alguém,
pra ser ouvido e caminhar pelas ruas de peito Livre, é pena as mulheres
terem nascido
com esse vão
Imenso, nele
cabem todas as mulheres que sofrem abuso
e as que não sofrem
as que são mães das que sofrem, as que são amigas
as que são irmãs
ninguém está sozinho no mundo
e todo mundo
está muito sozinho.
nesse vão cabe O Medo
de morrer e ainda ter vida pra seguir vivendo, que vão

Gigante

entre as coxas
da mulher
que era menina, 17 anos,
menos anos
do que os homens
que entraram nela

sem

ela

Pedir.

Agora
ela voltou pro corpo que lhe pertence (?).
agora
ela está Grávida de 9
meses, seu filho
vai chamar:

-estupro.

é um menininho
de poucos quilos, amanhã
um homem de músculo andando pelas ruas de cabeça
erguida.
Agora,
ela se levanta.
devagar
volta pra casa
apoiada na mãe sem se matar.

tiraram foto,

o mundo
observa em silêncio
abismados com a força da menina que tem um vão.

então depois de morta meu conselho é nem tente

-fecha a bolsa.

 

ouvi o cara me dizer empurrando o queixo

pro zíper da minha

mochila,

estava aberta eu andando

pelas ruas do centro um frio à noite, o vento

não tem pena de quem

não tem casa,

além da mochila fechei o casaco e

agradeci.

 

-guarda o celular também. os meninos

passam rápido e

levam. – o cara me disse apagando o cigarro no muro. sorri sem jeito,

ele entrou

pra cozinha do restaurante sem

se despedir.

 

a vida é Outra

que não se despede, passa rápido e leva

meu brilho

nos olhos que só voltam quando vejo uma porta

semi aberta

vazando jazz de dentro,

mais a frente das ruas que não conheço foi o que vi em um

pub velho

no centro todo velho, entrei:

 

um lugar pequeno assim faz até a gente tirar

o casaco.

 

o pub estava cheio

de gente conversando nas mesas altas, ninguém sozinho

além de mim.

o garçom me perguntou se eu queria alguma coisa,

fiquei olhando pra ele pensando na pergunta,

a banda de 3

homens suados que não eram chet baker mas tinham ouvido e

chorado muito chet,

então sim

eles carregavam no peito um pouco dele, não tanto,

o suficiente

pra mim.

 

-não quero nada, obrigada.

 

o garçom se afastou.

a banda tocava almost

blue, meu pai tinha esse disco

colocava

pra fumar charuto, eu por tabela ouvia e fumava aos 4 anos

de idade a tarde

inteira.

deve ser por isso que sou assim envelhecida com essas

manchas, sou como o centro de são Paulo, tinha um espelho

atrás das bebidas do bar, eu estava de lado

pra ele.

repare que

sempre tem

um espelho e se você olhar no fundo das garrafas de bebida e não for nenhum menino,

vai se ver

cansado

com cara de quem desistiu

e seguir bebendo pra ver se

melhora, é uma tática dos homens de dinheiro,

funciona muito.

por milésimos de segundos, quando as pessoas do pub

paravam de

conversar,

eu notava a Tristeza

descolando da cara delas e da minha. ali

todo mundo tinha crescido mal, todo mundo tinha seus problemas, 1 foi traído

pela mulher, pelo sócio,

o outro traiu e isso também

tem seu peso, alguém morreu, alguém estava doente pra morrer, muitas contas pra pagar e nenhum dinheiro, as pessoas tinham problemas,

não era só eu que fugia como fiz quando

fui embora

do pub

com a música de memória em mim.

o cansaço da viagem me bateu forte fazendo nascer uma dor

de cabeça que passaria se eu dormisse bastante, eu tinha

certeza.

queria chegar logo no hotel, pensei

vou pegar 1 táxi

mas um menino que eu nunca vi pegou minha bolsa antes, fechada mesmo, com o celular dentro, e me deu

um tiro.

