não fui trabalhar

chorei assistindo um programa de tv, nascida há 30 anos

ainda passo por vexames

secretos e tiro

uma selfie

mentalmente

pra lembrar que sou

ridícula, daqui uns anos

olharei a foto e ficarei triste

por eu

ser eu mesma e não haver outra

saída possível pra deixar de ser eu e ainda assim, seguir vivendo.

era café da manhã

com o dia todo pela frente e pensar nisso

me fez chorar ainda mais. a vida é um rio

interminável que corta

a floresta, me matar

não faz meu estilo, não sei enfiar na carne algo que machuque a carne, só metafisicamente sei fazer isso

muito bem, fisicamente uma faca

e meu pulso

não se grudam, antes

solto a faca

no chão

e tiro um cochilo porque estou exausta.

a moça da tv que me fez chorar tinha sido sorteada entre milhares de moças,

uma delas podia ser eu

caso eu tivesse mandado carta pro programa mas até isso

dói.

expor

dói. me expor pro pessoal da produção.

Chovia. a moça da tv conseguiu a viagem dos sonhos com vã fretada,

ficou num hotel com

o marido e os dois

filhos a família sorrindo pra fotografia e pra câmera

do programa, o brasil

inteiro

assistiu.

perguntaram pra ela, o repórter:

-como você está se sentindo?

e quando ela foi responder

engasgou, pôs a mão no olho, não conseguiu falar e foi sincero.

aí meu pão travou na garganta, caíram minhas lágrimas dentro do café.

eu não queria chorar, estava odiando não conseguir parar de chorar como tudo, também não quero amar e de repente

já estou amando, vou me atrasar pro trabalho

comendo devagar assim e chorando, meu chefe vai dizer:

-isso são horas?

são muitas

as horas

na mesa

de trabalho e o mundo lá fora, esperando, tem o que

no mundo lá fora

quando há tempo

pra ver? quando eu tenho tempo pra ver, nada

no banco da praça acontece na rua parece que tudo escorre e tudo é perda mesmo quando estou fazendo

o que imaginei que gostaria de estar fazendo, mas ao fazer

bate aquela sensação esquisita de ainda estar viva justamente nesse ano, exatamente nesse corpo que sou eu, as pessoas

sabem meu nome, me chamam, então eu existo ao mesmo tempo que sou

invisível no meio

da multidão.

imaginei meu telefone tocando:

-alô

aqui é o Mauro diretor do canal de televisão, você ganhou uma viagem

pra lua.

a Lua da minha janela é aparentemente comestível.

de perto

com as suas cavidades cinzas

não deve ser tão

bonita

quanto vê-la com o carro em movimento.

 

lamaçal

num dia triste estou de saia
e levantaria
a saia
pra você.
quero resolver tudo com sexo, tiro fotos
fazendo pose,
uso jeans e nada em cima como fazem as gatas de revista, eu
mais feia.
mando todas pra você que me responde:eb826c7245d45a3043e9ae05c7c42bd5
-vamos
marcar uma cerveja, me encontra na augusta.
eu quero mais
que te encontrar na augusta eu quero
Choro
caso eu não tope, quero morte
caso eu não
atenda,
eu quero que você me almoce
e me pague
a cerveja,
eu quero explorar
seu corpo dormido, me limpa
num banho de
vinho,
me chupa o pelo
e a pele, te dou ordens vestida de Salto e digo que estou
farta
do amor sendo
parte
da vida das pessoas que se trombam e ficam nuas pra depois
vir o próximo.
o próximo.
o próximo até
morrer.
eu
quero estacionar em você com
a bunda,
dar ré
na sua cara,
essa tristeza estranha é saudade
bruta
que sinto todo dia e você um morno. quero resolver te mostrando
minha calcinha
branca
de seda,
põe a mão
nesse tecido,sente o mel
na ponta
da unha, passe a palma
demorada
na renda e depois
por dentro
seus dedos
numa curva que me entra e
afunda, vou
gozar.

