94.7

deitada na cadeira de dentista eu via

a luz

e o homem que cuidou de mim por 20 anos com máscara e aparelhos

pratas que parecem

brocas.

dentes são ossos que nasceram tortos e todo mundo vê, os meus especialmente tortos, uma genética

terrível,

eu tinha espaço entre os da frente

tártaro

cáries

fazia flúor

molde eu quase morria de engasgo e dor que não dói exatamente agudo, é mais como um incomodo insuportável que você vai suportando,

selante

obturação com uma luzinha azul que saia de outro aparelho prata um pouco mais robusto lembrando muito 1 caneta chique, além dos sons

das maquininhas,

respiração ofegante minha

e do dentista com o rosto perto demais pra que eu sentisse qualquer conforto deitada naquela cadeira de

couro.

ao fundo

Simply Red na rádio de sempre.

 

– cospe.

 

eu cuspia

às vezes sangue

da boca que reclamava por estar sendo tão

assediada em sua natureza

bruta. também a mão dele

nem de longe

era das leves,

tanto que anos mais tarde ele mudou de profissão, montou uma loja de moto.

o que ele mais gostava eram os encontros de Harley

pelas estradas do interior do brasil. se os dentes aparecessem em sorrisos de amigo ele não reparava em

simetria, ele ria

junto

e seus próprios dentes já não eram bons como nos velhos tempos que

de tanto tempo que passou ele

só lembrava quando

ouvia a rádio

antena 1.

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