 

estou feia há semanas e acho que não vai passar

de rabo

de cavalo

me sentindo a cara mais feia do ambiente cheio de mulheres lindas, é

importante ser

linda, não digo igual

aos comerciais de

revista,

digo de Ser linda com você se aceitando como ser

humano que existe andando pelas ruas,

sendo vista

sem alarde

mas tampouco sendo ignorada de que está pisando ali.

as mulheres lindas dessa sala são assim, parecem que estão ouvindo música e eu pareço que estou derrubando um muro usando

broca,

imagino todas

de camisola

deitando no lençol de seda tão limpo, nenhuma me olha como

se olha pra alguém que se quer levar pra cama.

com elas tão soltas no recinto não consigo respirar, penso nos porcos

que morrem para virar comida.

nas casas antigas da minha

vó, sítios antigos,

acontecia de criar porcos e galinhas para matar depois.

a minha mãe era pequena.

não lembra de quase nada de quando era daquele tamanho, mas

dos gritos dos porcos não querendo morrer ela

Lembra.

num dia ruim

minha mãe sonha

com o barulho dos porcos berrando

não me mate e berrando também a dor do inevitável de ser comido

e ainda estar um pouco vivo

pra perceber

que não há nada a fazer quando alguém mais Forte que você decide acabar com a sua vida.

a única

saída

é gritar

Horrivelmente

pra plantar nas pessoas

O Grito,

assim elas não dormem sossegadas porque 1 porco

morreu carregando consigo

todos os porcos que já morreram e todos que ainda

morrerão.

 

 

nunca ouvi um porco berrar a morte.

 

 

só imaginado eu ouvi, enquanto minha mãe me contava e pelos olhos cerrados dela quase só cílios eu vi

O Grito

que inventei de acordo com o que cabe em mim. ele

ficou guardado, aparece

especialmente quando me sinto feita

apenas de

Pó.

agora, por exemplo, O Grito está na minha cabeça

enquanto caminho por esse ambiente cheio de mulheres lindas que não sou

Eu.

 

presente

de aniversário
ganhei uma bicicleta dos meus
Amigos, eles juntaram uma grana
e compraram
a bicicleta, escolheram juntos8122760_orig
pela internet
ela veio desmontada da
Alemanha.
meus amigos montaram e
embrulharam aquela bicicleta
grande,
no dia que eles me entregaram
eu chorei no meu aniversário
meus amigos filmaram, colocaram
na internet para todos os que ajudaram
na compra ver.

foi lindo.
foi um ano
Bom, talvez o melhor, mas isso
foi antes.
meus Amigos,
1 a 1,
mudaram de
amigos, namorados,

cidade.

pouco a pouco
cada amigo

foi sumindo, foi

pingando

os telefonemas, as mensagens,
os encontros, até que todos
os meus amigos

se foram.

(a bicicleta
não)

as coisas mudam

o gato era criança

tomava leite

não tinha mãe.

na Visita

eu usava calça de moletom pra gente brincar bastante.ba21dd2f9ea7978e03456129b7b76ca8

aos domingos nos víamos, era bom entrar

na casa do tio

que abria Porta e a primeira coisa que eu via era o gato

branco ficando mais peludo a cada semana porque ele

estava crescendo rápido,

os animais são assim, meu pai contou.

meus tios

e meus pais

conversavam horas sobre o que eu não lembro.

meu primo pequeno dormia no berço bem

pequeno. eu cheirava sua testa e sentia leite. queria acorda-lo, quem sabe colocar o gato dentro do berço e ninar os 2, balançar forte os 2, como uma montanha russa sem descida, mas

esse plano

nunca dava certo porque meu primo

dormia como a morte.

eu passava a maior parte do domingo com o gato

no chão de carpete

a gente brincando só das coisas que ele queria e também de fazer carinho.

os olhos dele

pareciam furos que vazavam o Lago que ele tinha

dentro da cabeça,

um gato é feito de água

se for azul o seu olho, de mato se for verde,

de sol se for amarelo.

eu

sou feita de

terra.

chegava a hora do almoço,

a gente comia comida não bem feita da minha tia que tentava cozinhar bem, minha mãe ajudava mas a tia não tinha mesmo como, seu arroz

parecia um bolo duro. eu comia

de cara amarrada

olhando pro gato

que devorava ração no pote prata, muito melhor

a comida dele, eu trocaria mas minha mãe disse que:

 

-não pode.

 

meu primo acordava

depois do almoço.

minha tia dava leite pra ele no peito, o bico rosa

ficava espetado,

o meu

não era assim.

conferi no espelho da casa dos tios: não,

não era assim.

 

-baixa a blusa, menina.