 

as moradoras

saí de casa e deixei minha mãetumblr_m89fgumwNK1rywyu8o1_500

lá,

hoje ela estava especialmente triste

pela vida

que escolheu.

meu apartamento não é grande mas com ela sozinha nos cômodos vira uma fazenda que morreu,

sobrou

o boi

que a guerra

esqueceu e um pouco de grama que grama não cansa, tendo mato

o boi

não morre.

antes de sair elogiei o desenho que ela fez, um sofá tão sincero que deu vontade de sentar na folha sulfite.

ela me ouviu devagar com o rosto

descrente.

saí sem tentar mais porque estava atrasada e doía, sempre doía deixar minha mãe

sozinha, ela é

de porcelana.

minha vó

tocava piano e largou tudo por amor. teve minha mãe e mais 6

filhos,

o trabalho foi tanto que a fez esquecer dos filhos, minha mãe

precisava muito, não teve e envelheceu, ainda criança já usava bengala pra ver

a cidade, achava tudo esquisito e mal feito inclusive os seres

humanos.

transou porque sexo existe mesmo quando estamos na pior. ficou grávida de mim

sem pai e ficamos

nós

na casa que tínhamos, juntas cada uma num canto. geralmente a tv ligada. geralmente o corredor aceso.

saí,

minha mãe trancou a porta girando a chave até o máximo, ela morre

de medo

de sofrer

assalto.

quando voltei 8 horas da noite ela estava dormindo, na pia

uma pilha

de louça,

minha mãe cozinha

pra pessoas desconhecidas e isso

faz muita bagunça. arrumo olhando pela janela.

de domingo

minha mãe vai à missa e de domingo a nossa

Rua fica um túmulo, de vez em quando

um carro, raramente uma moto. ainda mais raro um sorriso em casa que seja longo, nenhum riso nosso é grande

o suficiente para ser

livre, talvez se tivéssemos visitas e a visita risse

funcionaria. quem chega numa nova terra não sabe

nada

da terra, por isso

os milagres.

mãe preta

eu chegava correndo da escola,
a mochila largada
no corredor
dificultando, não de propósito, a passagem dos próximos
que passassem, eu
tinha pressa, só pensava em contar pra dona
ruth
a piada que ouvi no intervalo, ri até a aula de matemática, só parei quando levei 1 bronca e senti
Medo: guardei o riso na palma da mão.
eu queria fazer
a dona ruth rir assim mas
sem o medo,
a risada dela tinha os dentes mais branquinhos e a pele preta, macia, a bunda
grande, a voz
bem doce. eu adulta
quero ser bonitametropolitan-diamond-moquette-hp-banner
igual ela faz.
dona ruth passava o dia
passando roupa, vapor no rosto, o braço firme.
minha mãe queria engomadíssimas as camisas, as
calças, quando sobrava vinco
a mãe ficava
Brava.
mandava passar de novo num grito como se calça importasse mais
que perna.
dona ruth tinha veia grossa atrás do joelho, o cabelo preso
a missa
da noite a coisa mais séria. ela falava pra minha mãe:
– a menina não vai fazer catecismo?
fiz
durou 2 anos
o padre apareceu 2 dias, queria mostrar pra ele que eu sabia tudo de missa.
beijei sua mão de joelhos e ele
deixou. contei pra dona ruth. ela disse que minha boca era santa, olhei no espelho e senti que sim.
eu pensava muito
na dona ruth no colégio, ia mal na prova porque não lia enunciado.
chegava da escola chamando:
-dona Ruth,
quer ouvir a piada do Joãozinho?
eu contava sempre a mesma e ela ria
todas as vezes,
também pra mim. nunca dissemos te amo mas sabíamos.
tinha dia que eu pegava no sono na cama da minha mãe que a tábua de passar roupa da dona ruth ficava no quarto.
antes de cair
totalmente no sono, quando eu estava muito mole e quase
lá, ouvia
a dona ruth cantar uma música da terra
pra mim.
eu lutava bruta pra não dormir, queria muito
ouvir a música até o fim mas
não tinha jeito,
a voz
dela
era 1 berço.

no bico do peito a cabeça de uma criança

um bebê nasce sem saber o que foi o

holocausto,

alguém precisa contar e isso não é garantia de que ele

saiba, saber não

é nota

informativa no colégio, a escravidão, a primeira guerra, a segunda,

os ditadores todos em itens nas páginas

dos livros que vão até o governo

lula.

daqui 50 anos,

até o governo do futuro presidente que, por hoje, ainda não sabe

se presta

vestibular de história ou se vai

buscar maria no rio de janeiro e fazer um

filho

nasce, é preciso contar pra ele tanta coisa, a maioria

Triste, o ser humano matou em volume matando em essência, matou pelos cantos 1 pai

