lugar de enterro

o biso morreu, telefonaram.

o biso

Morto

no fundo era alívio pra bisa cuidando dele há tantos anos sem tempo de cuidar de mais nada, a casa

um pó. não deu 3 meses e a bisa morreu também mas essa é a história só do biso.

o enterro

seria em são roque cidade diferente que eu nunca fui.

minha mãe fez a mala com pouca coisa pros poucos dias e ligou na escola pra explicar que eu não vou,

Morreu gente

as pessoas entendem o biso morto aos 90,

ninguém chorou.

tudo o que é vivo morre diz a primeira frase do meu livro de ciências na quinta série. então

tá todo mundo sabendo.

vivo o biso era feio. morto ele ficava bonito?

aquele era o meu primeiro enterro e dale estrada, árvores passando pela janela do carro, às vezes

só mato.

 

– a estrada não termina? o homem que pintou a estrada deve estar tão cansado que nunca mais acordou. ou era uma mulher? por que sempre que penso em alguém que fez alguma coisa importante penso em um homem, primeiro? tipo deus. por que deus quer dizer dono do universo e deusa quer dizer uma mulher muito bonita?

a mão da minha mãe na nuca do meu pai dirigindo não me respondeu.

nem tão pouco o azul do céu acompanhando os carros até o fim do mundo.

dormi com o pescoço virado, pescoço solto me fazendo acordar na primeira lombada de entrada em são roque,

estava calor de derreter as listras do meu

shorts.

 

– posso tomar um soverte?

-agora não é hora, filha.

 

e a placa da sorveteria foi ficando pra trás tão

pra trás até

morrer pro meu olho curto.

chegamos no funeral.

do lado de fora parecia um parque. do ladro de dentro só deus sabe. meus pais entraram. eu fiquei de mão com a vó.

 

-quero ver o biso. – reclamei.

 

mas eu queria é ver a morte, isso

sim.

 

-você é muito pequena.

 

são cenas

Fortes pra uma criança, impressiona até a gente

ouvi minha vó dizer pra tia Susi que concordou de cara séria.

tentei imaginar o pior do biso

e o mais terrível que consegui foi ele com 1 laranja gigante na boca

roncando

de pijama

deitado no chão de bruços e a bunda sem cueca.

 

– tudo bem, não quero ver. – respondi pra minha vó.

 

e fui me distrair com o mato ali do funeral parecido com parque, brinquei de fazer comidinha, é pena eu não ter trazido o Tonho meu filho de plástico, espero que ele não esteja morto quando eu chegar em casa, se não

toca voltar pra são roque.

 

 

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