acidente

homens pendurados por cordas limpando o prédio.
Ela, ainda com sono,
tomava café preto na cama sem perceber.
na semana anterior um aviso no elevador dizia:
feche as janelas no dia
21.
ela leu pensando em janta e o dia
chegou que os dias
chegam mesmo,
o jato de água
tirava o encardido, foram anos sem coragem ou dinheiro pra limpar a imundice que a vida fez, o vento, a chuva, o sol
também
até que alguém de pulso
na reunião de condomínio disse:

– chega.

e ligou pra empresa que faz o serviço.
ela esqueceu que hoje
era dia 21.
saiu da cama a caminho do banheiro.
de shorts arriado cagou de peito à mostra
tatuagem recém feita no braço dizendo
o amor da minha vida sou eu
além de
1 livro
entre os dedos
quando 1 homem lavador de prédio pousou na janela aberta.
que barulho de água, ela achou que era chuva,
que cheiro de bosta, ele achou que era o rio
quando viu
aquela mulher
na privada: eles se olharam incrédulos.
estranhamente ela gostou de ser olhada,
muitíssimo já se sentia
molhada e não ousou se mexer 1 centímetro.
ele
gostou ainda mais, pensou
vou entrar,
foi a corda que não gostou de nada e

despencou.

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lugar de enterro

o biso morreu, telefonaram.

o biso

Morto

no fundo era alívio pra bisa cuidando dele há tantos anos sem tempo de cuidar de mais nada, a casa

um pó. não deu 3 meses e a bisa morreu também mas essa é a história só do biso.

o enterro

seria em são roque cidade diferente que eu nunca fui.

minha mãe fez a mala com pouca coisa pros poucos dias e ligou na escola pra explicar que eu não vou,

Morreu gente

as pessoas entendem o biso morto aos 90,

ninguém chorou.

tudo o que é vivo morre diz a primeira frase do meu livro de ciências na quinta série. então

tá todo mundo sabendo.

vivo o biso era feio. morto ele ficava bonito?

aquele era o meu primeiro enterro e dale estrada, árvores passando pela janela do carro, às vezes

só mato.

 

– a estrada não termina? o homem que pintou a estrada deve estar tão cansado que nunca mais acordou. ou era uma mulher? por que sempre que penso em alguém que fez alguma coisa importante penso em um homem, primeiro? tipo deus. por que deus quer dizer dono do universo e deusa quer dizer uma mulher muito bonita?

a mão da minha mãe na nuca do meu pai dirigindo não me respondeu.

nem tão pouco o azul do céu acompanhando os carros até o fim do mundo.

dormi com o pescoço virado, pescoço solto me fazendo acordar na primeira lombada de entrada em são roque,

estava calor de derreter as listras do meu

shorts.

 

– posso tomar um soverte?

-agora não é hora, filha.

 

e a placa da sorveteria foi ficando pra trás tão

pra trás até

morrer pro meu olho curto.

chegamos no funeral.

do lado de fora parecia um parque. do ladro de dentro só deus sabe. meus pais entraram. eu fiquei de mão com a vó.

 

-quero ver o biso. – reclamei.

 

mas eu queria é ver a morte, isso

sim.

 

-você é muito pequena.

 

são cenas

Fortes pra uma criança, impressiona até a gente

ouvi minha vó dizer pra tia Susi que concordou de cara séria.

tentei imaginar o pior do biso

e o mais terrível que consegui foi ele com 1 laranja gigante na boca

roncando

de pijama

deitado no chão de bruços e a bunda sem cueca.

 

– tudo bem, não quero ver. – respondi pra minha vó.

 

e fui me distrair com o mato ali do funeral parecido com parque, brinquei de fazer comidinha, é pena eu não ter trazido o Tonho meu filho de plástico, espero que ele não esteja morto quando eu chegar em casa, se não

toca voltar pra são roque.

 

 

inércia

 

chegamos em casa distraídas da rua que tinha sido boa com a gente que tem dinheiro pra pagar,

quando não tem é chispa daqui, vai espantar os clientes pelo amor

de deus. a palavra

deus

e cada um pedindo pra ela

coisas que vão do time de futebol ganhando até não deixa minha mãe morrer.

deus não se intromete, não foi ele que se inventou, fomos nós os colocadores de surdo no comando

de mão pesada
nos carros da cidade
vários adesivos de jesus.

chegamos em casa mãe e filha felizes.

o susto

é lento, ele vai minúsculo tomando os músculos até a cabeça.

chegamos em casa à passos curtos,

conversávamos de música sem muita profundidade quando vimos da porta

uma chuva ao contrário

no chão antes

sem gota, entramos incrédulas molhando as canelas o tênis

em sopa.