1 cachorro

1 pássaro

e também a África

também a Amazônia

também o boto

cor de rosa, também o professor.

um bebê nasce e é preciso contar devagar pra ele sobre a terra, o futuro

espera

numa concha.

um bebê no mundo também precisa saber das histórias bonitas, do som

da gaita cabendo na rua,

do dedo no piano e o piano de calda que a vó

vendeu pra construir a quitanda que ficou de herança mas agora acabou,

ele precisa saber

da flautinha brinde de revista, que a biblioteca

existe

antes,

que antigamente telefone em casa era um rico. ter linha e vender a linha

era como ter um carro

e vender o carro. por séculos, a bicicleta é uma menina.

um bebê nasce sugando leite,

ele precisa saber que dar a teta pode sangrar de noite para algumas mães, um bebê nasce com ruga

na testa.

quando chove o rio sobe tão alto que vira Grito, os carros

estão com vidros

fechados,

na marginal tem pedra que bandido coloca na rua pra furar pneu e se você cair na armadilha

abrirá o vidro e perderá o carro, talvez

a vida, é melhor seguir

dentro do carro

até o fim.

falta água

mas sobra água invasora de sobrados, de barrancos, nos barracos o

futebol

da criançada

teve que parar, por hoje.

amanhã o campo seca, disse o menino miguel.

aos bebês é preciso contar que a casa

da gente

virou casas uma em cima das outras e isso é antigo. algumas pessoas se recusam a vender seus terrenos pra virar apartamento mas as construtoras dizem de milhão e convencem,

o dinheiro deixa

o corpo louco pra grudar na nota.

fica o céu de teto, nunca faltou céu no planeta terra

nem igreja nem açougue nem academia.

quando um bebê nasce

é preciso contar pra ele que bebês

morrem

e o caixão

é caixinha.

ainda assim

quando um bebê nasce

um trevo brota

no peito do país inteiro.

depois que eu saí o segurança do mercado tirou elas de lá

fui comprar pão
além de algumas frutas, minha geladeira estava começando a ficar vazia e isso
é um sinal de que eu
ainda não
morri.
no corredor de entrada do mercado
1mãe
e
1filha
sentadas no chão me Pediram dinheiro,
a mãe com a boca falando pra eu comprar seus panos de prato e no fundo nós duas sabíamos que eu não precisava de pano de prato, a filha
com os olhos, os maiores
do mundo.
não dei. menti:
-não tenho.
e o peso do meu corpo aumentou em 300 quilos quando eu disse isso,
andei pelo mercado devagar.
ao invés de pão e fruta peguei detergente, couve e leite eu estava muito distraída pensando no meu
Não
sempre vindo antes de qualquer sim possível.
paguei com cartão minhas compras inúteis, 4 litros de leite na geladeira de uma pessoa sozinha estraga.
o dinheiro
eu dei
pra elas,
quase não achei os 50 reais escondidos em algum compartimento da minha carteira grande
e no Susto de não ter o dinheiro que eu imaginei que teria,
novos 300 quilos
se instalaram no meu corpo com sede de fazer alguma coisa, agora deu sede,
era como se 2 pessoas diferentes
morassem
em mim.
eu sei que são mais, pelo menos umas 30. exclusivamente naquele momento
pareciam só
2:
a que não deu o dinheiro antes
e
a que estava fazendo de tudo para achar o dinheiro agora.
a segunda
era um touro.
Achei.
entreguei pra mãe dizendo:
-espero que ajude.
ela sorriu:
-tudo ajuda.
e me ofereceu os panos de prato.
expliquei que não seco louça porque quando criança eu secava muita louça e mal tinha tempo pra brincar, agora eu deixo
a louça secar perto da janela, eu disse também que a filha dela
era muito Bonita com os seus 3 ou 4 anos.
a mãe me contou que a pequena chamava Giovana Bianca,
2 pessoas em 1 feito eu
naquela noite
esquisita.
sentei no chão com elas. fiquei da altura da pequena de pé que estava comendo a bolacha que uma moça tinha dado minutos antes de
eu
também
dar, não sei se Ajuda porque ajudar alguém não é em 5 minutos, mas
pelo menos
alguma Atenção.
Giovana Bianca comia e cantava uma música que eu nunca ouvi,
acho
que era inventada.
repeti:
-que rosto, o da sua filha.
a mãe disse:
-eu sei. tô vendo de inscrever ela num concurso de bebês.
e me contou também que a pequena era mais do que isso,
que ela
era muito Esperta, quando o pai batia
ela corria pro sofá dizendo alto:
-o papai bateu em mim, o papai bateu em mim.
pra casa inteira ouvir.

