soneto

tenho no braço uma marca de vacina

com 1 pinta

em cima, é feio

disseram na escola,

é esquisito.

peguei na gaveta do banheiro uma caixa de band aid pra deixar no meu quarto. usava

1 por dia

depois do banho

pra tapar.

era como se eu estivesse machucada

constantemente.

tenho gosto por suco de fruta inclusive nos bares, feito em liquidificadores anos

90 e eu pedia:

– quero suco.

– é

louca,

disseram meus amigos na mesa comigo,

-você não é criança.

comecei a pedir cerveja que ficava esquentando no meu copo até o fim da noite. discretamente eu jogava no asfalto

pra fingir que acabei

e sorria, compartilhando os assuntos

da mesa, nenhum importante.

um dia

me descobriram. Encheram meu copo de novo e gritaram:

-vira.

Gritavam:

-vira.

repetidamente, como se fossetumblr_ncqqqbipW51risgnao1_500

uma canção.

virei,

meu pescoço

queimou por dentro saiu de mim 1 Careta de

dentes

arreganhados: Recebi

Aplausos.

tenho um Gordo na axila, é

um volume

de pele

desproporcional pro tamanho do meu braço.

só uso

o cabelo

na frente do ombro mas um dia

esqueci e fiz

um rabo:

me pegaram. ficaram hipnóticos olhando meu Gordo querendo botar o dedo naquilo que, disseram, era uma

Anomalia tipo ter

3 peitos.

tenho um gosto por Manga.

antigamente eu dizia que não porque li numa revista que manga é a fruta grossa mais quente que existe.

Então eu comia manga só em casa, à noite, e sentia que

A Manga

era tudo pra mim, também porque eu sou

uma pessoa muito

Sozinha.

agora não

que entrou na moda manga na salada e todo mundo come inclusive

eu em público.

 

 

a Carga

no carro

o rádio

entre o banco do meu pai e o meu,

não só geograficamente o rádio embutido no meio da gente, também alegoricamente o rádio

divisor

dos que não falam, não sabem falar além das questões práticas como:

-você me pega às 11?

-pego, claro.

-bom trabalho.

-até depois.

conversas com horários não são conversas, são

esquemas.

estávamos rumo à escola pelo caminho mais longo só que

sem trânsito

por isso

mais rápido.

o carro do meu pai seguia em velocidade

60

70

80 querendo chegar.

ele segurava o volante com a mão morena e

grande que faz tempo

não sinto em mim. temos manchas parecidas nas mãos, todo pai e filho tem uma história engraçada pra contar: não lembro da nossa.

quando meu pai morrer

vou colocar a mão dele no meu rosto como eu gostaria de fazer agora e não consigo. na morte

a mão

estará gelada e disponível,

teve um dia que eu quis

beijar meu pai

na boca.

eu tinha 7

anos, acordei domingo com a casa

dormindo: fui espiar.

vi na cama meu pai inerte no sono de um menino com pijama de abandono,

deu vontade

de cuidar a boca dele

estava aberta, cheguei a sentir

o cheiro

quente

mas quando eu estava quase

Desisti.

Algo entre

a minha boca e a dele

me travou, deve ter sido o fato de que ele

me Fez e esse

é o ápice, não há contato físico que seja mais profundo do que nascer por culpa de alguém.

no carro

o rádio

sem pausa,

a pausa nos meios de comunicação como a tv

significa que

alguma coisa importante deu bastante

errado, também na vida é assim. o silêncio

deixa um exército

Nu.

o rádio dizia:

o homem atropelado na marginal

atrapalhou;

o dólar tá tão alto que agora mora no céu;

sexta feira no cinema estreia o filme Bruta;

sem luz no bairro da Luz;

você que é sagitário

abuse

de tons

azuis;

e meu pai absorvente

das notícias zero úteis, e eu

mascando goma

tentando fazer

uma ponte

que me levasse

pra depois

do país que fica entre nós dois, um lugar em que pais e filhas mudos

podem conversar um pouco

como se cada Tarde só terminasse quando a gente quisesse que

sim.

em distâncias físicas meu banco do dele não dava 1 braço.

em distâncias filosóficas era o anel de Júpiter

esticado.

com a goma eu só consegui fazer uma bola que estourou

inesperada

e grudou no meu cabelo, foi um saco

pra tirar.

meu pai não viu

nem meu chiclete estourado no rosto,

nem a minha sede de fazer 1 ponte.

cheguei na escola. Saí do carro. se por acaso eu não o visse mais

nunca ainda

eu tinha o visto.