Aconteceu que o cano do filtro

Estourou

e bastou A casa ficar sozinha por 1 hora pra ceder o seco e virar Piscina com móveis que não sabem nadar porque nunca viram

tanta água sem ser na tv.

no meio disso nosso cachorro

imerso até a pata com os olhos querendo entender. quando nos viu

pediu com o corpo me tira

daqui.

Abracei ele, sequei com toalha e o coloquei no sofá. Se tivéssemos demorado um pouco mais

o sofá seria túmulo, cachorro pequeno não alcança lugar seguro.

minha mãe e eu nos olhamos sem coragem

dizendo

meu deus em pausas e deus

de fone.

tem terra tão seca que chega a se abrir

se há sede venha em casa com balde e sirva-se, moro na alameda

bacuri.

Respiramos fundo,

Abrimos os ralos,

Pegamos os rodos,

Peguei também um pano e me pareceu tão bobo

ter um pano pra secar o mar.

foram horas

intermináveis

de trabalho.

rimos desesperadas durante e também ficamos em silêncio.

quando o telefone tocou Não atendemos, diríamos o quê? que vazou um

cano alagador de apartamento nos escancarando o quanto é frágil existir?

a pessoa do outro lado diria Caramba ou qualquer outra coisa que não nos ajudaria em nada e desligaria rápida com medo de que a chamássemos para o Trabalho Duro da tarde

úmida.

Terminamos que as tragédias também terminam.

olhei a casa seca com respeito aos braços meus e da minha mãe.

sem palavras nós juramos nunca mais sair de casa sem fechar

o registro

ainda que acreditemos

em deus cada vez

menos.

a morte de um homem comum

o morto
mortinho da Silva
esperando visita no caixão, acompanhado daquelas velas tão altas e
solenes,
o padre em breve
rezará missa dedicada a ele
em memória da Vida
de um homem bom.
– e como ele era
Engraçado, disse seu chefe num riso amarrado, o choro
caía da boca de quem o morto
nunca
nem imaginava
que gostava tanto
dele assim, as pessoas estavam sinceras e bem vestidas em seus pretos saudosos de cores que só existiam quando
ele ainda
exista também.
e depois de uma noite inteira e
metade de 1 dia
inteiro, 4 homens
Fortes
em meio a aplausos
pegaram seu caixão pela alça com respeito.
quantas flores
lindas com mensagens no centro,
em volta dele
o cheiro
de Terra
fresca, homens suados trabalhando com pá
deixando
o cheiro
um pouco mais
Intenso e bem diferente da poluição diária na cidade grande:
aquele
era o melhor dia de sua vida.

 

sufoco

no parto

depois dos longos meses gorda engordando o peito, o leite, as coxas e o sexo ficou esquisito

eu imaginava o pinto na cabeça do bebê e me dava vontade de chorar.

Parávamos,

fomos parando até que

desistimos.

agora vai demorar uns três anos pra gente transar em paz de novo mas acontece de se desapaixonar no meio disso uma vizinha

Simpática,

no meio disso a professora da academia, no meio disso

seu sucesso profissional, viagens,

cidades com mulheres bonitas de um jeito que você nunca viu. pra mim

Não,

estarei ocupada cuidando da criança que fizemos juntos, 1 criança

que cresce e pode morrer antes de mim, pode morrer depois. pode ser um monstro

deformado por dentro ou por fora, vou cuidar de todo jeito daquele amontoado de pele que olhando de longe dá um ser

humano que não pediu pra nascer e reparando assim de lado

não é que o danado parece um pouco comigo?

Logo

ele virará a língua que fala e pegará uma gripe daquelas que eu também vou pegar. depois ele vai querer roupa, refrigerante, amiguinhos em casa e eu

Morta

com a teta rachada que nunca mais viu outra boca se não

A do bebê.

um dia amamentando

o bico sentirá tesão.

a mãe discreta

colocará a mão no ventre e

gozará rápida

com a palma toda: o bebê de sono no rosto nunca saberá o que fez.

 

– não quero ser mãe.

 

te respondi pensando em tudo isso depois que você me perguntou daqui uns anos quais são meus planos.

nos seus olhos eu vi a Grávida dormindo

de lado na cama esquecida, o marido duro vivendo normalmente seus anseios de pica.

 

– Não,

não quero.

 

Daqui uns anos talvez você mude de ideia, te ouvi dizer.

mas no Talvez é tanta coisa que cabe,

se vamos brincar de E Se

talvez eu morra antes

talvez você

talvez eu ganhe um cachorro e me ocupe, talvez eu fique famosa e não tenha tempo porque o tempo passa biologicamente pro útero ou talvez

eu decida

que prefiro mulheres no amor e adote uma criança feita por 2 pessoas que não aguentaram o Tranco e

desistiram. há também a possibilidade

de eu não mudar de opinião.