 

 

o melhor emprego do mundo

te escutar é o começo da nossa
transa,
sua voz entra em mim, afasto
o cabelo
da orelha, faço um
coque quero
tudo, todos os seus sons você me diz:
-dormi tão bem.
você me diz:
-vai botar aquele vestido?tumblr_n1x7ubvKkw1ryt4kpo1_500
você me diz:
-coloca sem calcinha.
e o meu ouvido aberto
abrindo, por você.
a cama
depois
é acréscimo, o chão
é gelado,
sua bunda
Trabalha, eu assisto de dentro e de fora o nosso amor.
5 minutos depois fizemos de novo
no elevador
só porque você me disse
ao pé do ouvido,
-bom dia.
o porteiro sabe. a partir das 9 ele fica de olho na câmera do bloco B e fecha
a janela
da sua
cabine.

 

a hora mais tarde

eu pegava ônibus à noite com quase ninguém na rua exceto os que muito se atrasavam e corriam de guarda chuva para os seus

carros, apertando na chave

o barulho que abre

a porta.

eles aceleravam sem mim e na noite pelada se escuta tudo

até o barulho do rádio ligando

num programa da madrugada em que se ouve

jazz.

eu seguia esperando o último ônibus antes do hoje virar

ontem,

absolutamente sozinha exceto por um cachorro

dormindo com seu dono encostados no portão da loja de calçados Alaor.

quando meu ônibus atrasava me dava medo de não ter casa pra dormir,

onde?

eu ficaria, na frente da padaria que só abre às 5? até lá

que Exposta, eu fechava

meu casaco

de botão.

casa de amigos eu não tenho,

dos meus amigos eu fugi de todos, fomos parando de nos falar e a culpa foi minha, eu não atendia

nenhum telefonema. quando trombava com 1 na rua eu dizia:

-vamos marcar.

e seguia

não atendendo.

no dia em que o ônibus mais demorou estava uma ventania comigo de saia.

outono pode ser quente até às 6 da tarde, de noite

o tempo vira, eu sabia que não era

verão. coloquei saia porque quis, todo mundo se tortura como pode e é discreto.

depois de quase 1 hora de atraso meu ônibus surgiu no começo da rua com o seu farol

Alto, o seu

tamanho. pensei,

e se eu não levantar a mão

pra pedir que ele

pare?

e se eu ignorar

o último ônibus da noite e simplesmente ficar

aqui

no ponto, já pra amanhã?

algumas horas passam rápido ainda que passem

devagar.

levantei

a mão

com o ônibus quase indo embora, não sei se por escolha ou

reflexo. quando entrei

pensei na minha mãe. a gente pegava ônibus juntas no ano de 1992.

depois melhorou a vida

e minha mãe comprou um monza. fazia feira comigo no braço e as frutas no porta mala do semi

novo.

mas quando a gente pegava ônibus juntas, eu ficava no colo dela pra ocupar só

1 banco

e o cheiro que eu sentia era de terra depois da chuva,

cheiro de mãe limpa,

cheiro de pele que usou sabonete de manhã mas já era tarde, quase 11 horas da noite e o bebê

na rua.

minha mãe sempre teve medo da noite, piorou depois que eu nasci. hoje ela mal sai de casa, não sei se ela

saberia, eu saio todos os dias e

não sei.

meu ônibus

não me levava exatamente de volta pra casa, me levava Perto e isso pra mim já era suficiente para eu me sentir abraçada pelo transporte público.

eu sei

que é por dinheiro,

mas não estou falando do sistema. estou dizendo do ônibus como invenção pra levar muita gente pra mais

Perto.

quando alguém pega ônibus comigo é sinal de que temos algo em comum. muita gente já pegou ônibus comigo, somos

Irmãos e não temos 1 rosto, a cidade tira de nós em troca da máxima de ser

Massa.

eu voltava pra casa, diariamente, apesar de

Tudo. alguma coisa importante

eu deixava lá, por isso

eu voltava muito,

voltava todos

os dias, voltaria ainda que fosse

mais longe

que o japão.