 

quem tirou a foto deve ter sido um amor e o amor acabou mas a foto foi antes do amor acabar

no retrato amarelo pelos anos minha mãe vestia um jeans.

a cor do tempo passando é

amarela, por isso não fico bem de blusa amarela, tenho medo de envelhecer mais que de morrer. prefiro azul,
morrer é azul.

o jeans

da minha mãe

era curto, ela estava em cima do muro da casa da minha

vó em

tijolos que eu não conheci, só ouço dizer que é a casa da Narcisa, a vizinha que alugou

pro meu vô ou era o nome da rua, Narcisa, não sei

tem coisas que eu não me lembro

mesmo tentando muito.

no muro baixo minha mãe sentou pra sair na foto com o rosto fazendo um charme que eu nunca vi

jogando o cabelo pra trás,

longos

cabelos

morenos, no máximo 18 anos ela tinha.

fiquei olhando tanto aquela foto mesmo depois que guardei de volta no álbum, olhei da minha cabeça,

a foto grudou na testa por dentro, um imã.

a minha mãe não morreu mas morreu daquele jeito que era, ela passou pelo corredor me perguntando:

– o que você tá fazendo aí?

como se soubesse

o que eu estava fazendo e não quisesse

que eu visse o estrago do tempo na gente porque aquilo de mudar tanto era muito

assustador. não vai acontecer comigo, é o que todo mundo pensa.

passa os anos.

Acontece.

tô vendo a mulher que você era, eu queria dizer e não disse.

ao invés, falei:

– não tô fazendo nada, mãe. é domingo.

a expressão dura que habitava seu rosto de hoje me deu vontade de parar de ouvir música pela vida inteira, minha mãe sempre borrava

a maquiagem

pelo choro fácil de dor e de sono mas não no retrato. lá

nem parecia que a minha mãe seria capaz de brigar com alguém pra depois chorar. na foto ela era 1 Ilha

deserta com seios quietos
nunca antes
mamados, naquele frescor de ser jovem no

osso atumblr_static_bparlij18408oso8kkww0wgco.gif

pele

passada

a ferro,

me olhei no espelho pra ver se encontrava 1 pingo da velha mãe em mim: não, nada.

aquela mulher no muro

mudou pruma rua que derreteu.

quero saber o nome da última pessoa que a viu tão flor, a gente vai mudando aos poucos

o resquício existe

não acaba tudo de uma vez. preciso guardar nos olhos aquela candura da foto

vou dormir eternamente sem morrer, vou dormir fingindo acreditando que durmo igual o menino ontem no banco roncando

de mentira tão real.

vou me trancar num vestido justo pra não me escapar esse

vento, essa sede de

chuva, esse riso leve que mostra um pouco do dente mas não tudo e depois

todos os dentes, é um começo de sorriso

e por ser começo é bonito

porque traz

esperança.

minha mãe esqueceu como sorrir assim. ela diz que a culpa é da asma,

o tempo também

é culpado mas o nome

da culpa maior é A Perda e Jeito que a gente lida com ela

um nome comprido, de fato, preciso anotar

pra não esquecer.

dor

na rua padre miguel casas improvisadas sem portas.
os carros passam
não param
as casas não andam e não tem
teto firme,
o teto frágil
é colocado por cima de madeiras apoiadas umas nas outras que lembrariam paredes caso eu tivesse muito bêbada, não estava.
a cama
era no chão de asfalto
num colchão tão velho que parecia lençol, deitar nele
era deitar duro, talvez só emocionalmente um pingo mais macio.
tinha 1 carrinho de supermercado pra guardar o quase nada que se guarda por ali naquelas casas
que todo mundo vê mas
finge
que não vê.
as pessoas
moradoras
estavam conversando na beira
da rua , fumando um sossego, uma falta de querer algo mais que tinha cheiro de
me conformei, por fora
ninguém estava chorando, até vi um homem
rindo
pra mulher de cigarro enquanto ela contava um caso.  large
quando passei com o carro já no fim da vila
vi uma gaiola
pendurada no muro
do fundo da última casa,
um prego segurava a gaiola com pássaro
dentro segurado por grades pintadas de branco mas eram
de ferro. o choro dele
tampouco eu ouvi e virei
a esquina da
presidente vargas que eu tinha um problema grave
no banco
pra resolver.

cantiga

tem um rio que passa na frente da sua casa,

as pessoas vão pra beira ver a cor

da água,

elas nunca enjoam

de ver.

venta muito nos dias mais quentes, quem tem cabelo grande

Prende. a sua mãe

prende. a sua vó.

eu relutaria

até vir a sua mão me fazer um coque sem jeito de quem nunca teve cabelo grande e por isso

que novo.

