cantiga

tem um rio que passa na frente da sua casa,

as pessoas vão pra beira ver a cor

da água,

elas nunca enjoam

de ver.

venta muito nos dias mais quentes, quem tem cabelo grande

Prende. a sua mãe

prende. a sua vó.

eu relutaria

até vir a sua mão me fazer um coque sem jeito de quem nunca teve cabelo grande e por isso

que novo.

você pesca descalço. eu fico descalça em casa,

na cidade não

pode furar o pé andar por são Paulo sem sola e eu preciso do meu pé.

as comidas

que você faz são

frescas, uma panela grande pra 12 pessoas reunidas à sua volta.

enquanto a panela ferve você escreve um poema pra Depois, com a fome

não se brinca, as pessoa são rostos famintos

com olhos voltados pro prato que uma hora tem fim: quando acaba

dá saudade.

quem lava a louça é cada um a sua.

seu banho é de noite no rio.

suas roupas são as mesmas há anos. sua vó costurou 6 camisas e te deu. você não pensa que precisa de

7, você lava as camisas e é no rio que você faz isso.

a sujeira da roupa

o rio leva pra deus ver. quando a pessoa morre

deus sabe pela roupa o coração que ela

tinha.

uma vez no amor

você gostou de alguém que não se acostumou com a vida no mato de jeito nenhum.

eu também não me acostumaria se for pensar no meu lado cidade, moro numa rua com 4 árvores,

tinham 8 antes, mas elas morreram pra virar estacionamento, padaria e rua mais larga pra passar caminhão.

antes de eu nascer o mundo era mato.

devastaram pra caber mais bebês porque bebês crescem e ocupam muito espaço depois que crescem.

eu tenho um

lado

que quer quebrar

com tudo o que me é antigo, você me dá

a mão diariamente quando te conto disso.

antes de você voltar pra casa de avião

já que as nossas cidades

são de distâncias graves, eu

te dei tchau do carro, mandei um beijo com os dedos pela janela que você quase não viu, mas

deu tempo de ver e um sorriso largo

da sua boca me alcançou descendo a rua que eu não sei o nome

porque passei por lá só daquela vez, pra te

deixar. na cidade que eu moro isso se chama carona. na sua chamaria

canoa.

depois que você foi embora

São Paulo fechou algumas flores que viraram fábrica e a culpa

não é sua.

se você estivesse aqui, as flores teriam fechado

exatamente do mesmo

jeito, acontece que na sua Ausência

eu percebo mais.

 

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