os lugares contam histórias e as histórias que os lugares contam

contam da gente também em números, 20 milhões de pessoas cabem num ir e voltar. atualmente,

eu ando de carro porque meu salário

aumentou e sobre isso posso dizer que dirigir à noite

é

tão Só

quanto ser a única

criança

numa festa de marmanjos.

no dia do enterro dele eu usei um shorts vermelho com listras que eu nunca esqueci

meu aniversário de muito jovem foi na salinha especial de aniversários do kfc numa rua que ainda existe mas naquele tempo era maior porque

eu era menor.

meu avô

era muito alto e só usava calça

social desde manhã cedinho. pra jogar bola ele usava shorts social cortado.

no meu aniversário eu apresentei

pro meu avô

o bruno, 1 menino da minha sala que eu gostava e que não gostava de mim.

meu avô gostava

de mim.

e levantava meu vestido de marinheira preferido, eu vivia

no colo

dele e não sentia dor. nesse dia mesmo

do meu aniversario

meu avô me levou no banheiro e aconteceu

de novo. eu só pensava no presente

que ganhei do Bruno, um urso de abajur que eu guardaria pra Sempre

hoje em diatumblr_nipzyr2uGq1shq5vxo1_500

não sei onde

o urso foi

parar.

nos carinhos do meu avô minha Sombra olhava Atenta e eu de âncoras no vestido e a gola azul.

só senti Dor depois, quando descobri de fato

o que tinha acontecido

mas meu avô já estava

Morto.

quando visitávamos seu túmulo de pedra, eu sentia ânsia e uma vez

Vomitei. minha mãe achou que eu não estava me alimentando muito bem.

eu disse:

Sim,

não estou me alimentando

muito

bem e a minha boca

outro túmulo.

 

 

 

 

o batom na bochecha foi um beijo que eu ganhei da minha tia

olhar os adultos do alto do meu tamanho

menor

me dava a

impressão de que ia chover mais tarde se fosse a céu aberto, eu via

a cabeça deles

entre

as nuvens. dentro das nuvens têm água em gota esperando pra ser

chuva, me disse um dia a minha vó numa história que ela contou

especialmente pra eu

dormir. funcionou, pensar em nuvens tem a ver com morrer que tem a ver com dormir.

se eu olhasse um adulto dentro de casa o lustre

ficava em

evidência na minha cabeça, aquela luz e a pessoa Alta

falando comigo, fazendo uma voz

que não era a mesma que atendia o telefone contando sobre como está demorando a reforma do escritório, muito mais que o esperado e que merda

isso era, não vai dar pra viajar.

os adultos sabem que horas são e o que isso

significa, sabem quando usar o aspirador e não

a vassoura,

quando dizer

oi, abrem a porta, fazem

churrasco, mandam a criança dormir.

eu subia as escadas.

tinha visita na sala e no vão dos cômodos eu ficava

escondida.

os adultos falavam como uma música que eu nunca ouvi por isso não sei a letra e também não a entendo de pronto,

eles reclamavam

a maior parte do tempo, não usavam brinquedos mas

riam, bebiam seus

drinks, eu imitava colocando gelo no meu guaraná e fingindo uma conversa com as minhas

bonecas todas sentadas em conferência na cama.

eu pensava que quando fosse adulta e tivesse 40 anos tão velhos quanto um dinossauro, eu

não iria gastar meu tempo

conversando com outros adultos,

eu ficaria de frente para 1 criança assim ela me veria de baixo e junto ela veria

o céu

ou o teto que é o céu de uma casa e isso Sim é bonito,

alguém te fazendo levantar o olho a ponto de ver algo que é maior do que você e está

muito longe, mas

existe

tanto quanto teu peito que respira.

a criança quando eu for adulta vai me achar uma gigante.

mas se ela me perguntar qualquer coisa não aprendida na escola,

então

eu não saberei responder e serei uma tampa,

menor que uma tampa, os adultos

não tem respostas pra perguntas do tipo por que o cocô é sempre marrom não importa a cor das coisas que comemos?

os adultos não sabem

porque ninguém respondeu pra eles quando eles

eram crianças e a cabeça

morreu oca. hoje,

documentos moram lá.

quando os adultos abaixam pra falar comigo, eles estão

enrugados e com cara

grande então prefiro eles de pé e prefiro ainda mais quando eles não estão apesar que os adultos sempre estão porque eles moram dentro daquilo que um dia eu serei.