a dona da loja não é dona de nada

a loja de sapatos

agora

Vazia,

os sapatos sempre foram

mortos, sem ela pra vender eles estão ainda mais

pálidos.

não tem pé possível que compre sapato numa loja

fechada com porta de

vidro, se você colar a cara

verá que o espírito

do couro é uma cobra vingativa, alguns cintos, algumas bolsas, as luzes acesas só da vitrine

lembram uma promessa de volto

já,

o caixa

ainda com dinheiro mas pouco, a loja

não ia muito bem, agora

pior assim fechada por tempo

indeterminado porque uma doença como o câncer

mata aos poucos e se não matar,

mata aos poucos

do mesmo jeito.

trabalhar em vendas tratando tumor no estômago se tornou impraticável,

ela tentou um dia e voltou pra casa antes mesmo da hora do almoço.

deitou na cama e ficou deitada, até hoje.

ela nesse estado

só poderia trabalhar em música tocando um

instrumento na sacada do seu prédio pra molhar

a rua, o violão inerte na dor de ficar careca também por dentro,

remédio trata e mata, simultaneamente.

em casa

ela tem assistindo televisão. escolheu atender o telefone,

manter o bom

humor. pensar que sairá dessa apesar dos seus

90 anos recém chegados, eu também

acho

que ela sairá, todos aqueles sapatos esperando

o que será

deles

depois que ela

morrer. se não for agora por câncer,

pode ser em 1 ano por gripe ou

por queda no banheiro e o osso da bacia

desmoronará porque ser velho é esfarelar ou

morrerá dormindo

com a janta quente ainda na barriga.

a luta pela sobrevivência no máximo atrasa o inevitável.

lutar tão bravamente pelo imutável é ridículo e bonito por ser ridículo.

até hoje

não se teve notícias de alguém que esqueceu de morrer.

até hoje

a morte não errou

ninguém.

os sapatos

não sabem do câncer, não sabem

que estão mortos, que seu couro veio

de um bicho morto e

nu.

a notícia de tumor ela preferiu não contar também porque não saberia

por onde

começar, a verdade cabe numa frase que não cabe

na boca.

os clientes

estão pensando que ela está passando por dificuldades financeiras e, quando alguém está com dificuldades financeiras, ninguém manda flores.

da solidão de ser sapato, tão pouco alguém

sabe, como quase tudo que há no mundo e não

grita.

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