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Sagrada Família

acompanhando uma senhora que deve ser

A mãe

ela chegou de verde e tetas

caídas

na missa de domingo 11

da manhã.

comungou, cantou pelo telão os salmos musicados sempre os mesmos, vire e mexe olhava pra trás

Procurando

e ninguém chegou, a boca

aberta

os dentes em vigia.

o menino do banco de trás perguntou qualquer coisa e o corpo dela ficou um gozo querendo muito

amar alguém.

se transasse quando transasse,

a entrega teria rosto de bicho, assustaria os distraídos que fazem sexo só porque se faz sexo desde os macacos, então

ela chuparia o pau com fervor de a última coisa que estou fazendo antes de morrer é isso

e o susto na cara dos esquecidos da premissa:

Só devemos fazer

o que achamos de verdade que devemos fazer e não generalizadamente fazer as coisas, como ter

1 filho, por exemplo, a cara deles

seria como

Nascer de novo.

na missa a calcinha dela era grande pra guardar a bunda

enorme, deu pra ver pela sombra

do elástico

os buracos ansiosos

por dedos e músculo, no fundo faz falta um pouco de atenção.

passar a vida indo na missa sem casamento,

a mãe cada dia mais velha e mais pesada de dar o braço até o banco

depois até o carro e aquelas presilhas pratas

prendendo o cabelo quase morto é dose,

falta força

pra seguir.

se conhecesse alguém que desse 1 chance, ela

faria tudo

injetaria

pularia de para

quedas, transaria com homens e mulheres, ficaria nua na praia numa corrida disputada rumo ao mar que

resultaria em

queda na areia e chupação, ela seria

revolucionária e Justa, uma mulher de peito na capa de uma revista séria dizendo:

 

-cu.

 

ela tinha sonhos,

aquela garota, era

triste porque precisava de companhia para

ser grande, Sem

ela cutucava o nariz se esvaziando mais.

Olá. – pensei em dizer para ela.

vamos mudar o mundo, você é feia eu também, não temos

nada a perder. podemos sair daqui para um bar de cervejas importadas, transar como fazem os bichos,

comprar um trailer e sumir por terras, mas só consegui dar a paz

de cristo

na hora que o padre disse:

 

-podem dar as mãos.

fome

conversávamos sobre homens bonitos, dei google
pra te mostrar como estava richard
gere 30 anos
depois: segue incrível, o danado, envelhecidamente incrível.
enquanto isso
a Formiga ou
um pelotão delas
invadiam o frango
a abobrinha que você tinha recém preparado pro almoço e que descasavam nas travessas esperando a nossa boca depois o estômago já que estavam mortos e não tinham muitos outros

lugares pra ir.
as Formigas
mergulhavam no nossa comida enquanto richard nos provava em fotos
o quanto um olhar grisalho pode ser potente,

– uhum.
dizíamos.
-nossa,nossa.

e as formigas esbaldadas no sal
dos alimentos.
fomos nos servir e finalmente percebemos
a ocupação diabólica e mínima da pequena multidão.
homem não come o que outros bichos comeram, é uma questão de:

-ética.

eles são
sujos, andam por esgotos que nem sei,
o homem também
mas usa tênis.
com razão você jogou
tudo no Lixo, a abobrinha
o frango
o arroz
depois chorou pelo trabalho que teve por nada e também pelas crianças da áfrica e do
Jabaquara, eu
não chorei. há tempos que entendi e inclusive já te disse,

 

a vida é inútil.11751760_878253368931093_4173962177432603008_n

o contrário

vou me matar caiu em mim logo que abri os olhos no domingo de manhã bem cedo dentro da casa de praia do carlos que convidou a gente na maior alegria mas

 

 

aquela Vista

 

 

era perfeita para um assassinato, a pedra

no centro feito

Lápide

o mar abraçava com cara de

rio e o mato

em volta cheio de flores tão pequenas que eram constantemente pisadas e não morriam,

pé pós

pé levantavam sempre um pouco mais tristes e

só.

vim pra praia de moto

e vou

acelerar minha moto até o penhasco só que não vou desacelerar quando acabar a terra, vou seguir empenhada até o mar.

espiei meus amigos dormindo. a noite de ontem tinha sido boa pra ser a última então fiz

a loucura

um frio

na barriga acho que a moto também sentiu.

me machuquei bastante na Queda mas não morri.

flutuei na água até chegar

na pedra, a moto solta

no mar, acho que

a perdi.

sentei e fiquei pensando no que diria quando os meus amigos acordassem, quase ri,

mas eles

não acordaram

houve na casa um vazamento de Gás.