você pesca descalço. eu fico descalça em casa,

na cidade não

pode furar o pé andar por são Paulo sem sola e eu preciso do meu pé.

as comidas

que você faz são

frescas, uma panela grande pra 12 pessoas reunidas à sua volta.

enquanto a panela ferve você escreve um poema pra Depois, com a fome

não se brinca, as pessoa são rostos famintos

com olhos voltados pro prato que uma hora tem fim: quando acaba

dá saudade.

quem lava a louça é cada um a sua.

seu banho é de noite no rio.

suas roupas são as mesmas há anos. sua vó costurou 6 camisas e te deu. você não pensa que precisa de

7, você lava as camisas e é no rio que você faz isso.

a sujeira da roupa

o rio leva pra deus ver. quando a pessoa morre

deus sabe pela roupa o coração que ela

tinha.

uma vez no amor

você gostou de alguém que não se acostumou com a vida no mato de jeito nenhum.

eu também não me acostumaria se for pensar no meu lado cidade, moro numa rua com 4 árvores,

tinham 8 antes, mas elas morreram pra virar estacionamento, padaria e rua mais larga pra passar caminhão.

antes de eu nascer o mundo era mato.

devastaram pra caber mais bebês porque bebês crescem e ocupam muito espaço depois que crescem.

eu tenho um

lado

que quer quebrar

com tudo o que me é antigo, você me dá

a mão diariamente quando te conto disso.

antes de você voltar pra casa de avião

já que as nossas cidades

são de distâncias graves, eu

te dei tchau do carro, mandei um beijo com os dedos pela janela que você quase não viu, mas

deu tempo de ver e um sorriso largo

da sua boca me alcançou descendo a rua que eu não sei o nome

porque passei por lá só daquela vez, pra te

deixar. na cidade que eu moro isso se chama carona. na sua chamaria

canoa.

depois que você foi embora

São Paulo fechou algumas flores que viraram fábrica e a culpa

não é sua.

se você estivesse aqui, as flores teriam fechado

exatamente do mesmo

jeito, acontece que na sua Ausência

eu percebo mais.

 

pau de sebo

aguardo uma ligação importante.

enquanto isso

apenas vivo o aguardo e nada das outras coisas que estão acontecendo ao meu redor dentro

da minha rua quantas

famílias tristes, 1 delas soube

da mãe com câncer que pode morrer, qualquer um

pode morrer, a outra

família está grávida do terceiro filho e não foi planejado, o dinheiro nesse caso

é um problema, eu

estou esperando

uma ligação importante, meu vizinho

não está, foi pro sul

da califórnia tão pouco dou

a sua falta, apenas sei que ele

não está enquanto outras pessoas estão e isso pra mim é suave como um rio sem chuva.

Ninguém

me faz falta além do som do telefone que tanto quero que toque, mas não um toque

qualquer, eu quero

O toque que carrega a ligação mais importante esperada por mim sem sono, a mão que me disca

é Santa, vai me dar a notícia que tanto

eu preciso

ouvir.

almoço em alerta: e se eu

ouvir.

e depois

de ouvir.

terei alguns segundos de gozo que dependendo da força podem se transformar em minuto. minutos,

no cume. Depois

vai me restar apenas um silêncio de sala vazia, é uma sala

bonita, sem dúvida, mas ela

está vazia.

me mantenho viva se for pra pensar no próximo

degrau, o cômodo depois da escada,

a casa na rua de cima que da minha só enxergo o telhado, às vezes nem o telhado, eu

acabo Imaginando um telhado pra casa da cor que invento numa rua sozinha de mim.

se for pra caminhar pela direita,

a rua que moro acaba num muro. a minha rua

não é como a maioria das ruas tão livres. as cidades são engraçadas com os seus muitos caminhos possíveis.

Esteja onde estiver você pode chegar em qualquer lugar se pegar ruas certas sendo que ruas erradas não existem, no máximo

Ruas distantes, mas

se Chega,

hora ou outra, eu aprendo

alguma coisa com isso e também

com a minha rua terminada em

Muro.

no fundo

espero que ninguém me ligue.

espero esperar a vida inteira, esperar é um soro na veia do choro de quem não costuma ter esperança mas,

quando tem,

bate aquele ímpeto de se agarrar e até que enfim alguma coisa pra fazer que parece importante.