 

quando chegava em casa à noite

eu levava 1 copo

de leite

pra cama.

minha mãe achava normal, me dava boa noite meu pai também. eu esperava

a casa

virar silêncio

pra jogar

o leite

no peito

e dar de mamar para as bonecas

carecas.

hoje em dia meus tios

e meus pais

nunca se falam. meus tios inclusive se separaram porque o tio traiu a tia com 1 puta sempre a mesma, a vó dizia que era

amor, eu acredito. meu primo

se vejo na rua

não reconheço, não sei o que ele gosta de fazer, também na época de bebê eu não sabia, mas tenho certeza que ele

nunca mais vai caber num berço de novo, aquilo foi antes

e não volta.

o gato criança

morreu

de velhice

e eu

ainda jogo leite no peito

mas quem mama é 1 gato-homem

que adora brincar na cama

com comida.

copa do mundo

o homem que é segurança

do shopping

pensa em quê

enquanto segura o shopping de terno e mãos humanas?, talvez

na família.

talvez na rua

ladeira que ele mora. o busão deixa

no último ponto que fica vários quarteirões antes da sua casa cor de

cimento,

ele chega cansado de camisa

molhada, assim no bairro

nem se nota

o segurança de terno que ele é das 2 às 8

todo dia Olhando

se há

alguma coisa errada no shopping e há

tanta coisa

errada no mundo a começar pelo homem de arma no bolso

pai da menina chamada Lívia

3 anos

querendo leite, por ela

ele segura

o shopping, também pelos 3 mil e quinhentos

reais no fim

do mês pagando todos

os seus cigarros que, com a crise, têm ficado

muito caro

a ponto de o fazer pensar em:

 

-desistir.

 

até que um dia aconteceu uma coisa.

alguém entrou

correndo pela escada rolante,

quebrou com pedra a vitrine da loja e levou

embora

a chuteira do brasil até quase

a porta do shopping, o alarme

tocou Preocupado, as pessoas

se esconderam no banheiro,

a dona da loja

gritou, alguns pensaram que era:

 

-incêndio.

 

o Segurança

teve que correr pela primeira vez,

teve que trabalhar

pela primeira vez.

com a chuteira no braço o ladrão ficou

invencível e

rápido,

fora do shopping não era mais o segurança do shopping que cuidaria do trombada,

era o segurança da cidade e como ficaria a sua reputação

se ele deixasse o ladrão

escapar? pensou nos empregos que ele não conseguira porque

não conseguiu

evitar 1 crime, ele ia virar cobradorpolaroid 1991 feb 2nd place basketball trophy

de ônibus, balconista de

padaria pra

ganhar menos ainda, asa no pé

do bandido magro que corria

alto,

o segurança teve que

Atirar:

 

 

 

o moleque caiu 15 anos,

 

 

 

 

 

1 tênis em cada mão.

 

 

o Impacto da bala

saindo pro peito que queria a chuteira e não tinha

dinheiro pra pagar

a chuteira bonita mesmo, igual a

bandeira,

foi morar no Ouvido

do segurança

até enquanto a filha

pedia pra ele cantar aquela música da rua fosse minha, até enquanto via a foto dele no jornal com manchete

Herói.

quantos anos é ser velho?

era velha e não tinha ruga. percebi a idade nos cabelos brancos do tempo que passa nos cabelos,

e na boca

travada,

e nas manchas do sol incansável beijando a pele das

mãos que muito ficam

nuas, de vez em quando um anel

que é de casamento.

quando briga e sempre briga, nua, a mão,

pelada e cheia de

dedos.

vi que era velha pelo terço

no peito medo

da morte ou da vida no hospital

rezando pelo marido morto, deus não adianta, em 5 de abril

o coração do velho parou e a boca

aberta, cabendo entrar 1 pessoa pra morrer também, ela não quis.

depois de todos

esses anos

ainda restava chama

nos olhos

da velha e meia lágrima

Guardada em cada íris just in case.

as coisas não dando certo exceto 1

eu tinha um perfume de vidro
roxo
doce chamado
Absinto,
de uma marca que  hoje já morreu no mercado e eu tinha o Sonho
de 1 penteadeira
Rosa
de ferro gelado quando a gente
toca,
espelho redondo
e a Penteadeira hoje
já morreu também como moda,
impossível encontrar nas
lojas a não ser
muito caro,
eu queria 1
pra pentear com calma meus cabelos
Longos
na época
curtos,
nuca de olho
no mundo querendo
sentir.
hoje
meus cabelos sãoaf6a980d28ff1f6ba8678dc3d150cbbe
Longuíssimos.
me apego aos fios
como se todos
os meus sonhos
mortos
morassem
ali.