download

quase

o amor corrosivo eu não quero mais como foi o caso do felipe, pensei
vou morrer se ele não me encontrar às 11,
não nos encontramos porque
o felipe
me deu um cano,
preferiu tomar cerveja sem mim e ninguém morreu. tumblr_mszccmLvmV1sytjvgo1_500
apenas fiquei vestida
Três Dias
com a roupa do encontro, a maquiagem derretida,
Esperando.
quando eu via o corpo
dele passando
na rua vizinha de nossas casas
a sensação era de que eu precisava de uma
ambulância,
o acúmulo de Querer no peito deixava difícil as tarefas do dia, eu ia
no mercado e esquecia das compras, eu tinha
1 agenda, anotava todos os meus compromissos: não aparecia em nenhum. eu não dormia, eu mal
comia senão as unhas, senão as horas
pra ver
felipe. um amor besuntado assim é deus
me Livre,
dizem
da morte como coisa inexplicável, Pode ser, mas
o amor
é bastante pior no quesito não estou entendendo Nada, um mar
que suga
não há
forças
pra lutar contra
quando você está dentro e ele Bravo.
no amor tóxico
nada é suficiente, nem mesmo a pessoa-amada, quantos livros escritos e filmes feitos
a noiva entrando o noivo esperando, a família
olhando o padre cansado, estão todos bêbados e
pirados achando que amor
é açúcar, eu disse
pro meu amigo carlos,
enquanto tomávamos um pingado um pouco antes dele partir.
agora eu não deixo mais chegar nesse Ponto. sei que é possível esquecer um amor, já aconteceu comigo, mas
até lá
fui atropelada
lentamente
por 50
caminhões.
prefiro um telefonema às vezes só pra constar que nos falamos, fazer
sexo
1 vez por semana, esquecer da pessoa quando se está na mesa de trabalho, viver outras coisas como praticar esporte e pensar
só no esporte ou viajar
de mala
vazia. o amor tem que morar na cabeça pra ficar tudo bem.
ele concordou comigo e a gente
se olhou pensando que

se demorássemos o olho
mais um pouco
1 no outro,

(puta que pariu ia acontecer de novo)

 

vento

nos cruzamos ao acaso num café, eu vi
o leo
primeiro, ele sentado levantou sem pressa pro abraço
que demos, antes
limpou a boca com guardanapo, a camisa dele
era branca, sorrimos nos perguntando como estávamos, eu disse:
-bem.
ele disse:
-tudo bem.
passaram-se 2 semanas e o leo
morreu
sem que os médicos
pudessem
explicar.
o café do nosso abraço Existe até
hoje, passei
ontem
por lá pensando
que 1 homem morto que eu amo
sentou ali.
tentei lembrar onde exatamente por capricho,
Lembrei porque não faz
tanto tempo, a mesa agora
tinha 1 lírio
e a Cadeira que sustentou o leo enquanto
ele tomava café e
papo
sem saber
da morte
no Ombro
não ficou mais fúnebre, pelo contrário,
a cadeira
ficou baú.

domingo

isto que estou sentindo só é fome como memória

da fome que eu já

senti,

a barriga ronca eu

reclamo, me disseram:

-é fome.

então comecei a usar a palavra

Fome

como explicação do que eu sentia e era um rombo.

se ninguém tivesse me dito:

-é fome.

podia ser um vazio

provocado pela falta de

deus na minha barriga, podia ser uma minhoca

estomacal virando cobra ou

uma saudade muito grande que não passa porque a pessoa amada já morreu e reviver na lembrança é tão

Leve

que parece

1 coisa que nunca existiu.

eu estava com fome na missa, começo de

missa. A hora da hóstia me pareceu a única saída, aquela massa fina sabor pão abençoado, os minutos

passando, o padre

falando do deus que eu não entendo, da virgem maria e do josé não-virgem ele falava baixo e usava microfone,

a batina arrastava pela escada

eu estava na missa obrigada, minha família é muito religiosa e não aceita

nãos

como resposta. a fome no meu estômago era mais forte

do que qualquer canto

do corotumblr_nt5y30uv6T1uz2ewgo1_500

das velhas

sofridas, ou seja,

a força nasce da barriga.

quando chegou a hora da comunhão, eu entrei na fila rapidamente.

quem me serviu foi 1 mulher de rosto duro. seus lábios eram murchos, não sustentavam nem 

o batom. Ela tinha um terço pendurado no pescoço que terminava no fim do peito, mas não dava pra ver direito porque os botões da sua blusa

estavam muito

bem fechados.

Abri a boca.

A mulher colocou a hóstia

dentro

de mim.

Fechei a boca e não deu 1 segundo pra hóstia grudar

no meu céu.

lambi pra me

alimentar.

Engoli

pra acalmar a fome ou o vazio ou

a Saudade, mas aquele toco de pão era tão

pouco,

saímos da missa direto prum restaurante e a insistência foi

basicamente

minha.